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quarta-feira, 21 de abril de 2010

Canção de Amor e Saúde + Ruínas + Pare, Escute, Olhe

Dois documentários e uma curta-metragem actualmente em exibição nas salas portuguesas e tudo devidamente apreciado num único post. É necessário poupar espaço virtual.

Começando pela curta de 30 minutos que aparece como complemento a Ruínas, João Nicolau apresenta “Canção de Amor e Saúde” uma onírica história de amor em que a câmara é manejada com inegável talento. No entanto o resultado final é algo insípido e inconsequente. Rodada no Porto entre o centro comercial Brasília e o Parque da Serralves mostra contudo algumas ideias interessantes das quais sobressai o fascínio do protagonista por uma máquina (foto abaixo) onde constantemente faz o teste do amor….

Manuel Mozos - um dos mais personalizados realizadores portugueses - continua a sua resistente caminhada pelo cinema Luso agora com Ruínas. Uma interessante descida aos confins perdidos de um Portugal esquecido, através da visita a alguns edifícios que foram um dia emblemáticos e que actualmente se encontram à beira da ruína e em acelerada decadência.
Com uma fotografia e sonoplastia assinaláveis o filme revela-nos por exemplo, entre outras realidades, o que resta de alguns dos teatros do Parque Mayer, do restaurante panorâmico de Monsanto, do Sanatório da Covilhã ou da Estação Ferroviária de Barca d'Alva.
Em suma, um belo poema sobre as cicatrizes progressivas deixadas pelo passar do tempo, escrito pela mão de um eterno combatente como é Manuel Mozos…..



Através de um documentário inquestionavelmente bem produzido e a que ninguém fica indiferente intitulado “Pare, Escute, Olhe”, Jorge Pelicano dedica à Região do Tua, muito justamente, um postal lindíssimo. E convém realçar que falamos de umas das mais belas Regiões de Portugal, o que só por si vale o preço do bilhete.
No entanto “Pare, Escute, Olhe” tem quanto a mim algumas evidentes fragilidades. A meio caminho da reportagem televisiva, o documentário é assolado de alguma demagogia a cair para o politicamente correcto. Por exemplo, a comparação com o turismo levado a cabo na Suíça é de uma imbecilidade gratuita e sem qualquer sentido. Trata-se de tentar comparar o incomparável. O facto de se valorizar os argumentos da associação ambientalista sem escalpelizar de forma mais sustentada as vantagens e desvantagens da construção da barragem também me parece um pouco precipitado e forçado. Falta ainda notoriamente dar voz à CP. Aos Caminhos de Ferro Portugueses são efectuadas acusações directas e indirectas e que justificavam e careciam de defesa. Ou seja, numa perspectiva fria e distante Pare, Escute, Olhe não é dos documentos intelectualmente mais honestos. Obviamente que estas lacunas não põem em causa a importância de pôr a nu as desigualdades que continuam a existir no Portugal do século XXI bem como ostracismo a que as populações da zona são abandonadas. E aí admito, o documentário cumpre o seu papel com eficácia e visível notoriedade…

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Diario di uno spettatore

Na sequência de post anterior fica também a magnífica curta em versão não legendada que Nanni Moretti levou para Cada um o seu cinema, filme de homenagem aos 60 anos do festival de Cannes:

NANNI CI MANCHI *______*

Para visionar, é necessário entrar na imagem....

sábado, 3 de abril de 2010

Estado de Guerra

Pondo de parte as desnecessárias demagogias cinematográficas estamos perante um extraordinário filme de guerra. Sem dúvida um dos melhores dos últimos anos. Fazendo jus ao género apresenta todos os ingredientes fundamentais de forma simples e com uma notável coerência. A valentia, o medo, a camaradagem e a alucinação são alguns dos conceitos explorados, sempre em doses equilibradas, pela realizadora norte-americana.
Kathryn Bigelow demonstra com este filme que fez muitíssimo bem em separar-se do hollywoodesco James Cameron - um megalómano inveterado que vive de sistemáticas concessões à indústria - que só podia ser mesmo péssima companhia para ela.
The Hurt Locker - Estado de Guerra na versão portuguesa - não é um filme de actores mas uma violenta e realista descida aos confins mais íntimos da condição humana. Sem procurar subterfúgios no politicamente correcto, demonstra-nos com precisão a angústia os diferentes estados de espírito por quem passam os soldados no limiar da barreira invisível que os separa da morte….

quinta-feira, 25 de março de 2010

2 Dias em Paris


Surpreendente este 2 Dias em Paris, filme de 2007 realizado pela multifacetada Julie Delpy o qual somente visionei agora.
Já conhecíamos os seus méritos como actriz - bastante personalizada e talentosa - mas esta sua estreia na realização supera de longe as melhores expectativas.

Com a excelente presença de Adam Goldberg, 2 dias em Paris retrata as dificuldades por que passa o relacionamento entre um jovem casal. Com diálogos pujantes e intensos o filme tem um sentido bem mais incisivo do que uma mera comédia romântica podia sugerir; género que é contudo impossível de dissociar da concepção estrutural do enredo de Delpy.

O único senão na minha perspectiva é o epílogo que podia ser mais conseguido caso arriscasse fugir ao apelo supérfluo do happy end. De qualquer das formas estamos perante uma poderosíssima primeira obra merecedora dos mais vibrantes elogios…..

quinta-feira, 11 de março de 2010

Shutter Island

O último de Martin Scorcese é mais um contributo inestimável para a sua colectânea de grandes filmes. Com uma deslumbrante fotografia, Shutter Island, a ilha dos dementes, é um exercício destemido de um realizador que continua visivelmente apaixonado pelo Cinema.
Baseado no livro "Paciente 67" de Dennis Lehane é uma perturbante descida aos lugares mais recônditos da natureza humana onde habitam os fantasmas que nos assombram constantemente e que estão sempre presentes em tudo o que fazemos. É ainda um mergulho arrojado no universo dos grandes thrillers conspirativos onde a alucinação é uma constante.
Com a participação de Leonardo DiCaprio no papel do agente Teddy Daniels e um impecável Mark Ruffalo - actor cada vez mais do meu agrado - fazendo do seu colega Chuck Aule, o filme conta ainda com a participação de Ben Kingsley como director da insólita prisão de Shutter Island.
Existem algumas pontas menos afiadas no filme de Scorcese. Além das passagens oníricas do protagonista serem algo repetidos não acrescentando nada de substancial - algumas são mesmo desnecessárias - fico um pouco com a sensação que DiCaprio não tem argumentos suficientes para a complexidade do papel desempenhado. Contudo, Shutter Island é uma viagem imperdível à Ilha da loucura e uma excelente catarse para espíritos mais sombrios…

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Um Homem Sério

Um homem sério, o mais recente filme dos consagrados irmãos Coen - Joel e Ethan – actualmente em cena e candidato aos óscares é na minha modesta óptica algo insípido mas mantém algumas características essenciais ao cinema dos Coen. Deixa-me, contudo, a pensar que cada vez está mais distante a forma evidenciada pelo magnífico Fargo datado de 1996, sem qualquer dúvida a obra-prima máxima da dupla americana.

Centrado na temática do judaísmo, Um Homem Sério é protagonizado por Michael Stuhlbarg no papel de Larry Gopnik, um homem aparentemente normal com uma carreira sólida de professor universitário que de repente se vê envolvido num espiral de acontecimentos anómalos. Aliás, onde o talento dos Coen continua a ser mais visível é precisamente na espessura realista com que revestem os protagonistas dos seus filmes proporcionando-lhes uma densidade narrativa assinalável, e nessa linha de pensamento este titubeante Larry Gopnik não foge à regra.
Numa outra perspectiva, a cena em que o jovem adolescente Danny é levado no dia do seu Bat Mitzvah (um ritual de emancipação no mundo judaico) ao Rabbi Marshak's para ouvir os conselhos do velho decano é de uma crueza sarcástica fabulosa. Sintetizaria na perfeição todo o cinema dos irmãos Coen. Pena é que o resto do filme não seja assim tão conseguido….

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Do Outro Lado

Fatih Akin, cineasta alemão de ascendência turca, dirigiu em 2007 “Do Outro Lado”. É o primeiro filme que visiono deste jovem cineasta de 36 anos o qual me surpreendeu pela positiva.

Nejat (Baki Davrak) reprova de início a mulher que o seu pai viúvo escolhe para viver - uma prostituta imigrante turca na cidade alemã de Bremen - mas depressa descobre que Yeter (Nursel Koese) tem uma filha na Turquia a quem envia dinheiro com frequência, o que o leva a simpatizar com aquela invulgar mulher. Depois do falecimento de Yeter, através de um homicídio involuntário provocado pelo seu Pai, Nejat vai à procura da tal filha para a Turquia na expectativa de a ajudar. A rapariga é contudo uma activista política com uma vida bastante atribulada. Estão assim lançados os dados para o desenrolar de uma narrativa intensa e envolvente.

Em “Do Outro Lado” o realizador vai dissecando as fragilidades próprias da vida dos imigrantes sem esconder as idiossincrasias culturais da Turquia muçulmana. Em determinada altura, as consequências da adesão do país à União Europeia são inclusivamente debatidas com pertinência numa discussão envolvendo duas das personagens, sobre os efeitos sociais desigualitários da globalização.
Os desde há muito elevados índices de imigração Turca na Alemanha que acentuam os laços existentes entre estes dois Países faz com este “Do Outro Lado” seja um pertinente e interessante exercício de análise sociológica a esta Europa multicultural em que vivemos. Cada vez mais são essenciais políticas de integração com base em princípios de tolerância, o que nem sempre acontece infelizmente.…


terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O Laço Branco

A Palma de Ouro do festival de Cannes em 2009 premiou o filme de Michael Haneke, o Laço Branco.
Depois dos elogiados Funny Games de 1997 e a Pianista de 2001 com uma inolvidável Isabelle Huppert como protagonista, Cannes consagrou finalmente o cineasta austríaco que já tinha sido galardoado como realizador de “nada a esconder” de 2005, então com Juliette Binoche.
Foi no entanto o magnífico “Código desconhecido”, datado de 2000, o filme de Haneke que mais apreciei. Aí, chegou mesmo a roçar os limites da obra-prima absoluta. Talvez por isso, vejo mais esta Palma de Ouro como um justo prémio pela carreira profícua do Realizador nos últimos anos do que pelas virtudes deste filme agora coroado.

O Laço Branco filmado a preto e branco conta com uma fotografia rigorosíssima. Apesar da intensa mise-en-scène de Haneke e de algumas boas interpretações deixa-nos com a frustrante sensação de não chegar a descolar para voos mais condizentes com a verdadeira capacidade do Realizador. No entanto, mantém o traço essencial e a visão inconfundível que são a marca do Cineasta. Nessa perspectiva o genérico final - sem qualquer música de fundo - é já uma imagem distintiva de Haneke. Deixa o espectador entregue a si próprio, às suas fragilidades, às suas incertezas relativamente ao desenlace da narrativa. No cinema de Haneke não sobra espaço para artifícios. Abandona-nos, sem vestígios de uma qualquer rede, deixando-nos entregues às nossas próprias vulnerabilidades…

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Tetro

Filme de Francis Ford Coppola com a presença de Vincent Gallo.
O consagrado Realizador de Apocalypse Now aproveita a unanimidade à volta da sua obra para efectuar mais uma incursão pelos contornos do cinema independente, o que representará certamente para si um maior estimulo intelectual. E Tetro demonstra de início potencialidades que depois não cumpre. Um atraente argumento não chega para fazer um inolvidável filme.
A narrativa parte de um encontro de irmãos entre Tetro e o jovem Bennie de apenas 17 anos, que não vê o irmão mais velho há dez. Tudo isto tendo como pano de fundo uma fascinante Buenos Aires e o mítico bairro de Boca. A chegada de Bennie ao convívio com o pretenso irmão vai contribuir inevitavelmente para o desmembramento familiar. Os fantasmas vão assomar à superfície sem apelo nem agravo.
Vicent Gallo vem provar aquilo que já era para mim uma evidência. Vale muito mais como Realizador (Buffalo ‘66 e Brown Bunny) do que como actor. Isto, não obstante ser sempre o protagonista dos filmes que realiza, dando asas ao seu reconhecido egocentrismo. Não conheço por aí além a sua faceta de músico mas como actor no papel de Tetro volta novamente a ser uma grande desilusão…

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

One Fine Day



A admirável curta com que Takeshi Kitano participou em Cada um o seu cinema apresentado em Cannes, do qual já falei aqui.

A síntese perfeita de toda a sua genialidade em aproximadamente 3 minutos com imagens de um outro filme de Kitano - Kids Return - e um assombroso plano final....

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Revolutionary Road

Obra de Sam Mendes que visionei agora em DVD adaptada de uma novela de Richard Yates trouxe novamente para a ribalta o realizador do surpreendente Beleza Americana. É também o filme que marca o reencontro de Leonardo DiCaprio e Kate Winslet uma década depois do mediaticamente torturante "Titanic".
Na sequência do olhar dilacerante que Sam Mendes lançou sobre a família americana em American Beauty este Revolutionay Road continua a atirar cirúrgicas farpas sobre o american life style. E o melhor exemplo dessa decadência familiar que submerge no universo de Mendes é precisamente a última cena do filme em que um aborrecido Marido desliga o aparelho auditivo para assim deixar de ouvir a sua Esposa deixando a pobre mulher, literalmente, a falar sozinha.
Revolutionary Road não é nem de perto nem de longe uma obra-prima mas é importante não perder de vista o valioso Realismo de Sam Mendes….

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Abraços Desfeitos

“Los Abrazos Rotos”, o último filme de Pedro Almodóvar o qual apenas visionei agora é mais uma absorvente película do cineasta espanhol que conta mais uma vez com a apelativa Penélope Cruz como protagonista, bem como com outros habituais actores do universo almodoviano.
Não vem contudo acrescentar nada de essencial à cinematografia de Almodôvar, o que não significa que não tenha virtudes. Permanece cativante a cumplicidade com que o Realizador dirige os seus actores, o que faz com que a narrativa mantenha sempre um registo intimista.
Almodóvar é um sedutor inveterado e por isso o seu cinema - apesar de mais do mesmo - continua a fascinar…

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Che

Dividido em duas partes o filme de Steven Soderbergh com Benicio Del Toro no papel de Guevara foi prenda de natal antecipada que ofereci a mim próprio. Acabei por não visionar nenhum dos dois filmes em sala pensando já na altura adquirir a caixa com ambos os DVD’s.
Relativamente à componente biográfica o que a obra representa é de interesse garantido.Toda a mitologia que rodeia a figura do Comandante Ernesto Guevara de la Serna, conhecido universalmente como Che Guevara, será sempre uma aposta segura qualquer que seja o realizador que se proponha fazê-lo. Ainda assim, Soderbergh dirige com segurança e eficácia as mais de 4 horas de duração da fita – duas horas e tal por filme.
Benicio Del Toro tem um papel assinalável. Sobressai no seu desempenho uma evidente procura de perfeição na representação do ícone da Revolução Cubana. Um grande trabalho para um carismático actor.

O melhor elogio que se pode fazer à complementaridade da obra é que não se consegue afirmar com clareza que um dos filmes é melhor que o outro. Nunca, em nenhuma sequência, os filmes perdem o ritmo. Aliás, essa característica é uma das particularidades do cinema de Soderbergh.
A primeira parte intitulada “O Argentino” narra a ascensão vitoriosa dos princípios revolucionários em Cuba e a ligação de Guevara a Fidel Castro. A segunda denominada “O Guerrilheiro” descreve curiosamente o processo inverso, ou seja a captura e morte de Che no meio da derrocada Boliviana onde os valores da Revolução são menosprezados e ostensivamente derrotados.

Che foi um caçador de injustiças. Certamente que também as terá cometido, designadamente através dos condenáveis fuzilamentos que praticou em Cuba contra adversários políticos.
Independentemente desse aspecto mais negro da sua história foi - na minha perspectiva e acima de tudo - um exemplo de coragem para as gerações vindouras e por isso é idolatrado à escala universal.
Identificou - com base na sua visão da sociedade - a luta armada como a única saída para a fúria que o perseguia em proporcionar melhores condições de vida para os mais necessitados.

Che, o guerrilheiro dos ideais, ícone eterno de um inconformismo rebelde, tinha sido ironicamente declarado inapto para o serviço militar pelo exército argentino….

sábado, 21 de novembro de 2009

Mi Hermano Fidel

 
Como já tinha escrito aqui, um extraordinário filme/documentário (curta metragem com 16 minutos) de 1977 realizado por Santiago Alvarez. O argumento é do próprio e de Rebeca Chávez. Finalmente encontro-o disponível na Net e aqui fica em versão integral para devida apreciação. Esta curta cubana retrata o diálogo de Salustiano Leyva com Fidel Castro a quem Leyvia vai narrando o seu encontro com o grande revolucionário cubano, José Martí ocorrido, imagine-se, em 1895. Salustiano com 92 anos em 1977, tinha apenas 11 anos quando conheceu Martí. O diálogo que flui naturalmente com Fidel é absolutamente fascinante e demonstra-nos com alguma comoção pelo meio o que é a genuína humildade....

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Andando

Depois de Ninguém sabe este é o segundo filme que vejo de Hirokazu Kore-eda. Seguramente que depois de Takeshi Kitano estamos perante um dos melhores Realizadores contemporâneos provenientes do Japão no entanto “Andando” sem desiludir não atinge a exuberância cinéfila do antecessor “ nobody knows”.
Uma típica família Japonesa junta-se no décimo quinto aniversário da morte prematura do filho mais velho e é esse o palco para o desenrolar da narrativa.
A exuberante mise en scène do cineasta Japonês - complementada com uma fantástica banda sonora - está novamente presente em toda a sua magnitude, quer através dos belos planos (inicial e final) do comboio a passar no meio da povoação, quer através da autenticidade das diversas personagens desenhada no limbo dos habituais conflitos pessoais. O realizador escalpeliza como poucos a complexa teia de afectos subjacente à identidade da família.
Fica o trailer, devidamente legendado, para quem quiser dar uma olhadela:


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Com que Voz

Estreou no DocLisboa o documentário 'Com Que Voz', sobre a vida de Alain Oulman que entre outras proeminentes coisas foi compositor de Amália Rodrigues. O Documentário tem a particularidade de ser realizado pelo próprio filho de 42 anos, Nicholas Oulman.

Depois de um começo que deixa antever uma relativa decepção o filme ganha dimensão com o avançar da fita. A aparição de Amália e alguns testemunhos interessantes - entre os quais o de Mário Soares do qual Alain Oulman foi editor em França - ajudam a dimensionar melhor o percurso do biografado que possuía acima de tudo um talento hiper-versátil e uma apurada sensibilidade artística. O Documentário acaba em grande estilo com uma amostra real da forma e do método de trabalho de Oulman com a grande Diva do Fado. Esta deslumbrante peça final, bem como algumas imagens de uma sardinhada que aparecem no documentário, foram filmadas pelo reconhecido cineasta Português, José Fonseca e Costa.

Nada melhor que a melodia composta por Oulman para as palavras de Luís de Camões cujo poema dá inclusive nome ao documentário interpretado pela omnipresente Amália para se ficar com uma visão mais exacta do invulgar brilhantismo do Compositor.



Uma palavra para a excelência que o DocLisboa tem atingido ao longo do tempo, o que além de provar que existe público mais que suficiente para um cinema menos comercial, demonstra ano após ano que o País está paulatinamente a mudar para bem dos nossos miseráveis egos…
Nota: Este post foi editado a 31 de Outubro depois de lido o esclarecimento de Fonseca e Costa, aqui. O seu a seu dono.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Arena + Taking Woodstock

A curta-metragem Arena, primeiro filme do realizador português João Salaviza, que recebeu a Palma de Ouro da categoria no Festival de Cannes aparece como complemento a Taking Woodstock e deixa muita expectativa relativamente ao percurso futuro do jovem cineasta. E não é pelo prémio que apesar de prestigiante, não significa por si grande coisa. Arena é uma bela metáfora à brava vida das sociedades actuais. A narrativa, ou melhor os gladiadores, encontram-se no Bairro da Flamenga em Chelas mas podiam estar em luta selvática pela sobrevivência noutro lugar qualquer….

 
Baseado numa história real, Taking Woodstock realizado pelo consagrado - e agora muito americanizado Ang Lee - é um mergulho na cultura hippie dos anos 60 e uma atraente perspectiva de um dos seus marcos mais inolvidáveis: o festival de Woodstock que juntou mais de 500 000 pessoas em 3 dias de Paz e Música .
Estávamos em 1969, os Estados Unidos enterravam-se no Vietname e o Homem tinha acabado de chegar à lua. Quando o hotel dos pais de Elliot, o personagem principal no filme de Lee, é ameaçado de despejo, este oferece o terreno para promover o festival rock e assim arrecadar algum dinheiro para pagamento da hipoteca do hotel. Não imaginava ele as enormes proporções que tal gesto provocaria na história da cultura musical.
Sem ser um dos melhores filmes de Ang Lee, e sem acrescentar algo de extraordinário à sua obra, fica como mais uma interessante abordagem ao fenómeno ocorrido no mítico festival de Woodstock, onde durante 3 dias tudo pareceu possível. Infelizmente foi sol de pouca dura pois o capitalismo mais desenfreado espreitava, desvairado, ao dobrar da esquina….

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Sacanas sem Lei

The Inglorious Bastards, a última jóia de Quentin Tarantino já anda por aí a arrasar nas salas. Impressiona a forma como a genialidade do realizador se tornou apetecível para as massas fazendo com que inclusivamente se fale em records de bilheteira. Isto, sem recorrer a contraproducentes cedências à Indústria, o que somente vem valorizar a façanha.

Desde os proeminentes “Cães Danados” e "Pulp Fiction” que um filme de Tarantino não me entusiasmava tanto, confesso. É caso para dizer que os nazis tiveram finalmente o que mereciam.
O Tenente Aldo Raine mostra um arrojado Brad Pitt mas a melhor interpretação pertence inteiramente a Christoph Waltz no papel do Coronel Hans Landa, o caçador de Judeus, que muito propositadamente acaba o filme com a suástica cravada na testa.
Com uma fotografia absolutamente deslumbrante, the Inglorious Bastards vai intercalando os subtis diálogos - vulgares Tarantinadas - com acção a valer, sem nunca perder o fulgor. O primeiro capítulo passado no interior de uma rural quinta francesa é de um rigor artístico lapidar.

De Cinéfilo bulímico a Poeta das imagens, o Cineasta consegue através de algumas sequências transcendentais elevar a sala de cinema à categoria de santuário, tal é a entrega do espectador ao desenrolar dos seus argumentos.
No remate do filme, Quentin ironiza com o seu próprio talento, sugerindo a autoria de uma Obra-Prima. Para quem começou como empregado de um videoclube, não está nada mal…..

sábado, 15 de agosto de 2009

Os Limites do Controlo

Cinema de Autor é conceito usado muitas vezes a despropósito. Jim Jarmusch é com conhecimento de causa o homem certo para abordar o tema.
Ícone do cinema independente americano tornou-se com a sua brilhante filmografia objecto de culto por toda a Europa sendo igualmente muito apreciado por este pobre escriba.
Curiosamente os seus filmes estão repletos de grandes nomes nos respectivos elencos mas no entanto é sempre a sua concepção de cinema que prevalece. Os actores são de facto ilustríssimos mas se fossem outros de menor nomeada, o impacto dos filmes não sairia prejudicado com isso.
O condão de Jarmusch proporciona-lhe a particularidade de transformar em arte sacra tudo o que cria e isso é algo que não tem preço. Na actualidade, não existem muitos realizadores, Europeus ou Asiáticos, com o toque de midas do americano.

“Limites do Controlo” decorre no eixo Andaluzia-Madrid com guitarras, visitas ao Museu Rainha Sofia e muito flamengo pelo meio. Narra a história de um estratagema levado a cabo por um profissional do crime com o intuito de concretizar um homicídio. Fala disso, mas se falasse de tourada ou fado o resultado não era diferente, pois é a essência redentora do universo Jarmuschiano que sustenta, catalisa e engrandece tudo o resto.
No epílogo do filme o protagonista afirma que a vingança é inútil, contudo concretiza a vendetta assassinando a sua vítima sem recorrer a explicações supérfluas para o contraditório. Afinal, não há limites para a cólera. Como aparece por diversas vezes escrito no meio do filme “La vida no vale nada”……

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Frost / Nixon

Filme, documento histórico, dirigido com alguma eficácia pelo mainstream Ron Howard e que tinha debaixo de olho há algum tempo.
Apesar de tudo, a política é tema que sempre prendeu a minha atenção. Gosto de assistir a um bom debate, acutilante, com discussões e trocas incisivas de argumentos, o que nos tempos que correm face aos políticos de plástico que temos é difícil descortinar, infelizmente.
O último debate que me lembro de ter acompanhado com entusiasmo foi um entre Pacheco Pereira e Maria Carrilho há já alguns anos atrás. Nem me lembro bem a propósito de quê…..

Em 1977, três anos depois de renunciar à presidência dos Estados Unidos por causa de Watergate, Richard Nixon concordou finalmente em quebrar o silêncio e conceder uma entrevista antecedida, contudo, de apuradas negociações.
David Frost, apresentador de programas de entretenimento foi o jornalista que se propôs fazê-lo. O resultado das quatro longas sessões de perguntas e respostas - comparável a um autêntico combate de boxe - foi um êxito televisivo que catapultou Frost, ainda mais, para a fama.

Nixon, o homem que sempre foi perseguido pela cativante aparência de Kennedy, foi uma das personalidades mais interessantes e polémicas do século XX.
A sua visão fechada, belicista e inquisitória da governação trouxe provavelmente graves prejuízos à humanidade, no entanto a sua notável expressividade e aquela sua faceta de patinho feio, sempre me provocaram uma espécie de fascínio histórico por este ex-presidente americano.
Deixo um excerto, por sinal dos mais quentes, da genuína entrevista de Frost a Nixon: