A sociedade atingiu o chamado ponto de rebuçado com o aval dado pelos diversos Estados, incluindo Portugal, aos verdadeiramente poderosos deste mundo. Trata-se de uma situação absolutamente surreal.
Somente numa época sem ideais, em que os valores estão completamente invertidos e onde as únicas coisas valorizáveis são bens materiais é que esta situação pode ocorrer.
A única excepção à apatia generalizada com que se vive esta realidade é a perplexidade resistente de alguns lunáticos entre os quais me incluo.
Todas as entidades financeiras facilitaram o acesso generalizado ao crédito sem qualquer restrição e sem a existência de qualquer regulação por parte das Entidades supostamente reguladoras. À conta dessa e de outras preciosidades idênticas, a Banca distribuiu lucros avultados pelos seus accionistas e colaboradores. Obviamente que uma parte significativa da população beneficiou com isto; ou porque a sua subsistência laboral depende directa ou indirectamente de serviços ligados às grandes instituições financeiras ou porque acedeu ilusoriamente a uma condição efémera de vida sem qualquer perspectiva de sustentabilidade futura.
E agora ao nível puramente ético, quem deveria pagar a crise?
A Banca deveria pedir a devolução dos lucros avultadíssimos que distribuiu?
Os Gestores de topo dessas empresas deveriam devolver as mordomias e principescos prémios auferidos durante todos esses anos?
Que nada, isso são coisas operacionalmente inviáveis….
A melhor forma de combater a crise é aumentando a divida pública. Afinal justo, justo é serem os contribuintes a pagar a irresponsabilidade e ganância de alguns privilegiados….
O mais engraçado é que não existem alternativas de combate imediato a uma crise desta dimensão. Os erros foram-se acumulando ao longo dos anos ao ponto de se concluir que o sistema de que todos beneficiaram foi, é, um embuste.
O mundo está completamente refém do consumismo. As pessoas vivem o dia a dia sem qualquer preocupação com o amanhã. E quer se queira, quer não, essa parece ser a única forma de sobreviver...
Marx nunca foi tão actual, dizem muitos. É verdade, sempre acreditei em grande parte nisso mas Marx está morto e enterrado e não me parece que queiramos mesmo ressuscitá-lo…..
O capitalismo não morreu. Reerguer-se-á das cinzas utilizando uma roupagem mais discreta, talvez menos espampanante. Lentamente encarregar-se-á novamente de seduzir todos os que passeiam à sua volta, mesmo os mais insuspeitos....
E tudo isto, com o meu triste aval…..