Snob é uma palavra que num inglês primitivo significava curiosamente o inverso do que significa hoje. De acordo com o dicionário actual da língua portuguesa o sentido que lhe damos resulta de uma manifestação de superioridade nas ideias, gostos e comportamentos e um menosprezo por aqueles que não têm prestígio ou posição social. E, perguntam os meus estimados leitores, por que carga de água é chamado para aqui o snobismo?
Porque é uma característica que assenta que nem uma luva nesta Portugalidade de princípio de século. Podia começar pelo snobismo intelectual - o mais interessante de escalpelizar. Talvez até houvesse aí matéria suficiente para escrever um livro. Abunda na opinião pública e nos círculos políticos. É usado e abusado por uma certa esquerda de referência que se julga muito letrada, muito sofisticada, muito equitativa, muito opinativa mas que depois à primeira oportunidade reprime e até escraviza eventuais subordinados. Amordaça opiniões alheias por serem divergentes das suas. Não tolera conviver com o contraditório por mais evidentes que sejam as fragilidades dos seus argumentos.
Provavelmente ainda voltarei a esta omnipresente arrogância intelectual no futuro....
Uma vertente mais dispersa, mas mais amputadora para o desenvolvimento sustentado do país é o Snobismo social. Herda-se de berço nalguns casos, noutros desenvolve-se nas juventudes partidárias e nas administrações das empresas. Floresce nos meios culturais. Existem situações em que nem se percebe muito bem de onde vem, mas está sempre presente, escondido, à espreita na esquina mais próxima.
Vivemos num tempo em que encontramos facilmente jovens adultos a administrar empresas públicas. Pessoas sem qualquer experiência significativa de vida ao nível pessoal, que é o mais importante na formação do individuo, e sem percursos meritórios de qualquer espécie.
Sempre que existe uma sensação de real poder, por mais vaga que seja, que incida sobre o controlo de recursos humanos ou financeiros emerge sempre em Portugal o Snobismo mais pacóvio. Uma espécie de eu sei que tu sabes que o meu lugar é este aqui, no pedestal, e o teu lugar é aí no meio do nada. Depois esmiúça-se o núcleo individual, a verdadeira essência, a putativa coluna vertebral desta gente que vive afundada num mar de aparências e encontra-se o.....vazio absoluto. Por mais estranho que possa parecer, os fantasmas e as frustrações que assolam esta espécie de pessoas é o que de mais autêntico possuem. De resto, vivem alimentadas por ambições doentias, ficções frívolas e ostentações fúteis. Habitam em condomínios privados de reinos desgovernados incapazes de escapar à superficialidade de um discurso convencional, bacoco e socialmente acomodado. Temem o confronto de ideias, receiam pontos de vista discordantes porque no essencial querem manter a supremacia a todo o custo.
Num país pequeno, que funciona à base de capelinhas sectoriais com grande parte dos dados viciados à partida, esta forma quase generalizada de agir torna-se castradora aos mais diversos níveis, incluindo numa área fundamental para a educação cívica como é a criação artística.....
Olhemos por exemplo para os nossos vizinhos espanhóis. Obviamente que o snobismo também terá os seus partidários mas tratam-se sempre de forma informal, normalmente por tu, independentemente de quem esteja do outro lado. Como perdem menos tempo com todas as futilidades inerentes ao posicionamento social são mais metódicos que nós, mais planeados, mais despreocupados, menos complicados e por isso vivem melhor e mais felizes....