domingo, 25 de abril de 2010

25 De Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A Poesia

Em cada canto, um poeta
em cada lua, um trovador
ao menos dêem-nos letras
para a sopa dos pobres líricos.

O Poema como a voz do povo
a luz que incendeia as almas
o destino que submerge incauto
o fim que desafia a normalidade.

Um rascunho que não chegou a livro
com as palavras que nunca foram ditas….

Lisboa Pop Art

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Canção de Amor e Saúde + Ruínas + Pare, Escute, Olhe

Dois documentários e uma curta-metragem actualmente em exibição nas salas portuguesas e tudo devidamente apreciado num único post. É necessário poupar espaço virtual.

Começando pela curta de 30 minutos que aparece como complemento a Ruínas, João Nicolau apresenta “Canção de Amor e Saúde” uma onírica história de amor em que a câmara é manejada com inegável talento. No entanto o resultado final é algo insípido e inconsequente. Rodada no Porto entre o centro comercial Brasília e o Parque da Serralves mostra contudo algumas ideias interessantes das quais sobressai o fascínio do protagonista por uma máquina (foto abaixo) onde constantemente faz o teste do amor….

Manuel Mozos - um dos mais personalizados realizadores portugueses - continua a sua resistente caminhada pelo cinema Luso agora com Ruínas. Uma interessante descida aos confins perdidos de um Portugal esquecido, através da visita a alguns edifícios que foram um dia emblemáticos e que actualmente se encontram à beira da ruína e em acelerada decadência.
Com uma fotografia e sonoplastia assinaláveis o filme revela-nos por exemplo, entre outras realidades, o que resta de alguns dos teatros do Parque Mayer, do restaurante panorâmico de Monsanto, do Sanatório da Covilhã ou da Estação Ferroviária de Barca d'Alva.
Em suma, um belo poema sobre as cicatrizes progressivas deixadas pelo passar do tempo, escrito pela mão de um eterno combatente como é Manuel Mozos…..



Através de um documentário inquestionavelmente bem produzido e a que ninguém fica indiferente intitulado “Pare, Escute, Olhe”, Jorge Pelicano dedica à Região do Tua, muito justamente, um postal lindíssimo. E convém realçar que falamos de umas das mais belas Regiões de Portugal, o que só por si vale o preço do bilhete.
No entanto “Pare, Escute, Olhe” tem quanto a mim algumas evidentes fragilidades. A meio caminho da reportagem televisiva, o documentário é assolado de alguma demagogia a cair para o politicamente correcto. Por exemplo, a comparação com o turismo levado a cabo na Suíça é de uma imbecilidade gratuita e sem qualquer sentido. Trata-se de tentar comparar o incomparável. O facto de se valorizar os argumentos da associação ambientalista sem escalpelizar de forma mais sustentada as vantagens e desvantagens da construção da barragem também me parece um pouco precipitado e forçado. Falta ainda notoriamente dar voz à CP. Aos Caminhos de Ferro Portugueses são efectuadas acusações directas e indirectas e que justificavam e careciam de defesa. Ou seja, numa perspectiva fria e distante Pare, Escute, Olhe não é dos documentos intelectualmente mais honestos. Obviamente que estas lacunas não põem em causa a importância de pôr a nu as desigualdades que continuam a existir no Portugal do século XXI bem como ostracismo a que as populações da zona são abandonadas. E aí admito, o documentário cumpre o seu papel com eficácia e visível notoriedade…

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Vulcão

Apesar da grave crise económica que atravessa a Islândia, afinal, continua a dar cartas. De erupção em erupção consegue levar a Europa ao desespero.
Se a nuvem maldita pairasse sobre Portugal da mesma forma que vem assolando o norte da Europa estaríamos praticamente isolados. Talvez assim se comece a pensar a sério em investir nas vias férreas de alta-velocidade - bem mais importante, mais premente e estrategicamente mais inteligente que um novo Aeroporto.
Já viajei diversas vezes de comboio por essa Europa fora e é por demais evidente que a esse nível Portugal está na cauda da cauda da Europa. E quem não percebe isto, não percebe nada….

M. C. Escher

sábado, 17 de abril de 2010

Build e Caravan of love - The Housemartins





The Housemartins em dose dupla. Mais uma lendária Banda dos gloriosos anos 80. Além destes dois excelentes temas podíamos ainda referir Happy Hour ou Five Get Over Excited como outras boas recordações da banda inglesa….

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Chama-lhe um Figo

O único critério utilizado por Luís Figo na gestão da sua brilhante carreira futebolística foi o monetário. Também por isso, mas não só, encaro o seu Sportinguismo com relativa genuinidade. Acontece que Luís Figo afirma que apoiou Sócrates de forma descomprometida e sincera. Eu acredito, até porque não havia (nem há) alternativas credíveis a este Governo. Agora não me peçam para acreditar que aquele pequeno-almoço cirúrgico no último dia da Campanha não teve nada a ver com o contrato assinado com a TagusPark….

O Papa

Sua Santidade está para chegar. O Estado constitucionalmente Laico ajoelha-se perante sua eminência e não estou a falar de Pedofilia…

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Duas vezes nada

É assim, amiga. Encontramo-nos
quando calha nos bares de antigamente,
deixando que sobre o tampo azul
das mesas volte a pousar
um baço cemitério de garrafas.

Constatamos o pior, os seus aspectos.
Corpos e livros que foram ficando
por ler na voracidade da noite de Lisboa.
De facto, crescemos em alcoolémia,
acordamos tarde, em pânico,
e perdemos os dias e os dentes
com uma espécie de resignação.
Não temos, ao que parece, serventia.

Sorrimos um pouco, ao terceiro
gin, como quem renasce para a morte,
seus gestos de ternura ou de exuberância.
Talvez tenhamos calculado mal
o ângulo da queda, esta vitória
sem nobreza dos venenos todos.

Mas agora é tarde. Tudo fechou
para nós, para sempre. O amor,
o desejo, até o onanismo da destruição.
Antes de procurares a esmola
do último táxi, fica esta imagem
parada, a desvanecer-se
no frio mais frio da memória:

não dois corpos sentados a trocarem
medo, cigarros e palavras póstumas,
mas duas vezes nada, ninguém,
o silêncio da noite destronando
as cadeiras onde por razão nenhuma
nos sentámos. Os anos, amiga, passaram.

Manuel de Freitas

terça-feira, 13 de abril de 2010

A Coragem

Jeremias somente possuía duas certezas. A primeira era que nada no mundo era perfeito. A segunda era que o poder corrompia.
Com o decorrer do tempo tinha perdido entusiasmo. Aquele ímpeto vagamente juvenil nunca mais se repetiria. A contrapartida era filha da bravura. A coragem é a derradeira âncora de todos os condenados….

A Capital

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Diario di uno spettatore

Na sequência de post anterior fica também a magnífica curta em versão não legendada que Nanni Moretti levou para Cada um o seu cinema, filme de homenagem aos 60 anos do festival de Cannes:

NANNI CI MANCHI *______*

Para visionar, é necessário entrar na imagem....

domingo, 11 de abril de 2010

A Pena

Villas-Boas "com muita pena" de não ir para Alvalade.
O treinador de futebol da Académica, André Villas-Boas, disse hoje que foi apanhado de surpresa pelo comunicado do Sporting à CMVM a comunicar o desinteresse na sua contratação.
“Compete-me a mim defender aquilo que aconteceu e os interesses da Académica. O termo ‘palhaçada’ que utilizei é forte, do Norte, e foi levado a mal por muita gente, mas ‘especulação jornalística’ já não o foi, tal como surgiu no comunicado do Sporting”, disse.
André Villas-Boas lamentou: “O sonho de qualquer treinador é chegar a um grande. Claro que o comunicado do Sporting me apanhou de surpresa. Parece-me que para o Sporting já não tenho hipóteses de ir e com muita pena minha”.
À margem da antevisão do embate da 26.ª jornada da Liga portuguesa de futebol, segunda-feira, em Setúbal, o técnico falou agora em “fantochada” para classificar as notícias sobre o seu futuro, nomeadamente o desvio para o FC Porto, salientando ter contrato com a Académica até 2011.
Também tenho pena e face às notícias mais recentes estou muito apreensivo relativamente ao nome do senhor que se segue.
Agora que o rapaz se penitenciou façam lá as pazes. É jovem, ambicioso, conhece a realidade do Sporting e tem um discurso arrojado….

Alphonse Mucha

quinta-feira, 8 de abril de 2010

A Contemporaneidade

Inês de Medeiros – uma razoável actriz - optou na presente fase da sua vida por uma incursão pelos corredores do poder. Foi eleita pelas listas do Partido Socialista deputada à Assembleia da República. Algumas das suas intervenções, e a postura assumida em Comissões da qual fez parte, deixam-me a pensar que fez mal em mudar de ramo mas está obviamente no seu direito. E sempre se deve ganhar melhor. Quem a elegeu – os votantes do PS pelo círculo de Lisboa - também lhe devem ter reconhecido qualidades para tal ou talvez não. A assustadora realidade do ancestral sistema eleitoral em vigor é que ninguém conhece grande parte dos candidatos a deputados. Aliás, é um dos latentes motivos que contribui para a minha brancura em matéria de eleições.
Acontece que anda para aí um grande frenesi por causa de eventuais ajudas de custo a pagar à proeminente deputada da nação por ter de se deslocar semanalmente a Paris onde legitimamente reside com a sua família. Há quem ache escandaloso e critique a sua pretensão (com razão face ao envolvimento de dinheiros públicos) mas não me interessa entrar por aí. Existe um vazio legal face à especificidade da situação que tem de ser ultrapassado.
A questão central para mim é que uma cidadã portuguesa - democraticamente eleita e que nunca faltou à verdade no desenrolar do processo - tem uma questão pendente para resolver pelo principal órgão de soberania legislativo do País há seis meses. Questão essa que inclusivamente põe em causa a sua dignidade pessoal aos olhos de uma opinião pública sedenta de sangue e de fait-divers inconsequentes. 
Ou seja, ninguém quer assumir a responsabilidade por uma decisão. Ninguém se quer comprometer. O rigorosíssimo (mas muito selectivo) presidente da Assembleia da República - Jaime Gama - empurra para o Conselho de Administração que por sua vez aguarda os principescamente pagos pareceres jurídicos.
O epílogo natural desta história bem portuguesa e reveladora do submundo politicamente correcto em que estamos enterrados é que os custos a pagar pelo somatório dos pareceres jurídicos necessários até alguém ter coragem para assumir uma decisão irão superar os custos com as ajudas de custo resultantes das viagens da deputada de pelo menos um ano.…
Portugal é isto, nada mais que isto, e quem pensa o contrário é tolo….

Ouvi dizer – Ornatos Violeta

terça-feira, 6 de abril de 2010

A Coerência

Jeremias agia de acordo com o que as circunstâncias exigiam. No entanto a sua conduta respeitava escrupulosamente – por vezes de uma forma doentia – os sãos princípios que havia preconizado na sua já longa existência. Tinha ouvido dizer que a vida sorria com mais facilidade aos incoerentes mas sabia que cada dia que passava era mais tarde para mudar. No fundo, gostava de continuar a dar trabalho aos hipócritas desde mundo. Desconfiava, contudo, que a puta da coerência era o seu maior inimigo mas já era tarde pra mudar….

Gaivota

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Alexandre O'Neill

domingo, 4 de abril de 2010

A Páscoa

No Domingo de Páscoa, Jeremias continuava sem vacilar entregue à amargura mais sombria.
Tinha nascido dos escombros do Maoísmo. Fez a escola no que restava do chamado Socialismo de intervenção. Posteriormente conheceu como poucos a hipocrisia subjacente à Social-democracia dominante. Acabou por fazer carreira no Liberalismo mais vanguardista antes de assentar arraiais no catolicismo mais exacerbado. A Religião tinha-o encurralado.
Felizmente acabou por falecer, antes de enveredar pelos misteriosos caminhos da Pedofilia. Misteriosos são os caminhos do Senhor......

Nota: Post escrito originalmente aqui, e agora muito apropriadamente editado.

A Primavera

sábado, 3 de abril de 2010

Estado de Guerra

Pondo de parte as desnecessárias demagogias cinematográficas estamos perante um extraordinário filme de guerra. Sem dúvida um dos melhores dos últimos anos. Fazendo jus ao género apresenta todos os ingredientes fundamentais de forma simples e com uma notável coerência. A valentia, o medo, a camaradagem e a alucinação são alguns dos conceitos explorados, sempre em doses equilibradas, pela realizadora norte-americana.
Kathryn Bigelow demonstra com este filme que fez muitíssimo bem em separar-se do hollywoodesco James Cameron - um megalómano inveterado que vive de sistemáticas concessões à indústria - que só podia ser mesmo péssima companhia para ela.
The Hurt Locker - Estado de Guerra na versão portuguesa - não é um filme de actores mas uma violenta e realista descida aos confins mais íntimos da condição humana. Sem procurar subterfúgios no politicamente correcto, demonstra-nos com precisão a angústia os diferentes estados de espírito por quem passam os soldados no limiar da barreira invisível que os separa da morte….

quarta-feira, 31 de março de 2010

Obrigado e Adeus


Zap Canal – 3 Tristes Tigres


segunda-feira, 29 de março de 2010

O Messias

Cada vez gosto mais de análise política à portuguesa. Senão vejamos; quiseram fazer a cama a Cavaco. Todos diziam que estava acabado mas a verdade é que ele - um Triste - vai previsivelmente continuar Presidente com uma maioria confortável passando por cima dos Alegres desta vida. Isto, para mal dos nossos pecados.
Agora com grande alarido pelo meio Pedro Passos Coelho é o novo D. Sebastião da direita Portuguesa. Logo ele, um pateta ambicioso com ares de super-homem que tem como principal característica a inconsequência. Será que ainda ninguém reparou que o discurso da criatura é de um vazio total?
O problema de Sócrates é ele próprio, as suas tendências controladoras suicidas, e a conjuntura internacional. Passos Coelho não assusta ninguém, o que não significa que face a factores imprevisiveis – exógenos ao seu próprio desempenho - não possa chegar a Primeiro-Ministro.

De uma coisa tenho a certeza, à primeira oportunidade Sócrates trucida Passos Coelho, tamanha é a diferença no background político de ambos…..

FARISEIAS

Gostam de ser cumprimentadas nas praças
e de ter o primeiro lugar
à mesa dos banquetes
são calculistas
formigas carreiristas
cheias de sucesso
e tudo usam e tudo gastam
indistintamente
porque são altas as suas entropias
e depois não sabem dar
os bons-dias às mulheres-a-dias

Gosto de me deitar
sem sono
para ficar
a lembrar-me
das coisas boas
deitada
dentro da cama
às escuras
de olhos fechados
abraçada a mim

Adília Lopes

domingo, 28 de março de 2010

O PEC

Adia-se a resolução do irresolúvel. Transfigura-se a caracterização do imutável. Assobiamos para o ar quando o ar já há muito de tornou irrespirável neste mar de aparências com nome de País.
A Grécia foi o berço da civilização. Portugal é o jazigo da ostentação. O Plano de Estabilidade e Crescimento é o simples reflexo da atávica megalomania nacional….

sábado, 27 de março de 2010

Parvalhal

Depois da derrota na Madeira o treinador do Sporting na respectiva conferência de Imprensa parece que declarou a seguinte pérola:
« Tem sido uma época atípica. E na minha modesta opinião acho que nos estamos a sair até muito bem »…

Eu ainda estou para fazer o balanço da triste época leonina mas indo ao encontro do que sempre disse aquando da sua surpreendente contratação, exercer o direito de opção sobre Carvalhal em Maio seria mais um erro histórico numa época cheia de equívocos. Presumo que é impossível cometer tantos erros em tão pouco tempo. Seria o culminar da dilapidação total das ambições do clube. Não posso nem quero acreditar que haja hipóteses de isso acontecer. Isto, sem nenhuma desconsideração pelo Homem, Carlos Carvalhal…

A Colina

quinta-feira, 25 de março de 2010

2 Dias em Paris


Surpreendente este 2 Dias em Paris, filme de 2007 realizado pela multifacetada Julie Delpy o qual somente visionei agora.
Já conhecíamos os seus méritos como actriz - bastante personalizada e talentosa - mas esta sua estreia na realização supera de longe as melhores expectativas.

Com a excelente presença de Adam Goldberg, 2 dias em Paris retrata as dificuldades por que passa o relacionamento entre um jovem casal. Com diálogos pujantes e intensos o filme tem um sentido bem mais incisivo do que uma mera comédia romântica podia sugerir; género que é contudo impossível de dissociar da concepção estrutural do enredo de Delpy.

O único senão na minha perspectiva é o epílogo que podia ser mais conseguido caso arriscasse fugir ao apelo supérfluo do happy end. De qualquer das formas estamos perante uma poderosíssima primeira obra merecedora dos mais vibrantes elogios…..

quarta-feira, 24 de março de 2010

A Transmutação

O poder tingiu-lhe as ideias. A ilusão que possuía algum ascendente sobre outros corrompeu-lhe a mente. Deu por si a perguntar ao espelho se haveria algum chefe mais desejado que ele. Esquecia-se que a sobriedade não era filha da autoridade….

Frida Kahlo

terça-feira, 23 de março de 2010

A Casmurrice

Jeremias possuía um génio de excepção, um carácter peculiar. Era insocial mas respeitado, sorumbático mas apreciado, macambúzio mas competente, irreverente mas calculista. Apesar das cicatrizeis acumuladas, resistia a todas as intempéries com o mesmo estoicismo que sempre preconizou na vida. O seu único intuito era fugir à carneirada mole que dominava os bastidores da hipocrisia reinante.
Não havia ninguém nas redondezas com igual vocação para enxotar os outros. Jeremias era o campeão da casmurrice, e ao menos desse título não tencionava abrir mão….

sábado, 20 de março de 2010

Words - F.R. David



Incontestavelmente anos 80. Mais um glorioso regresso à mítica década. Quem não cantarolou isto pelo menos uma vez, que atire a primeira pedra….

A Chafurdice

Acordei a sonhar que era possível limpar toda a porcaria que grassa por esse Portugal fora. Cheguei à conclusão que seria impossível. O egoísmo inebriante, a corrupção galopante, o tráfico de influências desesperante, o servilismo inquietante e a ganância perturbante continuam prosperamente a sobreviver.
O meu País vive atolado em chafurdice….

sexta-feira, 19 de março de 2010

Orgulho de Leão



Esta eliminatória ingloriamente perdida com o Atlético (Kun Agüero) de Madrid valeu pelo ressurgimento do fervor leonino em toda a sua majestosa grandeza evidenciada pelas perto de 45 mil almas que ocorreram ontem ao Zé Alvalade XXI.

Deixarei para mais tarde uma análise à péssima época leonina. A seu tempo, dissecarei sobre as causas do descalabro verde e branco em 2009/2010....…..

Um Homem

De repente
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo minúsculo
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma estátua jacente
esmagada sob as asas do crepúsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda
muda

António José Forte

quarta-feira, 17 de março de 2010

A Ambição

Viviam enredados na ganância mais desmedida. A voracidade com que defendiam o seu umbigo toldava a última réstia de bom senso do menos ambicioso. O pragmatismo que exibiam era filho da incapacidade mais desarmante. Só lhes restava mesmo dar asas à Patetice mais saloia....

terça-feira, 16 de março de 2010

O Mestre



Derivado em grande parte a assim e assado, o legado artístico do Mestre César Monteiro está novamente nas bocas do mundo. Independentemente desse facto, este blogue de tempos a tempos já tem por hábito prestar-lhe reverência.
Assim, deixo o genial início de Recordações da Casa Amarela, um dos filmes lapidares da obra do assombroso João César Monteiro….....

This is Lisbon

Para ver mais nitidamente, favor clicar na imagem....

sábado, 13 de março de 2010

O PPD/PSD

Neste fim-de-semana o país está mais uma vez em ebulição mediática com a ressurreição dessa mítica instituição portuguesa que dá pelo nome de congresso do PPD/PSD.
Seja ordinário, seja extraordinário, dificilmente se encontrará fotografia mais perfeita da Portugalidade em todas as suas idiossincrasias. Ali, como habitual, proliferarão as indignações espalhafatosas, os acertos de contas tácticos, as vinganças ressabiadas, o cinismo aprimorado.
A única certeza inquestionável é que - face à superficialidade nalguns casos doentia dos protagonistas - não sairá dali uma ideia, por mais vaga que seja, para governar Portugal….

O Deslumbramento

Como algo feérico, invisível no fundo da sua altivez, Jeremias possuído por uma inspiração que até então desconhecia apareceu titubeante ao fim de anos em total hibernação clamando por Liberdade. O deslumbramento auxiliava a fuga ao perceptível inquietantemente empobrecedor. São cravos, Senhor!..

Mark Rothko




quinta-feira, 11 de março de 2010

Shutter Island

O último de Martin Scorcese é mais um contributo inestimável para a sua colectânea de grandes filmes. Com uma deslumbrante fotografia, Shutter Island, a ilha dos dementes, é um exercício destemido de um realizador que continua visivelmente apaixonado pelo Cinema.
Baseado no livro "Paciente 67" de Dennis Lehane é uma perturbante descida aos lugares mais recônditos da natureza humana onde habitam os fantasmas que nos assombram constantemente e que estão sempre presentes em tudo o que fazemos. É ainda um mergulho arrojado no universo dos grandes thrillers conspirativos onde a alucinação é uma constante.
Com a participação de Leonardo DiCaprio no papel do agente Teddy Daniels e um impecável Mark Ruffalo - actor cada vez mais do meu agrado - fazendo do seu colega Chuck Aule, o filme conta ainda com a participação de Ben Kingsley como director da insólita prisão de Shutter Island.
Existem algumas pontas menos afiadas no filme de Scorcese. Além das passagens oníricas do protagonista serem algo repetidos não acrescentando nada de substancial - algumas são mesmo desnecessárias - fico um pouco com a sensação que DiCaprio não tem argumentos suficientes para a complexidade do papel desempenhado. Contudo, Shutter Island é uma viagem imperdível à Ilha da loucura e uma excelente catarse para espíritos mais sombrios…

domingo, 7 de março de 2010

A Emboscada

O grande Urso branco vivia receoso que o momento chegasse. Entregava-se, apreensivo, aos caprichos do destino pois não conhecia nenhuma alternativa a essa inevitabilidade. Detestava - sempre o assustou - perder o domínio da situação. Apesar de conhecer como ninguém a floresta por onde andava, sabia que a armadilha estava montada. Não conseguia imaginar nenhuma forma de fugir a cilada tão maquiavélica quanto aquela que lhe tinham armado.
Perante a Emboscada, não vacilou. Deu um passo em frente e caiu no buraco mais profundo. Acontece que no mesmo buraco tinha caído há pouco tempo uma grande Ursa castanha pela qual o grande Urso branco se apaixonou perdidamente de imediato.
O grande Urso branco e a grande Ursa castanha viveram felizes para todo o sempre…

Sultans Of Swing - Dire Straits

sexta-feira, 5 de março de 2010

A Viagem

O ser soturno procura alucinação
como uma mentira que diz a verdade
o fim de tudo o que é princípio
a luz obscura que ilumina o pensamento.

Novos mundos, velhos vícios
era uma vez em qualquer lugar
lindos são os campos de açucenas
no fundo do tempo enterrado.

A vida corrida nos confins da luta
procura sabor menos insípido
estrela perturbante que navega à deriva
viagem eterna que foge entre os dedos.

A incoerente coerência do sonho duma criança….

Wassily Kandinsky


quinta-feira, 4 de março de 2010

A Inconsequência

Jeremias tinha acessos repentinos de desconforto. Ocorria-lhe amiúde que a mudança radical seria o que necessitava. Achava sempre que ainda estava a tempo de mudar. Abordava a vida de forma austera mas objectiva, mecânica mas vagamente hedonista. Por vezes esquecia-se do seu carácter inconsequente. A sua ilusão era potencialmente pecaminosa apesar de enredada na mais pura inconsciência. Vivia cada dia como se folheasse mais uma página do livro de Dante. Sobrevivia, aparentemente feliz, porque nada esperava de significativo da vida. No fundo, a inexistência de expectativas, era a sua tábua de salvação….

A Grande Inteligência é Sobreviver

A Grande Inteligência é Sobreviver

A grande Inteligência é sobreviver.
As tartarugas portanto não são teimosas nem lentas, dominam;
SIM, a ciência.
Toda a tecnologia é quase inútil e estúpida,
porque a artesanal tartaruga,
a espontânea TARTARUGA,
permanece sobre a terra mais anos que o homem.
Portanto,
como a grande inteligência é sobreviver,
a tartaruga é Filósofa e Laboratório,
e o Homem que já foi Rei da criação
não passa, afinal, de um crustáceo FALSO,
um lavagante pedante;
um animal de cabeça dura. Ponto.

Gonçalo M. Tavares

terça-feira, 2 de março de 2010

A Natureza

Ultimamente a Mãe Natureza tem pregado inúmera partidas à humanidade. Os recentes terramotos no Haiti e Chile bem como outros fenómenos meteorológicos ocorridos, incluindo na nossa Madeira, têm feito vítimas um pouco por todo o lado. Esta tendência generalizada deveria fazer reflectir a sério quem tem o poder decisório nas mãos, o que nem sempre acontece.
Por um lado, é imprescindível parar com os atentados ao meio ambiente, isto sem fundamentalismos excessivos que por vezes também abundam por aí. Por exemplo, e entre muitas outras coisas, seria benéfico parar com construções em zonas de risco, muitas das quais são ou deviam ser hipoteticamente protegidas. Estes locais continuam por este país fora a serem alvos preferenciais de construção, derivado em grande parte à especulação imobiliária, principalmente quando se situam junto à costa. Por outro lado, devia-se idealizar e executar uma política de prevenção destas catástrofes que actuasse ao nível de um quase inexistente planeamento urbanístico, essencialmente nas grandes cidades e que, ao mesmo tempo, fiscalizasse com eficiência as novas construções.
Parece que no Chile a construção de grande parte dos edifícios tem uma filosofia subjacente que se traduz em normas de construção anti-sísmicas e que claramente ajudou a salvar muitas vidas. E se fosse em Portugal? Alguém com responsabilidades consegue arriscar os efeitos de uma catástrofe desta dimensão?
A Natureza está-se a revoltar das mais diversas formas de modo quase ininterrupto. Estamos de posse de todos os indícios para compreender essa evidência. Quem vai pagar a factura - além de nós que já estamos a pagar no presente - serão certamente as gerações vindouras que sofrerão com um mal que não contribuíram em nada para provocar, o que vem acentuar ainda mais o carácter criminoso de muitas coisas que vamos vendo por aí..…

O Funchal

Andei à procura de uma boa fotografia do Funchal que não tinha, apesar de já lá ter estado algumas vezes. E encontrei, aqui

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Blowin’ in the wind - Bob Dylan & Joan Baez



The answer, my friend, is blowing in the wind. The answer is blowing in the wind....

A Tempestade Perfeita

O vento soprava com intensidade. Chovia copiosamente. As rajadas de vento tinham o condão de despertar em Jeremias sentimentos contraditórios. Por um lado, estava habituado a respeitar obedientemente os mandamentos da Natureza. Por outro lado, temia o seu eventual espírito vingativo, como represália pela forma como o Homem a destruía progressivamente. Quem não se sente não é filho de boa gente e a Mãe Natureza era filha de gente de primeira água.
Jeremias esperou pacientemente pela chegada da tempestade na ânsia de atingir finalmente a perfeição que sempre lhe havia deslizado das mãos. Durante a sua atribulada vida nunca tinha em nenhum momento conhecido a maldita. A espera de Jeremias revelou-se infrutífera. A Tempestade Perfeita nunca chegou. Percebeu nesse dia - de forma definitiva - que não havia espaço na sua vida para a perfeição….

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Magias Fernandez



Dizem que o terceiro golo do Sporting foi ressalto. Para mim foi Valsa de Viena, Tela de Matisse, soneto de Camões….

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Um Homem Sério

Um homem sério, o mais recente filme dos consagrados irmãos Coen - Joel e Ethan – actualmente em cena e candidato aos óscares é na minha modesta óptica algo insípido mas mantém algumas características essenciais ao cinema dos Coen. Deixa-me, contudo, a pensar que cada vez está mais distante a forma evidenciada pelo magnífico Fargo datado de 1996, sem qualquer dúvida a obra-prima máxima da dupla americana.

Centrado na temática do judaísmo, Um Homem Sério é protagonizado por Michael Stuhlbarg no papel de Larry Gopnik, um homem aparentemente normal com uma carreira sólida de professor universitário que de repente se vê envolvido num espiral de acontecimentos anómalos. Aliás, onde o talento dos Coen continua a ser mais visível é precisamente na espessura realista com que revestem os protagonistas dos seus filmes proporcionando-lhes uma densidade narrativa assinalável, e nessa linha de pensamento este titubeante Larry Gopnik não foge à regra.
Numa outra perspectiva, a cena em que o jovem adolescente Danny é levado no dia do seu Bat Mitzvah (um ritual de emancipação no mundo judaico) ao Rabbi Marshak's para ouvir os conselhos do velho decano é de uma crueza sarcástica fabulosa. Sintetizaria na perfeição todo o cinema dos irmãos Coen. Pena é que o resto do filme não seja assim tão conseguido….

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A Arte de Jeremias

Jeremias sentia a mesma angústia que acompanhava normalmente os Artistas. Era com frequência arrebatado pelas mesmíssimas crises existenciais. Não tinha todavia qualquer talento para criar o que quer que fosse. Nunca passaria de um Artista inconsequente....

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Aos Madeirenses

Perante a tragédia que o Povo Madeirense enfrenta todos os meus eventuais lugares-comuns seriam insuficientes para expressar a solidariedade que na realidade merecem.

Depois de ontem num momento arrepiante o seu representante mais ilustre, Cristiano Ronaldo, ter dedicado um extraordinário golo à sua ilha natal, deixo como singela mas sentida dedicatória um momento de génio de um outro proeminente Madeirense - Maximiano de Sousa – conhecido universalmente como Max.



Apesar deste infortúnio a ilha da Madeira voltará com toda a certeza, sem dificuldade, a ser o mais famoso jardim do atlântico como cantava aliás o grande Max…

Andy Warhol

domingo, 21 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A Era dos túneis

Apesar do meu Sporting estar desde há muito afastado da luta pelo título (onde nunca chegou a entrar, aliás) esta época futebolística tem sido bastante interessante com uma constante incerteza relativamente ao vencedor do campeonato e com um surpreendente Super-Braga na luta pelos primeiros lugares. Independentemente desta constatação parece que os duelos dos túneis podem vir a ser decisivos na atribuição do campeonato como se percebe pelos castigos atribuídos a jogadores do Porto e do Braga.
O próprio Benfica - apesar de ainda não ter ganho nada e de eu continuar bastante céptico relativamente às reais capacidades de Jorge Jesus - não merecia, pelo perfume do futebol ofensivo que tem espalhado por esses campos fora, que os seus méritos fiquem de alguma forma estigmatizados pelo fantasma do jogo subterrâneo dos túneis.

Quer se queira quer não, o futebol português continua a espantar não pelo futebol jogado mas por especificidades próprias que permitem que um jogador fique suspenso por mais de dois meses, o equivalente a aproximadamente treze jogos, sem saber o castigo real a que estará submetido. Aqui ao lado em Espanha (para não ir mais longe) normalmente estes casos demoram dois dias a ser resolvidos.
Em suma, depois da impunidade com que a Máfia nortenha andou a distribuir fruta pelos campeonatos, parece que agora o Futebol Português entrou num novo período: A Era dos Túneis. Força Portugal…

A quem faz pão ou poema

A quem faz pão ou poema
só se muda o jeito à mão
e não o tema.

Atingira um silêncio tão de espanto
que era todo universo à sua volta
um seduzido canto.

E posto que viver me é excelente
cada vez gosto mais de menos gente.

Não sei quem manda na vida
mas a quem for eu me entrego
e o que queira me decida.

Pé firme leve dança
que o saber seja adulto
mas o brincar de criança.

Agostinho da Silva

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

À Minha Maneira – Xutos & Pontapés



Há 20 anos atrás, quando via isto, até as entranhas ficavam em alvoroço. A raiva (a minha e a deles) dissipou-se com o tempo mas ficou para sempre a atitude rebelde. Resta-me assinalar o agradecimento. Obrigado, Srs. Comendadores!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O Entrudo

Jeremias execrava o Carnaval. E tinha boas razões para isso. Um ano mascarou-se de político e acabou enredado nas teias da corrupção.
Este ano pensou mascarar-se de Palhaço mas o respectivo disfarce já se encontrava reservado. E eram inúmeros os pretendentes em fila de espera….

O Túnel


sábado, 13 de fevereiro de 2010

Sol de Inverno


A montanha pariu um rato. Este País só dá mesmo para rir. A primeira página sensacionalista do Sol (O Polvo em letras garrafais acompanhado pelo perfil do totó do Sócrates) é um nojo do ponto de vista jornalístico. Lê-se os subtítulos e percebe-se o embuste criado.
Anda meio mundo há anos (com muita gente incompetente pelo meio – Moura Guedes, etc) a tentar apanhar com a boca na botija um idiota que nem sabe quem é o José Luís Peixoto e o máximo que conseguem é isto. Ainda vão acabar por descobrir que o homem vai às compras ao Domingo….

Quem ouve Felícia Cabrita muito perturbada a falar deste caso na TVI e constata ao mesmo tempo que o famigerado “Sol” é vendido em Angola com uma edição diferente, omitindo muito convenientemente as escutas envolvendo o empresário Joaquim Oliveira para não comprometer as negociatas com José Eduardo dos Santos, percebe o pântano em que estamos atolados. Pela mais suprema ironia são precisamente nestas chico-espertices que está a génese do que o Sol denuncia. E há ainda quem faça filas para comprar o jornal fabricado por esta gentinha…

Relativamente às escutas propriamente ditas observo que este pobre país sempre teve como desígnio o servilismo mais inquietante. Este caso vem evidenciar essa atávica característica lusa. De resto, as conversas relatadas tratam de minudências sem sentido que todos já sabíamos, infelizmente, existir...

A realidade é que o Jornalismo em Portugal anda pelas ruas da amargura. Isto sem generalizações abusivas. Há excelentes profissionais, é certo. Agora se houvesse integridade e imparcialidade na classe não germinariam oportunidades para estas manipulações orquestradas que são aliás cozinhadas em todos os quadrantes políticos sem excepção. A verdade pura e dura é que o quarto poder, o mais decisivo nos dias que correm, está nas mãos de meia dúzia de débeis mentais, alguns bem incompetentes por sinal…

A um outro nível, José Sócrates sempre foi obcecado com os media e isso vai-lhe custar caro, como aliás sempre foi previsível. Deveria como Primeiro-Ministro manter uma atitude mais distante, ignorando o que se diz dele e limitando-se a governar que foi para isso que foi eleito. Não é legitimo atribuir-lhe culpas pelos anseios dos seus subordinados em agradar ao Chefe. Não é legitimo acusá-lo por não saber escolher os amigos (os critérios são pessoais e intransmissíveis) mas é já impossível passar incólume de mais este degradante episódio. Sair agora de cena, estendendo a passadeira a António Costa – mais low profile e menos irascível que Sócrates – não seria tão má ideia quanto isso……

Do Outro Lado

Fatih Akin, cineasta alemão de ascendência turca, dirigiu em 2007 “Do Outro Lado”. É o primeiro filme que visiono deste jovem cineasta de 36 anos o qual me surpreendeu pela positiva.

Nejat (Baki Davrak) reprova de início a mulher que o seu pai viúvo escolhe para viver - uma prostituta imigrante turca na cidade alemã de Bremen - mas depressa descobre que Yeter (Nursel Koese) tem uma filha na Turquia a quem envia dinheiro com frequência, o que o leva a simpatizar com aquela invulgar mulher. Depois do falecimento de Yeter, através de um homicídio involuntário provocado pelo seu Pai, Nejat vai à procura da tal filha para a Turquia na expectativa de a ajudar. A rapariga é contudo uma activista política com uma vida bastante atribulada. Estão assim lançados os dados para o desenrolar de uma narrativa intensa e envolvente.

Em “Do Outro Lado” o realizador vai dissecando as fragilidades próprias da vida dos imigrantes sem esconder as idiossincrasias culturais da Turquia muçulmana. Em determinada altura, as consequências da adesão do país à União Europeia são inclusivamente debatidas com pertinência numa discussão envolvendo duas das personagens, sobre os efeitos sociais desigualitários da globalização.
Os desde há muito elevados índices de imigração Turca na Alemanha que acentuam os laços existentes entre estes dois Países faz com este “Do Outro Lado” seja um pertinente e interessante exercício de análise sociológica a esta Europa multicultural em que vivemos. Cada vez mais são essenciais políticas de integração com base em princípios de tolerância, o que nem sempre acontece infelizmente.…


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Romantismo de Vanguarda

Ao contrário do instituído pelos modernos manuais de convivência social, Jeremias era incapaz de fugir a um conflito. Estava-lhe no sangue o carácter guerreiro. Não ia a combate pelo prazer de ganhar mas simplesmente porque gostava de dar trabalho aos hipócritas que alastravam pelo mundo. Corria, não por ambição, mas por uma espécie de orgulho romântico….

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A Lição

Jeremias pecava por excesso de racionalidade. A sua prudência normalmente revelava-se boa conselheira mas nem sempre lhe garantia a escolha do melhor caminho. Encarava a sensatez como a arma mais valiosa a utilizar qualquer que fosse o contexto.
Um dia, não havendo outra solução, recorreram a ele para arbitrar um conflito entre um Xadrezista e uma Vendedora de Peixe. O Xadrezista, habitualmente cerebral, perdeu a cabeça e agrediu a Vendedora de Peixe sem apelo nem agravo. A habitualmente precipitada Vendedora de Peixe, fazendo uso de uma serenidade que até então desconhecia - mesmo tendo absoluta razão no conflito em questão - não retaliou e resolveu não apresentar queixa do xadrezista às autoridades competentes.
A partir desse dia, perante tamanha lição de vida, Jeremias, tornou-se um emotivo inveterado passando simultaneamente a alimentar-se somente de peixe em homenagem à heróica Vendedora….

A Arte Poética

A poesia do abstracto...
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor...
Uma ideia
Só como sangue de problemas;
No mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura;
Perde -
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia...
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
São propriamente poesia.
A poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.

Vitorino Nemésio

Até me assustei....

Bettencourt renovou contrato a Carvalhal até 2015

Assim de repente, pensei que fosse a sério. Estamos mal, mas acho que ainda não enlouquecemos....

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Bater no fundo

Uma equipa que tem um treinador incapaz de perceber que é preferível pôr a titular o defesa-esquerdo da equipa dos juniores em vez de Leandro Grimi é uma equipa que não merece ganhar jogo nenhum.
O Sporting bateu no fundo. Mesmo os bons jogadores desta equipa; Liedson e João Pereira por exemplo, já não conseguem remar contra a maré.
A Direcção de Bettencourt está debaixo de fogo cerrado. Apesar de ter sido eleito com 90 e tal por cento de apoio, se as eleições ocorressem hoje muito provavelmente não passaria dos 10 por cento. E até a altura escolhida para gozar umas legítimas férias na companhia da família – aproveitando uma aparente fase de bonança numa época complicada - correu mal ao Presidente. Agora a verdade é que esta inusitada situação nunca sucederia no Porto, por exemplo. E é também verdade que os erros têm sido clamorosos. Desde o adiamento até ao limite das contratações, permitindo a fuga de Saviola para o Benfica que face à sua qualidade foi oferecido ao Sporting a preço muito razoável, até à infeliz contratação de um treinador sem currículo por 6 meses (como já li com alguma piada temos um treinador trabalhando precariamente a recibos verdes), as más e precipitadas decisões desta direcção têm-se infelizmente acumulado.

A boa notícia é que mesmo perdendo continuamos oito pontos à frente da Académica. Vilas-Boas que recusou vir para Alvalade há uns meses atrás - mesmo comandando uma equipa fraquíssima - deu um banho táctico a Carvalhal na segunda parte. Ou muito me engano, ou já está apalavrado com Pinto da Costa para a próxima época.
Outra boa notícia é que Grimi se lesionou na cabeça levando ao que parece cinco pontos. Existe assim a esperança que não jogue contra o Benfica. Qualquer treinador de quarta categoria que jogue actualmente conta o Sporting direcciona a sua equipa no sentido de atacar preferencialmente pelo lado direito, ou seja pela asa esquerda do Sporting. Basta pensar nos primeiros 10 minutos da vergonhosa derrocada contra o Porto para perceber essa evidência. A má notícia é que o eventual substituto de Grimi é Pedro Silva. Outro erro de palmatória desta direcção: havendo dinheiro fresco para investir como é possível não considerar como absoluta prioridade a contratação de um defesa-esquerdo?

No entanto o verdadeiro problema do Sporting é quanto a mim a crónica redução progressiva dos níveis de exigência. A fasquia parece estar sempre abaixo daquilo que deveriam ser as reais aspirações de um clube com a dimensão e o historial do Sporting Clube de Portugal. Além disso, é um clube historicamente de anjinhos e isso continua a ser prejudicial no presente. Basta olhar para actual equipa de futebol: Rui Patrício, Carlos Saleiro, Bruno Pereirinha tudo gente da casa, tudo bons rapazes, contudo sem estofo de campeões. Já não me lembro da última defesa de Patrício, ultimamente é cada tiro, cada melro.
Mais exemplos da nossa parca ambição: Se hipoteticamente vencermos na próxima terça-feira o Benfica aposto que depressa os adeptos se conformarão com o estado das coisas. É mais um reflexo da apatia em que caiu o universo leonino. Uma simples vitória perante um rival é suficiente para satisfazer a massa adepta
Outro exemplo: se por acaso Carvalhal ganhar a taça da liga ou chegar longe na Liga Europa tenho a certeza que haverão adeptos a defender a continuidade deste treinador medíocre, o que diz muito acerca desta falta de ambição generalizada que infelizmente tem paralisado Alvalade
…..

sábado, 6 de fevereiro de 2010

A Madeira

Já fui algumas vezes à Ilha da Madeira e basta passear por aquelas agradáveis ruas (reconheça-se) uns minutos para perceber de imediato que não justifica dar para lá um cêntimo. Têm um turismo dinâmico, bem planificado e rentável, comparativamente por exemplo ao Algarve. Ninguém de bom senso lhes pode tirar esse mérito. Souberam aproveitar eficazmente os recursos disponíveis e também os disponibilizados por terceiros. Obviamente que existe alguma exclusão social, hipocritamente escondida por João Jardim, para evitar embaraços e não afugentar o precioso turismo de luxo....

Sinceramente tenho dificuldades em perceber a posição do PCP e do BE em matéria tão fundamental e simbólica como a lei das finanças regionais. Pôr a Madeira e os Açores no mesmo limiar de carência de fundos é uma afronta à inteligência dos Portugueses. Parece que um dos argumentos é que no ano passado até se deu mais à Madeira do que o agora proposto. Deu-se mais e deu-se erradamente. Se este ano houver coragem para corrigir esse erro, melhor.
Evidentemente que tenho consciência que o PS faz disto um drama político com objectivos mediáticos (aliás, hoje já é claro que o que fará cair Sócrates é a sua obsessão pela comunicação social) mas a questão essencial para mim como contribuinte é a possibilidade de finalmente deixar de financiar as indecências de John Garden. É que nunca gostei de gastar dinheiro com fantochadas, ainda por cima de baixo nível….

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O Carnaval

Dizem que Sócrates - agastado com os constantes ultimatos internacionais e condicionado pelo avolumar da dívida pública e do défice - aproveitou o famigerado Conselho de Estado para ameaçar a demissão, o que vem provar afinal que tal órgão serve para alguma coisa: produzir ameaças.
Como isto anda tudo ligado, uma das personagens mais mencionadas neste pobre blogue – John Garden – desejou a todos um bom carnaval. Bem, para mim, o único carnaval que aprecio são as hilariantes campanhas eleitorais proporcionadas por esta nossa democracia. Por isso, preparem-se, o regresso do corso carnavalesco está para breve…..

A Praça da Figueira


terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O Laço Branco

A Palma de Ouro do festival de Cannes em 2009 premiou o filme de Michael Haneke, o Laço Branco.
Depois dos elogiados Funny Games de 1997 e a Pianista de 2001 com uma inolvidável Isabelle Huppert como protagonista, Cannes consagrou finalmente o cineasta austríaco que já tinha sido galardoado como realizador de “nada a esconder” de 2005, então com Juliette Binoche.
Foi no entanto o magnífico “Código desconhecido”, datado de 2000, o filme de Haneke que mais apreciei. Aí, chegou mesmo a roçar os limites da obra-prima absoluta. Talvez por isso, vejo mais esta Palma de Ouro como um justo prémio pela carreira profícua do Realizador nos últimos anos do que pelas virtudes deste filme agora coroado.

O Laço Branco filmado a preto e branco conta com uma fotografia rigorosíssima. Apesar da intensa mise-en-scène de Haneke e de algumas boas interpretações deixa-nos com a frustrante sensação de não chegar a descolar para voos mais condizentes com a verdadeira capacidade do Realizador. No entanto, mantém o traço essencial e a visão inconfundível que são a marca do Cineasta. Nessa perspectiva o genérico final - sem qualquer música de fundo - é já uma imagem distintiva de Haneke. Deixa o espectador entregue a si próprio, às suas fragilidades, às suas incertezas relativamente ao desenlace da narrativa. No cinema de Haneke não sobra espaço para artifícios. Abandona-nos, sem vestígios de uma qualquer rede, deixando-nos entregues às nossas próprias vulnerabilidades…

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A Cretinice

Caiu na real quando percebeu que lhe estavam a ir ao bolso. Acordou nesse momento para as ancestrais injustiças de um mundo desigual. Imaginou que escasseariam os recursos para adquirir as habituais sumptuosidades com que satisfaz os desafortunados filhos.
A Cretinice acaba sempre por assomar à superfície…

Salvador Dalí


sábado, 30 de janeiro de 2010

O Conselho de Estado

O presidente da República, Cavaco Silva, convocou o pomposamente denominado Conselho de Estado para a próxima quarta-feira.
Mais um tiro para o ar do nosso ilustre Presidente. O que sairá dali?
Como é normal em Cavaco servirá simplesmente para demonstrar que está vivo. Efectivamente, olhando para ele é uma dúvida legítima que nos assalta.
Fiquem descansados, do Conselho de Estado não sairá nada de significativo, ou melhor, como habitual sairá uma qualquer vacuidade indicativa de coisa nenhuma....

Testamento do Poeta

Todo esse vosso esforço é vão, amigos:
Não sou dos que se aceita... a não ser mortos.
Demais, já desisti de quaisquer portos;
Não peço a vossa esmola de mendigos.

O mesmo vos direi, sonhos antigos
De amor! olhos nos meus outrora absortos!
Corpos já hoje inchados, velhos, tortos,
Que fostes o melhor dos meus pascigos!

E o mesmo digo a tudo e a todos, - hoje
Que tudo e todos vejo reduzidos,
E ao meu próprio Deus nego, e o ar me foge.

Para reaver, porém, todo o Universo,
E amar! e crer! e achar meus mil sentidos!....
Basta-me o gesto de contar um verso.

José Régio

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A Revolução

Fotografava, captava instantes decisivos, não porque tivesse meios sofisticados para esse efeito mas porque o coração assim o ordenava.
Idolatrava o sexo oposto, vivia de amores intensos, até que um dia deparou com algo mais atraente que o corpo feminino. Tinha acabado de conhecer os caminhos da Revolução. Descobriu desse modo que nada é mais apaixonante que o espírito Revolucionário….

A Avaliação

Avaliavam-se, julgavam-se reciprocamente, não porque daí tirassem algum benefício mas porque tal procedimento aparentava contemporaneidade....

A Morte Saiu à Rua - Zeca Afonso

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Leões Assanhados

Estive para passar por cima do assunto. Comentei no Cacifo. Hesitei várias vezes antes de resolver escrever sobre este caso que entristece certamente todos os verdadeiros sportinguistas. No entanto não resisto a transcrever para aqui as minhas biqueiradas de Leão.

Vamos a factos: Liedson é um grande jogador e um óptimo profissional tal como foi Jardel que nos “ofereceu” um campeonato. Agora quer um, quer o outro não deixam de ser mercenários da bola, tal como Simão, Futre e outros que passaram por Alvalade. Até mesmo Figo nunca foi propriamente um exemplo de amor incondicional ao clube que o catapultou para a glória. A história do amor à camisola e de beijar o leão só foi para mim verdadeiramente credível nos tempos de Manuel Fernandes. Esse, eu sabia, sentia, que estava a ser sincero.
O que se passou neste lamentável episódio - acreditando na versão que Sá Pinto ontem defendeu - não vem permitir que Liedson deixe de ser aos nossos olhos um grandessíssimo profissional. Dentro do campo defende intransigentemente, como poucos aliás, os superiores interesses desportivos do clube.
Tem feito algumas asneiras, é verdade. Sou apaixonado pelo jogador e admiro o seu percurso de vida, mas fico-me por aí. A sua postura nem sempre tem sido a melhor mas a realidade é que já leva sete anos de leão ao peito o que faz com que obrigatoriamente tenha carinho pelo clube.
Se Liedson insultou efectivamente os adeptos e o clube, mesmo que de cabeça quente, é absolutamente condenável e nessa perspectiva a multa pecuniária até peca por escassa. São profissionais principescamente pagos e têm de ter estômago para o superior julgamento dos associados e adeptos que são a razão de ser do Sporting Clube de Portugal. Se insultou o País, não me apoquenta minimamente. De qualquer das formas somos mesmo um país de patetas. Restringindo-me somente ao futebol, basta pensar na impunidade com que Pinto da Costa e Valentim Loureiro continuam a andar por aí.

Em resumo, foi um episódio triste e era bom que ficasse enterrado de vez. Sá Pinto quis limpar a face com esta última conferência de imprensa porque tem ainda ambições futuras dentro de um clube que, reconheça-se, vive de forma apaixonada. Todavia - e isto é outro facto - ao longo da sua vida desportiva já prejudicou mais o clube do que o beneficiou. E convém não esquecer que Sá Pinto não é Leão de berço. Vem de uma outra escola menos íntegra onde os métodos sicilianos sempre justificaram os fins….

A Essência


domingo, 24 de janeiro de 2010

A Morte Lenta

Semana após semana, Jeremias passava por um cemitério construído há aproximadamente cinco anos o qual se apresentava cada vez mais composto de campas. Progressivamente, as simbólicas cruzes iam ocupando o terreno livre. Apesar disso, e atendendo ao espaço ainda disponível, o aglomerado de lápides ainda não cobria sequer metade do cemitério.
Quando lá passava, Jeremias - que gostaria de ser cremado quando finasse porque sempre teve medo de bicharada - pensava com os seus botões se teria ainda tempo suficiente para assistir ao preenchimento completo daquele estranho Jardim de Pedra…

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Tetro

Filme de Francis Ford Coppola com a presença de Vincent Gallo.
O consagrado Realizador de Apocalypse Now aproveita a unanimidade à volta da sua obra para efectuar mais uma incursão pelos contornos do cinema independente, o que representará certamente para si um maior estimulo intelectual. E Tetro demonstra de início potencialidades que depois não cumpre. Um atraente argumento não chega para fazer um inolvidável filme.
A narrativa parte de um encontro de irmãos entre Tetro e o jovem Bennie de apenas 17 anos, que não vê o irmão mais velho há dez. Tudo isto tendo como pano de fundo uma fascinante Buenos Aires e o mítico bairro de Boca. A chegada de Bennie ao convívio com o pretenso irmão vai contribuir inevitavelmente para o desmembramento familiar. Os fantasmas vão assomar à superfície sem apelo nem agravo.
Vicent Gallo vem provar aquilo que já era para mim uma evidência. Vale muito mais como Realizador (Buffalo ‘66 e Brown Bunny) do que como actor. Isto, não obstante ser sempre o protagonista dos filmes que realiza, dando asas ao seu reconhecido egocentrismo. Não conheço por aí além a sua faceta de músico mas como actor no papel de Tetro volta novamente a ser uma grande desilusão…

Vincent Van Gogh


quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Portugal

Um post que define um País:



«Mas ó Major, veja lá isso!»... E isto nem sequer é o mais grave. Tudo clarinho como a água aqui.

Em tribunal, o veredicto final foi e será para Pintos da Costa e Loureiros, inocentes. Como pode um qualquer cidadão cumpridor respeitar este Estado de Direito?
A Impunidade prospera em Portugal...

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A Subserviência

Cumpria escrupulosamente o sugestionado pelos seus superiores, não porque concordasse taxativamente com o seu conteúdo, mas porque era incapaz de assumir uma posição de discordância.
Tinha receio da própria sombra. Esquecia-se que estava a vender a alma ao diabo e que por norma os diabos infernizam as vidas alheias.
Era incapaz de planear o futuro. Não porque lhe faltasse competência para tal mas porque estava demasiado preocupado com o presente.
O seu único desígnio era o seguidismo frouxo……

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

E de Novo, Lisboa...

E de novo, Lisboa, te remancho,
numa deriva de quem tudo olha
de viés: esvaído, o boi no gancho,
ou o outro vermelho que te molha.

Sangue na serradura ou na calçada,
que mais faz se é de homem ou de boi?
O sangue é sempre uma papoila errada,
cerceado do coração que foi.

Groselha, na esplanada, bebe a velha,
e um cartaz, da parede, nos convida
a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:
dizem que o sangue é vida; mas que vida?

Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,
na terra onde nasceste e eu nasci?

Alexandre O'Neill

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

De Ouro e Prata

Qual Pai apalermado, Jeremias, à falta de melhor imaginação e na esperança de interromper o pranto compulsivo do Puto de 4 meses, dá por si enquanto embala o incrédulo pequeno ser a cantarolar o seguinte:
O meu Papá é de Ouro e Prata e os outros papás são de casca de batata….

Getting Away With It (All Messed Up) – James


Uma grande música e uma grande interpretação de uma banda notável…