terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Pereira

O Sporting na segunda contratação de Inverno foi buscar João Pereira ao Braga. Como aspecto positivo realço o facto de somente se ter sabido quando a coisa já estava definitivamente tratada. Como aspecto menos positivo saliento que se devia ter começado pela lateral-esquerda, onde a insuficiência do plantel ainda é mais gritante do que na lateral-direita. Esperemos que exista ainda liquidez financeira para contratar um defesa-esquerdo de categoria.
João Pereira passou a infância no problemático Casal Ventoso. Está habituado a lutar até à exaustão. Facilmente cairá no coração dos adeptos. Desde que consiga controlar os seus ímpetos mais irracionais pode ser uma verdadeira mais-valia para este Leão moribundo….

Suave – Ban

domingo, 20 de dezembro de 2009

O Presente de Natal

Todos os anos, o ritual se repetia na família. Quando batia a meia-noite, os alegres comensais ordeiramente desembrulhavam as oferendas em animada cavaqueira.
Jeremias recebe do seu cunhado, Baltazar, um presente com a forma de garrafa. Enquanto olha para o colorido embrulho, ocorre-lhe que o papel lhe é de algum modo familiar. Desembrulha o mesmo e percebe que a garrafa de vinho do porto que agora o cunhado Baltazar lhe oferece é exactamente a mesma que Jeremias lhe tinha oferecido há dois natais atrás. Ao mesmo tempo que agradece a Baltazar a prenda Jeremias recorda-se que essa mesma garrafa de vinho do porto, que posteriormente ofereceu a Baltazar, lhe tinha sido presenteada pelo primo Jacinto três anos antes.
Sem confessar o insólito acontecimento ao distraído cunhado, e na perspectiva de evitar possíveis conflitos familiares no futuro, Jeremias resolve matar o mal pela raiz eliminado o foco de todas as confusões. Nesse sentido, senta-se junto a Baltazar e num ápice ambos esvaziam a maldita garrafa de vinho do Porto, terminado assim com o agitado percurso natalício da mesma.
Já embriagado, Jeremias levanta-se e ergue um cálice com o famigerado e viajado vinho do Porto, clamando para todos ouvirem:
Um Santo Natal para todos!….

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O Tremor

A terra tremeu enquanto eu ressonava.
Pelas correrias natalícias, pela euforia consumista nas ruas, parece que tal como eu ninguém deu por nada. O Natal é a estação predilecta dos distraídos. Só que eu sou distraído o ano todo….

O mundo precisava de um abalo a sério mas a escala medidora do impacto sucumbiu ao perverso poder dos homens normais. Era previsível....

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

MexerCedo

Mexer assina por duas temporadas e meia
CENTRAL DE 21 ANOS QUER AFIRMAR-SE NO CLUBE DO CORAÇÃO


Depois de um Caicedo que parece que caiu definitivamente e já não se levanta, contratamos numa aposta de futuro o Moçambicano Mexer. Esperemos que venha a ter mais sucesso em Alvalade que o também moçambicano defesa-esquerdo, Paíto, que actualmente joga no Sion da Suíça.
Para que conste, até acho que Felipe Caicedo não é assim tão mau como o pintam. O seu estilo corpulento podia ser útil como abre-latas para a velocidade de Liedson mas necessitava de um treinador com visão que confiasse nele com insistência. Isto, na opinião deste desolado Leão de bancada.....

O Braço de Ferro


segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A Temperatura

Parece que os termómetros vão atingir valores negativos por esse País fora. Não passa de um Pleonasmo. Portugal já está há muito abaixo de zero, nos mais variados níveis….

sábado, 12 de dezembro de 2009

O Semblante

Entrava, consternado, absorvido pelos pensamentos que o assaltavam a toda a hora. Desprezava a ambição que toldava os alinhados. Renegava a fictícia segurança com que lhe acenavam. Nunca quis sentir-se seguro. Não acreditava em contratos vitalícios.
O Semblante carregado era o reflexo da sua alma. Trazia em si todas as iniquidades do mundo….

Claude Monet

Estamos pior quó Salazar


Força Portugal!....

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A Filosofia do Momento

Jeremias reflectia sobre o porquê das coisas acontecerem somente quando tinham de acontecer. Por vezes as próprias circunstâncias são manipuladas pelo tempo, pensava. O tempo não passa de um cabrão ressabiado, concluía.

Há alturas em que não se está apto para dar determinados passos e assumir as consequências dos actos praticados, no entanto pensa-se o contrário. As pessoas consideram estar sempre prontas para todos os desafios. O desejo fala sempre mais alto. Contudo, as coisas não se proporcionam quando as cobiçamos mas somente quando estamos verdadeiramente preparados para elas. Só com o cair da folha, com o peso dos anos, vimos a perceber isso com clareza.
O cabrão do tempo é um pérfido velhaco e o momento um insensível charlatão….

Che

Dividido em duas partes o filme de Steven Soderbergh com Benicio Del Toro no papel de Guevara foi prenda de natal antecipada que ofereci a mim próprio. Acabei por não visionar nenhum dos dois filmes em sala pensando já na altura adquirir a caixa com ambos os DVD’s.
Relativamente à componente biográfica o que a obra representa é de interesse garantido.Toda a mitologia que rodeia a figura do Comandante Ernesto Guevara de la Serna, conhecido universalmente como Che Guevara, será sempre uma aposta segura qualquer que seja o realizador que se proponha fazê-lo. Ainda assim, Soderbergh dirige com segurança e eficácia as mais de 4 horas de duração da fita – duas horas e tal por filme.
Benicio Del Toro tem um papel assinalável. Sobressai no seu desempenho uma evidente procura de perfeição na representação do ícone da Revolução Cubana. Um grande trabalho para um carismático actor.

O melhor elogio que se pode fazer à complementaridade da obra é que não se consegue afirmar com clareza que um dos filmes é melhor que o outro. Nunca, em nenhuma sequência, os filmes perdem o ritmo. Aliás, essa característica é uma das particularidades do cinema de Soderbergh.
A primeira parte intitulada “O Argentino” narra a ascensão vitoriosa dos princípios revolucionários em Cuba e a ligação de Guevara a Fidel Castro. A segunda denominada “O Guerrilheiro” descreve curiosamente o processo inverso, ou seja a captura e morte de Che no meio da derrocada Boliviana onde os valores da Revolução são menosprezados e ostensivamente derrotados.

Che foi um caçador de injustiças. Certamente que também as terá cometido, designadamente através dos condenáveis fuzilamentos que praticou em Cuba contra adversários políticos.
Independentemente desse aspecto mais negro da sua história foi - na minha perspectiva e acima de tudo - um exemplo de coragem para as gerações vindouras e por isso é idolatrado à escala universal.
Identificou - com base na sua visão da sociedade - a luta armada como a única saída para a fúria que o perseguia em proporcionar melhores condições de vida para os mais necessitados.

Che, o guerrilheiro dos ideais, ícone eterno de um inconformismo rebelde, tinha sido ironicamente declarado inapto para o serviço militar pelo exército argentino….

domingo, 6 de dezembro de 2009

A Resistência

Conformava-se com as suas limitações fazendo uso da mesma destreza com que assistia ao deslizar do tempo.

Moldava-se às circunstâncias com o mesmo desencanto que dedicava a contemplar as cicatrizes das batalhas perdidas.

Resistia não por ser mais forte que outros mas porque a sua frustração era superior aos demais…..

sábado, 5 de dezembro de 2009

Lithium – Nirvana



Em 1992, memorável actuação no festival de Reading, recentemente imortalizada em DVD na sequência dos vinte anos da gravação do álbum de estreia intitulado "Bleach”.…

Um País Exonerado

Já há quem peça a exoneração de José Sócrates - Chefe de Governo democraticamente eleito há dois meses e um mero oportunista ambicioso, esclareça-se - por cometer o pecado capital de falar ao telemóvel. Parto do princípio que seria Cavaco a exonerá-lo. E quem exonera Cavaco, questiono? Mantém um suspeito de condutas impróprias no seu Gabinete que pelos vistos foi até recentemente promovido.
O Procurador, exonere-se também. Desconfio que tem telemóvel e por esse simples motivo deve também ser escutado por alguém e, por conseguinte, exonerado.
Somos todos exoneráveis e escutáveis. Um País de exonerados seria a melhor garantia para o nosso futuro…

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O Equívoco

Vivia com o coração ao pé da boca. Afundava-se progressivamente num mar de equívocos. Era por natureza angustiado e atormentado.
Bem vistas as coisas também a humanidade bíblica nasceu a partir de um dilema, um embaraço inquestionável. Adão fornicou a puta da Eva e não consta que tenham casado primeiro. Aliás, se tal tivesse ocorrido quem levaria o raio das alianças?....

A dispersão dispersa-se no cansaço dos dias. Foca-se o essencial com clareza mas a incompreensível visão obscurece as almas desertoras.
As marionetas prosperam e os cristalinos arruínam-se. Naufragam sem contemplações.

A sua insustentável existência era o maior equívoco de todos….

(dedicado à memória de Mário Sá Carneiro)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
é com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
é bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... mas recordo.

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas p'ra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...

.......................................
Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...
.......................................

Mário de Sá Carneiro

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Carvalhadas


Depois de uma das maiores vitórias morais de que tenho memória na história do Sporting parece que, inclusivamente, a alegria voltou ao balneário. Ou seja, parte-se do príncipio que até aqui os nossos jogadores - principescamente pagos - andavam tristonhos.....
Independentemente de tudo o resto, Carlos Carvalhal está nitidamente a dar o litro e há um aspecto em que desde já o seu mérito é evidente. Veio provar, com aparente facilidade, as limitações tácticas que assolavam Paulo Bento....
Contudo, falta-lhe agora a tarefa mais hercúlea. Fazer com que Pedro Silva, Angulo e Grimi se assemelhem a algo vagamente comparável a jogadores competitivos de futebol profissional....
Só é mesmo pena é continuarmos num honroso sétimo lugar. A partir de agora só pode ser mesmo sempre a subir.....

domingo, 29 de novembro de 2009

A Desventura

Procurava sem encontrar um consolo desconsolado. Era um trabalhador precário ao nível dos sentimentos. Sonhava mudar de vida mas a única coisa em que inovava era a facilidade com que chegava a um infindável pranto. Não se queixava da sorte porque sabia que era merecedor do perverso destino que a vida lhe tinha reservado. Segundo os historiadores, psicólogos e restantes estudiosos que desfilavam na televisão, tinha passado ao lado de uma grande carreira….

O Marquês


sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Assim Falava Jeremias

Inexistia socialmente. Para se fazer ouvir, a única alternativa que lhe restava era falar com as árvores nos outonais Jardins de Lisboa.
Entre cigarros e ocasionalmente uma ou outra cerveja, falava, dissertava, justificava, julgava, censurava, condenava. Os transeuntes olhavam-no com admiração. Por vezes juntavam-se pequenos grupos de curiosos deliciados com a estranha eloquência daquele homem de barbas cumpridas.
Inexistia socialmente mas a sua voz inquieta agitava os corações tristes dos remediados….

Maradona - Messi



Curiosa e emocionante partida de futevoley datada de 2005 que opôs o actual melhor do mundo contra o - pra mim - melhor de todos os tempos com a participação especial de outros dois compinchas Argentinos, Tevez e Crespo…

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O Negociador

Negociava de forma calculista e fria sem nunca vacilar. Conhecia os perigos vigentes, caso aparentasse fragilidades. Adaptava-se a tudo com destreza apesar das habituais reticências iniciais. Era um sobrevivente por natureza. Arriscava, mesmo conhecendo as evidentes limitações dos seus argumentos. Lutava porque a era a única forma que conhecia de se manter inquieto. Perdia, mesmo quando ganhava. Não tinha nascido para aquilo mas era a única saída que lhe restava….

Pierre-Auguste Renoir


domingo, 22 de novembro de 2009

A Lucidez

Tinha estabelecido em tempos um pacto com o Diabo em que se comprometia a manter a sobriedade em qualquer circunstância. Quase cumpriu a promessa. Morreu ébrio atirando-se do cimo do prédio mais alto da cidade. Perdeu finalmente, assim, a Puta da Lucidez. Como o Chico Buarque tinha profetizado, tropeçou à entrada do céu como se fosse um bêbado….

sábado, 21 de novembro de 2009

Mi Hermano Fidel

 
Como já tinha escrito aqui, um extraordinário filme/documentário (curta metragem com 16 minutos) de 1977 realizado por Santiago Alvarez. O argumento é do próprio e de Rebeca Chávez. Finalmente encontro-o disponível na Net e aqui fica em versão integral para devida apreciação. Esta curta cubana retrata o diálogo de Salustiano Leyva com Fidel Castro a quem Leyvia vai narrando o seu encontro com o grande revolucionário cubano, José Martí ocorrido, imagine-se, em 1895. Salustiano com 92 anos em 1977, tinha apenas 11 anos quando conheceu Martí. O diálogo que flui naturalmente com Fidel é absolutamente fascinante e demonstra-nos com alguma comoção pelo meio o que é a genuína humildade....

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Professor e a Senhora Gorda















O dia é inteiramente de Carlos Queiroz depois de Portugal ter conseguido o apuramento para o Mundial. Sempre gostei do seu aspecto ponderado e estudioso próprio de um verdadeiro gentleman. Lembro-me da mágoa que senti por não ter conseguido ser campeão como treinador do meu Sporting onde ganhou somente uma Taça de Portugal.
Realço, hoje, a extrema importância da paciência e cordialidade que Queiroz sempre demonstrou, mesmo quando 90 % do País achava que só um milagre levaria Portugal ao Mundial da África do Sul em 2010. Se Queiroz fosse Maradona e Portugal a Argentina, hoje o Seleccionador teria de pedir certamente desculpa às Senhoras.
Os pseudo-doutos psicólogos do futebol que se julgam detentores da verdade absoluta já há muito tinham feito o funeral a esta selecção. Carlos Queiroz manteve sempre um discurso coerente, sem contudo fugir às responsabilidades, mesmo quando saiu humilhado do Brasil em jogo que Portugal saiu copiosamente derrotado.
Acreditou sempre no seu trabalho evidenciando um optimismo muito pouco Português. Para ele, que passou seis anos em Inglaterra coadjuvando Ferguson no Machester United, It's not over until the fat lady sings e a Senhora Gorda ainda não tinha cantado……

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A Amizade

A verdadeira amizade é equivalente a uma memória metafísica que de tempos a tempos, pelos mais variados motivos, suspeitamos conhecer. Muitos dissertam sobre ela mas poucos conhecem o seu verdadeiro significado.
A Amizade não é para meninos….

Construção - Chico Buarque

«E tropeçou no céu como se fosse um bêbado»...Grande Chico!

domingo, 15 de novembro de 2009

A Surpresa e a Desilusão

José Eduardo Bettencourt anunciou ontem uma surpresa para o lugar de treinador sem contudo avançar com o nome. Nessa óptica, está de parabéns, pois Carlos Carvalhal é de facto um nome surpreendente, melhor, insólito para um clube com os pergaminhos do Grande Sporting e por conseguinte para toda a família Sportiguista.

Apesar de no mundo do futebol todos, sem excepção, merecerem o benefício da dúvida a verdade é que Carvalhal não serviu para o Marítimo. Nessa perspectiva muito dificilmente poderá ter êxito no Sporting. Trata-se nitidamente de uma solução de recurso até ao final da época. E trata-se também, na minha opinião, do assumir da época perdida por parte da direcção do clube. Ao não ter argumentos para convencer um treinador de nomeada a vir para Alvalade, fica claro que não existirá em Dezembro dinheiro para reforços que sejam uma verdadeira mais-valia para a equipa.
A única diferença que Carvalhal apresenta para Paulo Bento é que ainda não está desgastado junto da massa adepta. Caso não vença os primeiros jogos ficará exactamente na mesma situação que o anterior treinador pois não tem prestígio, nem estatuto que suporte uma fase de adaptação menos vitoriosa. Nesse negro cenário as criticas a Bettencourt subirão de tom, Alvalade continuará cada vez mais às moscas e o desespero tomará de assalto a massa associativa.
Não sei mesmo se, sendo uma solução transitória, não valeria mais a pena ir buscar um homem da casa como é o velho capitão Manuel Fernandes actualmente a treinar o Setúbal, o único clube onde curiosamente Carvalhal deu nas vistas.

A Carvalhal peço somente coisas triviais como por exemplo a motivação do grupo de trabalho que, diga-se, não é tão mau como o querem pintar. Além disso, exijo-lhe um lugar na Europa e que vença a taça de Portugal ou no mínimo a taça da Liga.
A Bettencourt peço que aprenda a lidar melhor com a pressão de liderar o clube, que acredite nas suas capacidades e que se aguente na Presidência contra ventos e marés pois não se vislumbram alternativas mais credíveis. Peço-lhe também que planeie a próxima época com tempo, profissionalismo e empenho, e que se livre de no fim da mesma exercer a cláusula de opção renovando com este treinador sem estofo por mais uma época, isto mesmo que por ironia do destino Carvalhal fique em segundo lugar no campeonato ou alcance uma improvável final da Liga Europa…..

Há Palavras que Nos Beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperançar louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill

sábado, 14 de novembro de 2009

Escutas

Agora escutas tu, agora escuto eu.
O País transformou-se num imenso antro de bisbilhotice. E se há caracterísitica que assenta quem nem uma luva ao Português - esse animal irracional - é precisamente essa preocupação doentia com o vizinho do lado. É acima de tudo uma forma de estar, uma filosofia de vida.
Estou convencido que os operacionais que fazem as escutas, mesmo sabendo de antemão que não o deviam fazer sem a devida autorização a determinadas pessoas, o fazem impulsionados por uma espécie de curiosidade mórbida. É um desporto nacional nos dias que correm.
Independentemente disso, Sócrates não é uma vítima. Nós é que somos em grande parte vítimas da ambição desmedida dos corruptos carreiristas que proliferam nos partidos políticos.....

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Coração de Leão

Ricardo Coração de Leão volta ao Sporting agora como Director de Futebol. Nunca fui dos adeptos mais incondicionais de Sá Pinto. Sempre apreciei a sua paixão mas nunca o vi como um símbolo inquestionável. Os seus acessos de indisciplina lesaram bastantes vezes o clube. Além do mais, a sua última época como futebolista profissional no Sporting em 2005/2006 também me pareceu desnecessária, não tendo acrescentado nada à equipa.

Bettencourt ao elegê-lo para estas funções tenta claramente transmitir mais emotividade e sangue na guelra ao grupo de trabalho. Por outro lado, certamente que nas suas intenções estará também aproveitar uma maior predilecção mediática de Sá Pinto, comparativamente ao seu antecessor Pedro Barbosa, capaz de competir em visibilidade com quem tem as mesmas funções, ou parecidas, nos outros clubes grandes. E essas características de Ricardo Sá Pinto resultarão seguramente em melhores condições para o treinador vindouro concretizar o seu trabalho. Assim o esperamos, ou não fosse o verde esperança a nossa cor….

A Roda


quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A Mãe Coragem

Olhava para os outros com audácia pois o seguidismo frouxo deles transmitia-lhe uma espécie de compaixão poética. Era de alguma forma estranha a sensação que abraçara. Não tinha descido à face da terra para fazer amizades. Os seus amigos há muito que estavam escolhidos. Tinha pouco a perder e por isso a sua coragem era infinita….

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O Homem que conduzia de noite

Era uma vez um homem que era Motorista de pesados. Fazia todos os seus trabalhos durante a noite. No meio dos seus fretes dissertava mentalmente sobre as causas do mundo. Ocorria-lhe amiúde que o seu universo profissional era demasiado limitado para a sua invulgar capacidade reflexiva. Era um leitor bulímico, um profundo apreciador de poesia na qual já se iniciará através de um imenso caderno que o acompanhava para todo o lado. Era também um apaixonado por música clássica que ouvia a toda a hora durante as suas intermináveis viagens. Idolatrava Bach, o seu compositor preferido.

Numa noite, vencido pelo cansaço, adormeceu ao volante quando conduzia ao longo de uma rotineira auto-estrada. Por mero capricho do destino começou a sonhar que acompanhava ao piano o allegro do Concerto de Brandenburgo n.º 3. No meio do sonho, enquanto tocava uma nota com maior exuberância, sobressaltou-se, o que fez com que despertasse ainda a tempo de evitar a colisão frontal com uma estação de serviço situada mesmo à beira da estrada.

A sua erudição tinha-lhe salvo a vida. Percebeu nesse dia a verdadeira razão pela qual o saber não ocupa lugar…

Paula Rego


domingo, 8 de novembro de 2009

O Coração de Rostropowitsch

Vinte anos depois da queda do muro, recupero este post escrito em Agosto de 2008 na sequência de uma visita dessa altura à ressuscitada Berlim….

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Fim de Linha

No acto da demissão, Paulo Bento provou aquilo que já se suspeitava mas que ainda assim havia dúvidas. É um Homem sério, íntegro e de carácter. Ao admitir que esteve quatro meses a mais no Sporting veio ao encontro daquilo que foi a opinião deste leão de bancada, e de muitos outros assinale-se, no início da época.

Bettencourt teve declarações ambíguas. Por um lado, fez o seu papel ao enaltecer a rectidão de Paulo Bento que sai, saliente-se, sem quaisquer custos acrescidos para o clube. Por outro lado, deixou-me no mínimo preocupado com a confissão de que nesta fase não existia ainda um plano B. Isto, caso esta declaração seja verdadeira. Contudo, a mudança era inevitável e desejável como aliás provam as boas notícias provenientes do mercado bolsista:
As acções do Sporting estão a subir mais de 8%, depois do anúncio da demissão de Paulo Bento, que foi revelado esta manhã pelo clube, em comunicado enviado à CMVM. Paulo Bento pediu a demissão por não estarem reunidas as condições para se manter no comando técnico da equipa, segundo o comunicado.

Relativamente ao futuro próximo, espero sinceramente que a escolha não venha a cair sobre Manuel Machado como muitos já profetizam. Seria mais um treinador sem dimensão, nem currículo para liderar um projecto ambicioso alicerçado numa equipa de futebol vencedora.
Se eu mandasse, o telefone deste horrível senhor como demonstro abaixo – o Holandês Leo Beenhakker – já tinha tocado durante o dia de hoje. É que nunca gostei de gajos bonitos…..

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A Noite – Sitiados




Como homenagem a João Aguardela - falecido em Janeiro último - deixo o tema com que os Sitiados participaram no 5º Concurso de Música Moderna do mítico Rock Rendez Vous em 1989.
Este original de Aguardela/Sitiados foi mais tarde gravado e celebrizado pelos Resistência através da voz inconfundível de Tim....

O Tempo

O Tempo sempre foi um bandido encapuçado. Em todas as circunstâncias. Para o bem e para o mal. A mim dá-me para inchar. Mas havia Pessoas para quem o Tempo não passava da mesma maneira. O seu sorriso, apesar de tudo, passava imune às agruras dos dias. Para essas vidas sobrenaturais o sacana do tempo não podia deixar marcas naquilo que têm de mais valioso: uma Alma Singular!..

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Portugal

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.

Miguel Torga

domingo, 1 de novembro de 2009

A Religião

No dia de todos os santos continuava - sem vacilar - entregue à amargura mais sombria.
Tinha nascido dos escombros do Maoísmo. Fez a escola no que restava do chamado socialismo de intervenção. Posteriormente conheceu como poucos a hipocrisia subjacente à social-democracia dominante. Acabou por fazer carreira no liberalismo mais vanguardista antes de assentar arraiais no catolicismo mais exacerbado. A Religião tinha-o encurralado.
Felizmente, acabou por falecer, antes de enveredar pelos misteriosos caminhos da Pedofilia…

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A Imponência - O Belo e o Leão




Assim como assim sempre dá uns trocos

O inusitado Santana Lopes decidiu ocupar o lugar de Vereador na Câmara de Lisboa:

“Vou ficar como vereador a lutar pelo que acredito”, escreve o candidato social democrata que encabeçou a a coligação “Lisboa com Sentido”, que uniu PSD, CDS-PP, MPT e PPM.

“Há pessoas que acham estranho que alguém que exerceu cargos do Estado aceite ser vereador. Faço-o com toda a honra”, escreve o ex-primeiro-ministro, derrotado na corrida ao Munícipio da capital pela lista liderada pelo socialista António Costa nas eleições autárquicas de 11 de Outubro.

No artigo intitulado “Decisão”, Santana Lopes diz ter tomado a decisão depois de “tanta gente”, nas últimas semanas, lhe ter pedido para aceitar o cargo de vereador por - acrescenta - concordarem com o “desígnio estratégico” para Lisboa apresentado pela sua candidatura.
....
Força Portugal!...

Andando

Depois de Ninguém sabe este é o segundo filme que vejo de Hirokazu Kore-eda. Seguramente que depois de Takeshi Kitano estamos perante um dos melhores Realizadores contemporâneos provenientes do Japão no entanto “Andando” sem desiludir não atinge a exuberância cinéfila do antecessor “ nobody knows”.
Uma típica família Japonesa junta-se no décimo quinto aniversário da morte prematura do filho mais velho e é esse o palco para o desenrolar da narrativa.
A exuberante mise en scène do cineasta Japonês - complementada com uma fantástica banda sonora - está novamente presente em toda a sua magnitude, quer através dos belos planos (inicial e final) do comboio a passar no meio da povoação, quer através da autenticidade das diversas personagens desenhada no limbo dos habituais conflitos pessoais. O realizador escalpeliza como poucos a complexa teia de afectos subjacente à identidade da família.
Fica o trailer, devidamente legendado, para quem quiser dar uma olhadela:


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Antes o Demónio que Paulo Bento

Hoje fui até à Província. Gosto desta palavra. Portugal é feito de muitas e variadas províncias.
Encontro um rapaz que não via há bastante tempo e cuja alcunha era, é, o Diabo. Enquanto estendia a mão para o cumprimentar não me ocorrendo mais nada para lhe dizer, atiro: então pá, ainda és do Sporting? Resposta dele: Que Remédio!…

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A História

Conhecia os meandros de um fascinante Argumento que o tornaria sem dificuldade rico e famoso, caso o divulgasse. Em vez disso, preferia viver na amargura mais lancinante. Remediava-se com pouco e a fama nunca o seduziu. Tinha decidido há muito que a sua boca viveria selada até à eternidade. Tinha aprendido a respeitar o que lhe era manifestamente superior. Apesar da curiosidade latente, fugia dos limiares inatingíveis à compreensão humana como o diabo da cruz. No fundo, não passava de um simples homem e os homens vulgares não podem ser detentores de histórias de encantar.
A história morreria consigo. Era a única forma de pagar o justo preço pelo extraordinário privilégio que lhe tinha tocado em vida…..

Man Ray




segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A Pianista

Sócrates guardou uma surpresa para a pasta da Cultura no Governo que agora toma posse. Certamente inspirado pelo filme do quase proscrito Roman Polanski escolheu a Pianista....
Gabriela Canavilhas pode eventualmente vir a revelar-se uma boa aposta para Sócrates. Contudo, o seu sucesso está em grande parte dependente do prometido reforço orçamental.
A Pianista alia sensibilidade artística com experiência em Gestão e apesar das suas 48 Primaveras traz indiscutivelmente Glamour a este governo cinzentão. Vejam as semelhanças com Ashley Judd. Glamour esse que no entanto - por si só - não serve, rigorosamente, para nada….

sábado, 24 de outubro de 2009

La Vie en Rose - Edith Piaf

O Dia

Havia o dia e a noite, a noite e o dia e a escuridão profunda. Nunca ninguém lhe tinha explicado com a devida minúcia que havia dias piores que outros. Por cada dia derrubado outro se levantará, pensava absorto.
Adormeceu, fatigado, sonhando humildemente com a decepção…

Quanto Morre um Homem

Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?

Ruy Belo

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A Dúvida

Abeirou-se da cama em sinal de comoção. O moribundo ofegava agonizante. Não queria - nos dias que lhe faltavam ainda cumprir à face da terra - viver naquela incerteza. Sabia que o tempo escasseava para colocar as coisas no devido lugar.
Perguntou-lhe então em surdina se o seu amor seria correspondido? Perante a emoção provocada por aquela inesperada questão, o coração do moribundo de tanto bater, parou.
A curiosidade nunca foi boa conselheira. Ficou para todo o sempre na dúvida…

A Nave


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Com que Voz

Estreou no DocLisboa o documentário 'Com Que Voz', sobre a vida de Alain Oulman que entre outras proeminentes coisas foi compositor de Amália Rodrigues. O Documentário tem a particularidade de ser realizado pelo próprio filho de 42 anos, Nicholas Oulman.

Depois de um começo que deixa antever uma relativa decepção o filme ganha dimensão com o avançar da fita. A aparição de Amália e alguns testemunhos interessantes - entre os quais o de Mário Soares do qual Alain Oulman foi editor em França - ajudam a dimensionar melhor o percurso do biografado que possuía acima de tudo um talento hiper-versátil e uma apurada sensibilidade artística. O Documentário acaba em grande estilo com uma amostra real da forma e do método de trabalho de Oulman com a grande Diva do Fado. Esta deslumbrante peça final, bem como algumas imagens de uma sardinhada que aparecem no documentário, foram filmadas pelo reconhecido cineasta Português, José Fonseca e Costa.

Nada melhor que a melodia composta por Oulman para as palavras de Luís de Camões cujo poema dá inclusive nome ao documentário interpretado pela omnipresente Amália para se ficar com uma visão mais exacta do invulgar brilhantismo do Compositor.



Uma palavra para a excelência que o DocLisboa tem atingido ao longo do tempo, o que além de provar que existe público mais que suficiente para um cinema menos comercial, demonstra ano após ano que o País está paulatinamente a mudar para bem dos nossos miseráveis egos…
Nota: Este post foi editado a 31 de Outubro depois de lido o esclarecimento de Fonseca e Costa, aqui. O seu a seu dono.

domingo, 18 de outubro de 2009

A Filosofia da Desculpa

Vivia permanentemente à procura de pretextos para o sentimento de culpa que o obstruía. Justificava com insistência o erro porque a vitimização era inerente à actual espécie humana.
O desacerto é a arma dos fracos e o Nietzsche está vivo e reside na Brandoa….

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Ninguém quer brincar comigo

No jogo da nova legislatura José Sócrates, qual puto mimado, apareceu aos portugueses desgostoso por ninguém se querer coligar com ele. Assim não brinco mais, balbuciou, chorando compulsivamente perante as câmaras....

Vamos ver quanto tempo aguenta sem parceiros para as suas tropelias. Aceitam-se apostas. Cá para mim, dificilmente o jogo chegará ao intervalo…

Séraphine de Senlis


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A Cartada

Tinha planeado a jogada ao mais ínfimo pormenor. Sentia-se a meio caminho andado da miséria. Desconfiava do futuro mas não receava tempestades. De qualquer forma, a corrente corria sempre no sentido do mar. Apostava - não por ser exímio jogador - mas porque a vida se desfiava vagarosamente por entre os dedos….

Por Quem Não Esqueci - Sétima Legião

A Disponibilidade

Achava-se disponível mas a sua disponibilidade, apesar de olímpica, não era realista. Possuía uma noção de entrega extraordinariamente peculiar pois nunca tinha lido os manuais da disponibilidade. Estava disponível para ser indisponível. No fundo, a Liberdade não era mais que uma variação hipócrita da disponibilidade…..

A Surpresa

A assombração surgiu-lhe implacável através de sinais imprudentemente ignorados. Podia ter escolhido a altura certa para sair pelo portão da frente, todavia a vaidade, com o decorrer dos anos, foi-lhe ofuscando a clarividência. Tentou até aos limites sair incólume do julgamento popular mas o povo não estava para contemporizações. Percebeu nesse dia o verdadeiro significado da música do Zeca…

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
— ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo:
fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria e, lá fora — ah, lá fora! — rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.

Mário Cesariny

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

As Autárquicas

Lisboa afinal ainda tem sentido.
Santana declarado morto pela centésima vez.
Valentim tremeu mas continua a berrar em Gondomar.
Oeiras cada vez é mais espertalhona e menos instruída.
Os grosseirões de Felgueiras não precisam mais de ir à Escola….

A Magnífica




sábado, 10 de outubro de 2009

O Absurdo





Talvez daqui a uns anos - dependendo do seu comportamento - fosse merecedor de tal distinção mas neste momento não passa de uma sintomática subserviência sem sentido.
A Estupidez é mesmo universal…..

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Eu voto Branco (parte III)

Estou ainda recenseado fora de Lisboa, provavelmente por pouco tempo, pois brevemente terei de requerer o cartão do cidadão e a partir desse momento começarei a votar em Lisboa.
Independentemente disso, por questões operacionais, não sei se irei ou não votar no próximo Domingo mas se tal suceder votarei certamente branco na senda das anteriores eleições de 2009. Aliás, o Concelho onde estou recenseado é um caso típico da decadência do Poder Autárquico em Portugal. O Presidente da Câmara está no poder há 24 anos com as vicissitudes que isso representa. No caso, felizmente sem sacos azuis e afins, pelo menos que sejam do conhecimento público.
A conclusão óbvia que o cidadão comum retira é que a lei de limitação dos mandatos pecou por tardia e também por ser branda ao permitir mais quatro anos de permanência em funções a quem já se vem perpetuando no poder. Num país com os ancestrais problemas que Portugal continua a ter – olhe-se para os índices galopantes de corrupção – a durabilidade da permanência dos Autarcas à frente das Câmaras é um crime absolutamente sufocante para o desenvolvimento do País.
O problema central é que o conceito de serviço público nasce precisamente da lógica inversa. Ou seja, as pessoas durante um determinado período da sua vida abdicam das suas carreiras profissionais para, caso sejam eleitos e a troco de uma remuneração, exercerem as nobres funções de Autarcas tendo como desígnio servir os seus conterrâneos. Acontece que na grande maioria dos casos as pessoas fazem disso a sua profissão e quando assim é aparecem os Isaltinos e as Felgueiras deste mundo….

Basta pensar no caos urbanístico das nossas cidades e na tendência generalizada que existe para negociatas com construtores civis, basta pensar na estúpida propensão para construir rotundas sem sentido, basta pensar nas mordomias auto-proclamadas pelos caciques que estão pregados ao poder, basta pensar que num país ainda do respeitinho as Câmaras Municipais são as maiores entidades empregadoras, basta pensar na apetência instituída para formar círculos de poder com base em relações puramente pessoais sem o mínimo de respeito por critérios de competência, basta pensar nisto tudo e percebemos o porquê do atraso irreparável do País…

No entanto, caso já estivesse recenseado em Lisboa muito provavelmente iria escapar à minha tendência pela brancura em eleições. Não por apoiar declaradamente esta ou aquela candidatura mas por não poder perder a oportunidade de votar contra Santana Lopes e assim tentar contribuir para que ele não atinja os seus objectivos.
Tendencialmente votaria António Costa. Apesar de um mandato bastante limitado pelas circunstâncias - onde objectivamente não existe obra visível - tenho a convicção de ser pessoa séria, corajosa e competente. Seria obviamente uma excepção à minha consciência cívica que me obriga a votar normalmente em branco. Justifica-se esta minha recaída pelo simples facto de que votaria contra Santana Lopes qualquer que fosse a eleição. Se hipoteticamente Santana Lopes se candidatar a secretário de um associação de Pais de uma qualquer escola, voto contra. Se Santana Lopes se candidatar a tesoureiro da associação cultural e recreativa dos amigos da pinga, voto contra. Isto pelo simples facto de entender que Pedro Santana Lopes é um péssimo, um terrível candidato a algo que seja..….

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Arena + Taking Woodstock

A curta-metragem Arena, primeiro filme do realizador português João Salaviza, que recebeu a Palma de Ouro da categoria no Festival de Cannes aparece como complemento a Taking Woodstock e deixa muita expectativa relativamente ao percurso futuro do jovem cineasta. E não é pelo prémio que apesar de prestigiante, não significa por si grande coisa. Arena é uma bela metáfora à brava vida das sociedades actuais. A narrativa, ou melhor os gladiadores, encontram-se no Bairro da Flamenga em Chelas mas podiam estar em luta selvática pela sobrevivência noutro lugar qualquer….

 
Baseado numa história real, Taking Woodstock realizado pelo consagrado - e agora muito americanizado Ang Lee - é um mergulho na cultura hippie dos anos 60 e uma atraente perspectiva de um dos seus marcos mais inolvidáveis: o festival de Woodstock que juntou mais de 500 000 pessoas em 3 dias de Paz e Música .
Estávamos em 1969, os Estados Unidos enterravam-se no Vietname e o Homem tinha acabado de chegar à lua. Quando o hotel dos pais de Elliot, o personagem principal no filme de Lee, é ameaçado de despejo, este oferece o terreno para promover o festival rock e assim arrecadar algum dinheiro para pagamento da hipoteca do hotel. Não imaginava ele as enormes proporções que tal gesto provocaria na história da cultura musical.
Sem ser um dos melhores filmes de Ang Lee, e sem acrescentar algo de extraordinário à sua obra, fica como mais uma interessante abordagem ao fenómeno ocorrido no mítico festival de Woodstock, onde durante 3 dias tudo pareceu possível. Infelizmente foi sol de pouca dura pois o capitalismo mais desenfreado espreitava, desvairado, ao dobrar da esquina….

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A Teimosia

O Orgulho toldava-lhe a visão das coisas. Sentia-se cada vez mais perto do fim, contudo num último acervo de dignidade resolveu adiar o inevitável. Nada lhe restava na vida. Tinha perdido a própria vergonha. A teimosia era o seu último reduto, a sua derradeira crença……

sábado, 3 de outubro de 2009

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A Cobardia

Numa das piores exibições que tenho memória para uma competição europeia, o grande Sporting derrotou os alemães do Hertha Berlim por um a zero.

Fui um dos 17 000 masoquistas que foram a Alvalade - valorosos sobreviventes à infeliz PauloBentização do clube - e não consegui vislumbrar um mero vestígio de um rasgo, qualquer que ele fosse, no futebol do Sporting. Nem mesmo Liedson escapou à vulgaridade. Paulo Bento no fim do jogo fugiu para os balneários deixando os jogadores sozinhos, entregues a si próprios, a serem vaiados no centro do terreno....

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O Bidé da Maria

A nota de maior destaque no empolgante rosário aos Portugueses do Professor Cavaco foi, entre outras vacuidades, a pertinente observação relativa ao mail do seu computador pessoal.
Fico na expectativa de no próximo sermão possamos finalmente ficar a conhecer os hábitos higiénicos da primeira-dama da nação.

Este País não é para ser levado a sério. Portugal é uma enorme mentira……

sábado, 26 de setembro de 2009

A Normalidade


Um jogo normal.
Uma derrota normal.
Uma arbitragem normal.
Um Grimi normal….

Falta de ambição inicial.
Más opções técnicas.
Um treinador de cabeça perdida e o meu Sporting a oito pontos do Braga e atrás do Rio Ave….

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Eu voto Branco (parte II)

Depois de uma primeira abordagem nas Europeias voltarei a votar branco, por uma questão de consciência, nas eleições legislativas de Domingo.
E o que nos reservou esta campanha que agora entra na recta final:

Começando pelo PS, José Sócrates mantém a vontade e a determinação de governar e isso, quer se queira quer não, é um ponto a seu favor. Não se pode minimizar o facto de ser cada vez maior a aversão a cargos políticos na Sociedade Civil. Sócrates tem esse mérito. Sabe o que quer e luta com pragmatismo pelos seus objectivos sendo que obviamente não basta querer para que a obra nasça.
Mais contestação, menos contestação, mais magalhães, menos magalhães, que aliás é uma boa medida em qualquer parte do mundo, o Governo fez, quanto a mim, um trabalho aceitável na educação.
Na Saúde, com a saída de Correia de Campos, de longe o melhor e mais bem preparado Ministro da Saúde do pós 25 de Abril, Sócrates deu sinais de fraqueza. Correia de Campos não tinha a protecção dos media que o ridicularizavam constantemente mas é aí que se vê a diferença entre quem governa exclusivamente com base em critérios de imagem e quem governa com o desígnio de resolver os problemas dos cidadãos. Aliás, é curioso, mas de repente deixaram de ocorrer partos em ambulâncias por esse País fora. Como se isso fosse, de todo, possível…
O pecado capital deste Governo foi, quanto a mim, o excessivo peso dado à política de comunicação governativa e por aí merece ser penalizado. Sócrates, muitas das vezes, deixa passar a ideia de gerir uma imensa empresa de Marketing sem que daí advenham benefícios directos para as pessoas. Fez cedências inaceitáveis no sentido de controlar os soundbytes mais críticos. Fez grande alarido com eventos vazios de conteúdo. Tem Ministros que além de serem porta-vozes para isto e para aquilo, o caso de Pedro Silva Pereira por exemplo, não se lhes reconhece outras competências, o que até se torna extraordinariamente redutor para eles.
O Plano de reestruturação da administração pública, vulgo PRACE, deu parcos resultados, prolongando uma doença que parece incurável. Não se trata de despedir em grande escala mas de racionalizar recursos na Administração Central do Estado com objectividade e rentabilidade, algo que nunca foi conseguido.
Sócrates substituiu o Ministro das Finanças, o independente Campos e Cunha, demasiado cedo, o que deixou desde logo uma grande desconfiança relativamente ao rumo a seguir, tratando-se ainda para mais de um lugar nevrálgico na acção governativa. Valeu-lhe nesse ponto o versátil Teixeira dos Santos que fez sempre o jogo mais conveniente a Sócrates, com resultados ainda assim aceitáveis face ao contexto económico global.

O PSD, com o erro de casting de Ferreira Leite como líder, dificilmente poderá ambicionar mais que o ressurgimento do perverso bloco central de interesses de tão má memória para o País. A Campanha não me parece que tenha corrido extraordinariamente mal. Só quem viva em outro planeta podia ter expectativas mais elevadas….

O Bloco é uma fantasia e o seu programa assenta em grande parte em medidas não exequíveis que dependem de consensos internacionais impossíveis de obter. Por outro lado, o BE com o crescimento que continua a ostentar perde parte da credibilidade intelectual que possuía. Além do mais, ninguém me convence que Louça, no dia em que tiver responsabilidades governativas, não fugirá para parte incerta….

A CDU fez a Campanha do costume, partilhando alguns pecados com o Bloco. Jerónimo de Sousa compensou alguma impreparação em matérias mais técnicas com aquele entusiasmo, genuinidade e espontaneidade singulares que são a sua imagem de marca. Só por isso, Jerónimo, merece um bom resultado que contudo não será fácil obter.

O PP de Paulo Portas, cada vez menos CDS, prosseguiu a sua caminhada pelas feiras e mercados do Portugal profundo. Beneficiou durante a Campanha do grande à vontade do seu líder e também - há que admiti-lo - da sua inteligência quer nos debates, quer no contacto diário com os eleitores. Ninguém pode subvalorizar a experiência acentuada que possui na área da comunicação. Foi um bom Jornalista, o que nos dias que correm, atendendo à política que se faz, é uma mais-valia indesmentível.

Não acredito sinceramente que quer os debates, quer os casos ocorridos na Campanha possam ter grande impacto nos resultados finais.
Relativamente aos debates o facto mais saliente, na minha óptica, por ser inesperado, foi a “tareia” que Sócrates deu a Louça.
Paulo Portas é o terreno onde se sente obviamente mais confortável. Jerónimo não conseguiu esconder algumas fragilidades de perfil relativamente ao formato escolhido para os debates. Ferreira-Leite, apesar das gaffes, evitou o descalabro que alguns auguravam.
Nos casos mediáticos da Campanha, o episódio TVI é uma fantochada, e o das escutas, se põe alguém em cheque é Cavaco, como resultado do delicado momento escolhido para a demissão do seu leal assessor, sendo que aqui acredito que possa haver um voto residual, não muito significativo, que fuja do PSD favorecendo Sócrates.
Porém, um dos episódios mais interessantes desta campanha, na minha óptica, tem como alvo o até aqui impoluto Bloco de Esquerda. E é bastante elucidativo acerca do carácter da classe politica que nos governa. O facto de Louça ser titular de um PPR não chega a ser um caso até porque se trata de poupança pura e dura. O homem tem que pôr o dinheiro em algum lado. Agora o investimento em acções levado a cabo por aquelas caras bonitas pertencentes a duas ilustres deputadas da nação mediaticamente muito atraentes – Ana Drago e Joana Amaral Dias - merecia no mínimo um pedido de desculpas e uma justificação por parte das mesmas. É que são precisamente este tipo de hipocrisias decadentes que o BE - e muito bem – tem por hábito trazer para a praça pública. A malta defende, em grande medida, nacionalizações em diferentes sectores mas quando é o meu dinheirinho deixa cá fazer um investimentozinho na bela da privatização que é capaz de render. Obviamente que são questões pessoais, irrelevantes em termos políticos, mas diz muito acerca da falta de coluna vertebral dos nossos eleitos.

Depois das eleições de Domingo, qualquer que seja o desfecho, uma certeza eclodirá: o País caminha para a ingovernabilidade, mesmo que nos queiram convencer do contrário.

Brevemente, em um cinema perto de si, mais uma sequela do “eu voto branco” tendo com pano de fundo as Autárquicas 2009…..

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A Ferros

O Sporting venceu sofregamente o recém-promovido Olhanense por 3 a 2 em partida que mais uma vez trouxe ao de cima as manifestas fragilidades na organização colectiva da equipa. Aliás, ultimamente até me tem faltado a paciência para falar deste Sporting tal é a previsibilidade do futebol apresentado. A carência no fio condutor do jogo é por demais evidente.
A sensação que tenho é que Paulo Bento leva a equipa para o abismo e por norma Liedson - hoje foram outros – somente vão adiando o inevitável. Isto apesar de o treinador ter 7 vidas como os gatos. Quando parece que finalmente vai cair, lá aparece um bom resultado ou uma exibição mais conseguida a adiar o desejado funeral. Penso aliás ser esse, neste momento, o desejo da esmagadora maioria dos adeptos. Pelo menos, dos mais esclarecidos.
A verdade é que a equipa joga um futebol desgarrado e sem nexo. Quer o Braga, quer o próprio Olhanense apresentam actualmente uma consistência táctica mais assertiva que o Sporting. Esta é que é a dura realidade, por muito que me custe verificar.
Na próxima semana visitamos o estádio do dragão e aí se verá a real ambição desta equipa. Um candidato assumido, na minha perspectiva, não se pode contentar com um empate em confronto com um concorrente directo….

O único factor positivo que descobri na exibição da equipa no jogo de hoje foi o facto de - graças à nossa inoperância - termos conseguido fazer com que Miguel Garcia tenha dado uns ares de algo vagamente semelhante a um jogador de futebol….

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Time After Time e True Colors - Cindy Lauper





Uma fabulosa intérprete despontada nos gloriosos anos 80 e muitas vezes injustamente esquecida..….

Poema do silêncio

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.

José Régio

domingo, 20 de setembro de 2009

O Descalabro

A enxovalhante bandalheira que se tornou a presente campanha eleitoral para as legislativas é terceiro-mundista. Torna-se, contudo, extraordinariamente elucidativa do País dos Compadrios estabelecidos e da intriga rasteira em que, infelizmente, nos transformamos. Vale tudo menos tirar olhos…

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A Génese

Por mais voltas que o mundo dê ninguém pode fugir às suas verdadeiras origens. Ninguém pergunta a um recém-nascido se pretende mesmo viver.

O nascimento é o mais puro, o mais belo, e o mais livre dos actos….

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O Bloco

Continuo em grande medida a concordar com a relevância das questões que Francisco Louça e o Bloco de Esquerda trazem à luz do dia. Não foi por aí que tombou o meu entusiasmo. É nessas pequenas mas significativas aldrabices à Portuguesa, na corrupção de vão de escada, na hipocrisia reinante, na Chico-espertice saloia que continua a estar o atávico e irrecuperável atraso do País.
Continuo, inclusive, a achar que algumas das bandeiras ditas fracturantes levantadas pelo Bloco são de essencial importância para a evolução da sociedade Portuguesa.

Porém, existe uma grande incoerência na génese intrínseca do Bloco. Foge da zona de governabilidade como o diabo da cruz.
Apesar de intelectualmente cativante (também já foi mais) é um projecto político esgotado. Ou melhor, ficou esvaziado quando ultrapassou os 3% de votantes. Perdeu a piada quando deixou de estar limitado a uma imensa minoria. Esta é a verdade. O Programa eleitoral do BE de 2004 já era uma fantasia sem sentido.

O meu problema será quando os votos em branco atingirem os 5 %. Pelo que me parece já não deve faltar muito. A partir daí, tornar-se-á um voto de protesto obsoleto só me restando provavelmente deixar de votar. Atingirei talvez aí, finalmente, a maioridade democrática….

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A Cidade despida

És poesia de vão de escada
cheiras a sardinha de cheiro duvidoso
bebes o vinho de barril envelhecido
transportas contigo um charme florido.
Elevas a melancolia dos teus escritores
combinas a tradição e o modernismo
alias a tristeza e o gáudio metafísico
adormeces com quem mais te aprouver.


Lisboa sem o Tejo amanheceria despida…

terça-feira, 8 de setembro de 2009

John Garden hoje e sempre



Com carro oficial, sem carro oficial, esta campanha já não seria a mesma sem este estridente fuck them saído da boca do nosso eterno Palhaço de serviço.
Continuação da valiosa série "O Oásis de Jardim" iniciada aqui e aqui.
Força Portugal!...

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O Circo

Volta o Circo à cidade. Soltam os balões. Aparecem os Ursos e as Girafas. Os acrobatas fazem os habituais malabarismos.
O meu reino por um voto, clamam!

Porém, o tempo, não está para fantasias….

Vida Tão Estranha - Rodrigo Leão

sábado, 5 de setembro de 2009

O País da Barafunda

De todo este ruído em torno do caso Manuela Moura Guedes deixo algumas simples constatações que me parecem evidentes:

Ao contrário do que alguns já profetizam, não creio que neste episódio os benefícios eleitorais para Sócrates superem os custos. Mais, não me parece que tal possa ter um peso decisivo nas eleições.
Numa determinada perspectiva até acho justo que na área onde o governo meteu mais água – a comunicação – possa vir a ser penalizado, mas voltarei a este tema certamente mais à frente…

José Eduardo Moniz - Gestor de reconhecidas capacidades que não estão em causa - era Director Geral da TVI. Como se sabe deixou o cargo recentemente. É público que é também o marido de Manuela Moura Guedes, o que para o caso tem especial relevância….

No fundo, é tão absurda a impertinência revelada na decisão de suspender o telejornal das sextas-feiras na TVI praticamente em cima da pré-campanha, como são absolutamente ridículas as ondas de solidariedade com Manuela Moura Guedes que incluem, inclusive, vigílias….

O que aconteceu foi que algum profissional diligente teve coragem suficiente para fazer aquilo que alguém menos comprometido deveria ter feito há muito: acabar com uma fantochada deplorável que envergonhava toda uma classe e que era coordenada por alguém sem o mínimo de perfil para liderar aquele projecto.....

Não há Festa como essa!

Começou hoje na Quinta da Atalaia - Amora - Seixal mais uma demonstração de vitalidade dos Comunistas Portugueses sempre enquadrada pelos acordes da magnífica Carvalhesa idealizada por Kurt Schindler.

Este blogue é apolítico. O seu mentor vota branco por profunda convicção mas mesmo sem poder estar presente tem o espírito da Festa….