Começando pelo PS, José Sócrates mantém a vontade e a determinação de governar e isso, quer se queira quer não, é um ponto a seu favor. Não se pode minimizar o facto de ser cada vez maior a aversão a cargos políticos na Sociedade Civil. Sócrates tem esse mérito. Sabe o que quer e luta com pragmatismo pelos seus objectivos sendo que obviamente não basta querer para que a obra nasça.
Mais contestação, menos contestação, mais magalhães, menos magalhães, que aliás é uma boa medida em qualquer parte do mundo, o Governo fez, quanto a mim, um trabalho aceitável na educação.
Na Saúde, com a saída de Correia de Campos, de longe o melhor e mais bem preparado Ministro da Saúde do pós 25 de Abril, Sócrates deu sinais de fraqueza. Correia de Campos não tinha a protecção dos media que o ridicularizavam constantemente mas é aí que se vê a diferença entre quem governa exclusivamente com base em critérios de imagem e quem governa com o desígnio de resolver os problemas dos cidadãos. Aliás, é curioso, mas de repente deixaram de ocorrer partos em ambulâncias por esse País fora. Como se isso fosse, de todo, possível…
O pecado capital deste Governo foi, quanto a mim, o excessivo peso dado à política de comunicação governativa e por aí merece ser penalizado. Sócrates, muitas das vezes, deixa passar a ideia de gerir uma imensa empresa de Marketing sem que daí advenham benefícios directos para as pessoas. Fez cedências inaceitáveis no sentido de controlar os soundbytes mais críticos. Fez grande alarido com eventos vazios de conteúdo. Tem Ministros que além de serem porta-vozes para isto e para aquilo, o caso de Pedro Silva Pereira por exemplo, não se lhes reconhece outras competências, o que até se torna extraordinariamente redutor para eles.
O Plano de reestruturação da administração pública, vulgo PRACE, deu parcos resultados, prolongando uma doença que parece incurável. Não se trata de despedir em grande escala mas de racionalizar recursos na Administração Central do Estado com objectividade e rentabilidade, algo que nunca foi conseguido.
Sócrates substituiu o Ministro das Finanças, o independente Campos e Cunha, demasiado cedo, o que deixou desde logo uma grande desconfiança relativamente ao rumo a seguir, tratando-se ainda para mais de um lugar nevrálgico na acção governativa. Valeu-lhe nesse ponto o versátil Teixeira dos Santos que fez sempre o jogo mais conveniente a Sócrates, com resultados ainda assim aceitáveis face ao contexto económico global.
O PSD, com o erro de casting de Ferreira Leite como líder, dificilmente poderá ambicionar mais que o ressurgimento do perverso bloco central de interesses de tão má memória para o País. A Campanha não me parece que tenha corrido extraordinariamente mal. Só quem viva em outro planeta podia ter expectativas mais elevadas….
O Bloco é uma fantasia e o seu programa assenta em grande parte em medidas não exequíveis que dependem de consensos internacionais impossíveis de obter. Por outro lado, o BE com o crescimento que continua a ostentar perde parte da credibilidade intelectual que possuía. Além do mais, ninguém me convence que Louça, no dia em que tiver responsabilidades governativas, não fugirá para parte incerta….
A CDU fez a Campanha do costume, partilhando alguns pecados com o Bloco. Jerónimo de Sousa compensou alguma impreparação em matérias mais técnicas com aquele entusiasmo, genuinidade e espontaneidade singulares que são a sua imagem de marca. Só por isso, Jerónimo, merece um bom resultado que contudo não será fácil obter.
O PP de Paulo Portas, cada vez menos CDS, prosseguiu a sua caminhada pelas feiras e mercados do Portugal profundo. Beneficiou durante a Campanha do grande à vontade do seu líder e também - há que admiti-lo - da sua inteligência quer nos debates, quer no contacto diário com os eleitores. Ninguém pode subvalorizar a experiência acentuada que possui na área da comunicação. Foi um bom Jornalista, o que nos dias que correm, atendendo à política que se faz, é uma mais-valia indesmentível.
Não acredito sinceramente que quer os debates, quer os casos ocorridos na Campanha possam ter grande impacto nos resultados finais.
Relativamente aos debates o facto mais saliente, na minha óptica, por ser inesperado, foi a “tareia” que Sócrates deu a Louça.
Paulo Portas é o terreno onde se sente obviamente mais confortável. Jerónimo não conseguiu esconder algumas fragilidades de perfil relativamente ao formato escolhido para os debates. Ferreira-Leite, apesar das gaffes, evitou o descalabro que alguns auguravam.
Nos casos mediáticos da Campanha, o episódio TVI é uma fantochada, e o das escutas, se põe alguém em cheque é Cavaco, como resultado do delicado momento escolhido para a demissão do seu leal assessor, sendo que aqui acredito que possa haver um voto residual, não muito significativo, que fuja do PSD favorecendo Sócrates.
Porém, um dos episódios mais interessantes desta campanha, na minha óptica, tem como alvo o até aqui impoluto Bloco de Esquerda. E é bastante elucidativo acerca do carácter da classe politica que nos governa. O facto de Louça ser titular de um PPR não chega a ser um caso até porque se trata de poupança pura e dura. O homem tem que pôr o dinheiro em algum lado. Agora o investimento em acções levado a cabo por aquelas caras bonitas pertencentes a duas ilustres deputadas da nação mediaticamente muito atraentes – Ana Drago e Joana Amaral Dias - merecia no mínimo um pedido de desculpas e uma justificação por parte das mesmas. É que são precisamente este tipo de hipocrisias decadentes que o BE - e muito bem – tem por hábito trazer para a praça pública. A malta defende, em grande medida, nacionalizações em diferentes sectores mas quando é o meu dinheirinho deixa cá fazer um investimentozinho na bela da privatização que é capaz de render. Obviamente que são questões pessoais, irrelevantes em termos políticos, mas diz muito acerca da falta de coluna vertebral dos nossos eleitos.
Depois das eleições de Domingo, qualquer que seja o desfecho, uma certeza eclodirá: o País caminha para a ingovernabilidade, mesmo que nos queiram convencer do contrário.
Brevemente, em um cinema perto de si, mais uma sequela do “eu voto branco” tendo com pano de fundo as Autárquicas 2009…..






