sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A Oportunidade

Tentava sempre antecipar os cenários mais improváveis. Era um mestre na retórica superficial. A oportunidade era o seu fim, o seu objecto, a sua forma de vida, o seu único desígnio.
Era um jogador de longo alcance. Aspirava um dia a tornar-se universal. Os elogios, frequentes, mas localizados e sem assídua expressão mediática, deixava a sua imensa ambição descontente. O seu Ego suspirava por mais.
A permanente busca de protagonismo transformava-o num temido caçador de jornalistas. Tinha relações privilegiadas com inúmeros, os quais recebia sempre com grandes reverências. Alguns, inclusivamente, tratava por tu. Chegava ao ponto de idealizar esquemas no sentido de promover entregas de prémios especiais a jornalistas, utilizando os seus exemplares mecanismos de persuasão para esse efeito. Vivia na expectativa de ver as suas excessivas cortesias ressarcidas no futuro.
Por vezes antecipava o próprio pensamento. Um dia, sentindo que estava a envelhecer paulatinamente sem concretizar os seus ávidos objectivos, arriscou tudo.
Acabou condenado ao ostracismo.

O seu sentido de oportunidade acabou por o apunhalar pelas costas….

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A Intriga

Não morro de amores por José Sócrates como já demonstrei aqui e aqui, no entanto as actuais inconsistências à volta do caso freeport levam a uma inevitável e quanto a mim óbvia consideração:
Não será demasiada coincidência a tal carta enviada pelas autoridades britânicas à Procuradoria-Geral da República chegar a Portugal em 19 de Janeiro de 2009, sete anos depois dos factos a que se refere, e precisamente no auge da mediatização e do consequente desgaste a que Sócrates tem estado sujeito?
Serei somente eu a constatar este acontecimento extraordinário?
Talvez alguns assessores de alguma agência de “lóbis” com ligações a algumas figuras proeminentes da política portuguesa possam responder a esta questão…

Sócrates é um pragmático ambicioso, demasiado ambicioso aliás. Admiro algum do seu pragmatismo e determinação mas abomino a sua ambição desmedida. Quis subir depressa e conseguiu chegar ao topo rapidamente. É uma definição um pouco ambígua esta – eu sei - mas facilmente compreensível,
Aliás a forma como terminou a célebre licenciatura já era premonitória relativamente à sua forma de trabalhar. Actua sempre nos limites da legalidade explorando oportunisticamente as diversas conjunturas que lhe vão sendo propiciadas. Um simples cidadão comum perfeitamente integrado nesta sociedade dita moderna, portanto….
Parece que conseguiu no caso freeport ultrapassar as limitações ambientais em tempo record, mas dentro dos limites que a lei lhe permitia. E daí, pergunto eu?
Parece que tem uns primos com características bem portugueses que tentaram utilizar o seu nome numa espécie de tráfico de influências através de e-mail. E o resto do País que faz uso desse expediente impunemente, todos os dias, em todos os sectores da sociedade, sem qualquer pudor?...

Numa perspectiva mais politica, José Sócrates, hábil estratega, parece medir atentamente as consequências que todos estes episódios vão criando.
Não será plausível, mas também não é impossível, que face a novos hipotéticos desenvolvimentos José Sócrates - extremando a estratégia da vitimização - possa pedir a demissão obrigando Cavaco a dissolver o parlamento e marcar eleições antecipadas. Algo que apesar de representar um risco acentuado, derivado dos nefastos reflexos que o caso pode ter no seu eleitorado, vai ao encontro do que certamente já tinha equacionado na sequência do previsível agravamento da crise económica. Não tinha contudo argumentos para, até aqui, provocar esse putativo desenlace….

Como conclusão saliento que um País assim - onde reina a intriga, a corrupção, a desconfiança generalizada, as conspirações ocultas, onde o sistema de justiça anda a reboque de jogos palacianos - não pode merecer qualquer tipo de credibilidade por parte dos seus atónitos cidadãos….

O País infelizmente é isto, nada mais que isto, e quem pensa o contrário é tolo...Força Portugal!...


quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Paraíso

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir.
Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

David Mourão-Ferreira

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

A Islândia

Havia o unanimemente elogiado exemplo irlandês. Agora há o exemplo islandês, um País de papel….

Logo a Islândia, exemplo de civilização vanguardista, em inúmeras situações considerado como um dos melhores Países do mundo em vários indicadores estando agora mergulhado numa profunda crise social com o colapso do seu sistema bancário. Assiste-se, inclusive, actualmente a agressões contra alvos políticos e a um aumento generalizado de fenómenos como o racismo e o vandalismo.

Esperemos que a excepcional música que têm oferecido ao mundo seja suficiente para salvar a Islândia do delírio dos seus governantes….

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O Orgulho

O azedume que lhe corria na alma deixava-lhe a língua petrificada. O silêncio era a sua arma mais letal. Não acreditava no futuro porque o amanhã era traiçoeiro. O Orgulho era a sua bóia de salvação.....

As Canções de Amor

As Canções de Amor começa exactamente onde “Em Paris”, filme anterior de Christophe Honoré realizado em 2006 tinha terminado. A atraente cidade do Sena aparece-nos sempre como pano de fundo para a narrativa delineada por Honoré.
O musical, género cinematográfico que admito não me cativa particularmente, aparece-nos aqui ressuscitado. Cada vez que isso sucede lembro-me sempre do memorável "Dancer in the Dark", de Lars Von Trier que foi palma de ouro de Cannes em 2000. Um extraordinário filme com a islandesa Björk como actriz principal ao lado de Catherine Deneuve.
Dividido em três actos - a partida, a ausência e o recomeço -, As Canções de Amor começa por se centrar num triângulo amoroso que é destruído pela súbita morte de uma das jovens que o constitui. O filme segue a partir daí os percursos dos outros dois protagonistas em especial de Ismael, personagem central do filme, que na tentativa de refazer a sua vida depois da morte da companheira experimenta diversos relacionamentos na expectativa de encontrar uma rápida panaceia para superar a tragédia recente.
Filme com alguns planos interessantes onde a musica tem um papel preponderante e cuja banda sonora é uma surpresa agradável deixa-nos com alguma curiosidade relativamente a projectos futuros de Christophe Honoré

domingo, 25 de janeiro de 2009

Eu quero ser campeão! (round 15) Nacional da Madeira 1 Sporting 1

Finalmente um bom espectáculo de futebol! No virar para a 2.ª volta o Sporting escorregou na Choupana e deixou a passadeira azul estendida para o novo líder que ao que consta beneficiou de empurrãozinho amigo. Por outro lado, na Madeira um empurrãozinho de Abel que não faria mal a uma criança de 3 anos foi suficiente para assinalar uma penalidade máxima. Singularidades da Liga Portuguesa…..
Contra uma excelente equipa comandada pelo grande mentor do Machadês os leões de Lisboa fizeram exibição bem razoável em que pecaram somente na finalização faltando a tal estrelinha de campeão que brilhou em Braga. Que pena aquela bola de Moutinho aos 91 minutos. Contudo tem que se referir que na segunda parte - com tudo a seu favor depois de a primeira ter acabado da melhor forma - o Sporting tinha obrigação de ganhar o jogo. E isso não sucedeu essencialmente porque o Pastelão Rochemback - que até tinha efectuado uma boa primeira parte - se eclipsou em definitivo não tendo Paulo Bento, talvez por falta de alternativas, efectuado a substituição que obviamente se impunha.
Está tudo em aberto para a segunda volta no entanto é claro que as cinco jornadas seguintes serão fundamentais para as aspirações dos três crónicos candidatos..…

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A Demência

Partilhava com a chuva o seu habitual descontentamento.
Mexia atabalhoadamente nas moedas que sobravam no bolso procurando um sentido para a sua loucura. O seu acentuado nervosismo era proporcional à sua inteligência. A forma como os pensamentos se acotovelavam na sua lúgubre mente faziam há muito antever o pior.
Até que um dia, nas suas constantes deambulações, abeirou-se de uma árvore em cujo cimo um pequeno rouxinol castanho cantava. Aí, desarmado pela beleza proporcionada pela simbiose perfeita entre os trinados fluidos da ave e uma imensa vegetação primaveril encontrou finalmente um sentido para a sua demência……

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A Inquietude

Ouvia ao longe os pássaros na expectativa de um sinal libertador. De quando em quando falava consigo próprio. Ouvir as suas próprias palavras ajudava-o a ultrapassar a alienação generalizada que o perseguia.
Hesitava na tomada de posição. Porquê melindrar o outro, pensava?
A humanidade sempre percorreu o seu caminho sem necessidade de discussões vãs. A frontalidade não passa de uma excentricidade estéril totalmente prescindível. A omissão é a melhor forma de ludibriar a realidade das coisas porque as coisas sempre foram sensíveis ao sentido de oportunidade, meditava....
As palavras surgiam-lhe desordenadas num frenesim louco.
Inquietava-se em demasia. Era esse o seu problema....

O Discurso

O discurso na noite da vitória foi mais arrebatador que o da tomada de posse, não acham?
Sem dúvida, o gajo que escreve os discursos estava menos inspirado desta vez……

Que “a cabeça” o acompanhe são os sinceros votos de um pseudo-intelectual ateu!...

Pó de arroz – Carlos Paião

domingo, 18 de janeiro de 2009

A Indiferença

Passava os dias entregue a um negrume proveniente da imensidão dos seus pensamentos. Congelava as emoções quando todos os outros as empolavam. Vivia de forma desapaixonada. A própria sobrevivência era estranhamente indiferente….

Se houvesse degraus na terra…

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Hélder

sábado, 17 de janeiro de 2009

A Fábrica


Duas vezes o melhor do mundo em apenas 7 anos.....

Curva-te Portugal em sinal de gratidão e resigna-te à tua inevitável insignificância…...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

My Blueberry Nights

Desde Chungking Express, magnífico filme de culto dos anos 90 que existe sempre grande curiosidade sobre o que anda a fazer Wong Kar Wai.
Na sequência de In the Mood for love, (2000) e de 2046 (2004) Wong Kar Wai procura explorar em My Blueberry Nights filme de 2007, desta vez com outras personagens, o mesmo universo onírico que incide sobre a improbabilidade do amor.
Independentemente dos filmes se interligarem harmoniosamente entre si - sempre apoiados em extraordinárias bandas sonoras - em Disponível para Amar (In the Mood for love) as elipses são mais apetecíveis, os silêncios mais elucidativos e por isso o filme surge-me mais pujante que My Blueberry Nights.
Não obstante isso, My Blueberry Nights que somente visionei agora em DVD, ganha sobremaneira com as presenças poderosas de Norah Jones, Jude Law e uma participação especialíssima de Cat Power (ver e ouvir abaixo) num dos melhores momentos do filme. A boa notícia é que Wong Kar Wai continua a sua busca incessante na esperança de encontrar uma solução para o amor.....

A Igreja

Porque é que declarações tão lamentáveis como as proferidas por D. José Policarpo e amplamente difundidas e comentadas, quer nos media, quer na blogosfera, não são objecto de reparo por alguém com responsabilidades ao nível governativo ou por alguém ligado à presidência da república, por exemplo? Repara-se que desta vez não foi um pároco de aldeia como habitual a exceder-se, mas sim o Cristiano Ronaldo do Catolicismo Português.
A resposta é simples: Porque em pleno século XXI grande parte do País continua refém de dogmas eclesiásticos e porque continua a faltar coragem para afrontar aquela que representa o lóbi dos lóbis - a Santa Madre Igreja….

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O melhor mesmo é estar calado

José Oliveira e Costa, o antigo presidente do Banco Português de Negócios e da sinistra Sociedade Lusa de Negócios não prestou declarações ou esclarecimentos durante a comissão de inquérito parlamentar sobre o processo de nacionalização do BPN, invocando para tal o estatuto de arguido.

Para quê chatear-se, pergunto eu?
Ele, um ex-governante, demonstra com esta atitude o respeito que a casa por excelência da democracia lhe merece. E relembre-se, foi como Governante que cozinhou todas as mordomias que viria mais tarde a beneficiar no sector privado. E ainda dizem que o crime não compensa. Força Portugal.....

domingo, 11 de janeiro de 2009

Eu quero ser campeão! (round 14) Sporting 2 Marítimo 0

O Leão sobe ao trono e é líder pelo menos por um dia numa vitória importantíssima para a equipa. Um desaire faria com que toda a imprensa especulasse sobre os efeitos nocivos da entrevista de Soares Franco a meio da semana. Questão que quanto a mim nem sequer devia ser colocada. O clube está estável e os jogadores são pagos para jogar futebol. Não para se melindrarem por palavras de presidente indeciso. A sensação que tenho é que o próprio Filipe Soares Franco não sabe muito bem o que quer fazer e daí ter resolvido agitar as águas. O curioso é que até se perfilam no horizonte candidaturas mais credíveis que a dele próprio.
Quanto ao jogo um resultado certo, sendo que na sua parte final, por falta de maior frieza de grande parte dos seus jogadores, a coisa podia ter assumido repercussões perigosas para a equipa. Felizmente apareceu o 31 do costume…….