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terça-feira, 6 de julho de 2010

A Loucura

Jeremias já tinha passado por muitas e variadas tormentas. Conhecia os misteriosos caminhos que levam à decadência humana e apesar das cicatrizes acumuladas, até ver, tinha sobrevivido a todas as tempestades.
Racionalmente devia temer a doença, a miséria e todo um conjunto de perigos nefastos que espreitam a cada esquina, a cada movimento em falso, em cada armadilha oculta. No entanto a única coisa que lhe provocava pavor, a única coisa que o assustava realmente era a possibilidade do filho poder vir a ser do Benfica....

domingo, 4 de julho de 2010

O Momento

a poesia sai à rua
no instante decisivo,
universos repartidos
em eternos destinos cruzados,
entender o passado
e viver o presente
debaixo desta luz
que nos persegue.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

A Comoção

Jeremias fazia 200 kilómetros para que o seu Barbeiro lhe cortasse o cabelo. Se fosse necessário faria 500 porque há coisas que não se explicam.
Naquele dia ao despedir-se, depois de terminado o serviço, o camarada Barbeiro mandou um abraço ao filho ainda bebé de Jeremias e perguntou quando é que o veria por lá? Jeremias engoliu em seco, e como é seu hábito nessas circunstâncias abalou apressado desejando um bom fim-de-semana ao Barbeiro de toda uma vida….

sábado, 26 de junho de 2010

A Divina Poesia

Jeremias assistia incrédulo às traquinices daquele arlequim empertigado. No espaço de 5 minutos, aquele admirável pequeno ser conseguia gargalhar, chorar, enraivecer, bater, abraçar (e como era afectuoso aquele piolho atómico) e no fim voltar à euforia inicial. A sua energia não era originária certamente do mesmo núcleo galáctico de Jeremias.
Ao contrário do expectável, aquela pétala trepidante começou por gatinhar para trás. O mais difícil deve ser mais divertido terá pensado, no meio de mais uma das suas cagadelas estratosféricas. O que gostava mesmo era pôr-se de pé, de alto, a observar criteriosamente as idiotices alheias. Era um curioso desmesurado.
Todavia, o que mais impressionava Jeremias, era a capacidade lutadora que aquele pequeno ser demonstrava quando se sentia preso, ou de alguma forma, desprovido dos seus habituais movimentos. Batalhava literalmente até à exaustão como se aquela liberdade pontual, desprovida de qualquer sentido essencial, fosse a única coisa que o norteasse. Encarava cada luta como se fosse a mãe de todas as lutas. Para os olhos de um Jeremias desarmado (que até aí pensava, erradamente, já ter vivido umas merdas) aquela luta frenética representava a mais pura das visões e a mais sublime das Poesias….

terça-feira, 22 de junho de 2010

A Esquizofrenia

Jeremias - um misantropo moderado - assistia com curiosidade aos sintomas da esquizofrenia reinante que assaltava o Portugal contemporâneo.
Registava com minúcia as impurezas e as cabalas orquestradas. Farejava os trilhos esquivos da corrupção. Denunciava com clarividência os vícios da nobre e imortal nação na esperança de um dia ser goleado como os norte-coreanos. Jeremias, sempre sonhou ter um Grande Líder….

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Os Saltimbancos

Jeremias admirava, atónito, os acrobatas daquele magnífico circo. Transportavam com eles toda a leveza do mundo.
Jeremias sabia, contudo, que o seu estômago era demasiado sensível para todas aquelas cambalhotas….

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Os Epitáfios agora com graçola (pouca)

Jeremias, quando finasse, gostaria de ser cremado. Não obstante isso, havia algumas frases que assentariam na perfeição inscritas na sua putativa lápide, situada em lugar central no cemitério da santa terrinha:

- Obrigado por terem vindo. Tenho a certeza absoluta que um dia voltarão.

- A morte é mais ou menos como a vida, só que um pouco mais aborrecida.

- Proibido rezar. Beatas aqui, só mesmo fumaças.

- Um verdadeiro misantropo nunca morre, reinventa-se.

- Mesmo aqui, continuo cercado de idiotas….

terça-feira, 25 de maio de 2010

A Lição

Jeremias não era o tipo de pessoa a quem eventuais repreensões totalitárias surtissem efeito. O seu rígido temperamento não tolerava intromissões abusivas, ainda para mais vindas de gente a quem não reconhecia capacidade para lhe ensinar algo. Mesmo nos casos em que havia esse reconhecimento intelectual era altamente céptico, pois nunca foi de navegar em verdades absolutas.
Jeremias gostava contudo de assimilar e compilar lições de vida. A última grande lição que tinha aprendido é que não se deve ousar ensinar algo a quem sabe mais que nós….

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A Desinspiração

Jeremias passava por uma fase de nítida falta de inspiração. As palavras não lhe sorriam. As mesmas palavras que vezes sem conta já o tinham algemado, conquistado, devastado, invadido, estrangulado, enfurecido, e muitas vezes liberto, não queriam, agora, nada com ele.
Jeremias como funcionário competente e dedicado da biblioteca itinerante da aldeia resignava-se à sua pobre e nova condição de desinspirado. Aguardava pacientemente na fila que o chamassem para receber o subsídio de desinspiração. A vida não estava para aventuras.….

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O Desalento

Jeremias sentia uma tristeza proveniente bem lá do fundo da alma. Por experiências anteriores, já conhecia o seu significado, mas nada que igualasse aquele vazio interior. Até as paredes do estômago tremiam com o desencanto sombrio que lhe assolava o espírito.
Jeremias sabia que a vida podia ser madrasta e que quem anda à chuva molha-se, mas nunca tinha deparado com tamanho rolo compressor de confiança…

terça-feira, 4 de maio de 2010

O Exagero

Jeremias era versado no exagero. Sabia contudo vagamente que a ficção por mais amplificada que fosse nunca se compararia à realidade. A criatividade era filha de um talento que era para si desconhecido.

Como um vagabundo impoluto na peugada de um poeta solitário, Jeremias perseguia a sina na esperança de esta lhe cuspir na cara.

Como um bom cristão que esperava a chegada de Sua Santidade, o Papa, Jeremias não conseguia resistir à tentação de cair no manifesto exagero……

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A Corrosão

Jeremias sobrevivia com a habitual perseverança aos ataques cínicos que o seu carácter despoletava. A corrosão era algo com que teve de aprender a lidar….

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O Horizonte

Dissecava as minuciosidades sempre com harmonia. Representava a velha e encantadora idoneidade com estoicismo. Arrebatava facilmente quem se atravessasse pela frente. O seu deslumbramento funcionava como uma lanterna a piscar num horizonte longínquo…...

O Fascínio

Jeremias viva inebriado com o perfume daquela pétala irrequieta. Já não concebia a filosofia da vida sem aquela voracidade frenética. A velocidade estonteante com que eram quebradas as barreiras da aprendizagem ia muito para além do seu limitado universo….

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A Poesia

Em cada canto, um poeta
em cada lua, um trovador
ao menos dêem-nos letras
para a sopa dos pobres líricos.

O Poema como a voz do povo
a luz que incendeia as almas
o destino que submerge incauto
o fim que desafia a normalidade.

Um rascunho que não chegou a livro
com as palavras que nunca foram ditas….

terça-feira, 13 de abril de 2010

A Coragem

Jeremias somente possuía duas certezas. A primeira era que nada no mundo era perfeito. A segunda era que o poder corrompia.
Com o decorrer do tempo tinha perdido entusiasmo. Aquele ímpeto vagamente juvenil nunca mais se repetiria. A contrapartida era filha da bravura. A coragem é a derradeira âncora de todos os condenados….

terça-feira, 6 de abril de 2010

A Coerência

Jeremias agia de acordo com o que as circunstâncias exigiam. No entanto a sua conduta respeitava escrupulosamente – por vezes de uma forma doentia – os sãos princípios que havia preconizado na sua já longa existência. Tinha ouvido dizer que a vida sorria com mais facilidade aos incoerentes mas sabia que cada dia que passava era mais tarde para mudar. No fundo, gostava de continuar a dar trabalho aos hipócritas desde mundo. Desconfiava, contudo, que a puta da coerência era o seu maior inimigo mas já era tarde pra mudar….

domingo, 4 de abril de 2010

A Páscoa

No Domingo de Páscoa, Jeremias continuava sem vacilar entregue à amargura mais sombria.
Tinha nascido dos escombros do Maoísmo. Fez a escola no que restava do chamado Socialismo de intervenção. Posteriormente conheceu como poucos a hipocrisia subjacente à Social-democracia dominante. Acabou por fazer carreira no Liberalismo mais vanguardista antes de assentar arraiais no catolicismo mais exacerbado. A Religião tinha-o encurralado.
Felizmente acabou por falecer, antes de enveredar pelos misteriosos caminhos da Pedofilia. Misteriosos são os caminhos do Senhor......

Nota: Post escrito originalmente aqui, e agora muito apropriadamente editado.