quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Boas Festas




Duas prendas de Natal para os (as) Hereges que vão passando pelo Hipocrisias Indígenas com um denominador comum: William S. Burroughs.
Primeiro, a famosa Thanksgiving Prayer que é uma excelente entrada para ser servida em qualquer noite de consoada. Depois, uma curta de 1982 realizada por Gus Van Sant nos primórdios da sua carreira intitulada The Discipline of D.E (Do Easy) baseada num conto de Burroughs.....

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Sapatinho de Natal

Ano após ano limpava o sapatinho com toda a minúcia. Colocava-o estrategicamente pendurado na lareira. Sabia que na noite anunciada o Pai Natal desceria como habitual pela chaminé.
Para mal dos seus pecados, o Pai Natal chegou mais cedo este ano e roubou-lhe sem clemência o sapatinho mesmo estando vazio.
A crise chega a todos…..

O Pereira

O Sporting na segunda contratação de Inverno foi buscar João Pereira ao Braga. Como aspecto positivo realço o facto de somente se ter sabido quando a coisa já estava definitivamente tratada. Como aspecto menos positivo saliento que se devia ter começado pela lateral-esquerda, onde a insuficiência do plantel ainda é mais gritante do que na lateral-direita. Esperemos que exista ainda liquidez financeira para contratar um defesa-esquerdo de categoria.
João Pereira passou a infância no problemático Casal Ventoso. Está habituado a lutar até à exaustão. Facilmente cairá no coração dos adeptos. Desde que consiga controlar os seus ímpetos mais irracionais pode ser uma verdadeira mais-valia para este Leão moribundo….

Suave – Ban

domingo, 20 de dezembro de 2009

O Presente de Natal

Todos os anos, o ritual se repetia na família. Quando batia a meia-noite, os alegres comensais ordeiramente desembrulhavam as oferendas em animada cavaqueira.
Jeremias recebe do seu cunhado, Baltazar, um presente com a forma de garrafa. Enquanto olha para o colorido embrulho, ocorre-lhe que o papel lhe é de algum modo familiar. Desembrulha o mesmo e percebe que a garrafa de vinho do porto que agora o cunhado Baltazar lhe oferece é exactamente a mesma que Jeremias lhe tinha oferecido há dois natais atrás. Ao mesmo tempo que agradece a Baltazar a prenda Jeremias recorda-se que essa mesma garrafa de vinho do porto, que posteriormente ofereceu a Baltazar, lhe tinha sido presenteada pelo primo Jacinto três anos antes.
Sem confessar o insólito acontecimento ao distraído cunhado, e na perspectiva de evitar possíveis conflitos familiares no futuro, Jeremias resolve matar o mal pela raiz eliminado o foco de todas as confusões. Nesse sentido, senta-se junto a Baltazar e num ápice ambos esvaziam a maldita garrafa de vinho do Porto, terminado assim com o agitado percurso natalício da mesma.
Já embriagado, Jeremias levanta-se e ergue um cálice com o famigerado e viajado vinho do Porto, clamando para todos ouvirem:
Um Santo Natal para todos!….

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O Tremor

A terra tremeu enquanto eu ressonava.
Pelas correrias natalícias, pela euforia consumista nas ruas, parece que tal como eu ninguém deu por nada. O Natal é a estação predilecta dos distraídos. Só que eu sou distraído o ano todo….

O mundo precisava de um abalo a sério mas a escala medidora do impacto sucumbiu ao perverso poder dos homens normais. Era previsível....

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

MexerCedo

Mexer assina por duas temporadas e meia
CENTRAL DE 21 ANOS QUER AFIRMAR-SE NO CLUBE DO CORAÇÃO


Depois de um Caicedo que parece que caiu definitivamente e já não se levanta, contratamos numa aposta de futuro o Moçambicano Mexer. Esperemos que venha a ter mais sucesso em Alvalade que o também moçambicano defesa-esquerdo, Paíto, que actualmente joga no Sion da Suíça.
Para que conste, até acho que Felipe Caicedo não é assim tão mau como o pintam. O seu estilo corpulento podia ser útil como abre-latas para a velocidade de Liedson mas necessitava de um treinador com visão que confiasse nele com insistência. Isto, na opinião deste desolado Leão de bancada.....

O Braço de Ferro


segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A Temperatura

Parece que os termómetros vão atingir valores negativos por esse País fora. Não passa de um Pleonasmo. Portugal já está há muito abaixo de zero, nos mais variados níveis….

sábado, 12 de dezembro de 2009

O Semblante

Entrava, consternado, absorvido pelos pensamentos que o assaltavam a toda a hora. Desprezava a ambição que toldava os alinhados. Renegava a fictícia segurança com que lhe acenavam. Nunca quis sentir-se seguro. Não acreditava em contratos vitalícios.
O Semblante carregado era o reflexo da sua alma. Trazia em si todas as iniquidades do mundo….

Claude Monet

Estamos pior quó Salazar


Força Portugal!....

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A Filosofia do Momento

Jeremias reflectia sobre o porquê das coisas acontecerem somente quando tinham de acontecer. Por vezes as próprias circunstâncias são manipuladas pelo tempo, pensava. O tempo não passa de um cabrão ressabiado, concluía.

Há alturas em que não se está apto para dar determinados passos e assumir as consequências dos actos praticados, no entanto pensa-se o contrário. As pessoas consideram estar sempre prontas para todos os desafios. O desejo fala sempre mais alto. Contudo, as coisas não se proporcionam quando as cobiçamos mas somente quando estamos verdadeiramente preparados para elas. Só com o cair da folha, com o peso dos anos, vimos a perceber isso com clareza.
O cabrão do tempo é um pérfido velhaco e o momento um insensível charlatão….

Che

Dividido em duas partes o filme de Steven Soderbergh com Benicio Del Toro no papel de Guevara foi prenda de natal antecipada que ofereci a mim próprio. Acabei por não visionar nenhum dos dois filmes em sala pensando já na altura adquirir a caixa com ambos os DVD’s.
Relativamente à componente biográfica o que a obra representa é de interesse garantido.Toda a mitologia que rodeia a figura do Comandante Ernesto Guevara de la Serna, conhecido universalmente como Che Guevara, será sempre uma aposta segura qualquer que seja o realizador que se proponha fazê-lo. Ainda assim, Soderbergh dirige com segurança e eficácia as mais de 4 horas de duração da fita – duas horas e tal por filme.
Benicio Del Toro tem um papel assinalável. Sobressai no seu desempenho uma evidente procura de perfeição na representação do ícone da Revolução Cubana. Um grande trabalho para um carismático actor.

O melhor elogio que se pode fazer à complementaridade da obra é que não se consegue afirmar com clareza que um dos filmes é melhor que o outro. Nunca, em nenhuma sequência, os filmes perdem o ritmo. Aliás, essa característica é uma das particularidades do cinema de Soderbergh.
A primeira parte intitulada “O Argentino” narra a ascensão vitoriosa dos princípios revolucionários em Cuba e a ligação de Guevara a Fidel Castro. A segunda denominada “O Guerrilheiro” descreve curiosamente o processo inverso, ou seja a captura e morte de Che no meio da derrocada Boliviana onde os valores da Revolução são menosprezados e ostensivamente derrotados.

Che foi um caçador de injustiças. Certamente que também as terá cometido, designadamente através dos condenáveis fuzilamentos que praticou em Cuba contra adversários políticos.
Independentemente desse aspecto mais negro da sua história foi - na minha perspectiva e acima de tudo - um exemplo de coragem para as gerações vindouras e por isso é idolatrado à escala universal.
Identificou - com base na sua visão da sociedade - a luta armada como a única saída para a fúria que o perseguia em proporcionar melhores condições de vida para os mais necessitados.

Che, o guerrilheiro dos ideais, ícone eterno de um inconformismo rebelde, tinha sido ironicamente declarado inapto para o serviço militar pelo exército argentino….

domingo, 6 de dezembro de 2009

A Resistência

Conformava-se com as suas limitações fazendo uso da mesma destreza com que assistia ao deslizar do tempo.

Moldava-se às circunstâncias com o mesmo desencanto que dedicava a contemplar as cicatrizes das batalhas perdidas.

Resistia não por ser mais forte que outros mas porque a sua frustração era superior aos demais…..

sábado, 5 de dezembro de 2009

Lithium – Nirvana



Em 1992, memorável actuação no festival de Reading, recentemente imortalizada em DVD na sequência dos vinte anos da gravação do álbum de estreia intitulado "Bleach”.…

Um País Exonerado

Já há quem peça a exoneração de José Sócrates - Chefe de Governo democraticamente eleito há dois meses e um mero oportunista ambicioso, esclareça-se - por cometer o pecado capital de falar ao telemóvel. Parto do princípio que seria Cavaco a exonerá-lo. E quem exonera Cavaco, questiono? Mantém um suspeito de condutas impróprias no seu Gabinete que pelos vistos foi até recentemente promovido.
O Procurador, exonere-se também. Desconfio que tem telemóvel e por esse simples motivo deve também ser escutado por alguém e, por conseguinte, exonerado.
Somos todos exoneráveis e escutáveis. Um País de exonerados seria a melhor garantia para o nosso futuro…

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O Equívoco

Vivia com o coração ao pé da boca. Afundava-se progressivamente num mar de equívocos. Era por natureza angustiado e atormentado.
Bem vistas as coisas também a humanidade bíblica nasceu a partir de um dilema, um embaraço inquestionável. Adão fornicou a puta da Eva e não consta que tenham casado primeiro. Aliás, se tal tivesse ocorrido quem levaria o raio das alianças?....

A dispersão dispersa-se no cansaço dos dias. Foca-se o essencial com clareza mas a incompreensível visão obscurece as almas desertoras.
As marionetas prosperam e os cristalinos arruínam-se. Naufragam sem contemplações.

A sua insustentável existência era o maior equívoco de todos….

(dedicado à memória de Mário Sá Carneiro)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
é com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
é bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... mas recordo.

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas p'ra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...

.......................................
Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...
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Mário de Sá Carneiro