segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O Pesadelo

A questão central é que o Sporting devia ter entrado na Luz com 12 pontos e não com 7. No entanto, o que achei mais estranho na exibição da equipa foi o facto de ter ficado com a nítida sensação que o jogo não foi bem preparado. Vejamos: o Benfica jogou e apresentou-se como habitual de uma forma ultra-previsível, utilizou o desequilibrador do costume (Cardoso) que, note-se, passou o jogo todo sem uma marcação minimamente eficiente. Bloqueou de forma também previsível as subidas dos nossos laterais. E nós sem nunca demonstrar um mero vestígio da existência de um plano de jogo. Mas claro, para Paulo Sérgio o Sporting teve as mesmas 3 ou 4 oportunidades do Benfica. Aliás, o jogo foi um péssimo espectáculo. Com outro Benfica ou com o actual Porto, tínhamos levado um saco cheio tal foi a nossa inoperância.
Se eventualmente se concretizar uma vitória do Porto hoje é o adeus ao título definitivo e nessa perspectiva acho que a Direcção deve meter o lugar à disposição dos sócios na próxima assembleia-geral. A demissão não faz sentido até porque tenho sérias dúvidas que apareça alguém mais credível que Bettencourt. O Sporting não pode ficar à mercê de qualquer pára-quedista. Agora, esta desastrosa política de contratação de treinadores tem que ser escrutinada antes que o forcado Paulo Sérgio agredia ainda algum adepto mais exaltado. Provavelmente ainda vamos chegar a esse ponto. As declarações surreais dele no fim do jogo são já de alguém que anda de cabeça perdida.
Fui sempre muito cuidadoso a criticar Paulo Sérgio. Não teria sido a melhor opção mas é o treinador do clube. Agora acabou. Fomos dar uma pipa de massa ao Guimarães por um treinador e agora estamos a 4 pontos daqueles a quem fomos encher os cofres.
Bettencourt tem de explicar aos sócios qual foi o critério para contratar Carvalhal e Paulo Sérgio? São de uma nova geração, gente aprumada, bem formados mas sem aquele carisma e toque de midas que um verdadeiro treinador de topo necessita. Como eles, há 500 por esse País fora. Eu também sou boa gente mas isso não me habilita a treinar o Grande Sporting.....

domingo, 19 de setembro de 2010

Um Presidente Valente

Delicio-me com os comentários que aparecem com frequência às crónicas de Vasco Pulido Valente no Público.
Antes de mais, gosto do personagem. Das suas idiossincrasias, divirto-me com as dificuldades que sente em adaptar-se ao formato televisivo. Acho graça à profunda alergia que tem a tudo o que mexe. Apesar desta admiração, concordo actualmente talvez apenas com 50 % do que escreve, não mais. Isto porque com o passar do tempo aquele anti-progressismo exacerbado foi-se acentuando e isso torna-o um homem de um outro tempo, desfasado da realidade dos tempos modernos. As suas por vezes geniais opiniões são cada vez menos compreensíveis para o meio circundante e, por isso, menos interessantes. Mantém todavia grandes momentos de sobriedade. Por exemplo, nos últimos tempos - como verdadeiro homem de liberdade que é no sentido desprendido do termo e aí dá lições a muitos esquerdistas de vão-de-escada - defendeu com a habitual sapiência que o caracteriza a condenação da expulsão dos ciganos pelo governo Sarkorzi. Dias antes com a mesmíssima acutilância comentou com ironia os novos ventos de mudança que sopram por Cuba com o líder histórico Fidel Castro a assumir uma viragem no modelo económico. Ambos os textos foram publicamente louvados, quer por tendências simpatizantes da esquerda, quer por tendências com ligações à direita. Ora, o suprapartidarismo deve ser algo semelhante. Talvez Vasco Pulido Valente me fizesse votar nas próximas presidências….

Paul Ranson

sábado, 18 de setembro de 2010

A 8944 km de Cannes

Dando continuidade a isto, isto, isto, isto e isto, a curta com que Walter Salles participou em cada um o seu cinema que serviu de comemoração aos 60 anos do Festival de Cannes.
Em frente a um pequeno cinema de província que exibe Les quatre cents coups de François Truffaut de 1959, o Cineasta cria uma notável “brasileirada” musical, avec Castanha et Caju, que tem como pano de fundo, claro está, Cannes….

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O Inconformismo

Jeremias era um inconformado por excelência. O seu inconformismo não tinha paralelo naquela parte do hemisfério. Por vezes, interrogava-se se teria nascido assim? O facto de ser um sonhador inveterado ajudava a explicar a coisa mas ainda gostaria um dia de perceber os reais motivos para aquela insatisfação permanente….

A fábrica que eu canto

Não sei o que produz, mas é enorme,
É feita de tijolo, cor de fogo,
A fábrica que eu canto.
E à noite, quando está iluminada,
(Naquele bairro soturno, à beira rio),
Parece incendiada,
A fábrica que eu canto.

Trabalha-se de noite, nessa fábrica,
E ninguém se revolta.
De dia, nem se sabe que ela existe:
Fica sombria como todo o bairro.
Sombria, fria, triste...
- E ninguém se revolta.

Ah! mas à noite, quando se ilumina
A fábrica que eu canto,
Tem a grandeza duma tempestade!...
É um monstro de fogo, apocalíptico,
Pairando na cidade,
A fábrica que eu canto!

Carlos Queiroz

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A Catarse

Jeremias como não tinha dinheiro nem paciência para Psiquiatras optou por criar um Blogue. Ficava mais em conta e sempre era uma forma relativamente sofisticada de abominar o mundo….

A Baía

terça-feira, 14 de setembro de 2010

No Fun – Sex Pistols



Homenagem aos Sex Pistols através de uma cover de tema dos The Stooges do camaleónico Iggy Pop. A versão, saliente-se, saiu bem melhor que o original…

domingo, 12 de setembro de 2010

O Coleccionador de Garrafas de Vinho

Havia um homem que gostava tanto, mas tanto do seu neto, que decidiu comprar todas as garrafas de vinho que encontrava com o ano do nascimento do imberbe.
Assim, pé ante pé, quando o Puto fez 18 anos herdou uma extensa garrafeira com mais de 5 000 garrafas de vinho de todas as qualidades e proveniências produzidas no mesmíssimo ano. Nesse dia de aniversário - depois de noite inolvidável na companhia dos seus comparsas - ao deliciar-se com um vinho israelita de primeira água que o Avô tinha comprado por 600 €uros, o agora jovem adulto cantarolava feliz e embriagado aos primeiros fogachos da manhã:
Não me importava morrer, se lá no céu houvesse festa. Ai, se o São Pedro lá tivesse, se o São Pedro lá tivesse, uma pinguinha como esta....

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A Vergonha

Gilberto Madaíl - o mesmo que apareceu há dias a lamentar os episódios recentes ocorridos com a selecção nacional de futebol como se não fosse nada com ele - apareceu ao lado do Sr. Carvalho que leva pelo menos 25 anos de Direcção da Federação (o mesmo da enorme bagunça de Saltilllo no México 86) a anunciar a marcação de uma assembleia geral com vista à realização de novas eleições, às quais omitiu a sua verdadeira intenção sobre uma possível recandidatura.
O mundo pula e avança, as instituições supostamente modernizam-se, mas um sem vergonha é sempre um sem vergonha….

Pablo Picasso

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Entre Irmãos

Novo filme de Jim Sheridan, o mesmo do celebrado “em nome do pai” de 1993. Realizador Irlandês com tradição ao nível do cinema realista entra de tempos a tempos em território mais mainstream, fazendo incursões por terras americanas nem sempre com bons resultados.
Este “Entre Irmãos” conta com Tobey Maguire, Natalie Portman e Jake Gyllenhaal nos principais papéis. O filme conta a história de um capitão do exército dos EUA que se encontra em funções no Afeganistão quando o helicóptero onde segue é abatido nas montanhas. Na sequência do acidente é dado como morto, cabendo ao irmão a tarefa de prestar auxílio à família, criando laços cada vez mais fortes com a suposta viúva e com as suas duas sobrinhas. Meses depois sabe-se que, contra todas as expectativas, o capitão do exército acabou por sobreviver. E regressa altamente traumatizado com a experiência vivida num campo de detenção o que vai despoletar uma difícil e sinuosa reaproximação à sua família.
A perspectiva que mais me cativou no filme passa um pouco ao lado do problemático romance entre cunhados. Na senda de alguns notáveis filmes de guerra estreados nos últimos tempos, Jim Sheridan consegue orientar o espectador através do dilema do matar ou morrer. E mostra com nitidez os traumas decorrentes do peso subjacente às opções tomadas, quando se está debaixo de uma pressão insustentável.
Concluindo, apesar do argumento apresentar algumas inconsistências, a banda sonora e um conjunto de excelentes interpretações individuais faz com que se justifique o visionamento....

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A Sentença e a Dúvida

Os factos condenatórios do processo Casa Pia serão conhecidos integralmente esta semana e não me choca minimamente que não o tenham sido logo na sexta-feira. Até porque, pelo que percebi, todas as partes envolvidas estiveram de acordo com a apresentação sumária da sentença. O ruído a esse propósito nasce de reacções mais emocionais e menos ponderadas, que não podem nem devem ser levadas a sério. Obviamente que nesta sentença os réus viam a última oportunidade para limpar a sua imagem e evitar o eterno estigma a que estarão sujeitos, mas essa evidência apesar de atenuante não pode servir para desculpabilizar o injustificável....

Relativamente a todo este imbróglio tenho na minha cada vez menos convicta qualidade de cidadão de direito três certezas:
- Nunca ninguém vai saber toda a verdade sobre o que aconteceu, a não ser claro os directamente envolvidos;
- houve violações e abuso continuado de crianças indefesas com e sem o consentimento destas;
- existe por aí gente que vive em total impunidade e que são tão ou mais culpados dos que foram agora condenados. E aqui, devia ser tão importante para a opinião pública ser o zé da esquina o agressor ou figuras públicas relevantes.
Além destas certezas que valem o que valem, tenho também uma outra convicção profunda:
Como resultado de diversos factores a maioria dos agora condenados não voltará à prisão, apesar do teor das respectivas sentenças. É a Justiça que temos em Portugal....

Indubitavelmente, pairará sempre sobre o Processo Casa Pia a mais enraizada Dúvida. Se as condenações, como tudo indica, forem somente baseadas em provas testemunhais aumentará ainda mais a incerteza relativamente a todo o processo. Para mim, parece quase inverossímil como é que através de Carlos Silvino (o fio condutor de toda a história) não tenha sido possível localizar um contacto incriminatório, uma conversa telefónica, uma gravação em qualquer formato que incriminasse os hipotéticos culpados e que ajudasse a fundamentar a acusação de forma irrepreensível. Faz-me bastante confusão pensar que um colectivo de Juízes aparentemente experiente e responsável pode condenar pessoas com base única e exclusivamente em testemunhos – alguns algo confusos e até eventualmente sugestionados pela própria pressão mediática do caso.
Por outro lado, também faz imensa confusão à minha sensibilidade tentar descredibilizar e ridicularizar jovens que foram comprovadamente vítimas de abusos sexuais por não se lembrarem com precisão - à distância de mais de cinco anos - onde fica determinada divisão numa habitação anteriormente visitada. Para mim, uns meros três anos, seriam seguramente suficientes para não conseguir descrever com exactidão qualquer casa onde tivesse estado duas ou três vezes. Mas isto talvez seja só eu que tenho uma péssima memória....

Em suma, como Carlos Silvino disse em tribunal - também ele uma vítima durante anos a fio - somos todos culpados. Uns mais que outros, é verdade. O próprio cidadão de bem que vive confortavelmente naquilo que fantasia como um estado de direito é culpado por ter permitido que a Justiça chegasse ao ponto de estarmos 8 anos para obter uma sentença. Ainda em primeira instância, assinale-se....

As Palavras

Adiro a uma nova terra adiro a um novo corpo
As palavras identificam-se com o asfalto negro
o tropel das nuvens
a espessura azul das árvores acesas pelos faróis
o rumor verde
As palavras saem de um ferida exangue
de teclas de metal fresco
de caminhos e sombras
da vertigem de ser só um deserto
de armas de gume branco
Há palavras carregadas de noite e de ombros surdos
e há palavras como giestas vivas
Matrizes primordiais matéria habitada
forma indizível num rectângulo de argila
quem alimenta este silêncio senão o gosto de
colocar pedra sobre pedra até á oblíqua exactidão?
As palavras vêm de lugares fragmentários
de uma disseminação de iniciais
de magmas respirados
de odor de gérmen de olhos
As palavras podem formar uma escrita nativa
de corpos claros
Que são as palavras?Imprecisas armas
em praias concêntricas
torres de sílex e de cal
aves insólitas
As palavras são travessias brancas faces
giratórias
elas permitem a ascensão das formas
elevam-se estrato após estrato
ou voam em diagonal
até à cúpula diáfana
As palavras são por vezes um clarão no dia calcinado
Que enfrentam as palavras?O espelho
da noite a sua impossível
elipse
Saem da noite despedaçadas feridas
e são signos do acaso pedras de sol e sal
a da sua língua nascem estrelas trituradas

António Ramos Rosa

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A Carvalhesa

Já é tradição a homenagem anual que este blogue apolítico faz à festa do Avante - expoente máximo da excepcional organização dos Comunistas Portugueses - a decorrer por estes dias na Atalaia-Amora-Seixal. Não há mesmo festa como essa……

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O Desalinhado

Jeremias vivia desfasado dos demais. Sabia que àquele aparente momento de contentamento generalizado sucederia outro em que os actores do costume assomariam na boca de cena mais devoradores que nunca. Jeremias não era apreciador de teatros supérfluos….

O Oitenta e Um Mil Quatrocentos e Setenta e Quatro

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A Reunião de Condomínio (II)

O primeiro episódio da Reunião de Condomínio aqui.

A Dona Isaura não desarma e ameaça chamar a Polícia na próxima vez que ouvir risadas femininas vindas do andar de cima. Mora no prédio há mais de trinta anos e nunca, mas nunca, assistiu a uma pouca-vergonha daquela dimensão, salienta.

O Sr. Arnaldo do R/C B, aproveitando a deixa da Senhora Dona Isaura, e antes de se passar à votação dos pontos previstos na ordem de trabalhos, pede a palavra para se indignar (o condómino é também por norma um cidadão indignado) contra aquilo que diz ser um atentado à sua seriedade, e da sua Senhora, assinala. Num discurso emotivo, diz que jamais pactuará com a degradação na vivência do prédio. As pessoas sempre foram de uma educação e respeitabilidade notáveis. Viveram aqui Juízes e até Ministros. Este prédio foi sempre frequentado pela fina flor da sociedade e não será agora que irei deixar que se torne uma bandalheira repleta de gente ordinária.
Posto isto, e terminado o caloroso discurso do Sr. Arnaldo, os Condóminos olham-se incomodados. A coisa prometia aquecer.....