terça-feira, 2 de março de 2010

O Funchal

Andei à procura de uma boa fotografia do Funchal que não tinha, apesar de já lá ter estado algumas vezes. E encontrei, aqui

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Blowin’ in the wind - Bob Dylan & Joan Baez



The answer, my friend, is blowing in the wind. The answer is blowing in the wind....

A Tempestade Perfeita

O vento soprava com intensidade. Chovia copiosamente. As rajadas de vento tinham o condão de despertar em Jeremias sentimentos contraditórios. Por um lado, estava habituado a respeitar obedientemente os mandamentos da Natureza. Por outro lado, temia o seu eventual espírito vingativo, como represália pela forma como o Homem a destruía progressivamente. Quem não se sente não é filho de boa gente e a Mãe Natureza era filha de gente de primeira água.
Jeremias esperou pacientemente pela chegada da tempestade na ânsia de atingir finalmente a perfeição que sempre lhe havia deslizado das mãos. Durante a sua atribulada vida nunca tinha em nenhum momento conhecido a maldita. A espera de Jeremias revelou-se infrutífera. A Tempestade Perfeita nunca chegou. Percebeu nesse dia - de forma definitiva - que não havia espaço na sua vida para a perfeição….

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Magias Fernandez



Dizem que o terceiro golo do Sporting foi ressalto. Para mim foi Valsa de Viena, Tela de Matisse, soneto de Camões….

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Um Homem Sério

Um homem sério, o mais recente filme dos consagrados irmãos Coen - Joel e Ethan – actualmente em cena e candidato aos óscares é na minha modesta óptica algo insípido mas mantém algumas características essenciais ao cinema dos Coen. Deixa-me, contudo, a pensar que cada vez está mais distante a forma evidenciada pelo magnífico Fargo datado de 1996, sem qualquer dúvida a obra-prima máxima da dupla americana.

Centrado na temática do judaísmo, Um Homem Sério é protagonizado por Michael Stuhlbarg no papel de Larry Gopnik, um homem aparentemente normal com uma carreira sólida de professor universitário que de repente se vê envolvido num espiral de acontecimentos anómalos. Aliás, onde o talento dos Coen continua a ser mais visível é precisamente na espessura realista com que revestem os protagonistas dos seus filmes proporcionando-lhes uma densidade narrativa assinalável, e nessa linha de pensamento este titubeante Larry Gopnik não foge à regra.
Numa outra perspectiva, a cena em que o jovem adolescente Danny é levado no dia do seu Bat Mitzvah (um ritual de emancipação no mundo judaico) ao Rabbi Marshak's para ouvir os conselhos do velho decano é de uma crueza sarcástica fabulosa. Sintetizaria na perfeição todo o cinema dos irmãos Coen. Pena é que o resto do filme não seja assim tão conseguido….

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A Arte de Jeremias

Jeremias sentia a mesma angústia que acompanhava normalmente os Artistas. Era com frequência arrebatado pelas mesmíssimas crises existenciais. Não tinha todavia qualquer talento para criar o que quer que fosse. Nunca passaria de um Artista inconsequente....

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Aos Madeirenses

Perante a tragédia que o Povo Madeirense enfrenta todos os meus eventuais lugares-comuns seriam insuficientes para expressar a solidariedade que na realidade merecem.

Depois de ontem num momento arrepiante o seu representante mais ilustre, Cristiano Ronaldo, ter dedicado um extraordinário golo à sua ilha natal, deixo como singela mas sentida dedicatória um momento de génio de um outro proeminente Madeirense - Maximiano de Sousa – conhecido universalmente como Max.



Apesar deste infortúnio a ilha da Madeira voltará com toda a certeza, sem dificuldade, a ser o mais famoso jardim do atlântico como cantava aliás o grande Max…

Andy Warhol

domingo, 21 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A Era dos túneis

Apesar do meu Sporting estar desde há muito afastado da luta pelo título (onde nunca chegou a entrar, aliás) esta época futebolística tem sido bastante interessante com uma constante incerteza relativamente ao vencedor do campeonato e com um surpreendente Super-Braga na luta pelos primeiros lugares. Independentemente desta constatação parece que os duelos dos túneis podem vir a ser decisivos na atribuição do campeonato como se percebe pelos castigos atribuídos a jogadores do Porto e do Braga.
O próprio Benfica - apesar de ainda não ter ganho nada e de eu continuar bastante céptico relativamente às reais capacidades de Jorge Jesus - não merecia, pelo perfume do futebol ofensivo que tem espalhado por esses campos fora, que os seus méritos fiquem de alguma forma estigmatizados pelo fantasma do jogo subterrâneo dos túneis.

Quer se queira quer não, o futebol português continua a espantar não pelo futebol jogado mas por especificidades próprias que permitem que um jogador fique suspenso por mais de dois meses, o equivalente a aproximadamente treze jogos, sem saber o castigo real a que estará submetido. Aqui ao lado em Espanha (para não ir mais longe) normalmente estes casos demoram dois dias a ser resolvidos.
Em suma, depois da impunidade com que a Máfia nortenha andou a distribuir fruta pelos campeonatos, parece que agora o Futebol Português entrou num novo período: A Era dos Túneis. Força Portugal…

A quem faz pão ou poema

A quem faz pão ou poema
só se muda o jeito à mão
e não o tema.

Atingira um silêncio tão de espanto
que era todo universo à sua volta
um seduzido canto.

E posto que viver me é excelente
cada vez gosto mais de menos gente.

Não sei quem manda na vida
mas a quem for eu me entrego
e o que queira me decida.

Pé firme leve dança
que o saber seja adulto
mas o brincar de criança.

Agostinho da Silva

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

À Minha Maneira – Xutos & Pontapés



Há 20 anos atrás, quando via isto, até as entranhas ficavam em alvoroço. A raiva (a minha e a deles) dissipou-se com o tempo mas ficou para sempre a atitude rebelde. Resta-me assinalar o agradecimento. Obrigado, Srs. Comendadores!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O Entrudo

Jeremias execrava o Carnaval. E tinha boas razões para isso. Um ano mascarou-se de político e acabou enredado nas teias da corrupção.
Este ano pensou mascarar-se de Palhaço mas o respectivo disfarce já se encontrava reservado. E eram inúmeros os pretendentes em fila de espera….

O Túnel


sábado, 13 de fevereiro de 2010

Sol de Inverno


A montanha pariu um rato. Este País só dá mesmo para rir. A primeira página sensacionalista do Sol (O Polvo em letras garrafais acompanhado pelo perfil do totó do Sócrates) é um nojo do ponto de vista jornalístico. Lê-se os subtítulos e percebe-se o embuste criado.
Anda meio mundo há anos (com muita gente incompetente pelo meio – Moura Guedes, etc) a tentar apanhar com a boca na botija um idiota que nem sabe quem é o José Luís Peixoto e o máximo que conseguem é isto. Ainda vão acabar por descobrir que o homem vai às compras ao Domingo….

Quem ouve Felícia Cabrita muito perturbada a falar deste caso na TVI e constata ao mesmo tempo que o famigerado “Sol” é vendido em Angola com uma edição diferente, omitindo muito convenientemente as escutas envolvendo o empresário Joaquim Oliveira para não comprometer as negociatas com José Eduardo dos Santos, percebe o pântano em que estamos atolados. Pela mais suprema ironia são precisamente nestas chico-espertices que está a génese do que o Sol denuncia. E há ainda quem faça filas para comprar o jornal fabricado por esta gentinha…

Relativamente às escutas propriamente ditas observo que este pobre país sempre teve como desígnio o servilismo mais inquietante. Este caso vem evidenciar essa atávica característica lusa. De resto, as conversas relatadas tratam de minudências sem sentido que todos já sabíamos, infelizmente, existir...

A realidade é que o Jornalismo em Portugal anda pelas ruas da amargura. Isto sem generalizações abusivas. Há excelentes profissionais, é certo. Agora se houvesse integridade e imparcialidade na classe não germinariam oportunidades para estas manipulações orquestradas que são aliás cozinhadas em todos os quadrantes políticos sem excepção. A verdade pura e dura é que o quarto poder, o mais decisivo nos dias que correm, está nas mãos de meia dúzia de débeis mentais, alguns bem incompetentes por sinal…

A um outro nível, José Sócrates sempre foi obcecado com os media e isso vai-lhe custar caro, como aliás sempre foi previsível. Deveria como Primeiro-Ministro manter uma atitude mais distante, ignorando o que se diz dele e limitando-se a governar que foi para isso que foi eleito. Não é legitimo atribuir-lhe culpas pelos anseios dos seus subordinados em agradar ao Chefe. Não é legitimo acusá-lo por não saber escolher os amigos (os critérios são pessoais e intransmissíveis) mas é já impossível passar incólume de mais este degradante episódio. Sair agora de cena, estendendo a passadeira a António Costa – mais low profile e menos irascível que Sócrates – não seria tão má ideia quanto isso……

Do Outro Lado

Fatih Akin, cineasta alemão de ascendência turca, dirigiu em 2007 “Do Outro Lado”. É o primeiro filme que visiono deste jovem cineasta de 36 anos o qual me surpreendeu pela positiva.

Nejat (Baki Davrak) reprova de início a mulher que o seu pai viúvo escolhe para viver - uma prostituta imigrante turca na cidade alemã de Bremen - mas depressa descobre que Yeter (Nursel Koese) tem uma filha na Turquia a quem envia dinheiro com frequência, o que o leva a simpatizar com aquela invulgar mulher. Depois do falecimento de Yeter, através de um homicídio involuntário provocado pelo seu Pai, Nejat vai à procura da tal filha para a Turquia na expectativa de a ajudar. A rapariga é contudo uma activista política com uma vida bastante atribulada. Estão assim lançados os dados para o desenrolar de uma narrativa intensa e envolvente.

Em “Do Outro Lado” o realizador vai dissecando as fragilidades próprias da vida dos imigrantes sem esconder as idiossincrasias culturais da Turquia muçulmana. Em determinada altura, as consequências da adesão do país à União Europeia são inclusivamente debatidas com pertinência numa discussão envolvendo duas das personagens, sobre os efeitos sociais desigualitários da globalização.
Os desde há muito elevados índices de imigração Turca na Alemanha que acentuam os laços existentes entre estes dois Países faz com este “Do Outro Lado” seja um pertinente e interessante exercício de análise sociológica a esta Europa multicultural em que vivemos. Cada vez mais são essenciais políticas de integração com base em princípios de tolerância, o que nem sempre acontece infelizmente.…


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Romantismo de Vanguarda

Ao contrário do instituído pelos modernos manuais de convivência social, Jeremias era incapaz de fugir a um conflito. Estava-lhe no sangue o carácter guerreiro. Não ia a combate pelo prazer de ganhar mas simplesmente porque gostava de dar trabalho aos hipócritas que alastravam pelo mundo. Corria, não por ambição, mas por uma espécie de orgulho romântico….

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A Lição

Jeremias pecava por excesso de racionalidade. A sua prudência normalmente revelava-se boa conselheira mas nem sempre lhe garantia a escolha do melhor caminho. Encarava a sensatez como a arma mais valiosa a utilizar qualquer que fosse o contexto.
Um dia, não havendo outra solução, recorreram a ele para arbitrar um conflito entre um Xadrezista e uma Vendedora de Peixe. O Xadrezista, habitualmente cerebral, perdeu a cabeça e agrediu a Vendedora de Peixe sem apelo nem agravo. A habitualmente precipitada Vendedora de Peixe, fazendo uso de uma serenidade que até então desconhecia - mesmo tendo absoluta razão no conflito em questão - não retaliou e resolveu não apresentar queixa do xadrezista às autoridades competentes.
A partir desse dia, perante tamanha lição de vida, Jeremias, tornou-se um emotivo inveterado passando simultaneamente a alimentar-se somente de peixe em homenagem à heróica Vendedora….

A Arte Poética

A poesia do abstracto...
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor...
Uma ideia
Só como sangue de problemas;
No mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura;
Perde -
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia...
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
São propriamente poesia.
A poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.

Vitorino Nemésio