domingo, 31 de maio de 2009

O Calor

Músicas segredadas aos ouvidos aquecem indefesos corações. Apertam-se as cinturas na ânsia de noites passadas ao luar. Brindam-se aos amores com copos mergulhados em sensualidade.

Sobe o tom das vozes à medida que as estrelas se insinuam. Refrescam-se as almas, soltando as frustrações mais recônditas.
As impetuosidades contidas são cercadas por garrafas despidas.

O calor também serve para libertar a estupidez sensatamente hibernada.

Chegou o Verão…..

sábado, 30 de maio de 2009

A noite passada – Sérgio Godinho

A Mesquinhez

A sua ascensão social passava por apontar indiscriminadamente os erros dos outros. Era competente e rigoroso mas excessivamente insolente. Conservava uma ancestral alergia à palavra humildade.
Ambicionava o impossível. A mais pura mesquinhez era o seu aliado por excelência na procura da glorificação alheia….

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Cada um o seu cinema

Para celebrar os 60 anos do Festival de Cannes trinta e três cineastas assinam 32 histórias em curtas de 3 minutos compartilhando assim com o espectador a magnificência desta nobre arte que inunda a nossa vida de emoção.
É portanto acontecimento imperdível para verdadeiros cinéfilos, até porque o denominador comum de todas as obras apresentadas é precisamente a presença obrigatória de uma sala de cinema em todos os filmes. Filmes esses, que aparecem elencados da seguinte forma:
Theo Angelopoulos (Trois minutes) - Olivier Assayas (Recrudescence) - Bille August (The Last Dating Show) - Jane Campion (The Lady Bug) - Youssef Chahine (47 ans après) - Chen Kaige (Zhanxiou Village) - Michael Cimino (No Translation Needed) - David Cronenberg (At the Suicide of the last Jew in the World, in the Last Cinema in the World) - Jean-Pierre e Luc Dardenne (Dans l´obscurité) - Manoel de Oliveira (Rencontre unique) - Raymond Depardon (Cinéma d´été) - Atom Egoyan (Artaud Double Bill) - Amos Gitai (Le Dibbouk de Haifa) - Hou Hsiao-hsien (The Electric Princess Picture House) - Alejandro González Iñarritu (Anna) - Aki Kaurismäki (Fonderie) - Abbas Kiarostami (Where is my Romeo?) - Takeshi Kitano (One Fine Day) - Andreï Konchalovsky (Dans le noir) - Claude Lelouch (Cinéma de boulevard) - Ken Loach (Happy Ending) - Nanni Moretti (Diario di uno spettattore) - Roman Polanski (Cinéma érotique) - Raoul Ruiz (Le Don) - Elia Suleiman (Irtebak) - Walter Salles (À 8.944 km de Cannes) - Tsai Ming-Liang (It´s a Dream) - Gus Van Sant (First Kiss) - Lars von Trier (Occupations) - Wim Wenders (War in Peace) - Wong Kar-Wai (I Travelled 9.000 km to Give it to You) - Zhang Yimou (Movie Night).

Há memórias de infância, metáforas ou simplesmente pequenos registos humorísticos. Cada Um o Seu Cinema é uma amálgama de culturas, que percorrem diversas perspectivas, num colorido tapete pintado com enorme criatividade….

Destaco três enormes filmes apesar da sua curta duração:
Em primeiro lugar, One fine day do ícone Takeshi Kitano, um objecto belíssimo a todos os níveis. É impressionante a forma como Kitano, em apenas 3 minutos, consegue sintetizar o seu talento ímpar. Em segundo, Diário di uno spettatore que nos transporta para o universo de um Moretti em grande forma, e por último, Cinema érotique de Roman Polanski que utiliza - numa abordagem igualmente interessante e apelativa - o humor de uma piada simples criada pela escuridão da sala de cinema.
Podíamos ainda falar das curtas de Wong Kar-Wai, Abbas Kiarostami ou Alejandro González Iñarritu como exemplos da grande constelação de talento premiado em Cannes. Três segmentos, aliás, bastante fiéis ao estilo cinematográfico que caracteriza cada um deles.
Não podia ainda deixar de salientar a memória de Youssef Chahine. Falecido em 2008 realizou com 47 ans après um regresso ao passado em Cannes, onde em 1997 recebeu o prémio carreira depois de em 1950 ter participado no Festival pela primeira vez….

Fica o trailer para estimular ainda mais o seu visionamento:



terça-feira, 26 de maio de 2009

A Aflição

Conhecia por experiência própria a luta incendiária que o obstruía. Sabia que no seu íntimo, o combate era contra si, e não contra outros.

Os seus complexados receios não tinham limites. Impunham-se em cada novo desafio, em cada passo em falso, em cada oportunidade perdida.

Tornava-se orgulhoso nas circunstâncias em que o orgulho é o mais malévolo aliado. Temia precipitadamente o desconhecido. Esquecia-se que não se pode conhecer o que não se vive.

Era um frustrado por crença divina. A aflição era o seu último refúgio…....

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Eu queria ser campeão! (round 30) Sporting 3 Nacional da Madeira 1

No fim de uma época de muito má memória o Grande Sporting venceu o Nacional da Madeira confirmando a predilecção de Paulo Bento pelas segundas voltas do Campeonato.
A saída pela porta pequena da Liga dos Campeões é o ponto mais negativo deste percurso. Não me conformo de maneira nenhuma com as duas goleadas infligidas por uns medíocres bávaros, como agora facilmente se percebe....

Liedson não atingiu o merecido estatuto de artilheiro da prova. Se havia alguém na equipa que merecia vencer algo era de facto ele mas o seu concorrente mais directo – Nené – também fez para merecer a distinção.
Derlei, que bisou, continua hoje sem saber se vai continuar a jogar na próxima época. É de facto uma daquelas situações que me deixa perante um dilema existencial. Se por um lado é um jogador experiente que decide alguns jogos, por outro é um indisciplinado recorrente que ferve em pouca água dando um péssimo exemplo aos jogadores mais jovens. Faz-me lembrar Sá Pinto que em inúmeras circunstâncias, algumas decisivas, se tornou prejudicial à equipa….

As grandes desilusões da época – e não são poucas - foram Romagnoli, Rochemback, Miguel Veloso, Postiga, Polga, Abel, Caneira, Djaló, não necessariamente por esta ordem. Qualquer um deles era bem vendido. As revelações, ainda que sem deslumbrarem, foram Daniel Carriço e Pedro Silva.
Para o ano com Bettencourt a Presidente (a boa noticia) e Paulo Bento como treinador (a menos boa noticia) continuarei com toda a certeza a querer ser campeão….

sábado, 23 de maio de 2009

Fímbria de Melancolia

Fímbria de melancolia,
memória incerta da dor,
ouço-a no gravador,
no fado que não se ouvia
quando ouvia o seu clamor.

Porque era já no passado
o presente dessa hora
e que me ressoa agora
a um outro mais alongado.

Assim a dor que se sente
no outro obscuro de nós
nunca fala a nossa voz
mas de quem de nós ausente,
só a nós próprios consente
quando não estamos nós
mas mais sós do que ao estar sós.

Onde então estamos nós?

Vergílio Ferreira

O País

A Realidade

Escondemos as nossas debilidades com competência, camuflamos as nossas idiossincrasias com mestria, mas na verdade nunca fugimos daquilo que somos porque não se pode fugir da Realidade….

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A Dissimulação

Era homem de verdades absolutas. Refugiava-se sucessivamente na falsidade dos seus argumentos. A sua ambição era proporcional à sua estupidez.

Um dia quis dissimular a sua imbecilidade com erudição. Nessa pespectiva, comprou a dita erudição a peso na mercearia da esquina.

Percebeu mais tarde que havia sido vítima de um embuste. O Merceeiro tinha-o burlado com sapiência. Aprendeu nesse dia que o saber (o autêntico) não ocupa lugar….

O Capitólio


A Casa

Passeava pela sua residência sempre taciturno.
Por baixo daquela aparente serenidade pousava uma inquietude sem igual.
A casa era o seu abrigo, o seu último reduto, a sua derradeira morada….

domingo, 17 de maio de 2009

Eu queria ser campeão! (round 29) Marítimo 1 Sporting 2

No Funchal, Marítimo 1 Levezinho 2!
Fica mais uma vez demonstrado que, por ele, o título morava em Alvalade. E quanto já fez para o justificar nas épocas que leva de Leão ao peito…...

sábado, 16 de maio de 2009

O Recuo

Como eu já suspeitava, Manuel Alegre recuou na vontade de criar um novo partido excluindo assim a anunciada ruptura total com Sócrates.
A minha embirração com Manuel Alegre nasce precisamente da estranheza que me causa ver alguém com um discurso tão critico, tão anti-sistema, que gosta tanto de ser posicionar à margem do poder instituído no partido, não abdicar do seu lugarzinho de vice-presidente da Assembleia da República e paralelamente das mordomias todas que tal posição lhe oferece. É portanto um rebelde de causas muito selectas…...

Parece-me também evidente que quer Sócrates (com toda a atenção que lhe concede), quer a generalidade da opinião pública, valorizam excessivamente o mítico peso eleitoral de Alegre. A votação que teve nas Presidenciais - o célebre milhão de votos - foi conquistada em circunstâncias muito particulares e por isso irrepetíveis.

Alegre vale pouco e o seu discurso cadavérico, sem um único fundamento inovador, também….

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Temos Presidente!

Fala do Sporting com inteligência e paixão. Só pode, caso confirme que é Candidato, ter o apoio generalizado dos verdadeiros leões de raça.
Provavelmente vai entrar com o pé esquerdo – renovando insensatamente com Paulo Bento – mas José Eduardo Bettencourt inspirará aquele rugido que tem faltado em Alvalade…..

Entretanto, isto sim, é jornalismo de qualidade. Basta clicar em vídeo. Deliciem-se:

http://www.ionline.pt/conteudo/3917-liedson-31-razoes-renovar

Ou então:



Contudo, a minha opinião, é um tudo-nada suspeita…....

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A Abundância

Insensata abundância sua malvada
emanaste, demente, no limiar da carência
corres desenfreada sem controlo algum
num espiral infindável de egoísmo.

Vidas de luxo em cabeças vazias
corpos de papel em gestos frívolos.
Loucas correrias atrás de riqueza
consumos doentios em doses absurdas.

Renegam-se as possibilidades do futuro
Desconhece-se a história do passado.
Sonha-se com as coisas do amanhã
sem perceber porque o hoje aconteceu.

California Dreamin

Em 1999 enquanto a NATO bombardeava a antiga Jugoslávia, um chefe de uma estação de comboios provocou um insólito episódio numa pequena vila Romena.
O curioso homem impediu a passagem de um comboio contendo equipamento militar que seria usado na guerra de Kosovo. O carregamento secreto estava autorizado pelo governo da Roménia, contudo viajava sem documentação oficial. O Chefe da estação obrigou assim a mercadoria a ficar dias a fio no meio do nada, enquanto generais e ministros se esmeravam na tentativa de o convencer a permitir a passagem do equipamento militar.
O incidente real, que não interferiu no rumo da guerra, ganhou relevo e acabou por transformar-se em “California Dreamin’” (2007), um pitoresco quadro da vida no interior da Roménia após Ceauşescu.

O filme acabou por se transformar, infelizmente, no canto de cisne do jovem cineasta Cristian Nemescu. Enquanto trabalhava na produção do filme, Nemescu faleceu num acidente de viação em 2006. Tinha somente 26 anos. Pouco antes de morrer tinha, contudo, concluído a primeira montagem do trabalho. A fita mesmo inacabada acabou por ser premiada em Cannes, onde venceu o prémio principal da secção paralela “Um Certain Regard”.

Num registo trágico-cómico, California Dreamin' foi (é) mais um exemplo de qualidade da emergente cinematografia originária da Roménia.
Sem deslumbrar, é um vivo retrato de uma povoação do interior de um País em crescimento que progressivamente se abre ao mundo, depois de viver muitos anos fechado sobre si próprio.
Com algumas boas interpretações, Nemescu cria uma obra de qualidade suficiente para ficar para sempre ligado à acutilante nova vaga do cinema Romeno….

segunda-feira, 11 de maio de 2009

De Rembrandt a Van Gogh a tinta és tu

Em rosa de bateira e sol de vinho.
O tempo fez-se-me fome,
Mas levantas os braços-e é o moinho.

Como a corça na Haia plo rebento
E a ponte levadiça,
Vais em maneira,amor e movimento,
Vela da tarde, dique do meu sangue:
Afinal só um pouco de mulher
Que a palavra detém e águas cultivam.

Graça do vento em céus inesperados,
Gaivota és para mim que nasci delas;
No milagre de sermos encontrados
Já de Amesterdão são nossas as janelas.

Taça a taça trocámos anéis áureos
De vinho português sobre holandilha:
Quem via-como saber
Se era braço de noivo ou mão de filha?

Mas sempre tinta à tarde! Eras a Lua
Que em foice adestra os calmos céus dos pólderes:
Eu ceifava a manhã nos teus cabelos,
Contava-os um a um, canal abaixo,
E, deitado nos verbos que te evocam,
Feliz com um pintor que vende pouco,
Era holandês por ti...

Que, bem pensando,
O que eu cá sou, céus de Van Gogh, é louco!

Vitorino Nemésio