domingo, 18 de janeiro de 2009
Se houvesse degraus na terra…
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
Herberto Hélder
sábado, 17 de janeiro de 2009
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
My Blueberry Nights
Desde Chungking Express, magnífico filme de culto dos anos 90 que existe sempre grande curiosidade sobre o que anda a fazer Wong Kar Wai.Na sequência de In the Mood for love, (2000) e de 2046 (2004) Wong Kar Wai procura explorar em My Blueberry Nights filme de 2007, desta vez com outras personagens, o mesmo universo onírico que incide sobre a improbabilidade do amor.
Não obstante isso, My Blueberry Nights que somente visionei agora em DVD, ganha sobremaneira com as presenças poderosas de Norah Jones, Jude Law e uma participação especialíssima de Cat Power (ver e ouvir abaixo) num dos melhores momentos do filme. A boa notícia é que Wong Kar Wai continua a sua busca incessante na esperança de encontrar uma solução para o amor.....
A Igreja
A resposta é simples: Porque em pleno século XXI grande parte do País continua refém de dogmas eclesiásticos e porque continua a faltar coragem para afrontar aquela que representa o lóbi dos lóbis - a Santa Madre Igreja….
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
O melhor mesmo é estar calado
Para quê chatear-se, pergunto eu?
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
domingo, 11 de janeiro de 2009
Eu quero ser campeão! (round 14) Sporting 2 Marítimo 0
Quanto ao jogo um resultado certo, sendo que na sua parte final, por falta de maior frieza de grande parte dos seus jogadores, a coisa podia ter assumido repercussões perigosas para a equipa. Felizmente apareceu o 31 do costume…….
sábado, 10 de janeiro de 2009
A alegria
Um presente brindado, uma prudência sentida, um pato escondido, uma luz luzidia.
Uns olhos deleitados, um sono trocado, uma mágoa desarmada, um momento angustiado.
Um contentamento descontente, porque a tristeza é a alegria dos pobres…..
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Wembley
Com 90 mil lugares sentados depois da remodelação de que foi alvo em 2006 é o maior estádio totalmente coberto do mundo. Em termos de capacidade somente é superado na Europa pelo Camp Nou em Barcelona com os seus 98 934 lugares.Genuína catedral do futebol onde o jogo se transforma sempre uma festa para os adeptos - independentemente de se ganhar ou perder - é onde anualmente se disputa a mais velha competição futebolística do mundo: A histórica taça de Inglaterra de futebol hoje denominada FA Cup. Um tour turístico ao lendário estádio permite tocar e fotografar o mítico troféu.....

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
As cidades de Londres
Para fazer frente à normal ebulição de uma cidade onde circulam diariamente milhões de pessoas o sistema de transportes públicos instalado, apesar de caro para quem os utiliza, é de uma imensidão impressionante, sendo aparentemente eficaz e funcional com periodicidades satisfatórias e períodos de funcionamento bastante alargados.
Na capital inglesa fica-se com a sensação que para um nível de emprego um pouco menos qualificado, mesmo com a actual crise, não deverá haver grande dificuldade em arranjar trabalho. A cidade com toda a sua vivacidade natural vive subordinada à lógica dos serviços desde a hotelaria às mais variadas lojas de todo o tipo de produtos. E consumidores para isso não faltam, de facto.Saliente-se que a Inglaterra, e a região de Londres especificamente, já se tornaram num dos destinos de emigração privilegiados para os portugueses que vão à procura de um futuro mais risonho fora do País de origem.
A cidade tem uma vida cultural e artística proporcional à sua própria dimensão. Estou convencido que um mês integral não seria suficiente para visitar todos os museus e galerias que valem a pena ser vistos em Londres, sem falar claro dos espectáculos e peças em cena, por exemplo, na Broadway Londrina.É em alguns aspectos uma cidade bastante dispendiosa mas o facto de muitos dos museus terem as suas colecções permanentes abertas gratuitamente ao público - deixando ao critério de cada um, a quantia a deixar depositado numas das caixas colocadas estrategicamente para esse efeito à saída - é sinónimo de uma civilização cultural infelizmente ainda muito distante do nosso Portugal democrático.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
A Realpolitik
Quem escreve
num ébrio barco de calma confiança.
Quem escreve quer dormir em ombros matinais
e na boca das coisas ser lágrima animal
ou o sorriso da árvore. Quem escreve
quer ser terra sobre terra, solidão
adorada, resplandecente, odor de morte
e o rumor do sol, a sede da serpente,
o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,
o negro meio-dia sobre os olhos.
António Ramos Rosa
domingo, 4 de janeiro de 2009
Eu quero ser campeão! (round 13) Setúbal 0 Sporting 2
Apesar das minhas palavras de indignação no início da época contra João Moutinho, o qual continuo a achar - se houvesse bom senso - não deveria envergar a braçadeira de capitão e para provar que não sou pessoa de guardar ressentimentos, elejo-o indiscutivelmente como melhor em campo. É a inteligência ao serviço do colectivo, um pêndulo decisivo na dinâmica da equipa. Tem feito a época em crescendo e quando Rogmagnoli se eclipsa, Veloso e Rochemback se arrastam preguiçosamente, só nos podemos mesmo socorrer das pilhas inacabáveis do puto.….
sábado, 3 de janeiro de 2009
Caos Calmo
Realizado por Antonello Grimaldi, "Caos Calmo" é protagonizado pelo notabilíssimo realizador e actor Nanni Moretti que colaborou também na adaptação do argumento, escrito a partir do premiado romance com o mesmo nome de Sandro Veronesi.Com a visualização deste filme torna-se inevitável a comparação com o Quarto do Filho realizado por Moretti e Palma de Ouro de Cannes em 2001 que abordava a perda de um filho na perspectiva de um casal. Aliás registo a coragem da realização de Grimaldi ao aceitar dirigir o consagrado Nanni Moretti como actor, o que não deverá ser nada fácil. No entanto não passa mesmo disso, de um acto de coragem.
O filme tem um início prometedor com a presença habitualmente acutilante de Moretti alicerçada na genial concepção que suporta o citado livro de Veronesi. Uma ideia simples do escritor e como se sabe as coisas simples são as mais belas. Consiste a narrativa numa obcecada demonstração de afecto de um extremoso Pai pela sua filha que decide após o falecimento da sua mulher passar os dias no jardim à frente da escola primária da pequena, abdicando inclusive de continuar a deslocar-se ao seu emprego, esperando-a dia após e dia, e demonstrando-lhe assim que não está disposto a perde-la de vista nem por um minuto. Nesta fase em crescendo do filme destaco um momento absolutamente delicioso em que Pai e Filha dissertam sobre Palíndromos que são frases ou palavras que têm a propriedade de poderem ser lidas, tanto da direita para a esquerda, como da esquerda para a direita, numa “Morettináda” das melhores….
Acontece que depois de um portentoso começo, Grimaldi perde o rumo ao valorizar personagens e situações menos interessantes deixando fugir a oportunidade de criar algo memorável, acabando por perder a dimensão prometida.
Todavia não deixa de ser um filme emotivo o qual recomendo fortemente, que vale sobretudo pela entusiasmante interpretação de Moretti…….
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
A Capital da Europa
domingo, 28 de dezembro de 2008
O 2009
No que diz respeito ao ano novo, o que se passou recentemente na Grécia pode ser um sinal prenunciador para o futuro. Sinal esse, não necessariamente negativo. Das revoltas sociais nasce sempre a crença e a esperança num mundo melhor. E o mundo, bem necessita de ventos de mudança!Entretanto, neste admirável País à beira-mar plantado haverão eleições em Catadupa em 2009, no entanto podem ficar descansados que mais Magalhães menos Magalhães tudo continuará na mesma como a lesma....
Um excelente 2009 para todos são os desejos do Indígena que por aqui vai continuar a "hipocrisar"….
O 2008
Chegados ao fim de mais um ano e na antecâmara de 2009 é tempo de balanços, antevisões, etc e tal. O hipocrisias indígenas - qual carneiro mal morto - segue disciplinadamente o resto da carneirada….
Assim em 2008, o mais marcante em termos internacionais foi sem dúvida a derrocada daquilo que na generalidade se convencionou chamar de capitalismo - eu prefiro chamar-lhe umbiguismo - que veio desiludir drasticamente quem nele confiou sem restrições.
Parece que finalmente estamos a perceber que o egoísmo desenfreado que norteia as nossas vidas e que se reflecte em todos os aspectos da nossa existência não está a funcionar como devia. Esta ganância generalizada torna-se visível na competitividade feroz sentida a todos os níveis desta sociedade selvagem em que vivemos e também na gritante incapacidade de nos colocarmos na pele do nosso vizinho do lado.
Um excelente retrato do umbiguismo no seu melhor é a simples constatação de que o âmago da actual crise está centrada precisamente na desconfiança e no pavor que os banqueiros têm uns dos outros, não estimulando a concessão de crédito dentro do próprio sistema bancário. Ninguém arrisca hoje um milímetro mesmo sabendo que a médio prazo esse risco será recompensado com melhorias ao nível da conjuntura económica que a todos beneficiará.
A humanidade nos dias que correm valoriza sobretudo o hoje - querendo todos alcançar tudo, já e agora - sendo a natureza humana incapaz de temporizar determinados objectivos com vista a atingir benefícios futuros mais equitativamente distribuídos.
2008 teve ainda um protagonista relativamente inesperado que abriu novos caminhos para a palavra esperança. Falo de Barack Obama.
Em Portugal destaco a consagração dos Contemporâneos como novo fenómeno mediático, conquistando muito meritoriamente a "bota de ouro" do humor aos até aqui inigualáveis Fedorentos…...
sábado, 27 de dezembro de 2008
O abandono
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Do they know it's christmas time / Salvem os ricos
Continuem dedicadamente a ajudar os milionários! A nobre nação Lusitana agradece.
Boas Festas....
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Um Natal Português
Depois, um bacalhauzinho cozido com todos numa situação de desemprego, regado com uma desigualdade social de fazer inveja a um qualquer visitante pois é com certeza de uma casa portuguesa que falamos.
Na sobremesa, um fondue de greves estrategicamente coladas ao fim de semana para inverter os históricos e malfadados índices de produtividade.
Para finalizar o repasto - a acompanhar o inevitável café feito na nespresso da ordem (claro está) - um chocolatinho recheado de hipocrisia com um cálice de megalomania reinante para rematar uma refeição que celebra festivamente a Portugalidade….
domingo, 21 de dezembro de 2008
Eu quero ser campeão! (round 12) Sporting 0 Académica 0
Empate comprometedor na véspera da paragem de inverno que deixa a massa adepta com uma azia muito pouco natalícia. O que a equipa fez na 2.ª parte até justificava algo mais. Existem dois aspectos dignos de registo:- Hélder Postiga tem sido uma desilusão. Porventura esforça-se mais do que era expectável, mas além de se revelar muito perdulário com as consequências nefastas que isso representa para a equipa, não tem trazido a qualidade técnica que prometia.
- Só o insondável íntimo de Paulo Bento poderá esclarecer os motivos de Pipi Romagnoli estar 64, repito, 64 minutos em campo sem acrescentar rigorosamente nada de produtivo ….
sábado, 20 de dezembro de 2008
A alienação natalícia (a minha)
Ides, ide todos invadir os centros comerciais com a vossa ganância despudorada incapaz de enfrentar o periclitante coxear duma Rena cadavérica.
A loucura do homem começa onde acaba a noção do absurdo. A noção do absurdo acaba onde começa a loucura humana.
E eu, um mero terráqueo, onde me situo no meio desta desenfreada demência?
Como um Pai Natal eternamente desalinhado, decerto adormecerei embriagado numa descida vertiginosa dentro de uma qualquer chaminé em ruínas…
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
As palavras
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Mala Noche
Mala Noche é o primeiro filme realizado por Gus Van Sant - cineasta que muito aprecio - e um dos poucos que eu ainda não tinha visto. Filmado a preto e branco em 16 milímetros no ano de 1985 permaneceu inédito na Europa até 2006 com excepção de algumas projecções pontuais em festivais.O filme nasceu da adaptação do diário íntimo de Walt Curtis e passa-se em Portland, Oregon. Um homem (Walt Curtis) apaixona-se perdidamente por Johnny, um emigrante mexicano clandestino que não fala uma palavra de inglês e ainda nem fez 18 anos...
Ainda trago na memória a frase absolutamente arrasadora que marca indelevelmente o último Vant Sant de 2007 e que sintetiza de forma brilhante toda a sua obra:
«Nunca ninguém está preparado para Paranoid Park»........
O Caçador de ilusões
Seguia persistentemente no encalço das suas presas indo ao encontro dos seus instintos mais primários. A fantasia alheia era a alvo a abater
Defendia com intransigência o mundo das megalomanias mais despudoradamente desviantes. Nunca prometia nada que não soubesse cumprir. Agia de forma persecutória perante todos os que perdiam tempo sonhando com conjunturas infrutíferas.
Julgava-se detentor de uma razão impossível de contestar com credibilidade. Sentia-se acima da lei.
Até que numa caçada aparentemente normal um prestigiado caçador da razão acertou-lhe em cheio no peito com uma bala assassina. Desnorteado caiu hirto no chão. Por um momento o Caçador de ilusões tentou agarrar-se à ilusão de continuar vivo renegando tudo o que sempre preconizou. Infelizmente para ele, a ilusão tinha boa memória…...
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
In-I.flv - Juliette Binoche e Akram Khan
Juliette Binoche anda actualmente empenhada num espectáculo de dança contemporânea com o bailarino e coreógrafo britânico Akram Khan que elogiou a coragem e tenacidade da actriz francesa, de 44 anos. "Ela sempre quis dançar" e "não se deixou intimidar", diz o bailarino sobre Binoche que até aqui nunca dançara em palco.....
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
A Inveja
O que tenho eu em comum com um Jornalista Iraquiano de nome Muntadar al-Zaidi?
Nada, mesmo, nada!
Eu nunca fui consequente nos meus intentos contra Bush. Além de possuir o pecado capital da inveja, não passo de um valente cobardolas…
domingo, 14 de dezembro de 2008
O Fado
como luz que resplandece em cada novo dia,
o mar que espreita no cruzar do horizonte
nos entretantos desmistificados duma qualquer vida.
Planícies de bravura em terra sem pão
como ternura marítima em animais vadios.
Os poderosos versam sobre a cor do dinheiro
em círculos sinistros que prenunciam a podridão do rio.
Portugal de Merda, porque me persegues?
Vendes-te amiúde como uma reles Puta.
Enquanto alimentas as tuas vacas sagradas
deixa-me amar os meus descansadamente.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Melhor que nada
A vida vivida da vidinha tinha-se encarregue de o isolar do resto da humanidade. Sonhava com o dia em que a solidão deixasse de ser a sua única companhia….
Um dia descobriu um homem estátua, que dia após dia o ouvia pacientemente sem nunca o interromper. Tinha encontrado a sua cara metade. Sempre era melhor que nada….
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Somos todos Gregos
Os Gregos estão na rua. A revolta juvenil agudiza a crise social. A rebelião alastra a todos os sectores da sociedade, dizem.
Quem sabe se não estaremos na génese de um novo Maio, maduro Maio, quarenta anos depois?
No fundo falamos dos grandes propulsores do pensamento universal que ainda hoje sustenta a cultura ocidental e onde sempre residiu o berço da Civilização. Talvez por isso percebam primeiro que os restantes Povos o que está, hoje, verdadeiramente em causa…..
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Esta é a Cidade
Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.
Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.
Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.
Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descansa,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.
Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!
António Gedeão – Pseudónimo de Rómulo de Carvalho
sábado, 6 de dezembro de 2008
O Sabor da Melancia
Tsai Ming-Liang, realizador originário da Malásia, apresentou-nos em 2006 O Sabor da Melancia cuja recente visualização me desiludiu bastante. Retinha como referência deste cineasta oriental, o Rio, extraordinário filme de 1997 que me tinha ficado na memória e em que a acção se passava igualmente no Taiwan.Apesar de continuar a cultivar com pertinácia toda a solidão a que se entregam habitualmente as suas personagens, Ming-Liang mais não faz do que repetir fórmulas anteriormente utilizadas tentando explorar um universo sexual, desta feita, pouco original e apelativo.
No sentido de atenuar o pouco interesse do filme o realizador tenta dispersar as atenções transformando-o num hipotético musical, mas mesmo nesse campo os resultados são, a meu ver, pouco estimulantes para o espectador.….
Eu quero ser campeão! (round 11) Estrela da Amadora 1 Sporting 3
A insistência na dupla Rochemback – Miguel Veloso no miolo só se pode justificar face à inexistência de alternativas mais consistentes. Aliás quanto a mim o meio campo é de longe o grande busílis desta equipa.
Entretanto uma possível vitória na próxima terça-feira em Basileia permitiria somar doze pontos equivalentes a 4 vitórias na Champions. Que bom seria para uma equipa com esta média de idades…..
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
A excentricidade
Numa época em que o dinheiro do Zé Povinho parece somente servir para salvar bancos, banquinhos e banqueiros, a RTP anunciou um pouco envergonhadamente que já está acordada a terceira série dos Contemporâneos.Uma notável extravagância deste nosso erário público ao disponibilizar-se para desviar recursos daquela que tem sido ultimamente a sua principal função:
O casaco démodé
Saía de casa pela manhã com o seu precioso casaco vestido. Dia após dia, à medida que o rigor do inverno encarnava nos seus desgastados ossos emudecidos pelas agruras do tempo, subia mais um pouco o fecho até ficar completamente cerrado.
Compartilhou ao longo dos anos segredos e momentos inolvidáveis de felicidade com a sua jaqueta sem nunca a abandonar.
Vivia agora o chamado descanso do guerreiro. Entrava diariamente na carruagem do comboio com um ar triunfante. Sorria, ainda, às moçoilas reluzentes na esperança de somar um último triunfo no campo dos afectos que lhe preencheria o ego de forma desmesurada.
Tinha a perfeita consciência que o seu estimado casaco estava fora de moda há muito mas foi questão que nunca o preocupou sobremaneira. A própria vida não estava para modas.
Sabia que não encontraria mais ninguém com um casaco igual ao seu porque a natureza humana tornara-se previsível em demasia…..
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Eu quero ser campeão! (round 10) Sporting 2 Guimarães 0
No regresso ao campeonato na ressaca da insólita e copiosa derrota com o poderoso Barcelona em Alvalade para a Liga dos Campeões num jogo estranho em que ficou visível a ingenuidade e juventude da equipa, o Sporting venceu o Vitória de Guimarães de forma meritória e sem encontrar grande resistência por parte dos vitorianos, valha a verdade.A insistência de Paulo Bento em Leandro Grimi depois da traumatizante exibição na última quarta-feira - para quem como eu assistiu - do lateral esquerdo argentino está muito para além da minha limitada compreensão táctica. Ainda para mais quando tem Ronny disponível que sendo um jogador imaturo a defender, encaixa perfeitamente no onze para os jogos em casa quando defrontamos equipas de valor teoricamente inferior. O treinador emendou a mão já na segunda parte mas para isso suceder foi necessário o rato Grimi ver um cartão amarelo…
Quanto ao mais, a equipa controlou sempre o jogo. Outro aspecto negativo surgido nos últimos jogos foi o regresso da insegurança de Rui Patrício que ilusoriamente pareceu em determinada altura estar definitivamente ultrapassada.
A esperança para os próximos jogos é o regresso de um Vukcevic interessado somente em jogar futebol. Imagino que deve ser mesmo para isso que aufere uma remuneração mensal. O Sporting necessita com urgência de uma “abre-latas” ao estilo do Montenegrino….
sábado, 29 de novembro de 2008
A Manela e o Zé
Já escrevi aqui ainda que muito sucintamente acerca de Manuela Ferreira Leite. Mas tão original criatura merece um pouco mais de dedicação deste imberbe escriba. É de facto um acontecimento inusitado nestes tempos que correm a entrega da liderança de um partido político da área do poder em Portugal a alguém com semelhante perfil.
Ferreira Leite como Ministra das Finanças assumiu, e foi o rosto de algumas medidas impopulares mas obrigatórias, tendo efectuado trabalho de rigor e contenção numa fase complicada para as finanças do País sendo independentemente de tudo o resto uma mulher de coragem possuindo personalidade desalinhada face a muitas das hipocrisias indígenas vigentes; idiossincrasia essa com que me identifico obviamente em grande parte. Do outro lado da fotografia surge-nos uma pessoa pouco aberta ao que se passa ao seu redor, com dificuldades em aceitar a normal evolução social nos costumes, pouco tolerante para com a diferença, mediocremente retrógrada…
À parte disso, a gincana idiota e sem regras em que se tornou o jogo político do século XXI não deixa espaço para que se diga a verdade sem contemplações, como tentou recentemente Ferreira Leite fazer ainda que de forma atabalhoada, ao dar a entender que hoje em dia não há espaço para grandes espíritos reformadores derivado às inevitáveis pressões mediáticas a que todos os Políticos estão sujeitos. E isso é tão evidente quanto demolidor para as sociedades actuais. No entanto a forma escolhida para se expressar revelou-se como se sabe desastrosa. Aliás, aquilo não se chama ironia, chame-se tiro no pé....
Como resultado dessa e de outras preciosidades de igual calibre vejo a pertinência de ter alguém como Ferreira Leite como líder partidária ao mesmo nível que veria por exemplo Zezé Camarinha como presumível candidato a Ministro da Cultura, isto se me faço entender….
O mais curioso e mesmo insólito nestas circunstâncias é o facto de alguém com as características de Ferreira Leite pactuar com este nível de exposição e as consequências que daí advém. É óbvio que foi pressionada para avançar para a liderança, desafio ao qual numa primeira fase conseguiu declinar. Ao aceitar conscientemente essas responsabilidades, mesmo que sob evidente pressão, tornou-se prisioneira de si própria.
Não significa esta reflexão que Manuela Ferreira Leite não possa chegar um dia a chefe de Governo. Duvido que chegue. Com o meu contributo não será certamente mas basta lembrar os casos de António Guterres e Durão Barroso, ambos amplamente e precipitadamente condenados por grande parte da opinião publicada antes de atingirem o governo. Inclusivamente o primeiro tinha o epíteto de Picareta Falante se bem se lembram….
Numa outra vertente parece afinal que o Zé deixou de fazer falta ao Bloco de Esquerda em Lisboa. Não conheço com grande detalhe o trabalho já desenvolvido por José Sá Fernandes como vereador democraticamente eleito em Lisboa mas vejo-o de facto como um cidadão empenhado em que se viva melhor na sua cidade que, imagino, gosta.Provavelmente houve situações no passado em que não demonstrou um equilíbrio sensato entre as suas ambições pessoais e aquilo que seria pragmaticamente melhor para a cidade, no entanto sendo um conhecedor profundo das problemáticas existentes e pessoa com notória sensibilidade para diversas matérias agradou-me a aproximação efectuada ao executivo de António Costa. Isto porque Lisboa não se pode dar ao luxo de desperdiçar recursos humanos com incontestáveis conhecimentos ao nível dos problemas que apoquentam realmente os Munícipes, ainda para mais numa fase em que as finanças e os diversos dossiers jurídicos pendentes na Câmara não são motivadores para que apareça gente com qualidade disponível para trabalhar na sua recuperação e credibilização.
Mas falemos da posição política assumida pelo Bloco de Esquerda:
O BE (BÉ para os amigos) achou sempre muito bem as posições assumidas pelo Vereador quando se limitavam a ser do contra, e por isso mais susceptíveis de proporcionarem relevo mediático. Agora que o homem resolveu ajudar a construir algo, trabalhando lado a lado com que de direito, resolve retirar-lhe o apoio político.
Deixo para os estudiosos da ciência política esta aversão histórica do Bloco de Esquerda a tudo o que cheira a poder, o que nos deixa muito tranquilos relativamente à vaga hipótese de algum dia serem alternativa para alguma coisa em Portugal. Talvez nesse dia, Francisco Louça – pessoa que sinceramente admiro – se lembre de fugir apavorado do País…..
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
O Kamikaze Sonhador
Sonhou, sonhou, sonhou sem hesitar. Abdicou de tudo pelo seu sonho.
Até que um dia sonhou que era Kamikaze e nunca mais acordou…...
Um Natal Proletário
Ao que parece as grandes Instituições que tornaram este País grandioso como por exemplo o BCP - em caso de dúvida perguntem ao filho do Jardim Gonçalves (por curioso lapso da primeira vez escrevi em caso de dívida, em vez de dúvida ….) - vão deixar no corrente ano de apostar na quadra que se aproxima prescindindo de patrocinar a gigantesca árvore de natal que habitualmente congestiona o terreiro do paço.Será que a Banca deixou mesmo de acreditar no Pai Natal? Ou pretendem substituí-lo pelo Pai Sócrates, que como se sabe é amigo de seu amigo?
O que não deixa de ser estranho é que o homem de barba banca que mais tem sido recordado ultimamente é mesmo Karl Marx. É caso para dizer, Pais Natal de tudo o mundo, uni-vos……
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Lisboa
no seu coração profundo de alicerces
de argilas e de sísmicos arroios - cresce uma voz
que sobe e fende a brandura das casas
da escrita dos enumeráveis povos quase
nada resta - deitas-te exausto na lâmina da lua
sem saberes que o tejo te corrói e te suprime
de todas as idades da europa
mais além - para os lados do corpo - permanece
a tosse dos cacilheiros os olhos revirados
dos mendigos - o tecto onde um navio
nos separa de um vácuo alimentado a soro
plátanos brancos recortam-se luminescentes no olhar
de quem nos olha contra um céu desesperado - jardim
de iris açucenas palmeiras cobertas de rocio e
a ponte que nos leva aos campos do sul - lisboa
lugar derradeiro do riso
que já não te pode salvar do cemitério dos prazeres
e morres
carregado de tristezas e de mistérios - morres
algures
sentado numa praceta de bairro - o olhar fixo
no inferno marítimo das aves
Al Berto
A vida vivida da vidinha
numa existência vivida da alma
passa mais um dia resignado na vidinha….
domingo, 23 de novembro de 2008
A Turma
Com um nome bem mais interessante na denominação original do que na versão Portuguesa “Entre les murs” de Laurent Cantet, foi consagrado muito justamente este ano como Palma de Ouro em Cannes.No seguimento de Recursos Humanos de 1999 e de o Emprego do Tempo de 2001 (dois belíssimos filmes) Cantet continua a presentear as suas personagens com um realismo inexorável e entusiasmante.
Cineasta de excepção, procura com esta obra explorar o universo multicultural de uma grande cidade como Paris. Os códigos e as referências utilizadas pelas diferentes etnias são desvendadas de forma natural, sobrando ainda espaço para vivermos lado a lado com a amargura de um Professor perante os complexos reptos que lhe são lançados pelos seus rebeldes, pertinentes e sagazes alunos.
A referida turma é formada por actores não-profissionais que foram seleccionados entre alunos de uma escola dum bairro problemático da cidade luz com quem o realizador trabalhou todas as semanas sem excepção - durante um ano lectivo - em diversos ateliers de improvisação.
Um filme bastante actual face aos desafios que as políticas de educação no nosso País têm estado sujeitas em diversos prismas durante o presente ano de 2008. Talvez advenha daí a excelente adesão de público que o filme tem demonstrado, o que esperemos possa ser um bom sinal para um País cada vez mais multi-étnico no caminho de uma sociedade mais tolerante face à diversidade...
Eu quero ser campeão! (round 9) Naval 0 Sporting 1
Numa jornada absolutamente decisiva como resultado das três derrotas entretanto acumuladas houve direito a heroísmo de leão na Figueira da Foz.Paulo Bento pode muito bem ter ganho hoje uma equipa apesar da qualidade do jogo praticado continuar longe do que é exigido. Com excepção do jogo com o Porto para a taça - que até acabámos por perder - a equipa não tem conseguido apresentar um futebol acutilante e ambicioso. No entanto, só para que conste, eu sou daqueles que prefiro ganhar mal e porcamente por um a zero do que assistir a uma exibição de encher o olho sem vencer.
Como o verde será sempre a cor da esperança na próxima quarta-feira lá estaremos para ver Lionel Messi, Samuel Eto’o e companhia passarem um mau bocado em Alvalade – pelo menos assim o espero - apesar das inúmeras baixas que o Sporting certamente apresentará.
Relativamente ao jogo o segundo golo cruelmente desperdiçado por Liedshow quase no fim do mesmo daria, quanto a mim, maior justiça ao resultado. Quem reage como o Sporting reagiu a uma série de adversidades durante todo o encontro merecia mais essa recompensa.
Por outro lado, as expulsões incompreensíveis de dois jogadores experientes como são Derlei e Caneira deveriam ser alvo de um conduta disciplinar ao nível pecuniário por parte da SAD até porque ambos são reincidentes. Todavia relativamente a Derlei assinalo a seguinte questão:
O Jogador sempre teve mau feitio - não é de agora – mas nos tempos em que actuava no FCP não era tantas vezes expulso, isto se bem me lembro. Talvez os apitos nessa época fossem mais dourados e menos propensos a julgamentos precipitados?.....
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Porquê, só agora?
José Oliveira e Costa, ex-secretário de Estado de um dos governos do Professor Cavaco, fundador do grupo Sociedade Lusa de Negócios que integra o BPN, foi hoje detido na sequência de buscas domiciliárias efectuadas a duas das suas residências por suspeita de burla agravada, falsificação de documentos, fraude fiscal e branqueamento de capitais.
Saliento que este homem foi Secretário de Estado de Assuntos Fiscais, uma área pela qual nutre, claramente, especial predilecção….
Mas porque é que Justiça em Portugal anda sistematicamente a reboque dos media e dos assuntos que estão na ordem do dia?
Mas porque é que a actuação da Justiça em Portugal está sujeita a critérios de oportunidade? Recordo-me da primeira detenção de Vale e Azevedo em que se aguardou que a Excelência deixasse de ser presidente de um clube de futebol para poder ser detido e constituído arguido….
E como é que os cidadãos de um estado constitucionalmente de direito podem ter confiança numa justiça que age desta forma?....
A detenção de Oliveira e Costa, tardiamente efectuada, somente serve para descredibilizar ainda mais um sistema que já não tinha credibilidade.
A Procuradoria-Geral da República tenta com esta operação defender o indefensável e justificar o que não tem justificação…….
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
terça-feira, 18 de novembro de 2008
A Agonia
Possuía uma eloquência arrebatadora que oprimia qualquer tentativa de supremacia intelectual. Era um vencedor por natureza.
Um dia percebeu que estava a sufocar lentamente. Descomprimiu, repousou, pensou que podia voltar a ser quem foi mas aquele desespero inquietante nunca mais o abandonou. A sua luta terminou nesse momento.
Compreendeu assim que a agonia não estava para brincadeiras…..
domingo, 16 de novembro de 2008
A Notícia
Parece que PSP deteve hoje 30 membros da claque organizada do Benfica ““No Name Boys” tendo apreendido droga e tochas incendiárias.
Acontece que os serviços noticiosos das televisões têm dado destaque de abertura a este assunto. O mesmo se passa com os principais jornais online. No meu entender trata-se de uma questão absolutamente menor que não devia dar mais que uma nota de rodapé.
Clubismos à parte, constato que no fundo a verdadeira notícia é o facto dos rapazes sem nome, meros energúmenos imbecis, serem dignos deste destaque informativo. Isso sim, é notícia….
sábado, 15 de novembro de 2008
Eu quero ser campeão! (round 8) Sporting 0 Leixões 1
Quando os dois melhores jogadores da equipa não rendem – Liedson e Izmailov – as probabilidades de vencer diminuem exponencialmente.
Numa prova de regularidade quando não se consegue ganhar seria importante não perder….
No entanto, ainda não é tempo de atirar a toalha ao chão.....
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Pennyroyal Tea – Nirvana
Podia mencionar Last Days do enormíssimo Gus Van Sant mas é preferível ficar com o último fôlego de um condenado pela voz e corpo do próprio........
Filosofia de época
A castanha assada já não é o que era.
Não tem problema, as pessoas também nunca são o que parecem…….
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
A Bíblia
Guardava religiosamente a bíblia dentro da gaveta na mesa de cabeceira. Aliás, tinha uma bíblia escondida em cada divisão da casa.
Declamava religiosamente cada versículo com uma paixão exacerbada até à exaustão. Mesmo na casa de banho não dispensava a leitura dos ensinamentos do Senhor.
Acreditava religiosamente na verdade do que lia. Nunca pôs em causa qualquer das orientações sugeridas pelo Todo-Poderoso.
Desacreditava religiosamente que fosse algum dia pecar, pois o pecado era mau conselheiro.
Confiava religiosamente no objecto da sua fé. Ausentava-se somente para assistir à missa, levando sempre consigo a bíblia debaixo do braço.
Um dia, enquanto o Pároco da aldeia celebrava a missa, morreu de forma repentina. Religiosamente..….
Tabacaria
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas.
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos – Heterónimo de Fernando Pessoa
terça-feira, 11 de novembro de 2008
O Oásis de Jardim
Alberto João Jardim continua imparável e leva assim ao extremo o seu próprio conceito de avaliação dos professores.
Sem tempo para discussões que isso são mariquices de democracias enfraquecidas e com base em critério de um exemplar rigor....
O Professor Cavaco, mais uma vez, assobia para o ar...................
Força Portugal!
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
O Tapete Voador
Documentário realizado pelo sempre interessante João Mário Grilo, ao qual assisti recentemente no DocLisboa.Remete-nos para a milenar tradição da tecelagem de tapetes numa extraordinária e maravilhosa viagem a um mundo improvável e desconhecido.
As filmagens deste documentário decorreram no Irão – Teerão, Shiraz, Esfahan e Kashan, em Londres – Casa Museu Sigmund Freud e em Lisboa especialmente no Museu Nacional de Arte Antiga durante a exposição O Tapete Oriental em Portugal. Tapete e Pintura, séculos XV-XVIII.
Existe no filme um longo travelling, absolutamente fascinante, filmado numa Mesquita Iraniana. Mas o que mais impressiona é a dedicação consagrada pelos artesãos e artesãs à complexa arte de produção dos famosos tapetes.
A cena final do Documentário onde uma Senhora Iraniana recrimina a equipa de filmagem é absolutamente lapidar e a perfeita síntese do que se pretende transmitir com o mesmo.
Apesar de os Tapetes serem um tema pelo qual não tenha particular interesse ou sinta especial curiosidade não posso deixa de salientar o grande trabalho realizado por João Mário Grilo e a sua equipa, nesta viagem, por um universo tão particular….
O homem que sabia demais
Encarava sempre cada desafio como se fosse o último, aproveitando o tempo para alimentar os seus doutos conhecimentos que o levaram a ser reconhecido mundialmente por possuir uma versatilidade ímpar, sendo constantemente requisitado para receber os mais variados prémios em múltiplas áreas.
Certo dia conheceu a mulher que criava demais e num ápice tudo mudou na vida do homem que sabia de mais.
Num momento mágico e após uns segundos de inspirador silêncio, empurrado por uma coragem que desconhecia ter, o homem que sabia demais acariciou com os seus graciosos dedos os lábios da mulher que criava demais. Após uns segundo em que os olhos lacrimejantes de emoção se contemplaram mutuamente os lábios de ambos aproximaram-se, envolvendo-se num beijo interminavelmente escaldante.
Num abrir e fechar de olhos, e perante o reflexo do espelho cintilante desenhado nas águas do Oceano, as mãos do homem que sabia demais deslizavam pela doce pele do deslumbrante corpo da mulher que criava demais. Os seus lábios extasiados percorriam o pescoço, os seios da mulher que criava demais perante os sussurros de prazer desta. Entregues sem contemplações à fogueira da paixão, as roupas de ambos pareceram voar para a eternidade, tal foi a velocidade a que foram despidas.
Enrolados pela areia húmida e sob o testemunho cúmplice de um luar luminoso os dois corpos fundiram-se num só alcançando em momentos o êxtase absoluto.
Dessa relação abençoada nasceu passados 9 meses aquele que viria a ser denominado anos mais tarde como o Homem que fazia demais.
Na senda dos seus progenitores prosseguiu de forma exemplar o brilhantismo herdado. Era um executor por excelência. Minucioso, ficou conhecido pela sua capacidade de fazer diversas coisas ao mesmo tempo, sem nunca perder o foco revelando sempre uma invulgar e elevada competência.
O Homem que sabia demais e a Mulher que criava demais tiveram ainda mais uma filha que ficou conhecida como a mulher que sentia demais.
Uma hipersensibilidade sem igual granjeou-lhe fama e fortuna tendo sido inclusivamente considerada a Rainha das Emoções. Dominava o Reino dos sentimentos com obstinação. Era a susceptibilidade em pessoa sem nunca demonstrar um mínimo sinal de racionalidade.
O homem que sabia demais e a mulher que criava demais separaram-se ao fim de 20 anos quando o pessimismo resultante do conhecimento empírico da realidade circundante do primeiro começou a esbarrar sistematicamente no optimismo proporcionado pela frutuosa imaginação criativa da segunda.
Passado aproximadamente um mês da separação, ambos vieram a falecer com um intervalo de uma semana.
Descobriu-se então que a arte e o saber, o saber e a arte, não sobrevivem por si sem coexistirem pacificamente de forma harmoniosa.
O homem que sabia demais sempre soube que a morte seria o seu fim….
sábado, 8 de novembro de 2008
A emoção do vento que sopra
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
A Profecia
A vitória de Barack Obama nas eleições americanas é uma excelente noticia para a humanidade em geral e para os jovens em particular.É um sinal incontestável que vivemos num mundo mais tolerante, mais plural que começa finalmente a deixar de parte divisões estéreis e inúteis.
As distinções sociais alicerçadas na cor de pele têm definitivamente os dias contados e isso é uma coisa extraordinária.
Para mim na mesma noite houve dois negros que me deram duas alegrias imensas. Derlei - o mágico - em Alvalade e Obama - o salvador - do outro lado do atlântico. Com evidências desta magnitude não podia mesmo ter quaisquer tendências racistas.
Ainda que tudo à sua volta seja demasiado encenado, Barack Obama possui uma capacidade de comunicação brilhante. O seu discurso de vitória é uma justa homenagem a todas as vítimas indefesas que tombaram na luta pelos direitos humanos.
Vai ser o presidente mais protegido na história da humanidade. Com a derrota dos republicanos ficaram muitos ódios reprimidos que podem explodir a qualquer momento.
Independentemente desta oportuníssima réstia de esperança no futuro da humanidade e de sentir uma alegria, ainda que efémera, pela morte politica do repugnante W. Bush não acredito, como já referi aqui, que algo de essencial mude com esta eleição.
A sociedade em que vivemos continuará a premiar o egoísmo e o umbiguismo. Continuará a valorizar a superficialidade das aparências. Continuará numa incessante caminhada rumo ao absoluto vazio.…
Concluindo, é absolutamente imprescindível hoje para mim recordar as palavras proféticas de Robert F.Kennedy quando em 1968 vaticinou que passados 40 anos haveria um Presidente negro nos Estados Unidos da América.
É necessário conhecer muito bem a terra que se pisa e ao mesmo tempo ser um profundo conhecedor da natureza humana para se proferir uma afirmação com essa longitude que passados precisamente 40 anos se cumpre em toda a sua plenitude.
E 40 anos foi demasiado tempo…….
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
A Santa Aliança
Podem rejubilar, a partir de agora o BPN é de todos nós.
Um presente antecipado para toda a população anunciando o natal que se aproxima. Um verdadeiro acto de puro altruísmo de quem nos vem governando….
Um regabofe, esta negociata nascida das intimas relações estabelecidas no âmbito do Bloco Central de interesses que vem dominando e já agora envenenando Portugal desde os primórdios da democracia.
O governo socialista resolveu dar a mão, neste caso muito pouco invisível, ao BPN que foi literalmente dizimado até ao actual estado de insustentabilidade e insolvabilidade financeira em que se encontra por ex-governantes, todos ligados ao PSD, limpando assim o Governo para debaixo do tapete toda a porcaria acumulada por esses senhores. Os nomes dos visados são do conhecimento público
Esta pérfida medida governamental, de um Governo amigo do seu amigo, vem simplesmente realçar o carácter promíscuo de toda esta gente que nos tem governado ou desgovernado ao longo dos anos….
O mais chocante, quanto a mim, é que não se vislumbrou no meio das declarações proferidas quer pelo Governo quer pelo Governador do Banco de Portugal até ao momento um mínimo sinal de repreensão (ou condenação) aos responsáveis por esta efectiva agressão aos cofres do estado e consequentemente ao bolso do pobre contribuinte…
Mais um dia normal de Alice no Pais da Maravilhas. Viva Portugal.….
domingo, 2 de novembro de 2008
Um fim do dia com José Sócrates (ou como transformar uma excelente ideia inicial numa enfadonha obsessão)
Tomei o pequeno-almoço com o Ministro Magalhães com o objectivo de agilizar os procedimentos para expedição dos Magalhães para África. Depois estive numa reunião com o Assessor Magalhães onde preparámos a cerimónia de entrega de mais uns Magalhães numa escola. Seguidamente almocei com o gestor da empresa fornecedora do Magalhães tendo a conversa consistido em saber que mais podemos fazer para produzir um maior número de Magalhães no mais curto espaço de tempo possível. Depois fui fazer uma conferência solicitada pelo Presidente Magalhães para dar a conhecer os benefícios trazidos pelo Magalhães ao mundo....
Vem querida, vem deitar-te aqui com o Magalhães.
Porreiro, pá!….
Eu quero ser campeão! (round 7) Rio Ave 0 Sporting 1
O verdadeiro resultado foi Rio Ave - 0 Liedson - 2 mas somente 1 dos 2 golos facturados pelo levezinho é que contou.Aliás gostava que alguém me dissesse com precisão quantos golos limpos é que já foram injustamente invalidados ao brasileiro no decorrer dos 6 anos que está em Portugal? Os dedos de ambas as mãos não sei se seriam suficientes para essa contabilização…
Mas o mais importante é que foi uma vitória alcançada com toda a justiça, em terreno difícil, num jogo crucial para as aspirações da equipa. Diria mesmo que com esta vitória recuperamos os 2 pontos perdidos na passada semana em Paços de Ferreira.
Em suma, foi a classe, determinação e a tenacidade de um incansável lutador que fazendo uso da sua habitual abnegação RESOLVEU o que tinha de ser RESOLVIDO!...






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