terça-feira, 9 de junho de 2009

Passei o Dia Ouvindo o que o Mar Dizia

Eu hontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.

Chorámos, rimos, cantámos.

Fallou-me do seu destino,
Do seu fado...

Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Poz-se a cantar
Um canto molhádo e lindo.

O seu halito perfuma,
E o seu perfume faz mal!

Deserto de aguas sem fim.

Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...

Elle afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado….

Ao longe o Sol na agonia
De rôxo as aguas tingia.

«Voz do mar, mysteriosa;
Voz do amôr e da verdade!
- Ó voz moribunda e dôce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte...»
……………………………….. .

E os poetas a cantar
São echos da voz do mar!
António Botto

domingo, 7 de junho de 2009

Eu voto Branco (parte I)

Na sequência da minha recente predilecção pela cor dos anjos (ver post anterior) votarei branco nas eleições europeias de hoje.
No fundo pertenço a uma imensa minoria silenciosa que tem vindo a aumentar de forma progressiva. Recordo que nas últimas europeias de 2004 foram 2,57 %, o que significa que já é o maior dos considerados partidos pequenos. Isto, sem juntarmos os nulos. Anular o voto sempre me pareceu um desperdício de tinta inútil, mas também há bons argumentos a favor desta tendência vanguardista. Um bom impropério colocado no sítio certo é coisa para entusiasmar e serenar muitas almas.
Ando assim curioso para saber quantos formarão a imensa minoria branca nestas eleições….

Relativamente ao habitual folclore proporcionado por mais uma campanha eleitoral deixo algumas considerações:
Vital Moreira revelou-se uma má opção para Sócrates. Demonstrou nitidamente ser peixe fora de água, assinando uma inusitada campanha onde foi lançando repetidos ataques à oposição numa lógica sem sentido, o que poderá provocar merecidos dissabores aos socialistas (que como se sabe, o são, só no papel)….
Paulo Rangel beneficiou do facto das expectativas relativamente a si serem extremamente baixas. Fez uma boa campanha conseguindo com a sua espontaneidade resguardar o esforço hercúleo e ridículo que Ferreira Leite tem feito no sentido de aparecer mais sorridente….
O Bloco de Esquerda do qual já fui eleitor - quando tinham piada e representavam não mais que 2% - fez uma campanha melhor do que algumas das últimas, com inovação, criatividade e sangue na guelra. O aspecto menos positivo é assumirem em eleições europeias primazia por outras questões, que sendo obviamente de fundamental importância, não correspondem ao que está em debate neste sufrágio. Estas tomadas de posição servem somente para acentuar a desvalorização generalizada que existe relativamente aos assuntos europeus.
Apesar da presença sempre jovial de Ilda Figueiredo, a dúbia e irrealista posição dos comunistas relativamente à integração europeia faz sempre com que estas campanhas sejam terreno minado para os seus ancestrais argumentos. O facto é que Portugal sem a Europa - com todas as coisas positivas e negativas que daí advêm - estaria cinquenta vezes pior..…
Do partido de Paulo Portas já se sabe o que se pode esperar. De feira em feira, de terriola em terriola, passando pelo Norte profundo com a habitual demagogia pelo meio e juras de amor eterno à lavoura. Tudo isto com o objectivo de tentar segurar o que resta do seu eleitorado conservador….

Ao contrário do que alguns vão preconizar, os Resultados não serão minimamente conclusivos relativamente a eleições futuras e a abstenção terá maioria absolutíssima como merecem em grande parte os nossos dignos mandatários nesta coisa a que chamam democracia representativa.
Apesar de ser um defensor da participação cívica em todos os actos eleitorais constato que o País, ao abster-se massivamente, começa de facto a ganhar maturidade democrática...

Como nota final, ou muito me engano ou este post terá ainda duas sequelas este ano…..

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O Branco


Na passagem do primeiro aniversário do Hipocrisias Indígenas é tempo para um brinde comemorativo. Recordo aqui o primeiro post desta minha aventura pelo mundo dos blogs....
Num tempo de contínuas evoluções o Hipocrisias muda também de visual e o imaculado branco passa a ser a sua cor….

Agradeço às “minhas” pessoas que sempre aqui vieram desde os primórdios. Falamos obviamente de duas ou três, não mais! Admiro-lhes francamente a paciência perante exercício tão egocêntrico, como é este pobre blog!
Atente-se que nenhuma delas, posso garantir, é a minha Mãe, o que não deixa de ser, qualquer que seja a perspectiva, assinalável…..

Um abraço especial para o Salvo Conduto - esse atento esquerdista às injustiças deste mundo - que foi o primeiro ”blogger“ a dar-me a honra da sua assídua presença.
Agradeço também a quem por cá vai passando, de tempos a tempos, alguns consagrados, o que me apraz registar…..

Aos muitos(as) que cá vieram uma única vez e decidiram nunca mais voltar, os meus sinceros parabéns. Por motivos óbvios estas felicitações não chegarão aos destinatários (as), no entanto não posso deixar de agradecer a sua presença. Desejo sinceramente que continuem a adoptar decisões acertadas ao longo das suas vidas, mantendo sempre os níveis de bom senso que evidenciaram ao tomar a feliz resolução de nunca mais aqui regressar……

Ao verde Sporting sucede a transparente clareza da brancura. Saliente-se que esta metamorfose não significa uma menor predilecção pelos leões de Alvalade (nunca jamais) mas antes uma nova concepção do misterioso universo da natureza humana, talvez, quem sabe, inspirado pelos efeitos celestiais de uma paternidade iminente…..

O Branco é a cor dos demónios mais angelicais como é, nitidamente, o meu caso. A partir de hoje passa a estar também na essência intrínseca do Hipocrisias Indígenas….

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A Campanha

Distribuem beijos e abraços como se não houvesse amanhã. Há os que adoram as feiras e há os que detestam comícios.
Todos convivem democraticamente numa espécie de pornografia intelectual…

Vejo as frívolas trocas de galhardetes entre os cabeças de lista dos velhos Partidos e penso no deplorável estado a que isto chegou….
Vejo a frescura de ideias destes movimentos, ditos, inovadores - muito hipocritamente assertivos - e não reconheço um único sinal de efectiva esperança…

A Campanha está na rua e o Povo sorri….
Viva o Carnaval. Viva Portugal……

A Pala


terça-feira, 2 de junho de 2009

A Unanimidade

Procuravam sempre o chamado consenso dos pobres. A vida não está para chatices, pensavam….

Sentiam as ameaças, constantemente, a pairar no ar. Eram facilmente dirigíveis. Assumiam o comodismo intelectual como a única conduta possível. A sua luta era sobreviver diariamente à selva da vida….

Por defeito, concordavam em tudo. Contemporizavam sucessivamente as suas convicções, sem entender que a unanimidade é incompatível com o progresso….

domingo, 31 de maio de 2009

Movimento pela igualdade no acesso ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo Petition

O Calor

Músicas segredadas aos ouvidos aquecem indefesos corações. Apertam-se as cinturas na ânsia de noites passadas ao luar. Brindam-se aos amores com copos mergulhados em sensualidade.

Sobe o tom das vozes à medida que as estrelas se insinuam. Refrescam-se as almas, soltando as frustrações mais recônditas.
As impetuosidades contidas são cercadas por garrafas despidas.

O calor também serve para libertar a estupidez sensatamente hibernada.

Chegou o Verão…..

sábado, 30 de maio de 2009

A noite passada – Sérgio Godinho

A Mesquinhez

A sua ascensão social passava por apontar indiscriminadamente os erros dos outros. Era competente e rigoroso mas excessivamente insolente. Conservava uma ancestral alergia à palavra humildade.
Ambicionava o impossível. A mais pura mesquinhez era o seu aliado por excelência na procura da glorificação alheia….

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Cada um o seu cinema

Para celebrar os 60 anos do Festival de Cannes trinta e três cineastas assinam 32 histórias em curtas de 3 minutos compartilhando assim com o espectador a magnificência desta nobre arte que inunda a nossa vida de emoção.
É portanto acontecimento imperdível para verdadeiros cinéfilos, até porque o denominador comum de todas as obras apresentadas é precisamente a presença obrigatória de uma sala de cinema em todos os filmes. Filmes esses, que aparecem elencados da seguinte forma:
Theo Angelopoulos (Trois minutes) - Olivier Assayas (Recrudescence) - Bille August (The Last Dating Show) - Jane Campion (The Lady Bug) - Youssef Chahine (47 ans après) - Chen Kaige (Zhanxiou Village) - Michael Cimino (No Translation Needed) - David Cronenberg (At the Suicide of the last Jew in the World, in the Last Cinema in the World) - Jean-Pierre e Luc Dardenne (Dans l´obscurité) - Manoel de Oliveira (Rencontre unique) - Raymond Depardon (Cinéma d´été) - Atom Egoyan (Artaud Double Bill) - Amos Gitai (Le Dibbouk de Haifa) - Hou Hsiao-hsien (The Electric Princess Picture House) - Alejandro González Iñarritu (Anna) - Aki Kaurismäki (Fonderie) - Abbas Kiarostami (Where is my Romeo?) - Takeshi Kitano (One Fine Day) - Andreï Konchalovsky (Dans le noir) - Claude Lelouch (Cinéma de boulevard) - Ken Loach (Happy Ending) - Nanni Moretti (Diario di uno spettattore) - Roman Polanski (Cinéma érotique) - Raoul Ruiz (Le Don) - Elia Suleiman (Irtebak) - Walter Salles (À 8.944 km de Cannes) - Tsai Ming-Liang (It´s a Dream) - Gus Van Sant (First Kiss) - Lars von Trier (Occupations) - Wim Wenders (War in Peace) - Wong Kar-Wai (I Travelled 9.000 km to Give it to You) - Zhang Yimou (Movie Night).

Há memórias de infância, metáforas ou simplesmente pequenos registos humorísticos. Cada Um o Seu Cinema é uma amálgama de culturas, que percorrem diversas perspectivas, num colorido tapete pintado com enorme criatividade….

Destaco três enormes filmes apesar da sua curta duração:
Em primeiro lugar, One fine day do ícone Takeshi Kitano, um objecto belíssimo a todos os níveis. É impressionante a forma como Kitano, em apenas 3 minutos, consegue sintetizar o seu talento ímpar. Em segundo, Diário di uno spettatore que nos transporta para o universo de um Moretti em grande forma, e por último, Cinema érotique de Roman Polanski que utiliza - numa abordagem igualmente interessante e apelativa - o humor de uma piada simples criada pela escuridão da sala de cinema.
Podíamos ainda falar das curtas de Wong Kar-Wai, Abbas Kiarostami ou Alejandro González Iñarritu como exemplos da grande constelação de talento premiado em Cannes. Três segmentos, aliás, bastante fiéis ao estilo cinematográfico que caracteriza cada um deles.
Não podia ainda deixar de salientar a memória de Youssef Chahine. Falecido em 2008 realizou com 47 ans après um regresso ao passado em Cannes, onde em 1997 recebeu o prémio carreira depois de em 1950 ter participado no Festival pela primeira vez….

Fica o trailer para estimular ainda mais o seu visionamento:



terça-feira, 26 de maio de 2009

A Aflição

Conhecia por experiência própria a luta incendiária que o obstruía. Sabia que no seu íntimo, o combate era contra si, e não contra outros.

Os seus complexados receios não tinham limites. Impunham-se em cada novo desafio, em cada passo em falso, em cada oportunidade perdida.

Tornava-se orgulhoso nas circunstâncias em que o orgulho é o mais malévolo aliado. Temia precipitadamente o desconhecido. Esquecia-se que não se pode conhecer o que não se vive.

Era um frustrado por crença divina. A aflição era o seu último refúgio…....

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Eu queria ser campeão! (round 30) Sporting 3 Nacional da Madeira 1

No fim de uma época de muito má memória o Grande Sporting venceu o Nacional da Madeira confirmando a predilecção de Paulo Bento pelas segundas voltas do Campeonato.
A saída pela porta pequena da Liga dos Campeões é o ponto mais negativo deste percurso. Não me conformo de maneira nenhuma com as duas goleadas infligidas por uns medíocres bávaros, como agora facilmente se percebe....

Liedson não atingiu o merecido estatuto de artilheiro da prova. Se havia alguém na equipa que merecia vencer algo era de facto ele mas o seu concorrente mais directo – Nené – também fez para merecer a distinção.
Derlei, que bisou, continua hoje sem saber se vai continuar a jogar na próxima época. É de facto uma daquelas situações que me deixa perante um dilema existencial. Se por um lado é um jogador experiente que decide alguns jogos, por outro é um indisciplinado recorrente que ferve em pouca água dando um péssimo exemplo aos jogadores mais jovens. Faz-me lembrar Sá Pinto que em inúmeras circunstâncias, algumas decisivas, se tornou prejudicial à equipa….

As grandes desilusões da época – e não são poucas - foram Romagnoli, Rochemback, Miguel Veloso, Postiga, Polga, Abel, Caneira, Djaló, não necessariamente por esta ordem. Qualquer um deles era bem vendido. As revelações, ainda que sem deslumbrarem, foram Daniel Carriço e Pedro Silva.
Para o ano com Bettencourt a Presidente (a boa noticia) e Paulo Bento como treinador (a menos boa noticia) continuarei com toda a certeza a querer ser campeão….

sábado, 23 de maio de 2009

Fímbria de Melancolia

Fímbria de melancolia,
memória incerta da dor,
ouço-a no gravador,
no fado que não se ouvia
quando ouvia o seu clamor.

Porque era já no passado
o presente dessa hora
e que me ressoa agora
a um outro mais alongado.

Assim a dor que se sente
no outro obscuro de nós
nunca fala a nossa voz
mas de quem de nós ausente,
só a nós próprios consente
quando não estamos nós
mas mais sós do que ao estar sós.

Onde então estamos nós?

Vergílio Ferreira

O País

A Realidade

Escondemos as nossas debilidades com competência, camuflamos as nossas idiossincrasias com mestria, mas na verdade nunca fugimos daquilo que somos porque não se pode fugir da Realidade….

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A Dissimulação

Era homem de verdades absolutas. Refugiava-se sucessivamente na falsidade dos seus argumentos. A sua ambição era proporcional à sua estupidez.

Um dia quis dissimular a sua imbecilidade com erudição. Nessa pespectiva, comprou a dita erudição a peso na mercearia da esquina.

Percebeu mais tarde que havia sido vítima de um embuste. O Merceeiro tinha-o burlado com sapiência. Aprendeu nesse dia que o saber (o autêntico) não ocupa lugar….

O Capitólio


A Casa

Passeava pela sua residência sempre taciturno.
Por baixo daquela aparente serenidade pousava uma inquietude sem igual.
A casa era o seu abrigo, o seu último reduto, a sua derradeira morada….