terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Carta a um Embrião

Querido Embrião,

A partir do momento que soube da tua iminente chegada a minha vida deu uma volta do cacete pá! Uma coisa é um gajo imaginar como será, outra é ter a certeza. Fiquei um pouco apreensivo ao início que esta treta da responsabilidade é lixada. Talvez venhas a perceber mais tarde do que te falo.
Até ao teu nascimento já tenho tudo delineado ao mais ínfimo pormenor. Já pensei mil vezes em tudo o que tenho de ter em casa para te receber. Algumas das coisas que faço são bem estranhas. Por exemplo para o dia em que resolveres aparecer já fiz uma espécie de reconstituição no computador e tudo (uma reconstituição só que à priori, percebes?) que isto de trazer um (a) piolho (a) para casa a primeira vez, tem que se lhe diga!
Mas estou desejoso de limpar a tua caca, pá, e sonho com o dia em que me vais começar a lixar a moina!...

Olha pá, vais ser sócio(a) do Sporting. Parece uma coisa um pouco arbitrária, eu sei. Deixa lá, como perdemos mais vezes do que ganhamos sempre dá para ir moldando o carácter. A mãe torce por outros. Que se lixe, de qualquer das formas começas já a perceber desde cedo que nada neste mundo é perfeito.
Ainda não tens nome. Nem sequer sabemos o teu sexo. Por mim, se saíres rapaz chamar-te-ia Pipi Romagnoli, um jogador dos leões, mas a mãe diz que não pode ser. É capaz de ter razão. Um nome argentino pode não dar muito jeito quando te fores inscrever no fundo de desemprego.
Se saíres menina, talvez Afrodite (a deusa do amor), a julgar pelo que tencionamos mimar-te.
O mais provável é logo que soubermos o teu sexo fazermos por eliminatórias como o Nanni Moretti (um maluco de um italiano, depois apresento-te) até chegarmos a um nome consensual no fim.
Gostava que fosses tu a escolher o teu nome quando crescesses, mas dizem que não pode ser. Não te preocupes pá, o nome também não conta para grande merda…

Apesar de para nós ainda seres um adorável feijãozinho parece que para a idade estás bem desenvolvido! Pelo menos é o que afirma a Médica - dizem que é boa. Eu como sou um bocado céptico com tudo (vais perceber com o tempo) quando venho para casa vou sempre confirmar tudo o que ela diz.
Estás quase, quase a ser Feto. Nesta fase a barriga do Pai continua a ser maior que a da Mãe mas com o tempo a coisa é capaz de se inverter. Tenho pesquisado desalmadamente acerca do teu desenvolvimento. Até já sei o que é o cérvix, vê lá! Não te preocupes, vai tudo correr pelo melhor....

Antes que me esqueça, deixa-me desde já esclarecer-te uma coisa:
Este mundo não é o sítio mais indicado para viver mas a Mãe e o Pai não têm qualquer culpa disso. Fomo-nos adaptando às circunstâncias. Com o tempo vais perceber que grande parte dessa culpa se deve aos americanos. Fica desde já sabendo que para o teu Pai, em caso de dúvida, a culpa é sempre dos cabrões dos Americanos. Mas por lá também há gente boa como o Jarmusch, o Waits ou o Van Sant! E agora até falam que um tal de Obama é capaz de mudar as coisas, mas o Pai não acredita muito nessas histórias…

Desde que soube da tua vinda não mais deixei de pensar em ti. O meu nível de concentração é nos dias que correm proporcional ao de um cão raivoso. De dia ou de noite a minha mente acompanha-te até às profundezas da alma. Tudo o que faço tem o teu perfil desenhado como fundo.
No outro dia, quando a mãe dormia, fui sorrateiramente escutar-te. Estavas a dormir tranquilamente. Sonhavas provavelmente com os prazeres do mundo etéreo. Depois vais perceber, quando já tiveres deste lado, que o mundo não é assim tão bom como parece. Inclusive, dizem que até já teve dias melhores, mas o mais importante é que adorei escutar o teu silêncio pois é do seu pulsar que me alimento nesta poeira dos dias…..

Por mim ias nascer a Espanha. Este Portugal arruína-nos lentamente como escrevia a Sophia, contudo parece que não há grande vantagem nisso. Caso se concretizasse tenho a certeza que mais tarde me ias agradecer, mas deixa, quando cresceres piras-te daqui para fora. Era o que eu devia ter feito se tivesse juízo, digo-te!
Vou-te escrevendo, pá! Desculpa falar assim de ti, declaradamente, sem o teu consentimento mas estou feliz! E sempre dá para me ir entretendo até resolveres aparecer. De qualquer das formas também nunca escrevi merda nenhuma de jeito.

Por isso te escrevo, através desta chama que me alimenta, e sigo os contornos da tua silhueta como se lesse uma pauta de música erudita.

Por isso te escrevo, arrebatando estas palavras ao vento, como se fosses o derradeiro sustento desta serena força que me ultrapassa.

Por isso te escrevo, com este aperto de quem anseia receber-te nos braços, como se fosses o único ponteiro que norteia as minhas horas.

Por isso te escrevo, debaixo desta luz que me incendeia, e lembro o tremor do teu coração como se fosse meu.

Por isso te escrevo, com esta angústia de quem te espera, e derramo a brisa destas palavras pelo negrume da escuridão.

Por isso te escrevo, com esta emoção avassaladora que me transcende.
Serás o sangue na minha carne, a carne no meu sangue, o esplendor da minha vida. Amar-te-ei, até que a morte nos separe….

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Os Papelotes

Nunca choraremos bastante
termos querido ser belas
à viva força
eu quis ser bela
e julguei que para ser bela
bastava usar canudos
pedi para me fazerem canudos
com um ferro de frisar e papelotes
puxaram-me muito pelos cabelos
eu gritei
disseram-me para ser bela
é preciso sofrer
depois o cabelo queimou-se
não voltou a crescer
tive de passar a andar com uma peruca
para ser bela é preciso sofrer
mas sofrer não nos faz forçosamente belas
um sofrimento não implica como consequência
uma recompensa
uma dor de dentes pode comover a nossa mãe
que para nos consolar sem saber de quê
nos dá um rebuçado
mas o rebuçado ainda nos faz doer mais os dentes
a consequência de um sofrimento
pode ser outro sofrimento
a causa é posterior ao efeito
o motivo do sofrimento é uma das consequências
do sofrimento
os papelotes são uma consequência da peruca

Adília Lopes

Eu quero ser campeão! (round 17) Sporting 2 Braga 3

Quando o adversário demonstra inequívoca superioridade táctica há muito pouco a dizer. Podíamos falar de falta de sorte nos momentos cruciais. Podíamos argumentar que o Braga é uma excelente equipa. Podíamos dizer que na dúvida as decisões da arbitragem foram sempre prejudiciais mas o que diz a realidade é que estamos igualados com o Leixões à 17.ª Jornada.
Eu queria ser campeão mas com titulares indiscutíveis com as performances evidenciadas por Rochemback parece que o meu desejo não passa mesmo de um sonho inexequível. Relembre-se que o brasileiro foi a grande contratação do defeso.
Paulo Bento com este inicio catastrófico de segunda volta - ele que em termos de campeonato tinha precisamente nas segundas voltas o seu forte – pode até fazer uma gracinha na Liga dos Campeões ou vencer mesmo a pouco prestigiante taça da liga mas manterá sempre os eternos problemas que todos os sportinguistas já conhecem. E hoje levou um vastíssimo banho táctico, ainda por cima de alguém chamado Jesus…

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Milk

Saí do último filme de Gus Vant Sant - estreou a semana passada - a pensar que tinha sido precisamente aquilo que estava à espera, nem mais, nem menos. O que significa obviamente que o filme não me entusiasmou por aí além.
A minha relativa desilusão nasce da profunda admiração que tenho por toda a obra de Vant Sant. Mesmo o mais mainstream “O bom rebelde” ou até “Finding Forrester” deram origem a extraordinários argumentos excepcionalmente trabalhados pelo Realizador. Assim, estaria talvez à espera de algo mais surpreendente, sendo que os filmes biográficos transformam-se muitas vezes em obstáculos restritivos à criatividade dos próprios cineastas.
Saliento que a interpretação de Sean Pean é sem dúvida fabulosa e merecedora verdadeiramente de todos os louvores e hipotéticas distinções.
O filme vale também – o que já não é nada pouco - pela mensagem de esperança e tolerância que o legado de Harvey Milk cultivou. A sua luta contra o preconceito foi e é extraordinariamente inspiradora num tempo em que os direitos de toda uma comunidade ainda não estavam de nenhuma forma reconhecidos. E se ainda hoje existe algum estigma relativamente à homossexualidade, imagine-se há 30 anos.
É pois um filme que aborda a mais genuína das liberdades individuais e pouco haverá de mais importante que isso…

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A Família

Chegavam em bandos alegremente. Umas vezes distribuíam um beijinho, outra vez dois, conforme os destinatários. Logo aí demonstravam uma ambivalência insinuante. Eram sempre interesseiramente adaptáveis às circunstâncias.
Guardavam uma distância de segurança face aos desalinhados. Esses podiam pôr perigosamente em causa a sua superficialidade doentia e a sua incapacidade para se comprometerem com algo de concreto.
No fundo, todos juntos constituíam uma família. Eram todos originários da mesma paróquia….

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A Chuva

Falam da chuva como se a chuva fosse a única coisa verdadeiramente importante nas suas vidas.
O tempo de quem já não tem muito tempo é passado a dissertar sobre o tempo….

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O Duelo

Assisti arrebatado no Domingo de manhã, no decorrer da final do Open da Austrália, a mais um episódio da apaixonante rivalidade que une Rafael Nadal - actual número um do mundo - e o já lendário Roger Federer - o devorador de títulos.
Para me lembrar de um outro combate desta dimensão tenho que recuar aos tempos em que o francês Alan Prost e o malogrado Ayrton Senna me alegravam com os seus empolgantes duelos nos grandes prémios de fórmula 1.

Não existe paralelo actualmente no desporto mundial para tão estratosférico, como alguns lhe chamam, embate. O Espanhol todo ele força, empenho, dedicação. O Suíço mais técnico, mais intuitivo, mais prudente.
Aliás esta junção destes dois atletas representa muito mais que um simples confronto desportivo. Caracteriza duas formas distintas de estar, duas concepções diferentes da vida, das coisas, do mundo. De um lado a fúria emocional do coração, do outro a frieza inabalável da razão.
Por tudo isto estes duelos entre ambos elevam-se hoje a uma categoria à parte no desporto mundial e oferecem espaço para todo o tipo de comentários e análises provenientes dos mais variados contextos. Até um leigo como este escriba, se acha no direito de opinar....

Em mais uma épica final de 5 sets o tenista espanhol voltou a levar a melhor em Melbourne. Apesar de Federer - confesso, o meu preferido - ter ganho o quarto set fiquei com a estranha sensação que tal como em Wimbledon no ano passado Nadal iria vencer. E isto por uma simples razão:
Rafael de 22 anos está no apogeu das suas capacidades e Federer de 27 anos já assimilou psicologicamente a superioridade física do Espanhol de forma profunda. As suas lágrimas de desespero e frustração no final do jogo ajudam a confirmar essa evidência. Como grandes parte dos comentadores afirmaram, a luta de Federer - que é mais completo e melhor jogador que o Espanhol - era contra ele próprio e não contra Nadal. Eu concordo sobremaneira com essa análise.

Duvido que Nadal alguma vez consiga coleccionar os 13 torneios do Grand Slam de Federer. O até há pouco imbativel "relógio" suíço está somente a uma vitória do record de Pete Sampras.
Em Roland Garroes o único Grand Slam que Roger não conquistou e que dificilmente conquistará devido às próprias características do seu jogo pouco condizente com a terra batida, Nadal, se tudo correr normalmente, passeará a sua inequívoca superioridade.
Porém, em Julho pode ser que os Deuses do Olimpo nos proporcionem a exultação de juntar novamente os dois em Wimbledon para mais uma jornada gloriosa.…

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Eu quero ser campeão! (round 16) Trofense 0 Sporting 0

Num jogo absolutamente desesperante, o Sporting não soube ser feliz. Faltou discernimento e faltou sorte, e quando assim é, dificilmente se pode aspirar a algo mais.
Equipas que jogam como o Trofense, super defensivas e sempre no encalço do zero a zero deviam perder sempre.
Se todos partilhassem a vontade de ganhar que tem Vuckevic, agora que finalmente parece estar interessado em exercer somente a sua profissão, o desfecho final seria decerto outro.
Caso se confirme a suposta venda de Miguel Veloso, saliento que das duas vacas gordas que pastam no meio campo ficamos com a pior. Veloso faz falta em alguns jogos apesar da sua notória irregularidade. Quanto a Rochemback, o melhor é não me alongar muito….
Apesar de actualmente a equipa continuar a depender de si própria, o meu desejo de ser campeão só fará sentido subsistir se vencermos os 3 próximos jogos – Braga em casa, Belém fora e Benfica em casa - o que à partida não parece tarefa acessível mas a cor da esperança foi, é e será sempre verde…

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A Oportunidade

Tentava sempre antecipar os cenários mais improváveis. Era um mestre na retórica superficial. A oportunidade era o seu fim, o seu objecto, a sua forma de vida, o seu único desígnio.
Era um jogador de longo alcance. Aspirava um dia a tornar-se universal. Os elogios, frequentes, mas localizados e sem assídua expressão mediática, deixava a sua imensa ambição descontente. O seu Ego suspirava por mais.
A permanente busca de protagonismo transformava-o num temido caçador de jornalistas. Tinha relações privilegiadas com inúmeros, os quais recebia sempre com grandes reverências. Alguns, inclusivamente, tratava por tu. Chegava ao ponto de idealizar esquemas no sentido de promover entregas de prémios especiais a jornalistas, utilizando os seus exemplares mecanismos de persuasão para esse efeito. Vivia na expectativa de ver as suas excessivas cortesias ressarcidas no futuro.
Por vezes antecipava o próprio pensamento. Um dia, sentindo que estava a envelhecer paulatinamente sem concretizar os seus ávidos objectivos, arriscou tudo.
Acabou condenado ao ostracismo.

O seu sentido de oportunidade acabou por o apunhalar pelas costas….

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A Intriga

Não morro de amores por José Sócrates como já demonstrei aqui e aqui, no entanto as actuais inconsistências à volta do caso freeport levam a uma inevitável e quanto a mim óbvia consideração:
Não será demasiada coincidência a tal carta enviada pelas autoridades britânicas à Procuradoria-Geral da República chegar a Portugal em 19 de Janeiro de 2009, sete anos depois dos factos a que se refere, e precisamente no auge da mediatização e do consequente desgaste a que Sócrates tem estado sujeito?
Serei somente eu a constatar este acontecimento extraordinário?
Talvez alguns assessores de alguma agência de “lóbis” com ligações a algumas figuras proeminentes da política portuguesa possam responder a esta questão…

Sócrates é um pragmático ambicioso, demasiado ambicioso aliás. Admiro algum do seu pragmatismo e determinação mas abomino a sua ambição desmedida. Quis subir depressa e conseguiu chegar ao topo rapidamente. É uma definição um pouco ambígua esta – eu sei - mas facilmente compreensível,
Aliás a forma como terminou a célebre licenciatura já era premonitória relativamente à sua forma de trabalhar. Actua sempre nos limites da legalidade explorando oportunisticamente as diversas conjunturas que lhe vão sendo propiciadas. Um simples cidadão comum perfeitamente integrado nesta sociedade dita moderna, portanto….
Parece que conseguiu no caso freeport ultrapassar as limitações ambientais em tempo record, mas dentro dos limites que a lei lhe permitia. E daí, pergunto eu?
Parece que tem uns primos com características bem portugueses que tentaram utilizar o seu nome numa espécie de tráfico de influências através de e-mail. E o resto do País que faz uso desse expediente impunemente, todos os dias, em todos os sectores da sociedade, sem qualquer pudor?...

Numa perspectiva mais politica, José Sócrates, hábil estratega, parece medir atentamente as consequências que todos estes episódios vão criando.
Não será plausível, mas também não é impossível, que face a novos hipotéticos desenvolvimentos José Sócrates - extremando a estratégia da vitimização - possa pedir a demissão obrigando Cavaco a dissolver o parlamento e marcar eleições antecipadas. Algo que apesar de representar um risco acentuado, derivado dos nefastos reflexos que o caso pode ter no seu eleitorado, vai ao encontro do que certamente já tinha equacionado na sequência do previsível agravamento da crise económica. Não tinha contudo argumentos para, até aqui, provocar esse putativo desenlace….

Como conclusão saliento que um País assim - onde reina a intriga, a corrupção, a desconfiança generalizada, as conspirações ocultas, onde o sistema de justiça anda a reboque de jogos palacianos - não pode merecer qualquer tipo de credibilidade por parte dos seus atónitos cidadãos….

O País infelizmente é isto, nada mais que isto, e quem pensa o contrário é tolo...Força Portugal!...


quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Paraíso

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir.
Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

David Mourão-Ferreira

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

A Islândia

Havia o unanimemente elogiado exemplo irlandês. Agora há o exemplo islandês, um País de papel….

Logo a Islândia, exemplo de civilização vanguardista, em inúmeras situações considerado como um dos melhores Países do mundo em vários indicadores estando agora mergulhado numa profunda crise social com o colapso do seu sistema bancário. Assiste-se, inclusive, actualmente a agressões contra alvos políticos e a um aumento generalizado de fenómenos como o racismo e o vandalismo.

Esperemos que a excepcional música que têm oferecido ao mundo seja suficiente para salvar a Islândia do delírio dos seus governantes….

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O Orgulho

O azedume que lhe corria na alma deixava-lhe a língua petrificada. O silêncio era a sua arma mais letal. Não acreditava no futuro porque o amanhã era traiçoeiro. O Orgulho era a sua bóia de salvação.....

As Canções de Amor

As Canções de Amor começa exactamente onde “Em Paris”, filme anterior de Christophe Honoré realizado em 2006 tinha terminado. A atraente cidade do Sena aparece-nos sempre como pano de fundo para a narrativa delineada por Honoré.
O musical, género cinematográfico que admito não me cativa particularmente, aparece-nos aqui ressuscitado. Cada vez que isso sucede lembro-me sempre do memorável "Dancer in the Dark", de Lars Von Trier que foi palma de ouro de Cannes em 2000. Um extraordinário filme com a islandesa Björk como actriz principal ao lado de Catherine Deneuve.
Dividido em três actos - a partida, a ausência e o recomeço -, As Canções de Amor começa por se centrar num triângulo amoroso que é destruído pela súbita morte de uma das jovens que o constitui. O filme segue a partir daí os percursos dos outros dois protagonistas em especial de Ismael, personagem central do filme, que na tentativa de refazer a sua vida depois da morte da companheira experimenta diversos relacionamentos na expectativa de encontrar uma rápida panaceia para superar a tragédia recente.
Filme com alguns planos interessantes onde a musica tem um papel preponderante e cuja banda sonora é uma surpresa agradável deixa-nos com alguma curiosidade relativamente a projectos futuros de Christophe Honoré

domingo, 25 de janeiro de 2009

Eu quero ser campeão! (round 15) Nacional da Madeira 1 Sporting 1

Finalmente um bom espectáculo de futebol! No virar para a 2.ª volta o Sporting escorregou na Choupana e deixou a passadeira azul estendida para o novo líder que ao que consta beneficiou de empurrãozinho amigo. Por outro lado, na Madeira um empurrãozinho de Abel que não faria mal a uma criança de 3 anos foi suficiente para assinalar uma penalidade máxima. Singularidades da Liga Portuguesa…..
Contra uma excelente equipa comandada pelo grande mentor do Machadês os leões de Lisboa fizeram exibição bem razoável em que pecaram somente na finalização faltando a tal estrelinha de campeão que brilhou em Braga. Que pena aquela bola de Moutinho aos 91 minutos. Contudo tem que se referir que na segunda parte - com tudo a seu favor depois de a primeira ter acabado da melhor forma - o Sporting tinha obrigação de ganhar o jogo. E isso não sucedeu essencialmente porque o Pastelão Rochemback - que até tinha efectuado uma boa primeira parte - se eclipsou em definitivo não tendo Paulo Bento, talvez por falta de alternativas, efectuado a substituição que obviamente se impunha.
Está tudo em aberto para a segunda volta no entanto é claro que as cinco jornadas seguintes serão fundamentais para as aspirações dos três crónicos candidatos..…

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A Demência

Partilhava com a chuva o seu habitual descontentamento.
Mexia atabalhoadamente nas moedas que sobravam no bolso procurando um sentido para a sua loucura. O seu acentuado nervosismo era proporcional à sua inteligência. A forma como os pensamentos se acotovelavam na sua lúgubre mente faziam há muito antever o pior.
Até que um dia, nas suas constantes deambulações, abeirou-se de uma árvore em cujo cimo um pequeno rouxinol castanho cantava. Aí, desarmado pela beleza proporcionada pela simbiose perfeita entre os trinados fluidos da ave e uma imensa vegetação primaveril encontrou finalmente um sentido para a sua demência……

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A Inquietude

Ouvia ao longe os pássaros na expectativa de um sinal libertador. De quando em quando falava consigo próprio. Ouvir as suas próprias palavras ajudava-o a ultrapassar a alienação generalizada que o perseguia.
Hesitava na tomada de posição. Porquê melindrar o outro, pensava?
A humanidade sempre percorreu o seu caminho sem necessidade de discussões vãs. A frontalidade não passa de uma excentricidade estéril totalmente prescindível. A omissão é a melhor forma de ludibriar a realidade das coisas porque as coisas sempre foram sensíveis ao sentido de oportunidade, meditava....
As palavras surgiam-lhe desordenadas num frenesim louco.
Inquietava-se em demasia. Era esse o seu problema....

O Discurso

O discurso na noite da vitória foi mais arrebatador que o da tomada de posse, não acham?
Sem dúvida, o gajo que escreve os discursos estava menos inspirado desta vez……

Que “a cabeça” o acompanhe são os sinceros votos de um pseudo-intelectual ateu!...

Pó de arroz – Carlos Paião

domingo, 18 de janeiro de 2009

A Indiferença

Passava os dias entregue a um negrume proveniente da imensidão dos seus pensamentos. Congelava as emoções quando todos os outros as empolavam. Vivia de forma desapaixonada. A própria sobrevivência era estranhamente indiferente….

Se houvesse degraus na terra…

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Hélder

sábado, 17 de janeiro de 2009

A Fábrica


Duas vezes o melhor do mundo em apenas 7 anos.....

Curva-te Portugal em sinal de gratidão e resigna-te à tua inevitável insignificância…...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

My Blueberry Nights

Desde Chungking Express, magnífico filme de culto dos anos 90 que existe sempre grande curiosidade sobre o que anda a fazer Wong Kar Wai.
Na sequência de In the Mood for love, (2000) e de 2046 (2004) Wong Kar Wai procura explorar em My Blueberry Nights filme de 2007, desta vez com outras personagens, o mesmo universo onírico que incide sobre a improbabilidade do amor.
Independentemente dos filmes se interligarem harmoniosamente entre si - sempre apoiados em extraordinárias bandas sonoras - em Disponível para Amar (In the Mood for love) as elipses são mais apetecíveis, os silêncios mais elucidativos e por isso o filme surge-me mais pujante que My Blueberry Nights.
Não obstante isso, My Blueberry Nights que somente visionei agora em DVD, ganha sobremaneira com as presenças poderosas de Norah Jones, Jude Law e uma participação especialíssima de Cat Power (ver e ouvir abaixo) num dos melhores momentos do filme. A boa notícia é que Wong Kar Wai continua a sua busca incessante na esperança de encontrar uma solução para o amor.....

A Igreja

Porque é que declarações tão lamentáveis como as proferidas por D. José Policarpo e amplamente difundidas e comentadas, quer nos media, quer na blogosfera, não são objecto de reparo por alguém com responsabilidades ao nível governativo ou por alguém ligado à presidência da república, por exemplo? Repara-se que desta vez não foi um pároco de aldeia como habitual a exceder-se, mas sim o Cristiano Ronaldo do Catolicismo Português.
A resposta é simples: Porque em pleno século XXI grande parte do País continua refém de dogmas eclesiásticos e porque continua a faltar coragem para afrontar aquela que representa o lóbi dos lóbis - a Santa Madre Igreja….

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O melhor mesmo é estar calado

José Oliveira e Costa, o antigo presidente do Banco Português de Negócios e da sinistra Sociedade Lusa de Negócios não prestou declarações ou esclarecimentos durante a comissão de inquérito parlamentar sobre o processo de nacionalização do BPN, invocando para tal o estatuto de arguido.

Para quê chatear-se, pergunto eu?
Ele, um ex-governante, demonstra com esta atitude o respeito que a casa por excelência da democracia lhe merece. E relembre-se, foi como Governante que cozinhou todas as mordomias que viria mais tarde a beneficiar no sector privado. E ainda dizem que o crime não compensa. Força Portugal.....

domingo, 11 de janeiro de 2009

Eu quero ser campeão! (round 14) Sporting 2 Marítimo 0

O Leão sobe ao trono e é líder pelo menos por um dia numa vitória importantíssima para a equipa. Um desaire faria com que toda a imprensa especulasse sobre os efeitos nocivos da entrevista de Soares Franco a meio da semana. Questão que quanto a mim nem sequer devia ser colocada. O clube está estável e os jogadores são pagos para jogar futebol. Não para se melindrarem por palavras de presidente indeciso. A sensação que tenho é que o próprio Filipe Soares Franco não sabe muito bem o que quer fazer e daí ter resolvido agitar as águas. O curioso é que até se perfilam no horizonte candidaturas mais credíveis que a dele próprio.
Quanto ao jogo um resultado certo, sendo que na sua parte final, por falta de maior frieza de grande parte dos seus jogadores, a coisa podia ter assumido repercussões perigosas para a equipa. Felizmente apareceu o 31 do costume…….

sábado, 10 de janeiro de 2009

A alegria

Uma felicidade contida, um suspiro em surdina, uma promessa desmedida, um livro por partilhar.

Um presente brindado, uma prudência sentida, um pato escondido, uma luz luzidia.

Uns olhos deleitados, um sono trocado, uma mágoa desarmada, um momento angustiado.

Um contentamento descontente, porque a tristeza é a alegria dos pobres…..

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Wembley

Com 90 mil lugares sentados depois da remodelação de que foi alvo em 2006 é o maior estádio totalmente coberto do mundo. Em termos de capacidade somente é superado na Europa pelo Camp Nou em Barcelona com os seus 98 934 lugares.
Genuína catedral do futebol onde o jogo se transforma sempre uma festa para os adeptos - independentemente de se ganhar ou perder - é onde anualmente se disputa a mais velha competição futebolística do mundo: A histórica taça de Inglaterra de futebol hoje denominada FA Cup. Um tour turístico ao lendário estádio permite tocar e fotografar o mítico troféu.....


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Chan chan – Buena Vista Social Club

As cidades de Londres

Londres tem 8 milhões de habitantes. Estima-se que a sua área metropolitana tenha 14 milhões. É uma metrópole com demasiada gente, talvez! Imagino que se deve tornar asfixiante em inúmeras situações viver de forma permanente numa cidade assim.

Para fazer frente à normal ebulição de uma cidade onde circulam diariamente milhões de pessoas o sistema de transportes públicos instalado, apesar de caro para quem os utiliza, é de uma imensidão impressionante, sendo aparentemente eficaz e funcional com periodicidades satisfatórias e períodos de funcionamento bastante alargados.

Na capital inglesa fica-se com a sensação que para um nível de emprego um pouco menos qualificado, mesmo com a actual crise, não deverá haver grande dificuldade em arranjar trabalho. A cidade com toda a sua vivacidade natural vive subordinada à lógica dos serviços desde a hotelaria às mais variadas lojas de todo o tipo de produtos. E consumidores para isso não faltam, de facto.
Saliente-se que a Inglaterra, e a região de Londres especificamente, já se tornaram num dos destinos de emigração privilegiados para os portugueses que vão à procura de um futuro mais risonho fora do País de origem.

A cidade tem uma vida cultural e artística proporcional à sua própria dimensão. Estou convencido que um mês integral não seria suficiente para visitar todos os museus e galerias que valem a pena ser vistos em Londres, sem falar claro dos espectáculos e peças em cena, por exemplo, na Broadway Londrina.
É em alguns aspectos uma cidade bastante dispendiosa mas o facto de muitos dos museus terem as suas colecções permanentes abertas gratuitamente ao público - deixando ao critério de cada um, a quantia a deixar depositado numas das caixas colocadas estrategicamente para esse efeito à saída - é sinónimo de uma civilização cultural infelizmente ainda muito distante do nosso Portugal democrático.

Cidade com inúmeras vidas integradas, desde a central Covent Garden a Chinatown bem no limiar de Soho, ao celebérrimo Nothing Hill passando pelo próprio Hyde Park com os seus admiráveis esquilos. Londres tem muitas cidades dentro, a aguardar descobertas…

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A Realpolitik

Palavras mais ouvidas na entrevista televisiva de José Sócrates:
"Desculpe!" e "dá-me licença?"...
Quem tiver paciência suficiente pode dar-se ao trabalho de confirmar!...

Quem escreve

Quem escreve quer morrer, quer renascer
num ébrio barco de calma confiança.
Quem escreve quer dormir em ombros matinais
e na boca das coisas ser lágrima animal
ou o sorriso da árvore. Quem escreve
quer ser terra sobre terra, solidão
adorada, resplandecente, odor de morte
e o rumor do sol, a sede da serpente,
o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,
o negro meio-dia sobre os olhos.

António Ramos Rosa

domingo, 4 de janeiro de 2009

Eu quero ser campeão! (round 13) Setúbal 0 Sporting 2

Paulo Bento vislumbrou pela primeira vez na última jornada, depois do decepcionante empate caseiro com a Académica, o cintilante brilho da estrelinha de campeão quando viu os seus adversários mais directos marcaram também passo, o que veio permitir à equipa continuar a depender de si própria na corrida pelo campeonato.
Ontem na visita a Setúbal uma vitória incontestável, mas muito consentida pelo adversário, em mais uma exibição pobre e descolorida do leão.
Apesar das minhas palavras de indignação no início da época contra João Moutinho, o qual continuo a achar - se houvesse bom senso - não deveria envergar a braçadeira de capitão e para provar que não sou pessoa de guardar ressentimentos, elejo-o indiscutivelmente como melhor em campo. É a inteligência ao serviço do colectivo, um pêndulo decisivo na dinâmica da equipa. Tem feito a época em crescendo e quando Rogmagnoli se eclipsa, Veloso e Rochemback se arrastam preguiçosamente, só nos podemos mesmo socorrer das pilhas inacabáveis do puto.….

sábado, 3 de janeiro de 2009

Caos Calmo

Realizado por Antonello Grimaldi, "Caos Calmo" é protagonizado pelo notabilíssimo realizador e actor Nanni Moretti que colaborou também na adaptação do argumento, escrito a partir do premiado romance com o mesmo nome de Sandro Veronesi.
Com a visualização deste filme torna-se inevitável a comparação com o Quarto do Filho realizado por Moretti e Palma de Ouro de Cannes em 2001 que abordava a perda de um filho na perspectiva de um casal. Aliás registo a coragem da realização de Grimaldi ao aceitar dirigir o consagrado Nanni Moretti como actor, o que não deverá ser nada fácil. No entanto não passa mesmo disso, de um acto de coragem.
O filme tem um início prometedor com a presença habitualmente acutilante de Moretti alicerçada na genial concepção que suporta o citado livro de Veronesi. Uma ideia simples do escritor e como se sabe as coisas simples são as mais belas. Consiste a narrativa numa obcecada demonstração de afecto de um extremoso Pai pela sua filha que decide após o falecimento da sua mulher passar os dias no jardim à frente da escola primária da pequena, abdicando inclusive de continuar a deslocar-se ao seu emprego, esperando-a dia após e dia, e demonstrando-lhe assim que não está disposto a perde-la de vista nem por um minuto. Nesta fase em crescendo do filme destaco um momento absolutamente delicioso em que Pai e Filha dissertam sobre Palíndromos que são frases ou palavras que têm a propriedade de poderem ser lidas, tanto da direita para a esquerda, como da esquerda para a direita, numa “Morettináda” das melhores….
Acontece que depois de um portentoso começo, Grimaldi perde o rumo ao valorizar personagens e situações menos interessantes deixando fugir a oportunidade de criar algo memorável, acabando por perder a dimensão prometida.
Todavia não deixa de ser um filme emotivo o qual recomendo fortemente, que vale sobretudo pela entusiasmante interpretação de Moretti…….

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

A Capital da Europa

Na continuação de alguns apontamentos sobre viagens efectuadas por este escriba, discorrerei em alguns posts sobre Londres.

Ficam desde já algumas imagens – muito frescas ainda - para aguçar o apetite....

domingo, 28 de dezembro de 2008

O 2009

No que diz respeito ao ano novo, o que se passou recentemente na Grécia pode ser um sinal prenunciador para o futuro. Sinal esse, não necessariamente negativo. Das revoltas sociais nasce sempre a crença e a esperança num mundo melhor. E o mundo, bem necessita de ventos de mudança!

Entretanto, neste admirável País à beira-mar plantado haverão eleições em Catadupa em 2009, no entanto podem ficar descansados que mais Magalhães menos Magalhães tudo continuará na mesma como a lesma....

Um excelente 2009 para todos são os desejos do Indígena que por aqui vai continuar a "hipocrisar"….

A Ponte


O 2008

Chegados ao fim de mais um ano e na antecâmara de 2009 é tempo de balanços, antevisões, etc e tal. O hipocrisias indígenas - qual carneiro mal morto - segue disciplinadamente o resto da carneirada….


Assim em 2008, o mais marcante em termos internacionais foi sem dúvida a derrocada daquilo que na generalidade se convencionou chamar de capitalismo - eu prefiro chamar-lhe umbiguismo - que veio desiludir drasticamente quem nele confiou sem restrições.
Parece que finalmente estamos a perceber que o egoísmo desenfreado que norteia as nossas vidas e que se reflecte em todos os aspectos da nossa existência não está a funcionar como devia. Esta ganância generalizada torna-se visível na competitividade feroz sentida a todos os níveis desta sociedade selvagem em que vivemos e também na gritante incapacidade de nos colocarmos na pele do nosso vizinho do lado.
Um excelente retrato do umbiguismo no seu melhor é a simples constatação de que o âmago da actual crise está centrada precisamente na desconfiança e no pavor que os banqueiros têm uns dos outros, não estimulando a concessão de crédito dentro do próprio sistema bancário. Ninguém arrisca hoje um milímetro mesmo sabendo que a médio prazo esse risco será recompensado com melhorias ao nível da conjuntura económica que a todos beneficiará.
A humanidade nos dias que correm valoriza sobretudo o hoje - querendo todos alcançar tudo, já e agora - sendo a natureza humana incapaz de temporizar determinados objectivos com vista a atingir benefícios futuros mais equitativamente distribuídos.

2008 teve ainda um protagonista relativamente inesperado que abriu novos caminhos para a palavra esperança. Falo de Barack Obama.
Em Portugal destaco a consagração dos Contemporâneos como novo fenómeno mediático, conquistando muito meritoriamente a "bota de ouro" do humor aos até aqui inigualáveis Fedorentos…...

sábado, 27 de dezembro de 2008

Joan Miró


O abandono

Agia com soberba, desprezando constantemente os mais incautos. A sua arma mais mortífera era o sarcasmo. Essa arte foi progressivamente aperfeiçoada nos bancos da escola das escolas, aquela que representa a excelência numa educação de vanguarda. Teve a felicidade de ser formado na universidade da vida.

Acabou os seus dias entregue à mais pura das solidões. Foi, desprezadamente, deixado ao abandono….

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Um Natal Português

Para abertura das hostilidades, umas azeitoninhas cobertas de uma incessante injustiça social apimentadas com uns pozinhos de enriquecimento ilícito.
Depois, um bacalhauzinho cozido com todos numa situação de desemprego, regado com uma desigualdade social de fazer inveja a um qualquer visitante pois é com certeza de uma casa portuguesa que falamos.
Na sobremesa, um fondue de greves estrategicamente coladas ao fim de semana para inverter os históricos e malfadados índices de produtividade.
Para finalizar o repasto - a acompanhar o inevitável café feito na nespresso da ordem (claro está) - um chocolatinho recheado de hipocrisia com um cálice de megalomania reinante para rematar uma refeição que celebra festivamente a Portugalidade….

domingo, 21 de dezembro de 2008

Verdes Anos – Carlos Paredes



Uma guitarra enamorada por Lisboa....

Eu quero ser campeão! (round 12) Sporting 0 Académica 0

Empate comprometedor na véspera da paragem de inverno que deixa a massa adepta com uma azia muito pouco natalícia. O que a equipa fez na 2.ª parte até justificava algo mais. Existem dois aspectos dignos de registo:
- Hélder Postiga tem sido uma desilusão. Porventura esforça-se mais do que era expectável, mas além de se revelar muito perdulário com as consequências nefastas que isso representa para a equipa, não tem trazido a qualidade técnica que prometia.
- Só o insondável íntimo de Paulo Bento poderá esclarecer os motivos de Pipi Romagnoli estar 64, repito, 64 minutos em campo sem acrescentar rigorosamente nada de produtivo ….

sábado, 20 de dezembro de 2008

A alienação natalícia (a minha)

Ides, ide todos invadir os centros comerciais com a vossa ganância despudorada incapaz de enfrentar o periclitante coxear duma Rena cadavérica.

A loucura do homem começa onde acaba a noção do absurdo. A noção do absurdo acaba onde começa a loucura humana.

E eu, um mero terráqueo, onde me situo no meio desta desenfreada demência?
Como um Pai Natal eternamente desalinhado, decerto adormecerei embriagado numa descida vertiginosa dentro de uma qualquer chaminé em ruínas…

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Mala Noche

Mala Noche é o primeiro filme realizado por Gus Van Sant - cineasta que muito aprecio - e um dos poucos que eu ainda não tinha visto. Filmado a preto e branco em 16 milímetros no ano de 1985 permaneceu inédito na Europa até 2006 com excepção de algumas projecções pontuais em festivais.
O filme nasceu da adaptação do diário íntimo de Walt Curtis e passa-se em Portland, Oregon. Um homem (Walt Curtis) apaixona-se perdidamente por Johnny, um emigrante mexicano clandestino que não fala uma palavra de inglês e ainda nem fez 18 anos...
Gus Vant Sant começava aqui a desenhar os contornos cintilantes da sua riquíssima filmografia. Num preto e branco visceral, mostra-nos através de um olhar e fotografia fulgurantes, os problemas com que se batem os imigrantes mexicanos nos Estados Unidos, vestindo as suas personagens com a habitual humanidade que invade todo o seu cinema.
Ainda trago na memória a frase absolutamente arrasadora que marca indelevelmente o último Vant Sant de 2007 e que sintetiza de forma brilhante toda a sua obra:
«Nunca ninguém está preparado para Paranoid Park»........

O Caçador de ilusões

Seguia persistentemente no encalço das suas presas indo ao encontro dos seus instintos mais primários. A fantasia alheia era a alvo a abater
Defendia com intransigência o mundo das megalomanias mais despudoradamente desviantes. Nunca prometia nada que não soubesse cumprir. Agia de forma persecutória perante todos os que perdiam tempo sonhando com conjunturas infrutíferas.
Julgava-se detentor de uma razão impossível de contestar com credibilidade. Sentia-se acima da lei.
Até que numa caçada aparentemente normal um prestigiado caçador da razão acertou-lhe em cheio no peito com uma bala assassina. Desnorteado caiu hirto no chão. Por um momento o Caçador de ilusões tentou agarrar-se à ilusão de continuar vivo renegando tudo o que sempre preconizou. Infelizmente para ele, a ilusão tinha boa memória…...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

In-I.flv - Juliette Binoche e Akram Khan



Juliette Binoche anda actualmente empenhada num espectáculo de dança contemporânea com o bailarino e coreógrafo britânico Akram Khan que elogiou a coragem e tenacidade da actriz francesa, de 44 anos. "Ela sempre quis dançar" e "não se deixou intimidar", diz o bailarino sobre Binoche que até aqui nunca dançara em palco.....

O Natal



segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A Inveja



O que tenho eu em comum com um Jornalista Iraquiano de nome Muntadar al-Zaidi?
Nada, mesmo, nada!
Eu nunca fui consequente nos meus intentos contra Bush. Além de possuir o pecado capital da inveja, não passo de um valente cobardolas…

domingo, 14 de dezembro de 2008

O Fado

País que se acrescenta em cada tristeza
como luz que resplandece em cada novo dia,

o mar que espreita no cruzar do horizonte
nos entretantos desmistificados duma qualquer vida.


Planícies de bravura em terra sem pão
como ternura marítima em animais vadios.


Os poderosos versam sobre a cor do dinheiro
em círculos sinistros que prenunciam a podridão do rio.


Portugal de Merda, porque me persegues?
Vendes-te amiúde como uma reles Puta.


Enquanto alimentas as tuas vacas sagradas
deixa-me amar os meus descansadamente.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Melhor que nada

Subia descansado a avenida na sua rotina diária.
Somente guardava das conversas alheias o que mais lhe convinha. Era um curioso moderado…

A vida vivida da vidinha tinha-se encarregue de o isolar do resto da humanidade. Sonhava com o dia em que a solidão deixasse de ser a sua única companhia….

Um dia descobriu um homem estátua, que dia após dia o ouvia pacientemente sem nunca o interromper. Tinha encontrado a sua cara metade. Sempre era melhor que nada….

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Somos todos Gregos

Os Gregos estão na rua. A revolta juvenil agudiza a crise social. A rebelião alastra a todos os sectores da sociedade, dizem.
Quem sabe se não estaremos na génese de um novo Maio, maduro Maio, quarenta anos depois?

No fundo falamos dos grandes propulsores do pensamento universal que ainda hoje sustenta a cultura ocidental e onde sempre residiu o berço da Civilização.
Talvez por isso percebam primeiro que os restantes Povos o que está, hoje, verdadeiramente em causa…..

Paranoid Android – Radiohead

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O Porto

Gosto imenso do Porto. Para ser perfeito só lhe falta mesmo o Sporting…

Esta é a Cidade

Esta é a Cidade, e é bela.

Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descansa,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!

António Gedeão – Pseudónimo de Rómulo de Carvalho

sábado, 6 de dezembro de 2008

O Sabor da Melancia

Tsai Ming-Liang, realizador originário da Malásia, apresentou-nos em 2006 O Sabor da Melancia cuja recente visualização me desiludiu bastante. Retinha como referência deste cineasta oriental, o Rio, extraordinário filme de 1997 que me tinha ficado na memória e em que a acção se passava igualmente no Taiwan.
Apesar de continuar a cultivar com pertinácia toda a solidão a que se entregam habitualmente as suas personagens, Ming-Liang mais não faz do que repetir fórmulas anteriormente utilizadas tentando explorar um universo sexual, desta feita, pouco original e apelativo.
No sentido de atenuar o pouco interesse do filme o realizador tenta dispersar as atenções transformando-o num hipotético musical, mas mesmo nesse campo os resultados são, a meu ver, pouco estimulantes para o espectador.….

Eu quero ser campeão! (round 11) Estrela da Amadora 1 Sporting 3

Uma péssima exibição na primeira parte com prolongamento até aos cinco minutos da segunda, momento em que o Levezinho “passou o recibo” mais uma vez ao seu compincha Nélson. A partir daí controlo total do jogo acabando o Sporting por justificar largamente a vitória no dia do regresso de Vuk, o rebelde, aos golos.
A insistência na dupla Rochemback – Miguel Veloso no miolo só se pode justificar face à inexistência de alternativas mais consistentes. Aliás quanto a mim o meio campo é de longe o grande busílis desta equipa.
Entretanto uma possível vitória na próxima terça-feira em Basileia permitiria somar doze pontos equivalentes a 4 vitórias na Champions. Que bom seria para uma equipa com esta média de idades…..

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A excentricidade

Numa época em que o dinheiro do Zé Povinho parece somente servir para salvar bancos, banquinhos e banqueiros, a RTP anunciou um pouco envergonhadamente que já está acordada a terceira série dos Contemporâneos.
Uma notável extravagância deste nosso erário público ao disponibilizar-se para desviar recursos daquela que tem sido ultimamente a sua principal função:
Premiar a incompetência e a ganância!.....

A Horta


O casaco démodé

Saía de casa pela manhã com o seu precioso casaco vestido. Dia após dia, à medida que o rigor do inverno encarnava nos seus desgastados ossos emudecidos pelas agruras do tempo, subia mais um pouco o fecho até ficar completamente cerrado.
Compartilhou ao longo dos anos segredos e momentos inolvidáveis de felicidade com a sua jaqueta sem nunca a abandonar.
Vivia agora o chamado descanso do guerreiro. Entrava diariamente na carruagem do comboio com um ar triunfante. Sorria, ainda, às moçoilas reluzentes na esperança de somar um último triunfo no campo dos afectos que lhe preencheria o ego de forma desmesurada.
Tinha a perfeita consciência que o seu estimado casaco estava fora de moda há muito mas foi questão que nunca o preocupou sobremaneira. A própria vida não estava para modas.
Sabia que não encontraria mais ninguém com um casaco igual ao seu porque a natureza humana tornara-se previsível em demasia…..

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Eu quero ser campeão! (round 10) Sporting 2 Guimarães 0

No regresso ao campeonato na ressaca da insólita e copiosa derrota com o poderoso Barcelona em Alvalade para a Liga dos Campeões num jogo estranho em que ficou visível a ingenuidade e juventude da equipa, o Sporting venceu o Vitória de Guimarães de forma meritória e sem encontrar grande resistência por parte dos vitorianos, valha a verdade.
A insistência de Paulo Bento em Leandro Grimi depois da traumatizante exibição na última quarta-feira - para quem como eu assistiu - do lateral esquerdo argentino está muito para além da minha limitada compreensão táctica. Ainda para mais quando tem Ronny disponível que sendo um jogador imaturo a defender, encaixa perfeitamente no onze para os jogos em casa quando defrontamos equipas de valor teoricamente inferior. O treinador emendou a mão já na segunda parte mas para isso suceder foi necessário o rato Grimi ver um cartão amarelo…
Quanto ao mais, a equipa controlou sempre o jogo. Outro aspecto negativo surgido nos últimos jogos foi o regresso da insegurança de Rui Patrício que ilusoriamente pareceu em determinada altura estar definitivamente ultrapassada.
A esperança para os próximos jogos é o regresso de um Vukcevic interessado somente em jogar futebol. Imagino que deve ser mesmo para isso que aufere uma remuneração mensal. O Sporting necessita com urgência de uma “abre-latas” ao estilo do Montenegrino….

sábado, 29 de novembro de 2008

A Manela e o Zé



Já escrevi aqui ainda que muito sucintamente acerca de Manuela Ferreira Leite. Mas tão original criatura merece um pouco mais de dedicação deste imberbe escriba. É de facto um acontecimento inusitado nestes tempos que correm a entrega da liderança de um partido político da área do poder em Portugal a alguém com semelhante perfil.
Ferreira Leite como Ministra das Finanças assumiu, e foi o rosto de algumas medidas impopulares mas obrigatórias, tendo efectuado trabalho de rigor e contenção numa fase complicada para as finanças do País sendo independentemente de tudo o resto uma mulher de coragem possuindo personalidade desalinhada face a muitas das hipocrisias indígenas vigentes; idiossincrasia essa com que me identifico obviamente em grande parte. Do outro lado da fotografia surge-nos uma pessoa pouco aberta ao que se passa ao seu redor, com dificuldades em aceitar a normal evolução social nos costumes, pouco tolerante para com a diferença, mediocremente retrógrada…
À parte disso, a gincana idiota e sem regras em que se tornou o jogo político do século XXI não deixa espaço para que se diga a verdade sem contemplações, como tentou recentemente Ferreira Leite fazer ainda que de forma atabalhoada, ao dar a entender que hoje em dia não há espaço para grandes espíritos reformadores derivado às inevitáveis pressões mediáticas a que todos os Políticos estão sujeitos. E isso é tão evidente quanto demolidor para as sociedades actuais. No entanto a forma escolhida para se expressar revelou-se como se sabe desastrosa. Aliás, aquilo não se chama ironia, chame-se tiro no pé....
Como resultado dessa e de outras preciosidades de igual calibre vejo a pertinência de ter alguém como Ferreira Leite como líder partidária ao mesmo nível que veria por exemplo Zezé Camarinha como presumível candidato a Ministro da Cultura, isto se me faço entender….
O mais curioso e mesmo insólito nestas circunstâncias é o facto de alguém com as características de Ferreira Leite pactuar com este nível de exposição e as consequências que daí advém. É óbvio que foi pressionada para avançar para a liderança, desafio ao qual numa primeira fase conseguiu declinar. Ao aceitar conscientemente essas responsabilidades, mesmo que sob evidente pressão, tornou-se prisioneira de si própria.
Não significa esta reflexão que Manuela Ferreira Leite não possa chegar um dia a chefe de Governo. Duvido que chegue. Com o meu contributo não será certamente mas basta lembrar os casos de António Guterres e Durão Barroso, ambos amplamente e precipitadamente condenados por grande parte da opinião publicada antes de atingirem o governo. Inclusivamente o primeiro tinha o epíteto de Picareta Falante se bem se lembram….

Numa outra vertente parece afinal que o Zé deixou de fazer falta ao Bloco de Esquerda em Lisboa. Não conheço com grande detalhe o trabalho já desenvolvido por José Sá Fernandes como vereador democraticamente eleito em Lisboa mas vejo-o de facto como um cidadão empenhado em que se viva melhor na sua cidade que, imagino, gosta.
Provavelmente houve situações no passado em que não demonstrou um equilíbrio sensato entre as suas ambições pessoais e aquilo que seria pragmaticamente melhor para a cidade, no entanto sendo um conhecedor profundo das problemáticas existentes e pessoa com notória sensibilidade para diversas matérias agradou-me a aproximação efectuada ao executivo de António Costa. Isto porque Lisboa não se pode dar ao luxo de desperdiçar recursos humanos com incontestáveis conhecimentos ao nível dos problemas que apoquentam realmente os Munícipes, ainda para mais numa fase em que as finanças e os diversos dossiers jurídicos pendentes na Câmara não são motivadores para que apareça gente com qualidade disponível para trabalhar na sua recuperação e credibilização.
Mas falemos da posição política assumida pelo Bloco de Esquerda:
O BE ( para os amigos) achou sempre muito bem as posições assumidas pelo Vereador quando se limitavam a ser do contra, e por isso mais susceptíveis de proporcionarem relevo mediático. Agora que o homem resolveu ajudar a construir algo, trabalhando lado a lado com que de direito, resolve retirar-lhe o apoio político.
Deixo para os estudiosos da ciência política esta aversão histórica do Bloco de Esquerda a tudo o que cheira a poder, o que nos deixa muito tranquilos relativamente à vaga hipótese de algum dia serem alternativa para alguma coisa em Portugal. Talvez nesse dia, Francisco Louça – pessoa que sinceramente admiro – se lembre de fugir apavorado do País…..

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Vem – Madredeus

O Kamikaze Sonhador

Aspirava a um mundo despido de preconceitos.
Acreditava devotamente que o seu espírito guerreiro encontraria a paz interior que tanto ansiava. Lutou toda a vida por um ideal de justiça que julgava atingível.
Sonhou, sonhou, sonhou sem hesitar. Abdicou de tudo pelo seu sonho.
Até que um dia sonhou que era Kamikaze e nunca mais acordou…...

Um Natal Proletário

Ao que parece as grandes Instituições que tornaram este País grandioso como por exemplo o BCP - em caso de dúvida perguntem ao filho do Jardim Gonçalves (por curioso lapso da primeira vez escrevi em caso de dívida, em vez de dúvida ….) - vão deixar no corrente ano de apostar na quadra que se aproxima prescindindo de patrocinar a gigantesca árvore de natal que habitualmente congestiona o terreiro do paço.
Será que a Banca deixou mesmo de acreditar no Pai Natal? Ou pretendem substituí-lo pelo Pai Sócrates, que como se sabe é amigo de seu amigo?
O que não deixa de ser estranho é que o homem de barba banca que mais tem sido recordado ultimamente é mesmo Karl Marx. É caso para dizer, Pais Natal de tudo o mundo, uni-vos……

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Lisboa

por tràs dos muros da cidade
no seu coração profundo de alicerces
de argilas e de sísmicos arroios - cresce uma voz
que sobe e fende a brandura das casas
da escrita dos enumeráveis povos quase
nada resta - deitas-te exausto na lâmina da lua
sem saberes que o tejo te corrói e te suprime
de todas as idades da europa
mais além - para os lados do corpo - permanece
a tosse dos cacilheiros os olhos revirados
dos mendigos - o tecto onde um navio
nos separa de um vácuo alimentado a soro
plátanos brancos recortam-se luminescentes no olhar
de quem nos olha contra um céu desesperado - jardim
de iris açucenas palmeiras cobertas de rocio e
a ponte que nos leva aos campos do sul - lisboa
lugar derradeiro do riso
que já não te pode salvar do cemitério dos prazeres
e morres
carregado de tristezas e de mistérios - morres
algures
sentado numa praceta de bairro - o olhar fixo
no inferno marítimo das aves

Al Berto

A vida vivida da vidinha

A vida nasce com a manhã
numa existência vivida da alma
passa mais um dia resignado na vidinha….

domingo, 23 de novembro de 2008

A Turma

Com um nome bem mais interessante na denominação original do que na versão Portuguesa “Entre les murs” de Laurent Cantet, foi consagrado muito justamente este ano como Palma de Ouro em Cannes.
No seguimento de Recursos Humanos de 1999 e de o Emprego do Tempo de 2001 (dois belíssimos filmes) Cantet continua a presentear as suas personagens com um realismo inexorável e entusiasmante.
Cineasta de excepção, procura com esta obra explorar o universo multicultural de uma grande cidade como Paris. Os códigos e as referências utilizadas pelas diferentes etnias são desvendadas de forma natural, sobrando ainda espaço para vivermos lado a lado com a amargura de um Professor perante os complexos reptos que lhe são lançados pelos seus rebeldes, pertinentes e sagazes alunos.
A referida turma é formada por actores não-profissionais que foram seleccionados entre alunos de uma escola dum bairro problemático da cidade luz com quem o realizador trabalhou todas as semanas sem excepção - durante um ano lectivo - em diversos ateliers de improvisação.

Um filme bastante actual face aos desafios que as políticas de educação no nosso País têm estado sujeitas em diversos prismas durante o presente ano de 2008. Talvez advenha daí a excelente adesão de público que o filme tem demonstrado, o que esperemos possa ser um bom sinal para um País cada vez mais multi-étnico no caminho de uma sociedade mais tolerante face à diversidade...

Eu quero ser campeão! (round 9) Naval 0 Sporting 1

Numa jornada absolutamente decisiva como resultado das três derrotas entretanto acumuladas houve direito a heroísmo de leão na Figueira da Foz.
Paulo Bento pode muito bem ter ganho hoje uma equipa apesar da qualidade do jogo praticado continuar longe do que é exigido. Com excepção do jogo com o Porto para a taça - que até acabámos por perder - a equipa não tem conseguido apresentar um futebol acutilante e ambicioso. No entanto, só para que conste, eu sou daqueles que prefiro ganhar mal e porcamente por um a zero do que assistir a uma exibição de encher o olho sem vencer.
Como o verde será sempre a cor da esperança na próxima quarta-feira lá estaremos para ver Lionel Messi, Samuel Eto’o e companhia passarem um mau bocado em Alvalade – pelo menos assim o espero - apesar das inúmeras baixas que o Sporting certamente apresentará.
Relativamente ao jogo o segundo golo cruelmente desperdiçado por Liedshow quase no fim do mesmo daria, quanto a mim, maior justiça ao resultado. Quem reage como o Sporting reagiu a uma série de adversidades durante todo o encontro merecia mais essa recompensa.
Por outro lado, as expulsões incompreensíveis de dois jogadores experientes como são Derlei e Caneira deveriam ser alvo de um conduta disciplinar ao nível pecuniário por parte da SAD até porque ambos são reincidentes. Todavia relativamente a Derlei assinalo a seguinte questão:
O Jogador sempre teve mau feitio - não é de agora – mas nos tempos em que actuava no FCP não era tantas vezes expulso, isto se bem me lembro. Talvez os apitos nessa época fossem mais dourados e menos propensos a julgamentos precipitados?.....

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Porquê, só agora?

José Oliveira e Costa, ex-secretário de Estado de um dos governos do Professor Cavaco, fundador do grupo Sociedade Lusa de Negócios que integra o BPN, foi hoje detido na sequência de buscas domiciliárias efectuadas a duas das suas residências por suspeita de burla agravada, falsificação de documentos, fraude fiscal e branqueamento de capitais.
Saliento que este homem foi Secretário de Estado de Assuntos Fiscais, uma área pela qual nutre, claramente, especial predilecção….

Mas porque é que Justiça em Portugal anda sistematicamente a reboque dos media e dos assuntos que estão na ordem do dia?
Mas porque é que a actuação da Justiça em Portugal está sujeita a critérios de oportunidade? Recordo-me da primeira detenção de Vale e Azevedo em que se aguardou que a Excelência deixasse de ser presidente de um clube de futebol para poder ser detido e constituído arguido….
E como é que os cidadãos de um estado constitucionalmente de direito podem ter confiança numa justiça que age desta forma?....

A detenção de Oliveira e Costa, tardiamente efectuada, somente serve para descredibilizar ainda mais um sistema que já não tinha credibilidade.
A Procuradoria-Geral da República tenta com esta operação defender o indefensável e justificar o que não tem justificação…….

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A Agonia

Repudiava com veemência as atrocidades cometidas. Envolto num oportunismo característico encarava cada pequena injustiça como se fosse a mãe de todas as lutas.
Possuía uma eloquência arrebatadora que oprimia qualquer tentativa de supremacia intelectual. Era um vencedor por natureza.

Um dia percebeu que estava a sufocar lentamente. Descomprimiu, repousou, pensou que podia voltar a ser quem foi mas aquele desespero inquietante nunca mais o abandonou. A sua luta terminou nesse momento.
Compreendeu assim que a agonia não estava para brincadeiras…..

Importa-se de repetir?

Ferreira Leite - o maior erro de casting de que há memória na política portuguesa - sugeriu hoje «se não seria bom haver seis meses sem democracia para pôr tudo na ordem»....
Força Portugal.....

domingo, 16 de novembro de 2008

DALI - pietà


A Notícia

Parece que PSP deteve hoje 30 membros da claque organizada do Benfica ““No Name Boys” tendo apreendido droga e tochas incendiárias.
Acontece que os serviços noticiosos das televisões têm dado destaque de abertura a este assunto. O mesmo se passa com os principais jornais online. No meu entender trata-se de uma questão absolutamente menor que não devia dar mais que uma nota de rodapé.
Clubismos à parte, constato que no fundo a verdadeira notícia é o facto dos rapazes sem nome, meros energúmenos imbecis, serem dignos deste destaque informativo. Isso sim, é notícia….

sábado, 15 de novembro de 2008

Eu quero ser campeão! (round 8) Sporting 0 Leixões 1

Depois de alcançado o apuramento para os oitavos da Champions e da injusta eliminação da taça diante do Porto, o Sporting voltou à Liga com uma comprometedora derrota caseira frente ao confiante líder Leixões averbando assim a terceira derrota em apenas 8 jogos.
Quando os dois melhores jogadores da equipa não rendem – Liedson e Izmailov – as probabilidades de vencer diminuem exponencialmente.
Numa prova de regularidade quando não se consegue ganhar seria importante não perder….
No entanto, ainda não é tempo de atirar a toalha ao chão.....