sábado, 24 de outubro de 2009

O Dia

Havia o dia e a noite, a noite e o dia e a escuridão profunda. Nunca ninguém lhe tinha explicado com a devida minúcia que havia dias piores que outros. Por cada dia derrubado outro se levantará, pensava absorto.
Adormeceu, fatigado, sonhando humildemente com a decepção…

Quanto Morre um Homem

Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?

Ruy Belo

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A Dúvida

Abeirou-se da cama em sinal de comoção. O moribundo ofegava agonizante. Não queria - nos dias que lhe faltavam ainda cumprir à face da terra - viver naquela incerteza. Sabia que o tempo escasseava para colocar as coisas no devido lugar.
Perguntou-lhe então em surdina se o seu amor seria correspondido? Perante a emoção provocada por aquela inesperada questão, o coração do moribundo de tanto bater, parou.
A curiosidade nunca foi boa conselheira. Ficou para todo o sempre na dúvida…

A Nave


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Com que Voz

Estreou no DocLisboa o documentário 'Com Que Voz', sobre a vida de Alain Oulman que entre outras proeminentes coisas foi compositor de Amália Rodrigues. O Documentário tem a particularidade de ser realizado pelo próprio filho de 42 anos, Nicholas Oulman.

Depois de um começo que deixa antever uma relativa decepção o filme ganha dimensão com o avançar da fita. A aparição de Amália e alguns testemunhos interessantes - entre os quais o de Mário Soares do qual Alain Oulman foi editor em França - ajudam a dimensionar melhor o percurso do biografado que possuía acima de tudo um talento hiper-versátil e uma apurada sensibilidade artística. O Documentário acaba em grande estilo com uma amostra real da forma e do método de trabalho de Oulman com a grande Diva do Fado. Esta deslumbrante peça final, bem como algumas imagens de uma sardinhada que aparecem no documentário, foram filmadas pelo reconhecido cineasta Português, José Fonseca e Costa.

Nada melhor que a melodia composta por Oulman para as palavras de Luís de Camões cujo poema dá inclusive nome ao documentário interpretado pela omnipresente Amália para se ficar com uma visão mais exacta do invulgar brilhantismo do Compositor.



Uma palavra para a excelência que o DocLisboa tem atingido ao longo do tempo, o que além de provar que existe público mais que suficiente para um cinema menos comercial, demonstra ano após ano que o País está paulatinamente a mudar para bem dos nossos miseráveis egos…
Nota: Este post foi editado a 31 de Outubro depois de lido o esclarecimento de Fonseca e Costa, aqui. O seu a seu dono.

domingo, 18 de outubro de 2009

A Filosofia da Desculpa

Vivia permanentemente à procura de pretextos para o sentimento de culpa que o obstruía. Justificava com insistência o erro porque a vitimização era inerente à actual espécie humana.
O desacerto é a arma dos fracos e o Nietzsche está vivo e reside na Brandoa….

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Ninguém quer brincar comigo

No jogo da nova legislatura José Sócrates, qual puto mimado, apareceu aos portugueses desgostoso por ninguém se querer coligar com ele. Assim não brinco mais, balbuciou, chorando compulsivamente perante as câmaras....

Vamos ver quanto tempo aguenta sem parceiros para as suas tropelias. Aceitam-se apostas. Cá para mim, dificilmente o jogo chegará ao intervalo…

Séraphine de Senlis


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A Cartada

Tinha planeado a jogada ao mais ínfimo pormenor. Sentia-se a meio caminho andado da miséria. Desconfiava do futuro mas não receava tempestades. De qualquer forma, a corrente corria sempre no sentido do mar. Apostava - não por ser exímio jogador - mas porque a vida se desfiava vagarosamente por entre os dedos….

Por Quem Não Esqueci - Sétima Legião

A Disponibilidade

Achava-se disponível mas a sua disponibilidade, apesar de olímpica, não era realista. Possuía uma noção de entrega extraordinariamente peculiar pois nunca tinha lido os manuais da disponibilidade. Estava disponível para ser indisponível. No fundo, a Liberdade não era mais que uma variação hipócrita da disponibilidade…..

A Surpresa

A assombração surgiu-lhe implacável através de sinais imprudentemente ignorados. Podia ter escolhido a altura certa para sair pelo portão da frente, todavia a vaidade, com o decorrer dos anos, foi-lhe ofuscando a clarividência. Tentou até aos limites sair incólume do julgamento popular mas o povo não estava para contemporizações. Percebeu nesse dia o verdadeiro significado da música do Zeca…

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
— ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo:
fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria e, lá fora — ah, lá fora! — rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.

Mário Cesariny

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

As Autárquicas

Lisboa afinal ainda tem sentido.
Santana declarado morto pela centésima vez.
Valentim tremeu mas continua a berrar em Gondomar.
Oeiras cada vez é mais espertalhona e menos instruída.
Os grosseirões de Felgueiras não precisam mais de ir à Escola….

A Magnífica




sábado, 10 de outubro de 2009

O Absurdo





Talvez daqui a uns anos - dependendo do seu comportamento - fosse merecedor de tal distinção mas neste momento não passa de uma sintomática subserviência sem sentido.
A Estupidez é mesmo universal…..

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Eu voto Branco (parte III)

Estou ainda recenseado fora de Lisboa, provavelmente por pouco tempo, pois brevemente terei de requerer o cartão do cidadão e a partir desse momento começarei a votar em Lisboa.
Independentemente disso, por questões operacionais, não sei se irei ou não votar no próximo Domingo mas se tal suceder votarei certamente branco na senda das anteriores eleições de 2009. Aliás, o Concelho onde estou recenseado é um caso típico da decadência do Poder Autárquico em Portugal. O Presidente da Câmara está no poder há 24 anos com as vicissitudes que isso representa. No caso, felizmente sem sacos azuis e afins, pelo menos que sejam do conhecimento público.
A conclusão óbvia que o cidadão comum retira é que a lei de limitação dos mandatos pecou por tardia e também por ser branda ao permitir mais quatro anos de permanência em funções a quem já se vem perpetuando no poder. Num país com os ancestrais problemas que Portugal continua a ter – olhe-se para os índices galopantes de corrupção – a durabilidade da permanência dos Autarcas à frente das Câmaras é um crime absolutamente sufocante para o desenvolvimento do País.
O problema central é que o conceito de serviço público nasce precisamente da lógica inversa. Ou seja, as pessoas durante um determinado período da sua vida abdicam das suas carreiras profissionais para, caso sejam eleitos e a troco de uma remuneração, exercerem as nobres funções de Autarcas tendo como desígnio servir os seus conterrâneos. Acontece que na grande maioria dos casos as pessoas fazem disso a sua profissão e quando assim é aparecem os Isaltinos e as Felgueiras deste mundo….

Basta pensar no caos urbanístico das nossas cidades e na tendência generalizada que existe para negociatas com construtores civis, basta pensar na estúpida propensão para construir rotundas sem sentido, basta pensar nas mordomias auto-proclamadas pelos caciques que estão pregados ao poder, basta pensar que num país ainda do respeitinho as Câmaras Municipais são as maiores entidades empregadoras, basta pensar na apetência instituída para formar círculos de poder com base em relações puramente pessoais sem o mínimo de respeito por critérios de competência, basta pensar nisto tudo e percebemos o porquê do atraso irreparável do País…

No entanto, caso já estivesse recenseado em Lisboa muito provavelmente iria escapar à minha tendência pela brancura em eleições. Não por apoiar declaradamente esta ou aquela candidatura mas por não poder perder a oportunidade de votar contra Santana Lopes e assim tentar contribuir para que ele não atinja os seus objectivos.
Tendencialmente votaria António Costa. Apesar de um mandato bastante limitado pelas circunstâncias - onde objectivamente não existe obra visível - tenho a convicção de ser pessoa séria, corajosa e competente. Seria obviamente uma excepção à minha consciência cívica que me obriga a votar normalmente em branco. Justifica-se esta minha recaída pelo simples facto de que votaria contra Santana Lopes qualquer que fosse a eleição. Se hipoteticamente Santana Lopes se candidatar a secretário de um associação de Pais de uma qualquer escola, voto contra. Se Santana Lopes se candidatar a tesoureiro da associação cultural e recreativa dos amigos da pinga, voto contra. Isto pelo simples facto de entender que Pedro Santana Lopes é um péssimo, um terrível candidato a algo que seja..….

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Arena + Taking Woodstock

A curta-metragem Arena, primeiro filme do realizador português João Salaviza, que recebeu a Palma de Ouro da categoria no Festival de Cannes aparece como complemento a Taking Woodstock e deixa muita expectativa relativamente ao percurso futuro do jovem cineasta. E não é pelo prémio que apesar de prestigiante, não significa por si grande coisa. Arena é uma bela metáfora à brava vida das sociedades actuais. A narrativa, ou melhor os gladiadores, encontram-se no Bairro da Flamenga em Chelas mas podiam estar em luta selvática pela sobrevivência noutro lugar qualquer….

 
Baseado numa história real, Taking Woodstock realizado pelo consagrado - e agora muito americanizado Ang Lee - é um mergulho na cultura hippie dos anos 60 e uma atraente perspectiva de um dos seus marcos mais inolvidáveis: o festival de Woodstock que juntou mais de 500 000 pessoas em 3 dias de Paz e Música .
Estávamos em 1969, os Estados Unidos enterravam-se no Vietname e o Homem tinha acabado de chegar à lua. Quando o hotel dos pais de Elliot, o personagem principal no filme de Lee, é ameaçado de despejo, este oferece o terreno para promover o festival rock e assim arrecadar algum dinheiro para pagamento da hipoteca do hotel. Não imaginava ele as enormes proporções que tal gesto provocaria na história da cultura musical.
Sem ser um dos melhores filmes de Ang Lee, e sem acrescentar algo de extraordinário à sua obra, fica como mais uma interessante abordagem ao fenómeno ocorrido no mítico festival de Woodstock, onde durante 3 dias tudo pareceu possível. Infelizmente foi sol de pouca dura pois o capitalismo mais desenfreado espreitava, desvairado, ao dobrar da esquina….

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A Teimosia

O Orgulho toldava-lhe a visão das coisas. Sentia-se cada vez mais perto do fim, contudo num último acervo de dignidade resolveu adiar o inevitável. Nada lhe restava na vida. Tinha perdido a própria vergonha. A teimosia era o seu último reduto, a sua derradeira crença……