segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O Porto

Gosto imenso do Porto. Para ser perfeito só lhe falta mesmo o Sporting…

Esta é a Cidade

Esta é a Cidade, e é bela.

Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descansa,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!

António Gedeão – Pseudónimo de Rómulo de Carvalho

sábado, 6 de dezembro de 2008

O Sabor da Melancia

Tsai Ming-Liang, realizador originário da Malásia, apresentou-nos em 2006 O Sabor da Melancia cuja recente visualização me desiludiu bastante. Retinha como referência deste cineasta oriental, o Rio, extraordinário filme de 1997 que me tinha ficado na memória e em que a acção se passava igualmente no Taiwan.
Apesar de continuar a cultivar com pertinácia toda a solidão a que se entregam habitualmente as suas personagens, Ming-Liang mais não faz do que repetir fórmulas anteriormente utilizadas tentando explorar um universo sexual, desta feita, pouco original e apelativo.
No sentido de atenuar o pouco interesse do filme o realizador tenta dispersar as atenções transformando-o num hipotético musical, mas mesmo nesse campo os resultados são, a meu ver, pouco estimulantes para o espectador.….

Eu quero ser campeão! (round 11) Estrela da Amadora 1 Sporting 3

Uma péssima exibição na primeira parte com prolongamento até aos cinco minutos da segunda, momento em que o Levezinho “passou o recibo” mais uma vez ao seu compincha Nélson. A partir daí controlo total do jogo acabando o Sporting por justificar largamente a vitória no dia do regresso de Vuk, o rebelde, aos golos.
A insistência na dupla Rochemback – Miguel Veloso no miolo só se pode justificar face à inexistência de alternativas mais consistentes. Aliás quanto a mim o meio campo é de longe o grande busílis desta equipa.
Entretanto uma possível vitória na próxima terça-feira em Basileia permitiria somar doze pontos equivalentes a 4 vitórias na Champions. Que bom seria para uma equipa com esta média de idades…..

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A excentricidade

Numa época em que o dinheiro do Zé Povinho parece somente servir para salvar bancos, banquinhos e banqueiros, a RTP anunciou um pouco envergonhadamente que já está acordada a terceira série dos Contemporâneos.
Uma notável extravagância deste nosso erário público ao disponibilizar-se para desviar recursos daquela que tem sido ultimamente a sua principal função:
Premiar a incompetência e a ganância!.....

A Horta


O casaco démodé

Saía de casa pela manhã com o seu precioso casaco vestido. Dia após dia, à medida que o rigor do inverno encarnava nos seus desgastados ossos emudecidos pelas agruras do tempo, subia mais um pouco o fecho até ficar completamente cerrado.
Compartilhou ao longo dos anos segredos e momentos inolvidáveis de felicidade com a sua jaqueta sem nunca a abandonar.
Vivia agora o chamado descanso do guerreiro. Entrava diariamente na carruagem do comboio com um ar triunfante. Sorria, ainda, às moçoilas reluzentes na esperança de somar um último triunfo no campo dos afectos que lhe preencheria o ego de forma desmesurada.
Tinha a perfeita consciência que o seu estimado casaco estava fora de moda há muito mas foi questão que nunca o preocupou sobremaneira. A própria vida não estava para modas.
Sabia que não encontraria mais ninguém com um casaco igual ao seu porque a natureza humana tornara-se previsível em demasia…..

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Eu quero ser campeão! (round 10) Sporting 2 Guimarães 0

No regresso ao campeonato na ressaca da insólita e copiosa derrota com o poderoso Barcelona em Alvalade para a Liga dos Campeões num jogo estranho em que ficou visível a ingenuidade e juventude da equipa, o Sporting venceu o Vitória de Guimarães de forma meritória e sem encontrar grande resistência por parte dos vitorianos, valha a verdade.
A insistência de Paulo Bento em Leandro Grimi depois da traumatizante exibição na última quarta-feira - para quem como eu assistiu - do lateral esquerdo argentino está muito para além da minha limitada compreensão táctica. Ainda para mais quando tem Ronny disponível que sendo um jogador imaturo a defender, encaixa perfeitamente no onze para os jogos em casa quando defrontamos equipas de valor teoricamente inferior. O treinador emendou a mão já na segunda parte mas para isso suceder foi necessário o rato Grimi ver um cartão amarelo…
Quanto ao mais, a equipa controlou sempre o jogo. Outro aspecto negativo surgido nos últimos jogos foi o regresso da insegurança de Rui Patrício que ilusoriamente pareceu em determinada altura estar definitivamente ultrapassada.
A esperança para os próximos jogos é o regresso de um Vukcevic interessado somente em jogar futebol. Imagino que deve ser mesmo para isso que aufere uma remuneração mensal. O Sporting necessita com urgência de uma “abre-latas” ao estilo do Montenegrino….

sábado, 29 de novembro de 2008

A Manela e o Zé



Já escrevi aqui ainda que muito sucintamente acerca de Manuela Ferreira Leite. Mas tão original criatura merece um pouco mais de dedicação deste imberbe escriba. É de facto um acontecimento inusitado nestes tempos que correm a entrega da liderança de um partido político da área do poder em Portugal a alguém com semelhante perfil.
Ferreira Leite como Ministra das Finanças assumiu, e foi o rosto de algumas medidas impopulares mas obrigatórias, tendo efectuado trabalho de rigor e contenção numa fase complicada para as finanças do País sendo independentemente de tudo o resto uma mulher de coragem possuindo personalidade desalinhada face a muitas das hipocrisias indígenas vigentes; idiossincrasia essa com que me identifico obviamente em grande parte. Do outro lado da fotografia surge-nos uma pessoa pouco aberta ao que se passa ao seu redor, com dificuldades em aceitar a normal evolução social nos costumes, pouco tolerante para com a diferença, mediocremente retrógrada…
À parte disso, a gincana idiota e sem regras em que se tornou o jogo político do século XXI não deixa espaço para que se diga a verdade sem contemplações, como tentou recentemente Ferreira Leite fazer ainda que de forma atabalhoada, ao dar a entender que hoje em dia não há espaço para grandes espíritos reformadores derivado às inevitáveis pressões mediáticas a que todos os Políticos estão sujeitos. E isso é tão evidente quanto demolidor para as sociedades actuais. No entanto a forma escolhida para se expressar revelou-se como se sabe desastrosa. Aliás, aquilo não se chama ironia, chame-se tiro no pé....
Como resultado dessa e de outras preciosidades de igual calibre vejo a pertinência de ter alguém como Ferreira Leite como líder partidária ao mesmo nível que veria por exemplo Zezé Camarinha como presumível candidato a Ministro da Cultura, isto se me faço entender….
O mais curioso e mesmo insólito nestas circunstâncias é o facto de alguém com as características de Ferreira Leite pactuar com este nível de exposição e as consequências que daí advém. É óbvio que foi pressionada para avançar para a liderança, desafio ao qual numa primeira fase conseguiu declinar. Ao aceitar conscientemente essas responsabilidades, mesmo que sob evidente pressão, tornou-se prisioneira de si própria.
Não significa esta reflexão que Manuela Ferreira Leite não possa chegar um dia a chefe de Governo. Duvido que chegue. Com o meu contributo não será certamente mas basta lembrar os casos de António Guterres e Durão Barroso, ambos amplamente e precipitadamente condenados por grande parte da opinião publicada antes de atingirem o governo. Inclusivamente o primeiro tinha o epíteto de Picareta Falante se bem se lembram….

Numa outra vertente parece afinal que o Zé deixou de fazer falta ao Bloco de Esquerda em Lisboa. Não conheço com grande detalhe o trabalho já desenvolvido por José Sá Fernandes como vereador democraticamente eleito em Lisboa mas vejo-o de facto como um cidadão empenhado em que se viva melhor na sua cidade que, imagino, gosta.
Provavelmente houve situações no passado em que não demonstrou um equilíbrio sensato entre as suas ambições pessoais e aquilo que seria pragmaticamente melhor para a cidade, no entanto sendo um conhecedor profundo das problemáticas existentes e pessoa com notória sensibilidade para diversas matérias agradou-me a aproximação efectuada ao executivo de António Costa. Isto porque Lisboa não se pode dar ao luxo de desperdiçar recursos humanos com incontestáveis conhecimentos ao nível dos problemas que apoquentam realmente os Munícipes, ainda para mais numa fase em que as finanças e os diversos dossiers jurídicos pendentes na Câmara não são motivadores para que apareça gente com qualidade disponível para trabalhar na sua recuperação e credibilização.
Mas falemos da posição política assumida pelo Bloco de Esquerda:
O BE ( para os amigos) achou sempre muito bem as posições assumidas pelo Vereador quando se limitavam a ser do contra, e por isso mais susceptíveis de proporcionarem relevo mediático. Agora que o homem resolveu ajudar a construir algo, trabalhando lado a lado com que de direito, resolve retirar-lhe o apoio político.
Deixo para os estudiosos da ciência política esta aversão histórica do Bloco de Esquerda a tudo o que cheira a poder, o que nos deixa muito tranquilos relativamente à vaga hipótese de algum dia serem alternativa para alguma coisa em Portugal. Talvez nesse dia, Francisco Louça – pessoa que sinceramente admiro – se lembre de fugir apavorado do País…..

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Vem – Madredeus

O Kamikaze Sonhador

Aspirava a um mundo despido de preconceitos.
Acreditava devotamente que o seu espírito guerreiro encontraria a paz interior que tanto ansiava. Lutou toda a vida por um ideal de justiça que julgava atingível.
Sonhou, sonhou, sonhou sem hesitar. Abdicou de tudo pelo seu sonho.
Até que um dia sonhou que era Kamikaze e nunca mais acordou…...

Um Natal Proletário

Ao que parece as grandes Instituições que tornaram este País grandioso como por exemplo o BCP - em caso de dúvida perguntem ao filho do Jardim Gonçalves (por curioso lapso da primeira vez escrevi em caso de dívida, em vez de dúvida ….) - vão deixar no corrente ano de apostar na quadra que se aproxima prescindindo de patrocinar a gigantesca árvore de natal que habitualmente congestiona o terreiro do paço.
Será que a Banca deixou mesmo de acreditar no Pai Natal? Ou pretendem substituí-lo pelo Pai Sócrates, que como se sabe é amigo de seu amigo?
O que não deixa de ser estranho é que o homem de barba banca que mais tem sido recordado ultimamente é mesmo Karl Marx. É caso para dizer, Pais Natal de tudo o mundo, uni-vos……

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Lisboa

por tràs dos muros da cidade
no seu coração profundo de alicerces
de argilas e de sísmicos arroios - cresce uma voz
que sobe e fende a brandura das casas
da escrita dos enumeráveis povos quase
nada resta - deitas-te exausto na lâmina da lua
sem saberes que o tejo te corrói e te suprime
de todas as idades da europa
mais além - para os lados do corpo - permanece
a tosse dos cacilheiros os olhos revirados
dos mendigos - o tecto onde um navio
nos separa de um vácuo alimentado a soro
plátanos brancos recortam-se luminescentes no olhar
de quem nos olha contra um céu desesperado - jardim
de iris açucenas palmeiras cobertas de rocio e
a ponte que nos leva aos campos do sul - lisboa
lugar derradeiro do riso
que já não te pode salvar do cemitério dos prazeres
e morres
carregado de tristezas e de mistérios - morres
algures
sentado numa praceta de bairro - o olhar fixo
no inferno marítimo das aves

Al Berto

A vida vivida da vidinha

A vida nasce com a manhã
numa existência vivida da alma
passa mais um dia resignado na vidinha….

domingo, 23 de novembro de 2008

A Turma

Com um nome bem mais interessante na denominação original do que na versão Portuguesa “Entre les murs” de Laurent Cantet, foi consagrado muito justamente este ano como Palma de Ouro em Cannes.
No seguimento de Recursos Humanos de 1999 e de o Emprego do Tempo de 2001 (dois belíssimos filmes) Cantet continua a presentear as suas personagens com um realismo inexorável e entusiasmante.
Cineasta de excepção, procura com esta obra explorar o universo multicultural de uma grande cidade como Paris. Os códigos e as referências utilizadas pelas diferentes etnias são desvendadas de forma natural, sobrando ainda espaço para vivermos lado a lado com a amargura de um Professor perante os complexos reptos que lhe são lançados pelos seus rebeldes, pertinentes e sagazes alunos.
A referida turma é formada por actores não-profissionais que foram seleccionados entre alunos de uma escola dum bairro problemático da cidade luz com quem o realizador trabalhou todas as semanas sem excepção - durante um ano lectivo - em diversos ateliers de improvisação.

Um filme bastante actual face aos desafios que as políticas de educação no nosso País têm estado sujeitas em diversos prismas durante o presente ano de 2008. Talvez advenha daí a excelente adesão de público que o filme tem demonstrado, o que esperemos possa ser um bom sinal para um País cada vez mais multi-étnico no caminho de uma sociedade mais tolerante face à diversidade...

Eu quero ser campeão! (round 9) Naval 0 Sporting 1

Numa jornada absolutamente decisiva como resultado das três derrotas entretanto acumuladas houve direito a heroísmo de leão na Figueira da Foz.
Paulo Bento pode muito bem ter ganho hoje uma equipa apesar da qualidade do jogo praticado continuar longe do que é exigido. Com excepção do jogo com o Porto para a taça - que até acabámos por perder - a equipa não tem conseguido apresentar um futebol acutilante e ambicioso. No entanto, só para que conste, eu sou daqueles que prefiro ganhar mal e porcamente por um a zero do que assistir a uma exibição de encher o olho sem vencer.
Como o verde será sempre a cor da esperança na próxima quarta-feira lá estaremos para ver Lionel Messi, Samuel Eto’o e companhia passarem um mau bocado em Alvalade – pelo menos assim o espero - apesar das inúmeras baixas que o Sporting certamente apresentará.
Relativamente ao jogo o segundo golo cruelmente desperdiçado por Liedshow quase no fim do mesmo daria, quanto a mim, maior justiça ao resultado. Quem reage como o Sporting reagiu a uma série de adversidades durante todo o encontro merecia mais essa recompensa.
Por outro lado, as expulsões incompreensíveis de dois jogadores experientes como são Derlei e Caneira deveriam ser alvo de um conduta disciplinar ao nível pecuniário por parte da SAD até porque ambos são reincidentes. Todavia relativamente a Derlei assinalo a seguinte questão:
O Jogador sempre teve mau feitio - não é de agora – mas nos tempos em que actuava no FCP não era tantas vezes expulso, isto se bem me lembro. Talvez os apitos nessa época fossem mais dourados e menos propensos a julgamentos precipitados?.....

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Porquê, só agora?

José Oliveira e Costa, ex-secretário de Estado de um dos governos do Professor Cavaco, fundador do grupo Sociedade Lusa de Negócios que integra o BPN, foi hoje detido na sequência de buscas domiciliárias efectuadas a duas das suas residências por suspeita de burla agravada, falsificação de documentos, fraude fiscal e branqueamento de capitais.
Saliento que este homem foi Secretário de Estado de Assuntos Fiscais, uma área pela qual nutre, claramente, especial predilecção….

Mas porque é que Justiça em Portugal anda sistematicamente a reboque dos media e dos assuntos que estão na ordem do dia?
Mas porque é que a actuação da Justiça em Portugal está sujeita a critérios de oportunidade? Recordo-me da primeira detenção de Vale e Azevedo em que se aguardou que a Excelência deixasse de ser presidente de um clube de futebol para poder ser detido e constituído arguido….
E como é que os cidadãos de um estado constitucionalmente de direito podem ter confiança numa justiça que age desta forma?....

A detenção de Oliveira e Costa, tardiamente efectuada, somente serve para descredibilizar ainda mais um sistema que já não tinha credibilidade.
A Procuradoria-Geral da República tenta com esta operação defender o indefensável e justificar o que não tem justificação…….