quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O futuro

Obedecem inertes e aceitam impavidamente aquilo que para eles é a ordem normal das coisas sem nunca se aperceberem que as coisas não são normalizáveis.
Esqueceram-se irreversivelmente que o universo das coisas não se esgota na imensidão da terra.


Não contem comigo para mudar o futuro…

Born of Frustration – James

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Portugal Futuro

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável.
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e lhe chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz.
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz.
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão.
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Ruy Belo

terça-feira, 28 de outubro de 2008

O ideal surreal (com o meu aval)

A sociedade atingiu o chamado ponto de rebuçado com o aval dado pelos diversos Estados, incluindo Portugal, aos verdadeiramente poderosos deste mundo. Trata-se de uma situação absolutamente surreal.
Somente numa época sem ideais, em que os valores estão completamente invertidos e onde as únicas coisas valorizáveis são bens materiais é que esta situação pode ocorrer.
A única excepção à apatia generalizada com que se vive esta realidade é a perplexidade resistente de alguns lunáticos entre os quais me incluo.

Todas as entidades financeiras facilitaram o acesso generalizado ao crédito sem qualquer restrição e sem a existência de qualquer regulação por parte das Entidades supostamente reguladoras. À conta dessa e de outras preciosidades idênticas, a Banca distribuiu lucros avultados pelos seus accionistas e colaboradores. Obviamente que uma parte significativa da população beneficiou com isto; ou porque a sua subsistência laboral depende directa ou indirectamente de serviços ligados às grandes instituições financeiras ou porque acedeu ilusoriamente a uma condição efémera de vida sem qualquer perspectiva de sustentabilidade futura.
E agora ao nível puramente ético, quem deveria pagar a crise?
A Banca deveria pedir a devolução dos lucros avultadíssimos que distribuiu?
Os Gestores de topo dessas empresas deveriam devolver as mordomias e principescos prémios auferidos durante todos esses anos?
Que nada, isso são coisas operacionalmente inviáveis….
A melhor forma de combater a crise é aumentando a divida pública. Afinal justo, justo é serem os contribuintes a pagar a irresponsabilidade e ganância de alguns privilegiados….

O mais engraçado é que não existem alternativas de combate imediato a uma crise desta dimensão. Os erros foram-se acumulando ao longo dos anos ao ponto de se concluir que o sistema de que todos beneficiaram foi, é, um embuste.
O mundo está completamente refém do consumismo. As pessoas vivem o dia a dia sem qualquer preocupação com o amanhã. E quer se queira, quer não, essa parece ser a única forma de sobreviver...
Marx nunca foi tão actual, dizem muitos. É verdade, sempre acreditei em grande parte nisso mas Marx está morto e enterrado e não me parece que queiramos mesmo ressuscitá-lo…..

O capitalismo não morreu. Reerguer-se-á das cinzas utilizando uma roupagem mais discreta, talvez menos espampanante. Lentamente encarregar-se-á novamente de seduzir todos os que passeiam à sua volta, mesmo os mais insuspeitos....


E tudo isto, com o meu triste aval…..

domingo, 26 de outubro de 2008

Eu quero ser campeão! (round 6) Paços de Ferreira 0 Sporting 0

Em Paços de Ferreira, na ressaca da vitória em Donetsk para a liga dos campeões, nem Liedson conseguiu resolver.
O mais preocupante é a total incompatibilidade entre jogos onde o Sporting participa e resquícios de um bom espectáculo. A equipa pratica um futebol aos repelões com pouca clarividência na zona nevrálgica do meio campo.
João Moutinho ainda não fez um jogo de nível esta época e por este andar a melhor solução passa por vendê-lo - bem vendido claro - ao Everton em Dezembro, conforme é seu desejo expresso, dando-lhe assim oportunidade para ir lutar por uma empolgante permanência na primeira liga inglesa….
Vukcevic é um activo do clube em acentuada desvalorização e em rota de colisão com o resto do mundo. O curioso é que foi precisamente um jogador com as características dele quem mais falta fez no jogo de hoje. Necessitamos de um substituto à altura mas convém que goste de treinar, coisa que o Montenegrino não acha essencial na profissão que tem….
Num jogo onde Grimi foi dos menos maus está tudo dito....
Resta-me esperar por dias melhores…

O mar queimado


sábado, 25 de outubro de 2008

O Magalhães

Apesar de ser tema demasiado debatido e exageradamente propagandeado pelo Governo (como habitual aliás), é da mais pura justiça salientar que qualquer que seja a perspectiva a distribuição dos portáteis pelas escolas é uma excelente medida.
Um país para ser viável tem de ser capaz de efectuar um investimento sério na formação daqueles que construirão o amanhã. Obviamente que a habitual demagogia reinante em muitas hipocrisias indígenas nunca entenderá esta verdade indesmentível.
Por breves instantes, até ficamos com a momentânea sensação que vivemos num País a sério, onde a igualdade de oportunidades é uma realidade….
No entanto, logo acordamos...E continuamos com a nossa vida…..

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Lisboa a inundada

As cheias ocorridas no último fim de semana em Lisboa vieram mais uma vez alertar a população da Capital para a catástrofe iminente que espreita em cada esquina, em cada casa em ruínas, em cada obra inacabada, em cada estrada esburacada…

A questão do escoamento das águas numa cidade ribeirinha como é Lisboa nem sequer é o pior problema, infelizmente.
A cidade vive diariamente em constante sobressalto sem um mínimo de preparação para lidar com situações ditas anormais como as ocorridas com as chuvas diluvianas do último sábado…

António Costa, apesar de tudo um homem de coragem, tem-se esforçado no sentido de mostrar obra mas as circunstâncias em que iniciou o seu curto mandato faz com que os resultados visíveis para o cidadão comum sejam praticamente inexistentes.
Pelos indicadores que tem dado e à revelia do seu mentor intelectual (o Pacheco) Ferreira Leite prepara-se para lançar Santana Lopes como candidato do PSD à Câmara da Capital. Uma caixinha de surpresas essa senhora, de facto. No fundo não foge à regra do politicamente correcto em que estamos afundados. Mais vale calá-lo, porque é uma voz incómoda que provoca desgaste dando-lhe um rebuçado para lhe estimular o ego.
É esta a estratégia de Ferreira Leite numa visão bem portuguesa, aliás….

Independentemente de tudo o resto, Santana Lopes prepara-se com todo o afinco para ser mais uma vez o bobo de serviço da nação. Ele que seria uma má opção até para presidente da associação de pais da escola de um dos filhos é um eterno candidato recorrente. Inclusive a sua profissão mais conhecida é justamente a de candidato a candidato…
Relembro que estamos a falar do pior Primeiro Ministro de que há memória na história das democracias à escala Planetária, com os devidos agradecimentos a Jorge Sampaio que permitiu tamanha façanha durante ainda uns bons meses.
No entanto, reconheço, Santana Lopes possui um determinado magnetismo que dá brilho a determinados momentos. Assim, com a sua recandidatura há toda uma classe - mais precisamente os humoristas – a rejubilar com os tempos que se aproximam. Inclusivamente nos media é visível a felicidade com mais este regresso do menino guerreiro….

Analisando pela positiva, António Costa terá uma boa oportunidade para construir à sua volta uma aliança de gente de esquerda com oportunidade e substância, coisa a que Portugal não está habituado….

Na galeria dos imortais

Hoje entrou definitivamente na história do grande Sporting ao alcançar os até aqui intocáveis Manuel Fernandes e Jordão como melhores marcadores nas competições europeias atingindo a apetecível marca de 19 golos…

Liedson da Silva Muniz continua a resolver e a despachar jogos com a mesma destreza com que embalava as compras dos clientes no supermercado onde trabalhava na sua Bahia natal….
Liedson da Silva Muniz continua a ultrapassar os defesas adversários com a mesma simplicidade com que fazia os trocos na caixa do supermercado onde trabalhava na sua amada Bahia

Festeja os golos desenhando um coração com as próprias mãos.
A forma astuta como ludibria as defesas contrárias também vai aquecendo o meu simples e singelo coração de leão…

A genuína humildade não tem preço. O talento também não…

Diego Velázquez - as meninas


domingo, 19 de outubro de 2008

O silêncio secreto das palavras

Domina a mágica utilização dos adjectivos e advérbios, recita poesia com encanto e sabedoria, conhece os mais obscuros segredos da vivência humana. Dizem-lhe com frequência que escreve desmesuradamente bem.
Um dia de tanto procurar a perfeição no que escrevia irritou de forma irreversível as palavras. Como retaliação as palavras nunca mais lhe sorriram. Calaram-se para todo o sempre….
Morreu ao fim de dois dias. Por inadaptação ao silêncio secreto das palavras….

sábado, 18 de outubro de 2008

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Portugal, Portugal - Jorge Palma



Memorável hino de um portentoso “cantador” de histórias como é e sempre foi Jorge Palma.
Gravado pela primeira vez em 1982 no álbum acto contínuo....

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

O homem providencial

Chega sempre com esperança num dia mais risonho. Sorri para os sorrisos alheios, trata o outro de forma afável. As pontes comunicacionais para ele não têm segredos. Adora falar ao telefone porque aí é rei e senhor de um mundo que lhe pertence por completo.
Não arrisca um milímetro na sua legítima expectativa de vida. A sua ambição esgota-se na rotina do dia a dia sem um mero vislumbre de mais pequena aspiração a algo. Mesmo os seus pensamentos são funcionalmente contidos.

Lentamente, sem se aperceber, torna-se no último homem à face da terra.
Todos os outros - os ambiciosamente egoístas - acabam asfixiados na sua própria ganância.
Dá por si sem ter ninguém para tagarelar ao telefone. A perda da sua mais aprazível aptidão torna-o supérfluo.

No fim, feitas as contas, a providência acabou por acabar com o homem providencial…..

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Olha que dois!

Poucos terão sido os fotógrafos com o condão de sintetizar a bestialidade humana de forma tão astutamente convincente….

A fotografia é de Kevin Lamarque da agência Reuters.
Os meus sinceros Parabéns, pá!

Um Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

ALEXANDRE O'NEILL

domingo, 12 de outubro de 2008

Isto é Portugal!

Lobo Antunes em entrevista de hoje na revista Pública depois de confrontado com a seguinte questão:
«Se lhe telefonassem a dizer: "O Nobel é seu", em quem é que pensaria?»

Resposta do Escritor:
«Mas isso não tem que ver com a literatura, não torna os livros melhores ou piores. Se me disser o nome de um jurado, digo-lhe quem ganha. Em Portugal, se conhecer os membros do júri, sei quem vai ganhar o prémio»….


Querem retrato melhor do Portugalzinho do século XXI, onde os meios culturais infelizmente não são excepção?
Elementar, meus caros concidadãos, elementar….

Gomorra

Aplaudido pela crítica e premiado no Festival de Cannes deste ano, Gomorra, do italiano Matteo Garrone, baseado no livro de Roberto Saviano é qualquer que seja a perspectiva um filme absolutamente extraordinário….

Ao visioná-lo ocorreu-me a célebre frase de Francis Ford Coppola sobre Apocalypse Now: «Não é um filme sobre o Vietnam. Ele é o Vietnam». Não diria melhor sobre Gomorra, não é um filme sobre a máfia. Ele é a máfia…

Com uma fulgurante fotografia Gomorra “vive” com uma intensidade desarmante. Apresenta-nos sem pestanejar e com uma autenticidade arrebatadora um dos maiores hipermercado de droga da Europa – Bairro de Scampia em Nápoles - como na realidade ele é, proporcionando-nos uma viagem ao âmago dos círculos apodrecidos de poder controlados pela máfia.
A própria ingenuidade dos protagonistas é profundamente humana o que não deixa de ser fascinante.
E quem conhece ou no mínimo visitou bairros sociais onde prevalece um ambiente deste género percebe e sabe do que Gomorra fala……

Um retrato robusto da Camorra Napolitana que ronda a perfeição conceptual e que volta a pôr a doce Itália na senda do grande cinema que se faz por essa Europa fora….

sábado, 11 de outubro de 2008

A Bolacha Maria

A presidência da república em Portugal sempre teve pouco para fazer de verdadeiramente interessante, restando-lhes a gestão de pequenas inutilidades como a atribuição de distinções, condecorações e afins…
Não me querendo de todo intrometer nessa estimulante tarefa acho pertinente levantar a seguinte questão:
Atendendo a que anda para aí tanta gente ignóbil que já foi presenteada com inúmeros galardões, para quando a homenagem e o justo reconhecimento aos inventores da imortal Bolacha Maria?.....

A sempre magnífica Lisboa