O próximo Messias de
Alvalade está escolhido e tem nome: Vercauteren. Acontece que, para mal da minha
sanidade mental, o Sporting não necessita de mais um putativo salvador mas
sim de um tratamento de choque que mude radicalmente o Clube sem o revolucionar
a 100 %. Isto porque nem tudo está mal no Clube. Mas no essencial está quase
tudo mal, é bom que se perceba. Sem a aplicação desse tratamento de choque só
restará a hipótese de começar quase do zero. Não creio que haja mais
alternativas face ao que é a conjuntura económica atual. E o plano previsto e
anunciado de crescimento significativo do número de sócios, num clube que não
ganha literalmente a ninguém, só pode dar para rir e chorar ao mesmo tempo.
Curiosamente, tal
como no país, não sou a favor de um cenário imediato de eleições antecipadas no
Sporting, mesmo correndo sérios riscos de ver concretizar a pior época
desportiva de que tenho memória, e ainda estamos em outubro.
Os próprios pseudo-candidatos
(notáveis, é essa a palavra na suicida terminologia utilizada desde sempre em
alvalade) que se assumiram como alternativas nas últimas eleições e que vão vagueando
por aí, como é hábito no Sporting, não têm mostrado grande entusiamo com essa
ideia. Godinho teve o mérito de arriscar. Ao contrário do seu antecessor (bem me enganou, esse) que andou lá a gerir tesouraria. Godinho ao menos tem ambição de
ir longe mas a verdade é que, ao contrário de há ano e meio atrás, o Sporting já
não é um clube tão apetecível, mesmo para quem busque somente protagonismo. O
Clube está mais endividado, com menos estrada para andar, e mais perto do precipício.
Mas o maior problema do Sporting é quanto a mim outro: é que quem eventualmente
teria condições e perfil para poder mudar as coisas (alguém com ideias
próprias, fora dos círculos elitistas de alvalade, e que não tenha receios de
chamar as coisas pelos nomes) terá sempre o problema de não ter notoriedade
junto dos sócios, e quem tem a tal notoriedade elegível só a sabe utilizar para
denegrir o Clube, nunca beneficiar. E este dilema não é resolúvel porque o
Sporting vive numa permanente feira de vaidades. Esta é a questão central para
um clube que vive completamente na corda bamba porque dinheiro para investir no
Sporting mantendo o clube níveis mínimos de controlo, não vai surgir de lado
nenhum neste momento, a não ser que surja um novo Jorge Gonçalves com os
resultados que se conhecem.
Mas quais foram os
erros, e os inúmeros tiros no pé de Godinho Lopes, que fizeram com que atualmente
viva à deriva num estado permanente de fuga para a frente, com alguns laivos de autismo,
sem se deslumbrar um mero vestígio de algo semelhante a um rumo (é esta a
verdade que grassa aos olhos do adepto comum neste momento):
1) Despedir Domingos
uma semana depois de o técnico assegurar presença na final da taça de Portugal contra
a académica (que quem o sucedeu acabou por perder) aparentemente por falhas na
comunicação e por não se dar bem com o Paulinho. Foram estes os motivos
tornados públicos para a demissão. Bem, relativamente às falhas de comunicação
até parece que a comunicação do Sporting é exemplar. Desde recados para os
jornais vindos de dentro completamente inoportunos, despropositados e
destabilizadores, passando pela sistemática colocação de bons profissionais normalmente nos lugares errados, até à inexistência de uma mensagem uniforme a passar nos
media, culpar o Domingos de má comunicação é um bocado irónico. Os próximos
erros de casting na área da comunicação a serem cometidos terão como pano de
fundo a Sporting TV. No Sporting a incapacidade para se ser objetivo, arrojado
e criativo é gritante. É uma questão de ADN.
Quanto ao Paulinho
estamos perante sem sombras de dúvidas um símbolo inquestionável do Sporting. São
o Leão e o Paulinho os verdadeiros símbolos do Clube. É indiscutível e
intocável na estrutura mas se havia algum problema com o treinador, o que o
Sporting tinha de fazer era arranjar um outro enquadramento para o mítico Roupeiro,
nem que se tivesse de contratar um psicólogo para o acompanhar 24 horas por
dia. O Paulinho merece esse sacrifício. Agora despedir um treinador por não se
dar com o roupeiro é coisa que não lembra a ninguém.
2) Contratar e, mais
grave, renovar com Sá Pinto. No primeiro dia de Sá Pinto os adeptos mais
lúcidos logo anteviram o triste fim que lhe cairia em sorte. Por essas redes
sociais fora eu fui dos poucos a remar contra a maré, face ao grande entusiamo
que foi criado por esse golpe de marketing (não passou disso) da direção. Sá
Pinto tinha um bom discurso para dentro e fora do Clube, mas entre essa
evidência e reconhecidas capacidades para treinar uma equipa de futebol profissional
com as exigências do Sporting ia (vai) um oceano de diferenças.
3) Godinho deixou-se
cair num discurso coerente, é verdade, mas completamente contraproducente e contra precedente ao
afirmar repetidamente que este não ia ser ainda o ano da aposta desportiva. Isto
quanto a mim é a grande causa de o Sporting estar em décimo lugar no
campeonato. Ao assumir este discurso perante uma equipa que foi reforçada e em
que a maioria dos jogadores vinham de uma época em que andaram perto das conquistas,
sem contudo terem concretizado vitórias, o presidente semeou um sentimento de
desresponsabilização crescente que está agora à vista de todos com os casos de
indisciplina e do completo apagamento futebolístico de alguns dos melhores
jogadores do plantel.
4) Deixar cair em simultâneo
Luís Duque e Carlos Freitas. Pelo menos um dos dois devia ter continuado.
Godinho ao deixar cair os últimos trunfos eleitorais ficou sem qualquer margem
de manobra junto da massa associativa.
5) Liderar uma equipa
diretiva onde não existe a mais pequena solidariedade institucional com o
presidente. Para que serve um conselho diretivo se os seus membros, por amizade,
passam informação particularmente sensível para um comentador televisivo dum
clube adversário poder anunciar em primeira mão na televisão? Vão gozar com a
cara da tia deles.
6) Contratar um
treinador com um perfil predominantemente formador para liderar uma equipa de
jogadores feitos com proveniências, hábitos e culturas diferentes (40 milhões de
euros depois) exigindo ainda para mais resultados imediatos.
Posto tudo isto e
para que fique claro, Vercauteren é a partir de hoje o meu Treinador e merece
como todos os outros que o precederam o benefício da dúvida. Se eu dei o
benefício da dúvida (por muito pouco tempo, é verdade) ao pior treinador de
sempre da história – Paulo Sérgio – não hei-de dar a um tipo que tinha um magnífico
pé esquerdo.
Como sócio, e porque
continuo a acreditar que o Sporting no futuro poderá levantar-se (ainda que tenha
consciência que estamos a desaproveitar definitivamente o potencial de
crescimento que o Clube tem, porque a juventude com toda a naturalidade foge
para os rivais) vou continuar a receber disciplinadamente e com toda a paciência os emails promocionais
do Clube, a ler as cartas do presidente, a pagar religiosamente as quotas, a visitar o site, a
ler as notícias relacionadas com as visitas ao museu, com as vitórias no ténis
de mesa e com o grande êxito que são as corridas Sporting...








