A partir do momento que soube da tua iminente chegada a minha vida deu uma volta do cacete pá! Uma coisa é um gajo imaginar como será, outra é ter a certeza. Fiquei um pouco apreensivo ao início que esta treta da responsabilidade é lixada. Talvez venhas a perceber mais tarde do que te falo.
Até ao teu nascimento já tenho tudo delineado ao mais ínfimo pormenor. Já pensei mil vezes em tudo o que tenho de ter em casa para te receber. Algumas das coisas que faço são bem estranhas. Por exemplo para o dia em que resolveres aparecer já fiz uma espécie de reconstituição no computador e tudo (uma reconstituição só que à priori, percebes?) que isto de trazer um (a) piolho (a) para casa a primeira vez, tem que se lhe diga!
Mas estou desejoso de limpar a tua caca, pá, e sonho com o dia em que me vais começar a lixar a moina!...
Olha pá, vais ser sócio(a) do Sporting. Parece uma coisa um pouco arbitrária, eu sei. Deixa lá, como perdemos mais vezes do que ganhamos sempre dá para ir moldando o carácter. A mãe torce por outros. Que se lixe, de qualquer das formas começas já a perceber desde cedo que nada neste mundo é perfeito.
Ainda não tens nome. Nem sequer sabemos o teu sexo. Por mim, se saíres rapaz chamar-te-ia Pipi Romagnoli, um jogador dos leões, mas a mãe diz que não pode ser. É capaz de ter razão. Um nome argentino pode não dar muito jeito quando te fores inscrever no fundo de desemprego.
Se saíres menina, talvez Afrodite (a deusa do amor), a julgar pelo que tencionamos mimar-te.
O mais provável é logo que soubermos o teu sexo fazermos por eliminatórias como o Nanni Moretti (um maluco de um italiano, depois apresento-te) até chegarmos a um nome consensual no fim.
Gostava que fosses tu a escolher o teu nome quando crescesses, mas dizem que não pode ser. Não te preocupes pá, o nome também não conta para grande merda…
Apesar de para nós ainda seres um adorável feijãozinho parece que para a idade estás bem desenvolvido! Pelo menos é o que afirma a Médica - dizem que é boa. Eu como sou um bocado céptico com tudo (vais perceber com o tempo) quando venho para casa vou sempre confirmar tudo o que ela diz.
Antes que me esqueça, deixa-me desde já esclarecer-te uma coisa:
Este mundo não é o sítio mais indicado para viver mas a Mãe e o Pai não têm qualquer culpa disso. Fomo-nos adaptando às circunstâncias. Com o tempo vais perceber que grande parte dessa culpa se deve aos americanos. Fica desde já sabendo que para o teu Pai, em caso de dúvida, a culpa é sempre dos cabrões dos Americanos. Mas por lá também há gente boa como o Jarmusch, o Waits ou o Van Sant! E agora até falam que um tal de Obama é capaz de mudar as coisas, mas o Pai não acredita muito nessas histórias…
Desde que soube da tua vinda não mais deixei de pensar em ti. O meu nível de concentração é nos dias que correm proporcional ao de um cão raivoso. De dia ou de noite a minha mente acompanha-te até às profundezas da alma. Tudo o que faço tem o teu perfil desenhado como fundo.
No outro dia, quando a mãe dormia, fui sorrateiramente escutar-te. Estavas a dormir tranquilamente. Sonhavas provavelmente com os prazeres do mundo etéreo. Depois vais perceber, quando já tiveres deste lado, que o mundo não é assim tão bom como parece. Inclusive, dizem que até já teve dias melhores, mas o mais importante é que adorei escutar o teu silêncio pois é do seu pulsar que me alimento nesta poeira dos dias…..
Por mim ias nascer a Espanha. Este Portugal arruína-nos lentamente como escrevia a Sophia, contudo parece que não há grande vantagem nisso. Caso se concretizasse tenho a certeza que mais tarde me ias agradecer, mas deixa, quando cresceres piras-te daqui para fora. Era o que eu devia ter feito se tivesse juízo, digo-te!
Vou-te escrevendo, pá! Desculpa falar assim de ti, declaradamente, sem o teu consentimento mas estou feliz! E sempre dá para me ir entretendo até resolveres aparecer. De qualquer das formas também nunca escrevi merda nenhuma de jeito.
Por isso te escrevo, através desta chama que me alimenta, e sigo os contornos da tua silhueta como se lesse uma pauta de música erudita.
Por isso te escrevo, arrebatando estas palavras ao vento, como se fosses o derradeiro sustento desta serena força que me ultrapassa.
Por isso te escrevo, com este aperto de quem anseia receber-te nos braços, como se fosses o único ponteiro que norteia as minhas horas.
Por isso te escrevo, debaixo desta luz que me incendeia, e lembro o tremor do teu coração como se fosse meu.
Por isso te escrevo, com esta angústia de quem te espera, e derramo a brisa destas palavras pelo negrume da escuridão.
Por isso te escrevo, com esta emoção avassaladora que me transcende.




















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