sábado, 7 de março de 2009

Ainda e sempre Magalhães


Depois disto e daquilo, o Magalhães continua a ser uma inspiração para o Hipocrisias Indígenas bem como para toda a Blogosfera, assinale-se….
Apesar de tudo convém realçar que a Medida em si continua a ser uma proveitosa ideia e um investimento com sentido que deveria servir de exemplo para o futuro. Força Magalhães….

quinta-feira, 5 de março de 2009

Maradona

Nunca fui um grande entusiasta de Emir Kusturica. Gostei de Undergroung é certo, mas por vezes tenho a sensação que existe uma excessiva boçalidade nos seus projectos artísticos. Talvez sejam demasiado surreais para a minha percepção. Sei que não é unânime esta minha perspectiva mas é de facto a minha singela opinião.
Apesar dessa inusitada desconfiança logo que tive oportunidade de ver Maradona avancei sem hesitações. Aliás, já no Doc Lisboa tinha tentado sem sucesso assistir ao filme.
Visto finalmente o Documentário de 90 minutos, tempo de duração de uma partida de futebol, importa fazer um ponto prévio: Diego Armando Maradona - para quem como eu adora o jogo - é uma figura incontornável. Podem-me falar de Pélés, Eusébios, Di Stéfanos e sei lá que mais (jogadores que não são do meu tempo) no entanto a memória dos primórdios da minha adolescência não me deixam fugir a esta inevitável evidência: Maradona foi para mim o melhor de sempre. Inclusive, penso que o seu pé esquerdo devia ser considerado universalmente como uma das maravilhas da humanidade.

Posto isto e no que concerne ao filme, Maradona é um documento interessante mas um pouco enganador na minha perspectiva. Talvez apresente um peso ideológico excessivo mas também não podemos minimizar o facto do biografado ter crescido no seio de uma pobre família de um bairro extremamente carenciado de Buenos Aires onde aprendeu desde cedo a encarar as injustiças do mundo. Diego, possui aliás no braço direito uma tatuagem com o rosto do líder guerrilheiro Ernesto Che Guevara e outra na panturrilha esquerda com a efígie do líder cubano Fidel Castro.
Nesta vertente mais política o filme aborda a viagem efectuada em Novembro de 2005 por um comboio que partiu de Buenos Aires com destino a Mar del Plata com o objectivo de protestar contra a presença do presidente americano, George W. Bush, na Argentina. Em Mar del Plata - 400 km a sul de Buenos Aires - os 160 passageiros do comboio, um dos quais o ultra mediático Maradona, participaram numa manifestação que contou ainda com a presença do presidente da Venezuela, Hugo Chávez.«É o trem da revolução. Isso soa-me a algo muito romântico…» dizia, muito a propósito, Kusturica.

Já perto do final do documentário, o Realizador questiona-se acerca da possibilidade de ter andando três anos atrás de Maradona sem que o tenha chegado a conhecer?
E a resposta a essa pergunta é obviamente não. E isto porque Kusturica não faz as perguntas que se impunham a Maradona. Não o interroga por exemplo relativamente ao momento em que começou a consumir drogas? Não questiona se a cocaína que Diego acusou no mundial de 94 era real? Não interpela Maradona acerca do teor da sua relação com a máfia siciliana ou das polémicas relacionadas com a paternidade de outros filhos?
O realizador limita-se a tirar partido da relação de confiança estabelecida com o astro argentino, apresentando um documento que podia ter ido bastante mais além, caso Kusturica tivesse coragem para tal.
O desfecho final da contenda acaba por servir perfeitamente os interesses de ambos, mas como pretensa obra de arte, o resultado é de uma pobreza quase miserável.….

Em jeito de recapitulação metafísica deixo um excerto de Maradona que consiste na interpretação de "La Mano de Dios" pelo próprio na companhia das filhas num dos melhores momentos do filme:



O Desdém

De quando em vez aparecia desinteressadamente apático reduzido a um sôfrego marasmo. A apatia era a sua defesa perante a devassidão alheia. Uma boa letargia permitia-lhe manter as respectivas distâncias. Possuía uma privacidade comunista. O universo das coisas tinha-lhe ensinado que o carácter reservado era o seu bem mais valioso.
O seu efectivo negócio era o desprezo. Tinha-se transformado num ás do desdém…..

quarta-feira, 4 de março de 2009

Amor

o teu rosto à minha espera, o teu rosto
a sorrir para os meus olhos, existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos são finas e claras, vês-me
sorrir, brisas incendeiam o mundo,
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos,
este dia será sempre hoje na memória.

hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas,
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.

José Luís Peixoto

domingo, 1 de março de 2009

Eu quero ser campeão! (round 20) Porto 0 Sporting 0

Depois da humilhante derrocada diante do Bayern de Munique na última quarta-feira, o Sporting foi empatar ao Dragão em jogo que não vi. A exibição ao que consta não foi assim tão negativa quanto isso….

Perante a actual situação, e face ao desolador panorama que se avista, o nosso Paulo Bento garante que lutaremos até ao fim da época. Estamos portanto a entrar na fase do matematicamente possível que é bastante elucidativo do momento em que nos encontramos….
Vuckevic não joga por estar com gripe quando ninguém no resto do País está com gripe. Miguel Veloso está lesionado mas o treinador não sabe. E a equipa não ganha quando a única alternativa é mesmo vencer….

Como na altura apontei a derrota caseira com o Braga em jogo onde a equipa demonstrou notória falta de ambição comprometeu em grande parte o sucesso desportivo da época.
Por uma questão de honra continuarei até ao fim a acompanhar estas 10 últimas jornadas. Como o leão é o símbolo da casa e a esperança é e será sempre verde, prosseguirei a acreditar que ainda é possível o sonho….

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Frida Kahlo


O Social

O conceito de coesão social tem tudo dentro. Toda a sociologia do mundo não seria suficiente para entender tamanha evidência.

A síntese dialéctica do universo contraria a suposta verdade indesmentível. Coesão e social não combinam. São incompatibilizáveis…….

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Happy-go-lucky

Mike Leigh foi dos realizadores e argumentistas que mais contribuiu para a minha inusitada cinefilia. Fui confrontado pela primeira vez com a sua genialidade através de Naked, extraordinário filme de 1993. A partir daí nunca mais perdi nenhum dos filmes do cineasta inglês, produzidos pela ordem que se apresenta:
• 1996 - Secrets & lies
• 1997 - Career girls
• 1999 - Topsy-Turvy
• 2002 - All or nothing
• 2004 - Vera Drake.

Grande impulsionador do realismo britânico, amplamente premiado, teve a consagração maior com Segredos e Mentiras onde desconstruiu com mestria e olhar cirúrgico as fragilidades e singularidades das relações familiares.
Leigh tem uma forma bastante peculiar de filmar. Trabalha sem um guião definido. Parte de uma ideia geral, um esboço do argumento e é através de contínuos workshops de improvisação com os seus actores que lhes vai lançando de forma gradual as premissas do seu cinema. É pois com base num trabalho exaustivo, sempre interligado com a liberdade criativa dos próprios actores, que Leigh vai semeando os seus enredos.
Seduzido e obcecado pelos dramas vivencias da classe média inglesa cria sempre excepcionais narrativas alicerçadas num realismo exacerbado, e por isso mesmo de um rigor formal exemplar.

Em 2008 trouxe-nos o actualmente em exibição Happy-go-lucky, um dia de cada vez na versão portuguesa que conta com uma grande interpretação de Sally Hawkins que venceu em Berlim o Urso de Prata para melhor actriz
Em Happy-go-lucky , Poppy é uma professora bondosa, sorridente e divertida. Uma mulher que passa pelos dias de forma sempre descontraída. É uma sedutora, um exemplo de jovialidade, todos gostam dela, adora os seus alunos, tem tempo para toda a gente e não se deixa contagiar pelo mau humor de ninguém.
“Um Dia de Cada Vez" é acima de tudo um retrato optimista da vida que está no entanto sujeita a todo o tipo de encontros e desencontros. E é o regresso de Mike Leigh aos grandes filmes. Mostra-nos como por baixo de uma aparência leve pode estar uma complexa teia de desejos e motivações. E o que é a vida senão isso?...

Eu quero ser campeão! (round 19) Sporting 3 Benfica 2

Tal como a vitória do Benfica na primeira volta tinha sido justa, desta feita o triunfo leonino não sofre contestação, pecando inclusive por escasso.
Não fossem mais alguns recorrentes erros de arbitragem a prejudicar-nos e o resultado teria outra expressão. Evidentemente que no meio do vendaval de futebol ofensivo da segunda parte houve também algumas oportunidades desperdiçadas por manifesta falta de serenidade da equipa.
Independentemente de tudo, fica bem ao Leão ganhar de forma categórica contra tudo e contra todos.
Dois golões de Liedson, o caça águias, que tal como eu tinha sugerido no comentário ao último jogo resolveu o derby relançam a equipa sendo que as possibilidades relativamente ao primordial objectivo - a ansiada vitória no campeonato – não aumentaram derivado ao triunfo dos dragões em Paços de Ferreira.
A equipa para demonstrar que tem realmente estofo de campeã e capacidade para lutar até ao fim pelo título tem que chegar ao Dragão na próxima semana, ver, vencer e vir embora.….

sábado, 21 de fevereiro de 2009

O Retrato da Crise

A grande crise que efectivamente o país está a atravessar em 2009 há pelo menos seis meses que andava a ser anunciada com pompa e circunstância em horário nobre. O ano horribilis há muito que era dado como inevitável.
Obviamente que perante tamanha visão apocalíptica os poucos que ainda têm meios para investir retraem-se e, sem investimento real, resta-nos lacrimejar…Esperando que o Estado no venha resolver os problemas como historicamente é expectável em Portugal, aliás….
Há crise - é verdade - mas actualmente está de tal forma empolada pelos media que parecemos todos maníaco-depressivos a contar estropiados e mortos….

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Início

Quando eu nascer festejem com barulho
Rompam aos pulos e às cambalhotas,
Façam eclodir fogo no vento,
Chamem artistas e arlequins!

Que a minha vida chegue sobre uma estrela
Adornada à baiana...
A um recém-nascido nada se rejeita,
Eu quero por força vir cintilante.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá Carneiro

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O Insólito

Apanhar um táxi indicando o destino pretendido localizado no outro lado da cidade. Sair do táxi passados 45 minutos no mesmo local onde tinha entrado. Ainda assim pagar 5 €uros….

domingo, 15 de fevereiro de 2009

A Esperança

Espalhava por onde passava a mensagem dos tempos que correm. Confiava plenamente nos efeitos que a valiosa palavra surtia em quem a ouvia. Sem a sua amiúde utilização nada do que tinha planeado fazia sentido.
Era a palavra da moda. As palavras também eram susceptíveis de alcançarem os seus 15 minutos de fama. Usada com destempero servia como chapéu para todas as inconsistências do ignóbil discurso que exibia.
Um dia quando confrontado com as fragilidade das suas promessas caiu-lhe definitivamente a máscara. Perdeu a compostura. Nunca chegou a perceber que a Esperança quando mencionada em abundância tendia a tornar-se superficialmente vazia….

Cruzeiro Seixas


Mais um dia passado neste admirável embuste que se chama Portugal

O inenarrável Dias Loureiro voltou às luzes da ribalta este fim de semana. Parece que os apaniguados de José Sócrates conseguiram junto da comunicação social - que na realidade é quem nos governa - fazer passar o caso freeport para segundo plano permitindo assim ao Primeiro-Ministro respirar novamente fundo em relativa tranquilidade.
É assim neste rodopio do agora atacas tu, agora ataco eu que o País vive inebriado! Força Portugal....

Budapeste – Mão Morta

Eu quero ser campeão! (round 18) Belenenses 1 Sporting 2

Quando uma profunda descrença se começava a apoderar dos jogadores, da equipa técnica, da direcção e da massa adepta, eis que o Leão voltou a sorrir.
Uma vitória justa que peca por escassa num jogo em que o momento crucial foi a saída milagrosa do nosso Fábio Rochemback. Foi a partir daí que o Sporting começou a dar a volta ao jogo. Aliás a insistência no jogador brasileiro como titular indiscutível só vem provar algo que eu já desconfiava:
Paulo Bento não tem por hábito ler o Hipocrisias Indígenas e faz muito mal....
No que diz respeito ao jogo, a dupla improvável Vuk-Postiga funcionou às mil maravilhas. Liedson pareceu ainda diminuído fisicamente. Esperemos que recupere a tempo de resolver o derby da semana que vem.
De assinalar um golo validado indevidamente ao Belenenses que podia ter sentenciado as possibilidades do Sporting na corrida pelo título. Pedro Henriques, de longe o melhor árbitro português, foi traído pelo seu auxiliar como habitualmente acontece em Portugal.
De realçar ainda que o puto Adrien tem tudo para ser mais um grande e precioso diamante. É necessário paciência para o seu amadurecimento pois classe e categoria não lhe faltam….

Inglorious Basterds



O novo Tarantino promete. Deverá estrear no corrente ano…..

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Carta a um Embrião

Querido Embrião,

A partir do momento que soube da tua iminente chegada a minha vida deu uma volta do cacete pá! Uma coisa é um gajo imaginar como será, outra é ter a certeza. Fiquei um pouco apreensivo ao início que esta treta da responsabilidade é lixada. Talvez venhas a perceber mais tarde do que te falo.
Até ao teu nascimento já tenho tudo delineado ao mais ínfimo pormenor. Já pensei mil vezes em tudo o que tenho de ter em casa para te receber. Algumas das coisas que faço são bem estranhas. Por exemplo para o dia em que resolveres aparecer já fiz uma espécie de reconstituição no computador e tudo (uma reconstituição só que à priori, percebes?) que isto de trazer um (a) piolho (a) para casa a primeira vez, tem que se lhe diga!
Mas estou desejoso de limpar a tua caca, pá, e sonho com o dia em que me vais começar a lixar a moina!...

Olha pá, vais ser sócio(a) do Sporting. Parece uma coisa um pouco arbitrária, eu sei. Deixa lá, como perdemos mais vezes do que ganhamos sempre dá para ir moldando o carácter. A mãe torce por outros. Que se lixe, de qualquer das formas começas já a perceber desde cedo que nada neste mundo é perfeito.
Ainda não tens nome. Nem sequer sabemos o teu sexo. Por mim, se saíres rapaz chamar-te-ia Pipi Romagnoli, um jogador dos leões, mas a mãe diz que não pode ser. É capaz de ter razão. Um nome argentino pode não dar muito jeito quando te fores inscrever no fundo de desemprego.
Se saíres menina, talvez Afrodite (a deusa do amor), a julgar pelo que tencionamos mimar-te.
O mais provável é logo que soubermos o teu sexo fazermos por eliminatórias como o Nanni Moretti (um maluco de um italiano, depois apresento-te) até chegarmos a um nome consensual no fim.
Gostava que fosses tu a escolher o teu nome quando crescesses, mas dizem que não pode ser. Não te preocupes pá, o nome também não conta para grande merda…

Apesar de para nós ainda seres um adorável feijãozinho parece que para a idade estás bem desenvolvido! Pelo menos é o que afirma a Médica - dizem que é boa. Eu como sou um bocado céptico com tudo (vais perceber com o tempo) quando venho para casa vou sempre confirmar tudo o que ela diz.
Estás quase, quase a ser Feto. Nesta fase a barriga do Pai continua a ser maior que a da Mãe mas com o tempo a coisa é capaz de se inverter. Tenho pesquisado desalmadamente acerca do teu desenvolvimento. Até já sei o que é o cérvix, vê lá! Não te preocupes, vai tudo correr pelo melhor....

Antes que me esqueça, deixa-me desde já esclarecer-te uma coisa:
Este mundo não é o sítio mais indicado para viver mas a Mãe e o Pai não têm qualquer culpa disso. Fomo-nos adaptando às circunstâncias. Com o tempo vais perceber que grande parte dessa culpa se deve aos americanos. Fica desde já sabendo que para o teu Pai, em caso de dúvida, a culpa é sempre dos cabrões dos Americanos. Mas por lá também há gente boa como o Jarmusch, o Waits ou o Van Sant! E agora até falam que um tal de Obama é capaz de mudar as coisas, mas o Pai não acredita muito nessas histórias…

Desde que soube da tua vinda não mais deixei de pensar em ti. O meu nível de concentração é nos dias que correm proporcional ao de um cão raivoso. De dia ou de noite a minha mente acompanha-te até às profundezas da alma. Tudo o que faço tem o teu perfil desenhado como fundo.
No outro dia, quando a mãe dormia, fui sorrateiramente escutar-te. Estavas a dormir tranquilamente. Sonhavas provavelmente com os prazeres do mundo etéreo. Depois vais perceber, quando já tiveres deste lado, que o mundo não é assim tão bom como parece. Inclusive, dizem que até já teve dias melhores, mas o mais importante é que adorei escutar o teu silêncio pois é do seu pulsar que me alimento nesta poeira dos dias…..

Por mim ias nascer a Espanha. Este Portugal arruína-nos lentamente como escrevia a Sophia, contudo parece que não há grande vantagem nisso. Caso se concretizasse tenho a certeza que mais tarde me ias agradecer, mas deixa, quando cresceres piras-te daqui para fora. Era o que eu devia ter feito se tivesse juízo, digo-te!
Vou-te escrevendo, pá! Desculpa falar assim de ti, declaradamente, sem o teu consentimento mas estou feliz! E sempre dá para me ir entretendo até resolveres aparecer. De qualquer das formas também nunca escrevi merda nenhuma de jeito.

Por isso te escrevo, através desta chama que me alimenta, e sigo os contornos da tua silhueta como se lesse uma pauta de música erudita.

Por isso te escrevo, arrebatando estas palavras ao vento, como se fosses o derradeiro sustento desta serena força que me ultrapassa.

Por isso te escrevo, com este aperto de quem anseia receber-te nos braços, como se fosses o único ponteiro que norteia as minhas horas.

Por isso te escrevo, debaixo desta luz que me incendeia, e lembro o tremor do teu coração como se fosse meu.

Por isso te escrevo, com esta angústia de quem te espera, e derramo a brisa destas palavras pelo negrume da escuridão.

Por isso te escrevo, com esta emoção avassaladora que me transcende.
Serás o sangue na minha carne, a carne no meu sangue, o esplendor da minha vida. Amar-te-ei, até que a morte nos separe….

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Os Papelotes

Nunca choraremos bastante
termos querido ser belas
à viva força
eu quis ser bela
e julguei que para ser bela
bastava usar canudos
pedi para me fazerem canudos
com um ferro de frisar e papelotes
puxaram-me muito pelos cabelos
eu gritei
disseram-me para ser bela
é preciso sofrer
depois o cabelo queimou-se
não voltou a crescer
tive de passar a andar com uma peruca
para ser bela é preciso sofrer
mas sofrer não nos faz forçosamente belas
um sofrimento não implica como consequência
uma recompensa
uma dor de dentes pode comover a nossa mãe
que para nos consolar sem saber de quê
nos dá um rebuçado
mas o rebuçado ainda nos faz doer mais os dentes
a consequência de um sofrimento
pode ser outro sofrimento
a causa é posterior ao efeito
o motivo do sofrimento é uma das consequências
do sofrimento
os papelotes são uma consequência da peruca

Adília Lopes

Eu quero ser campeão! (round 17) Sporting 2 Braga 3

Quando o adversário demonstra inequívoca superioridade táctica há muito pouco a dizer. Podíamos falar de falta de sorte nos momentos cruciais. Podíamos argumentar que o Braga é uma excelente equipa. Podíamos dizer que na dúvida as decisões da arbitragem foram sempre prejudiciais mas o que diz a realidade é que estamos igualados com o Leixões à 17.ª Jornada.
Eu queria ser campeão mas com titulares indiscutíveis com as performances evidenciadas por Rochemback parece que o meu desejo não passa mesmo de um sonho inexequível. Relembre-se que o brasileiro foi a grande contratação do defeso.
Paulo Bento com este inicio catastrófico de segunda volta - ele que em termos de campeonato tinha precisamente nas segundas voltas o seu forte – pode até fazer uma gracinha na Liga dos Campeões ou vencer mesmo a pouco prestigiante taça da liga mas manterá sempre os eternos problemas que todos os sportinguistas já conhecem. E hoje levou um vastíssimo banho táctico, ainda por cima de alguém chamado Jesus…

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Milk

Saí do último filme de Gus Vant Sant - estreou a semana passada - a pensar que tinha sido precisamente aquilo que estava à espera, nem mais, nem menos. O que significa obviamente que o filme não me entusiasmou por aí além.
A minha relativa desilusão nasce da profunda admiração que tenho por toda a obra de Vant Sant. Mesmo o mais mainstream “O bom rebelde” ou até “Finding Forrester” deram origem a extraordinários argumentos excepcionalmente trabalhados pelo Realizador. Assim, estaria talvez à espera de algo mais surpreendente, sendo que os filmes biográficos transformam-se muitas vezes em obstáculos restritivos à criatividade dos próprios cineastas.
Saliento que a interpretação de Sean Pean é sem dúvida fabulosa e merecedora verdadeiramente de todos os louvores e hipotéticas distinções.
O filme vale também – o que já não é nada pouco - pela mensagem de esperança e tolerância que o legado de Harvey Milk cultivou. A sua luta contra o preconceito foi e é extraordinariamente inspiradora num tempo em que os direitos de toda uma comunidade ainda não estavam de nenhuma forma reconhecidos. E se ainda hoje existe algum estigma relativamente à homossexualidade, imagine-se há 30 anos.
É pois um filme que aborda a mais genuína das liberdades individuais e pouco haverá de mais importante que isso…

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A Família

Chegavam em bandos alegremente. Umas vezes distribuíam um beijinho, outra vez dois, conforme os destinatários. Logo aí demonstravam uma ambivalência insinuante. Eram sempre interesseiramente adaptáveis às circunstâncias.
Guardavam uma distância de segurança face aos desalinhados. Esses podiam pôr perigosamente em causa a sua superficialidade doentia e a sua incapacidade para se comprometerem com algo de concreto.
No fundo, todos juntos constituíam uma família. Eram todos originários da mesma paróquia….

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A Chuva

Falam da chuva como se a chuva fosse a única coisa verdadeiramente importante nas suas vidas.
O tempo de quem já não tem muito tempo é passado a dissertar sobre o tempo….

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O Duelo

Assisti arrebatado no Domingo de manhã, no decorrer da final do Open da Austrália, a mais um episódio da apaixonante rivalidade que une Rafael Nadal - actual número um do mundo - e o já lendário Roger Federer - o devorador de títulos.
Para me lembrar de um outro combate desta dimensão tenho que recuar aos tempos em que o francês Alan Prost e o malogrado Ayrton Senna me alegravam com os seus empolgantes duelos nos grandes prémios de fórmula 1.

Não existe paralelo actualmente no desporto mundial para tão estratosférico, como alguns lhe chamam, embate. O Espanhol todo ele força, empenho, dedicação. O Suíço mais técnico, mais intuitivo, mais prudente.
Aliás esta junção destes dois atletas representa muito mais que um simples confronto desportivo. Caracteriza duas formas distintas de estar, duas concepções diferentes da vida, das coisas, do mundo. De um lado a fúria emocional do coração, do outro a frieza inabalável da razão.
Por tudo isto estes duelos entre ambos elevam-se hoje a uma categoria à parte no desporto mundial e oferecem espaço para todo o tipo de comentários e análises provenientes dos mais variados contextos. Até um leigo como este escriba, se acha no direito de opinar....

Em mais uma épica final de 5 sets o tenista espanhol voltou a levar a melhor em Melbourne. Apesar de Federer - confesso, o meu preferido - ter ganho o quarto set fiquei com a estranha sensação que tal como em Wimbledon no ano passado Nadal iria vencer. E isto por uma simples razão:
Rafael de 22 anos está no apogeu das suas capacidades e Federer de 27 anos já assimilou psicologicamente a superioridade física do Espanhol de forma profunda. As suas lágrimas de desespero e frustração no final do jogo ajudam a confirmar essa evidência. Como grandes parte dos comentadores afirmaram, a luta de Federer - que é mais completo e melhor jogador que o Espanhol - era contra ele próprio e não contra Nadal. Eu concordo sobremaneira com essa análise.

Duvido que Nadal alguma vez consiga coleccionar os 13 torneios do Grand Slam de Federer. O até há pouco imbativel "relógio" suíço está somente a uma vitória do record de Pete Sampras.
Em Roland Garroes o único Grand Slam que Roger não conquistou e que dificilmente conquistará devido às próprias características do seu jogo pouco condizente com a terra batida, Nadal, se tudo correr normalmente, passeará a sua inequívoca superioridade.
Porém, em Julho pode ser que os Deuses do Olimpo nos proporcionem a exultação de juntar novamente os dois em Wimbledon para mais uma jornada gloriosa.…

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Eu quero ser campeão! (round 16) Trofense 0 Sporting 0

Num jogo absolutamente desesperante, o Sporting não soube ser feliz. Faltou discernimento e faltou sorte, e quando assim é, dificilmente se pode aspirar a algo mais.
Equipas que jogam como o Trofense, super defensivas e sempre no encalço do zero a zero deviam perder sempre.
Se todos partilhassem a vontade de ganhar que tem Vuckevic, agora que finalmente parece estar interessado em exercer somente a sua profissão, o desfecho final seria decerto outro.
Caso se confirme a suposta venda de Miguel Veloso, saliento que das duas vacas gordas que pastam no meio campo ficamos com a pior. Veloso faz falta em alguns jogos apesar da sua notória irregularidade. Quanto a Rochemback, o melhor é não me alongar muito….
Apesar de actualmente a equipa continuar a depender de si própria, o meu desejo de ser campeão só fará sentido subsistir se vencermos os 3 próximos jogos – Braga em casa, Belém fora e Benfica em casa - o que à partida não parece tarefa acessível mas a cor da esperança foi, é e será sempre verde…

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A Oportunidade

Tentava sempre antecipar os cenários mais improváveis. Era um mestre na retórica superficial. A oportunidade era o seu fim, o seu objecto, a sua forma de vida, o seu único desígnio.
Era um jogador de longo alcance. Aspirava um dia a tornar-se universal. Os elogios, frequentes, mas localizados e sem assídua expressão mediática, deixava a sua imensa ambição descontente. O seu Ego suspirava por mais.
A permanente busca de protagonismo transformava-o num temido caçador de jornalistas. Tinha relações privilegiadas com inúmeros, os quais recebia sempre com grandes reverências. Alguns, inclusivamente, tratava por tu. Chegava ao ponto de idealizar esquemas no sentido de promover entregas de prémios especiais a jornalistas, utilizando os seus exemplares mecanismos de persuasão para esse efeito. Vivia na expectativa de ver as suas excessivas cortesias ressarcidas no futuro.
Por vezes antecipava o próprio pensamento. Um dia, sentindo que estava a envelhecer paulatinamente sem concretizar os seus ávidos objectivos, arriscou tudo.
Acabou condenado ao ostracismo.

O seu sentido de oportunidade acabou por o apunhalar pelas costas….

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A Intriga

Não morro de amores por José Sócrates como já demonstrei aqui e aqui, no entanto as actuais inconsistências à volta do caso freeport levam a uma inevitável e quanto a mim óbvia consideração:
Não será demasiada coincidência a tal carta enviada pelas autoridades britânicas à Procuradoria-Geral da República chegar a Portugal em 19 de Janeiro de 2009, sete anos depois dos factos a que se refere, e precisamente no auge da mediatização e do consequente desgaste a que Sócrates tem estado sujeito?
Serei somente eu a constatar este acontecimento extraordinário?
Talvez alguns assessores de alguma agência de “lóbis” com ligações a algumas figuras proeminentes da política portuguesa possam responder a esta questão…

Sócrates é um pragmático ambicioso, demasiado ambicioso aliás. Admiro algum do seu pragmatismo e determinação mas abomino a sua ambição desmedida. Quis subir depressa e conseguiu chegar ao topo rapidamente. É uma definição um pouco ambígua esta – eu sei - mas facilmente compreensível,
Aliás a forma como terminou a célebre licenciatura já era premonitória relativamente à sua forma de trabalhar. Actua sempre nos limites da legalidade explorando oportunisticamente as diversas conjunturas que lhe vão sendo propiciadas. Um simples cidadão comum perfeitamente integrado nesta sociedade dita moderna, portanto….
Parece que conseguiu no caso freeport ultrapassar as limitações ambientais em tempo record, mas dentro dos limites que a lei lhe permitia. E daí, pergunto eu?
Parece que tem uns primos com características bem portugueses que tentaram utilizar o seu nome numa espécie de tráfico de influências através de e-mail. E o resto do País que faz uso desse expediente impunemente, todos os dias, em todos os sectores da sociedade, sem qualquer pudor?...

Numa perspectiva mais politica, José Sócrates, hábil estratega, parece medir atentamente as consequências que todos estes episódios vão criando.
Não será plausível, mas também não é impossível, que face a novos hipotéticos desenvolvimentos José Sócrates - extremando a estratégia da vitimização - possa pedir a demissão obrigando Cavaco a dissolver o parlamento e marcar eleições antecipadas. Algo que apesar de representar um risco acentuado, derivado dos nefastos reflexos que o caso pode ter no seu eleitorado, vai ao encontro do que certamente já tinha equacionado na sequência do previsível agravamento da crise económica. Não tinha contudo argumentos para, até aqui, provocar esse putativo desenlace….

Como conclusão saliento que um País assim - onde reina a intriga, a corrupção, a desconfiança generalizada, as conspirações ocultas, onde o sistema de justiça anda a reboque de jogos palacianos - não pode merecer qualquer tipo de credibilidade por parte dos seus atónitos cidadãos….

O País infelizmente é isto, nada mais que isto, e quem pensa o contrário é tolo...Força Portugal!...


quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Paraíso

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir.
Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

David Mourão-Ferreira

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

A Islândia

Havia o unanimemente elogiado exemplo irlandês. Agora há o exemplo islandês, um País de papel….

Logo a Islândia, exemplo de civilização vanguardista, em inúmeras situações considerado como um dos melhores Países do mundo em vários indicadores estando agora mergulhado numa profunda crise social com o colapso do seu sistema bancário. Assiste-se, inclusive, actualmente a agressões contra alvos políticos e a um aumento generalizado de fenómenos como o racismo e o vandalismo.

Esperemos que a excepcional música que têm oferecido ao mundo seja suficiente para salvar a Islândia do delírio dos seus governantes….

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O Orgulho

O azedume que lhe corria na alma deixava-lhe a língua petrificada. O silêncio era a sua arma mais letal. Não acreditava no futuro porque o amanhã era traiçoeiro. O Orgulho era a sua bóia de salvação.....

As Canções de Amor

As Canções de Amor começa exactamente onde “Em Paris”, filme anterior de Christophe Honoré realizado em 2006 tinha terminado. A atraente cidade do Sena aparece-nos sempre como pano de fundo para a narrativa delineada por Honoré.
O musical, género cinematográfico que admito não me cativa particularmente, aparece-nos aqui ressuscitado. Cada vez que isso sucede lembro-me sempre do memorável "Dancer in the Dark", de Lars Von Trier que foi palma de ouro de Cannes em 2000. Um extraordinário filme com a islandesa Björk como actriz principal ao lado de Catherine Deneuve.
Dividido em três actos - a partida, a ausência e o recomeço -, As Canções de Amor começa por se centrar num triângulo amoroso que é destruído pela súbita morte de uma das jovens que o constitui. O filme segue a partir daí os percursos dos outros dois protagonistas em especial de Ismael, personagem central do filme, que na tentativa de refazer a sua vida depois da morte da companheira experimenta diversos relacionamentos na expectativa de encontrar uma rápida panaceia para superar a tragédia recente.
Filme com alguns planos interessantes onde a musica tem um papel preponderante e cuja banda sonora é uma surpresa agradável deixa-nos com alguma curiosidade relativamente a projectos futuros de Christophe Honoré

domingo, 25 de janeiro de 2009

Eu quero ser campeão! (round 15) Nacional da Madeira 1 Sporting 1

Finalmente um bom espectáculo de futebol! No virar para a 2.ª volta o Sporting escorregou na Choupana e deixou a passadeira azul estendida para o novo líder que ao que consta beneficiou de empurrãozinho amigo. Por outro lado, na Madeira um empurrãozinho de Abel que não faria mal a uma criança de 3 anos foi suficiente para assinalar uma penalidade máxima. Singularidades da Liga Portuguesa…..
Contra uma excelente equipa comandada pelo grande mentor do Machadês os leões de Lisboa fizeram exibição bem razoável em que pecaram somente na finalização faltando a tal estrelinha de campeão que brilhou em Braga. Que pena aquela bola de Moutinho aos 91 minutos. Contudo tem que se referir que na segunda parte - com tudo a seu favor depois de a primeira ter acabado da melhor forma - o Sporting tinha obrigação de ganhar o jogo. E isso não sucedeu essencialmente porque o Pastelão Rochemback - que até tinha efectuado uma boa primeira parte - se eclipsou em definitivo não tendo Paulo Bento, talvez por falta de alternativas, efectuado a substituição que obviamente se impunha.
Está tudo em aberto para a segunda volta no entanto é claro que as cinco jornadas seguintes serão fundamentais para as aspirações dos três crónicos candidatos..…

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A Demência

Partilhava com a chuva o seu habitual descontentamento.
Mexia atabalhoadamente nas moedas que sobravam no bolso procurando um sentido para a sua loucura. O seu acentuado nervosismo era proporcional à sua inteligência. A forma como os pensamentos se acotovelavam na sua lúgubre mente faziam há muito antever o pior.
Até que um dia, nas suas constantes deambulações, abeirou-se de uma árvore em cujo cimo um pequeno rouxinol castanho cantava. Aí, desarmado pela beleza proporcionada pela simbiose perfeita entre os trinados fluidos da ave e uma imensa vegetação primaveril encontrou finalmente um sentido para a sua demência……

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A Inquietude

Ouvia ao longe os pássaros na expectativa de um sinal libertador. De quando em quando falava consigo próprio. Ouvir as suas próprias palavras ajudava-o a ultrapassar a alienação generalizada que o perseguia.
Hesitava na tomada de posição. Porquê melindrar o outro, pensava?
A humanidade sempre percorreu o seu caminho sem necessidade de discussões vãs. A frontalidade não passa de uma excentricidade estéril totalmente prescindível. A omissão é a melhor forma de ludibriar a realidade das coisas porque as coisas sempre foram sensíveis ao sentido de oportunidade, meditava....
As palavras surgiam-lhe desordenadas num frenesim louco.
Inquietava-se em demasia. Era esse o seu problema....

O Discurso

O discurso na noite da vitória foi mais arrebatador que o da tomada de posse, não acham?
Sem dúvida, o gajo que escreve os discursos estava menos inspirado desta vez……

Que “a cabeça” o acompanhe são os sinceros votos de um pseudo-intelectual ateu!...

Pó de arroz – Carlos Paião

domingo, 18 de janeiro de 2009

A Indiferença

Passava os dias entregue a um negrume proveniente da imensidão dos seus pensamentos. Congelava as emoções quando todos os outros as empolavam. Vivia de forma desapaixonada. A própria sobrevivência era estranhamente indiferente….

Se houvesse degraus na terra…

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Hélder

sábado, 17 de janeiro de 2009

A Fábrica


Duas vezes o melhor do mundo em apenas 7 anos.....

Curva-te Portugal em sinal de gratidão e resigna-te à tua inevitável insignificância…...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

My Blueberry Nights

Desde Chungking Express, magnífico filme de culto dos anos 90 que existe sempre grande curiosidade sobre o que anda a fazer Wong Kar Wai.
Na sequência de In the Mood for love, (2000) e de 2046 (2004) Wong Kar Wai procura explorar em My Blueberry Nights filme de 2007, desta vez com outras personagens, o mesmo universo onírico que incide sobre a improbabilidade do amor.
Independentemente dos filmes se interligarem harmoniosamente entre si - sempre apoiados em extraordinárias bandas sonoras - em Disponível para Amar (In the Mood for love) as elipses são mais apetecíveis, os silêncios mais elucidativos e por isso o filme surge-me mais pujante que My Blueberry Nights.
Não obstante isso, My Blueberry Nights que somente visionei agora em DVD, ganha sobremaneira com as presenças poderosas de Norah Jones, Jude Law e uma participação especialíssima de Cat Power (ver e ouvir abaixo) num dos melhores momentos do filme. A boa notícia é que Wong Kar Wai continua a sua busca incessante na esperança de encontrar uma solução para o amor.....

A Igreja

Porque é que declarações tão lamentáveis como as proferidas por D. José Policarpo e amplamente difundidas e comentadas, quer nos media, quer na blogosfera, não são objecto de reparo por alguém com responsabilidades ao nível governativo ou por alguém ligado à presidência da república, por exemplo? Repara-se que desta vez não foi um pároco de aldeia como habitual a exceder-se, mas sim o Cristiano Ronaldo do Catolicismo Português.
A resposta é simples: Porque em pleno século XXI grande parte do País continua refém de dogmas eclesiásticos e porque continua a faltar coragem para afrontar aquela que representa o lóbi dos lóbis - a Santa Madre Igreja….

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O melhor mesmo é estar calado

José Oliveira e Costa, o antigo presidente do Banco Português de Negócios e da sinistra Sociedade Lusa de Negócios não prestou declarações ou esclarecimentos durante a comissão de inquérito parlamentar sobre o processo de nacionalização do BPN, invocando para tal o estatuto de arguido.

Para quê chatear-se, pergunto eu?
Ele, um ex-governante, demonstra com esta atitude o respeito que a casa por excelência da democracia lhe merece. E relembre-se, foi como Governante que cozinhou todas as mordomias que viria mais tarde a beneficiar no sector privado. E ainda dizem que o crime não compensa. Força Portugal.....

domingo, 11 de janeiro de 2009

Eu quero ser campeão! (round 14) Sporting 2 Marítimo 0

O Leão sobe ao trono e é líder pelo menos por um dia numa vitória importantíssima para a equipa. Um desaire faria com que toda a imprensa especulasse sobre os efeitos nocivos da entrevista de Soares Franco a meio da semana. Questão que quanto a mim nem sequer devia ser colocada. O clube está estável e os jogadores são pagos para jogar futebol. Não para se melindrarem por palavras de presidente indeciso. A sensação que tenho é que o próprio Filipe Soares Franco não sabe muito bem o que quer fazer e daí ter resolvido agitar as águas. O curioso é que até se perfilam no horizonte candidaturas mais credíveis que a dele próprio.
Quanto ao jogo um resultado certo, sendo que na sua parte final, por falta de maior frieza de grande parte dos seus jogadores, a coisa podia ter assumido repercussões perigosas para a equipa. Felizmente apareceu o 31 do costume…….

sábado, 10 de janeiro de 2009

A alegria

Uma felicidade contida, um suspiro em surdina, uma promessa desmedida, um livro por partilhar.

Um presente brindado, uma prudência sentida, um pato escondido, uma luz luzidia.

Uns olhos deleitados, um sono trocado, uma mágoa desarmada, um momento angustiado.

Um contentamento descontente, porque a tristeza é a alegria dos pobres…..

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Wembley

Com 90 mil lugares sentados depois da remodelação de que foi alvo em 2006 é o maior estádio totalmente coberto do mundo. Em termos de capacidade somente é superado na Europa pelo Camp Nou em Barcelona com os seus 98 934 lugares.
Genuína catedral do futebol onde o jogo se transforma sempre uma festa para os adeptos - independentemente de se ganhar ou perder - é onde anualmente se disputa a mais velha competição futebolística do mundo: A histórica taça de Inglaterra de futebol hoje denominada FA Cup. Um tour turístico ao lendário estádio permite tocar e fotografar o mítico troféu.....


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Chan chan – Buena Vista Social Club

As cidades de Londres

Londres tem 8 milhões de habitantes. Estima-se que a sua área metropolitana tenha 14 milhões. É uma metrópole com demasiada gente, talvez! Imagino que se deve tornar asfixiante em inúmeras situações viver de forma permanente numa cidade assim.

Para fazer frente à normal ebulição de uma cidade onde circulam diariamente milhões de pessoas o sistema de transportes públicos instalado, apesar de caro para quem os utiliza, é de uma imensidão impressionante, sendo aparentemente eficaz e funcional com periodicidades satisfatórias e períodos de funcionamento bastante alargados.

Na capital inglesa fica-se com a sensação que para um nível de emprego um pouco menos qualificado, mesmo com a actual crise, não deverá haver grande dificuldade em arranjar trabalho. A cidade com toda a sua vivacidade natural vive subordinada à lógica dos serviços desde a hotelaria às mais variadas lojas de todo o tipo de produtos. E consumidores para isso não faltam, de facto.
Saliente-se que a Inglaterra, e a região de Londres especificamente, já se tornaram num dos destinos de emigração privilegiados para os portugueses que vão à procura de um futuro mais risonho fora do País de origem.

A cidade tem uma vida cultural e artística proporcional à sua própria dimensão. Estou convencido que um mês integral não seria suficiente para visitar todos os museus e galerias que valem a pena ser vistos em Londres, sem falar claro dos espectáculos e peças em cena, por exemplo, na Broadway Londrina.
É em alguns aspectos uma cidade bastante dispendiosa mas o facto de muitos dos museus terem as suas colecções permanentes abertas gratuitamente ao público - deixando ao critério de cada um, a quantia a deixar depositado numas das caixas colocadas estrategicamente para esse efeito à saída - é sinónimo de uma civilização cultural infelizmente ainda muito distante do nosso Portugal democrático.

Cidade com inúmeras vidas integradas, desde a central Covent Garden a Chinatown bem no limiar de Soho, ao celebérrimo Nothing Hill passando pelo próprio Hyde Park com os seus admiráveis esquilos. Londres tem muitas cidades dentro, a aguardar descobertas…

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A Realpolitik

Palavras mais ouvidas na entrevista televisiva de José Sócrates:
"Desculpe!" e "dá-me licença?"...
Quem tiver paciência suficiente pode dar-se ao trabalho de confirmar!...

Quem escreve

Quem escreve quer morrer, quer renascer
num ébrio barco de calma confiança.
Quem escreve quer dormir em ombros matinais
e na boca das coisas ser lágrima animal
ou o sorriso da árvore. Quem escreve
quer ser terra sobre terra, solidão
adorada, resplandecente, odor de morte
e o rumor do sol, a sede da serpente,
o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,
o negro meio-dia sobre os olhos.

António Ramos Rosa

domingo, 4 de janeiro de 2009

Eu quero ser campeão! (round 13) Setúbal 0 Sporting 2

Paulo Bento vislumbrou pela primeira vez na última jornada, depois do decepcionante empate caseiro com a Académica, o cintilante brilho da estrelinha de campeão quando viu os seus adversários mais directos marcaram também passo, o que veio permitir à equipa continuar a depender de si própria na corrida pelo campeonato.
Ontem na visita a Setúbal uma vitória incontestável, mas muito consentida pelo adversário, em mais uma exibição pobre e descolorida do leão.
Apesar das minhas palavras de indignação no início da época contra João Moutinho, o qual continuo a achar - se houvesse bom senso - não deveria envergar a braçadeira de capitão e para provar que não sou pessoa de guardar ressentimentos, elejo-o indiscutivelmente como melhor em campo. É a inteligência ao serviço do colectivo, um pêndulo decisivo na dinâmica da equipa. Tem feito a época em crescendo e quando Rogmagnoli se eclipsa, Veloso e Rochemback se arrastam preguiçosamente, só nos podemos mesmo socorrer das pilhas inacabáveis do puto.….

sábado, 3 de janeiro de 2009

Caos Calmo

Realizado por Antonello Grimaldi, "Caos Calmo" é protagonizado pelo notabilíssimo realizador e actor Nanni Moretti que colaborou também na adaptação do argumento, escrito a partir do premiado romance com o mesmo nome de Sandro Veronesi.
Com a visualização deste filme torna-se inevitável a comparação com o Quarto do Filho realizado por Moretti e Palma de Ouro de Cannes em 2001 que abordava a perda de um filho na perspectiva de um casal. Aliás registo a coragem da realização de Grimaldi ao aceitar dirigir o consagrado Nanni Moretti como actor, o que não deverá ser nada fácil. No entanto não passa mesmo disso, de um acto de coragem.
O filme tem um início prometedor com a presença habitualmente acutilante de Moretti alicerçada na genial concepção que suporta o citado livro de Veronesi. Uma ideia simples do escritor e como se sabe as coisas simples são as mais belas. Consiste a narrativa numa obcecada demonstração de afecto de um extremoso Pai pela sua filha que decide após o falecimento da sua mulher passar os dias no jardim à frente da escola primária da pequena, abdicando inclusive de continuar a deslocar-se ao seu emprego, esperando-a dia após e dia, e demonstrando-lhe assim que não está disposto a perde-la de vista nem por um minuto. Nesta fase em crescendo do filme destaco um momento absolutamente delicioso em que Pai e Filha dissertam sobre Palíndromos que são frases ou palavras que têm a propriedade de poderem ser lidas, tanto da direita para a esquerda, como da esquerda para a direita, numa “Morettináda” das melhores….
Acontece que depois de um portentoso começo, Grimaldi perde o rumo ao valorizar personagens e situações menos interessantes deixando fugir a oportunidade de criar algo memorável, acabando por perder a dimensão prometida.
Todavia não deixa de ser um filme emotivo o qual recomendo fortemente, que vale sobretudo pela entusiasmante interpretação de Moretti…….

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

A Capital da Europa

Na continuação de alguns apontamentos sobre viagens efectuadas por este escriba, discorrerei em alguns posts sobre Londres.

Ficam desde já algumas imagens – muito frescas ainda - para aguçar o apetite....

domingo, 28 de dezembro de 2008

O 2009

No que diz respeito ao ano novo, o que se passou recentemente na Grécia pode ser um sinal prenunciador para o futuro. Sinal esse, não necessariamente negativo. Das revoltas sociais nasce sempre a crença e a esperança num mundo melhor. E o mundo, bem necessita de ventos de mudança!

Entretanto, neste admirável País à beira-mar plantado haverão eleições em Catadupa em 2009, no entanto podem ficar descansados que mais Magalhães menos Magalhães tudo continuará na mesma como a lesma....

Um excelente 2009 para todos são os desejos do Indígena que por aqui vai continuar a "hipocrisar"….

A Ponte


O 2008

Chegados ao fim de mais um ano e na antecâmara de 2009 é tempo de balanços, antevisões, etc e tal. O hipocrisias indígenas - qual carneiro mal morto - segue disciplinadamente o resto da carneirada….


Assim em 2008, o mais marcante em termos internacionais foi sem dúvida a derrocada daquilo que na generalidade se convencionou chamar de capitalismo - eu prefiro chamar-lhe umbiguismo - que veio desiludir drasticamente quem nele confiou sem restrições.
Parece que finalmente estamos a perceber que o egoísmo desenfreado que norteia as nossas vidas e que se reflecte em todos os aspectos da nossa existência não está a funcionar como devia. Esta ganância generalizada torna-se visível na competitividade feroz sentida a todos os níveis desta sociedade selvagem em que vivemos e também na gritante incapacidade de nos colocarmos na pele do nosso vizinho do lado.
Um excelente retrato do umbiguismo no seu melhor é a simples constatação de que o âmago da actual crise está centrada precisamente na desconfiança e no pavor que os banqueiros têm uns dos outros, não estimulando a concessão de crédito dentro do próprio sistema bancário. Ninguém arrisca hoje um milímetro mesmo sabendo que a médio prazo esse risco será recompensado com melhorias ao nível da conjuntura económica que a todos beneficiará.
A humanidade nos dias que correm valoriza sobretudo o hoje - querendo todos alcançar tudo, já e agora - sendo a natureza humana incapaz de temporizar determinados objectivos com vista a atingir benefícios futuros mais equitativamente distribuídos.

2008 teve ainda um protagonista relativamente inesperado que abriu novos caminhos para a palavra esperança. Falo de Barack Obama.
Em Portugal destaco a consagração dos Contemporâneos como novo fenómeno mediático, conquistando muito meritoriamente a "bota de ouro" do humor aos até aqui inigualáveis Fedorentos…...

sábado, 27 de dezembro de 2008

Joan Miró


O abandono

Agia com soberba, desprezando constantemente os mais incautos. A sua arma mais mortífera era o sarcasmo. Essa arte foi progressivamente aperfeiçoada nos bancos da escola das escolas, aquela que representa a excelência numa educação de vanguarda. Teve a felicidade de ser formado na universidade da vida.

Acabou os seus dias entregue à mais pura das solidões. Foi, desprezadamente, deixado ao abandono….

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Um Natal Português

Para abertura das hostilidades, umas azeitoninhas cobertas de uma incessante injustiça social apimentadas com uns pozinhos de enriquecimento ilícito.
Depois, um bacalhauzinho cozido com todos numa situação de desemprego, regado com uma desigualdade social de fazer inveja a um qualquer visitante pois é com certeza de uma casa portuguesa que falamos.
Na sobremesa, um fondue de greves estrategicamente coladas ao fim de semana para inverter os históricos e malfadados índices de produtividade.
Para finalizar o repasto - a acompanhar o inevitável café feito na nespresso da ordem (claro está) - um chocolatinho recheado de hipocrisia com um cálice de megalomania reinante para rematar uma refeição que celebra festivamente a Portugalidade….

domingo, 21 de dezembro de 2008

Verdes Anos – Carlos Paredes



Uma guitarra enamorada por Lisboa....

Eu quero ser campeão! (round 12) Sporting 0 Académica 0

Empate comprometedor na véspera da paragem de inverno que deixa a massa adepta com uma azia muito pouco natalícia. O que a equipa fez na 2.ª parte até justificava algo mais. Existem dois aspectos dignos de registo:
- Hélder Postiga tem sido uma desilusão. Porventura esforça-se mais do que era expectável, mas além de se revelar muito perdulário com as consequências nefastas que isso representa para a equipa, não tem trazido a qualidade técnica que prometia.
- Só o insondável íntimo de Paulo Bento poderá esclarecer os motivos de Pipi Romagnoli estar 64, repito, 64 minutos em campo sem acrescentar rigorosamente nada de produtivo ….

sábado, 20 de dezembro de 2008

A alienação natalícia (a minha)

Ides, ide todos invadir os centros comerciais com a vossa ganância despudorada incapaz de enfrentar o periclitante coxear duma Rena cadavérica.

A loucura do homem começa onde acaba a noção do absurdo. A noção do absurdo acaba onde começa a loucura humana.

E eu, um mero terráqueo, onde me situo no meio desta desenfreada demência?
Como um Pai Natal eternamente desalinhado, decerto adormecerei embriagado numa descida vertiginosa dentro de uma qualquer chaminé em ruínas…

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Mala Noche

Mala Noche é o primeiro filme realizado por Gus Van Sant - cineasta que muito aprecio - e um dos poucos que eu ainda não tinha visto. Filmado a preto e branco em 16 milímetros no ano de 1985 permaneceu inédito na Europa até 2006 com excepção de algumas projecções pontuais em festivais.
O filme nasceu da adaptação do diário íntimo de Walt Curtis e passa-se em Portland, Oregon. Um homem (Walt Curtis) apaixona-se perdidamente por Johnny, um emigrante mexicano clandestino que não fala uma palavra de inglês e ainda nem fez 18 anos...
Gus Vant Sant começava aqui a desenhar os contornos cintilantes da sua riquíssima filmografia. Num preto e branco visceral, mostra-nos através de um olhar e fotografia fulgurantes, os problemas com que se batem os imigrantes mexicanos nos Estados Unidos, vestindo as suas personagens com a habitual humanidade que invade todo o seu cinema.
Ainda trago na memória a frase absolutamente arrasadora que marca indelevelmente o último Vant Sant de 2007 e que sintetiza de forma brilhante toda a sua obra:
«Nunca ninguém está preparado para Paranoid Park»........

O Caçador de ilusões

Seguia persistentemente no encalço das suas presas indo ao encontro dos seus instintos mais primários. A fantasia alheia era a alvo a abater
Defendia com intransigência o mundo das megalomanias mais despudoradamente desviantes. Nunca prometia nada que não soubesse cumprir. Agia de forma persecutória perante todos os que perdiam tempo sonhando com conjunturas infrutíferas.
Julgava-se detentor de uma razão impossível de contestar com credibilidade. Sentia-se acima da lei.
Até que numa caçada aparentemente normal um prestigiado caçador da razão acertou-lhe em cheio no peito com uma bala assassina. Desnorteado caiu hirto no chão. Por um momento o Caçador de ilusões tentou agarrar-se à ilusão de continuar vivo renegando tudo o que sempre preconizou. Infelizmente para ele, a ilusão tinha boa memória…...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

In-I.flv - Juliette Binoche e Akram Khan



Juliette Binoche anda actualmente empenhada num espectáculo de dança contemporânea com o bailarino e coreógrafo britânico Akram Khan que elogiou a coragem e tenacidade da actriz francesa, de 44 anos. "Ela sempre quis dançar" e "não se deixou intimidar", diz o bailarino sobre Binoche que até aqui nunca dançara em palco.....

O Natal



segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A Inveja



O que tenho eu em comum com um Jornalista Iraquiano de nome Muntadar al-Zaidi?
Nada, mesmo, nada!
Eu nunca fui consequente nos meus intentos contra Bush. Além de possuir o pecado capital da inveja, não passo de um valente cobardolas…

domingo, 14 de dezembro de 2008

O Fado

País que se acrescenta em cada tristeza
como luz que resplandece em cada novo dia,

o mar que espreita no cruzar do horizonte
nos entretantos desmistificados duma qualquer vida.


Planícies de bravura em terra sem pão
como ternura marítima em animais vadios.


Os poderosos versam sobre a cor do dinheiro
em círculos sinistros que prenunciam a podridão do rio.


Portugal de Merda, porque me persegues?
Vendes-te amiúde como uma reles Puta.


Enquanto alimentas as tuas vacas sagradas
deixa-me amar os meus descansadamente.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Melhor que nada

Subia descansado a avenida na sua rotina diária.
Somente guardava das conversas alheias o que mais lhe convinha. Era um curioso moderado…

A vida vivida da vidinha tinha-se encarregue de o isolar do resto da humanidade. Sonhava com o dia em que a solidão deixasse de ser a sua única companhia….

Um dia descobriu um homem estátua, que dia após dia o ouvia pacientemente sem nunca o interromper. Tinha encontrado a sua cara metade. Sempre era melhor que nada….

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Somos todos Gregos

Os Gregos estão na rua. A revolta juvenil agudiza a crise social. A rebelião alastra a todos os sectores da sociedade, dizem.
Quem sabe se não estaremos na génese de um novo Maio, maduro Maio, quarenta anos depois?

No fundo falamos dos grandes propulsores do pensamento universal que ainda hoje sustenta a cultura ocidental e onde sempre residiu o berço da Civilização.
Talvez por isso percebam primeiro que os restantes Povos o que está, hoje, verdadeiramente em causa…..

Paranoid Android – Radiohead

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O Porto

Gosto imenso do Porto. Para ser perfeito só lhe falta mesmo o Sporting…

Esta é a Cidade

Esta é a Cidade, e é bela.

Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descansa,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!

António Gedeão – Pseudónimo de Rómulo de Carvalho

sábado, 6 de dezembro de 2008

O Sabor da Melancia

Tsai Ming-Liang, realizador originário da Malásia, apresentou-nos em 2006 O Sabor da Melancia cuja recente visualização me desiludiu bastante. Retinha como referência deste cineasta oriental, o Rio, extraordinário filme de 1997 que me tinha ficado na memória e em que a acção se passava igualmente no Taiwan.
Apesar de continuar a cultivar com pertinácia toda a solidão a que se entregam habitualmente as suas personagens, Ming-Liang mais não faz do que repetir fórmulas anteriormente utilizadas tentando explorar um universo sexual, desta feita, pouco original e apelativo.
No sentido de atenuar o pouco interesse do filme o realizador tenta dispersar as atenções transformando-o num hipotético musical, mas mesmo nesse campo os resultados são, a meu ver, pouco estimulantes para o espectador.….