domingo, 10 de outubro de 2010

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Ma Mere

"Minha Mãe" é o segundo filme do agora muito reconhecido Christophe Honoré. Datado de 2003, só agora o visionei, depois de conhecer obras posteriores do realizador francês que é aliás bastante do meu agrado.
O filme é uma adaptação livre de obra homónima de Georges Bataille. Com a sempre perturbante Isabelle Huppert no papel principal conta ainda com o jovem Louis Garrel como protagonista.
Uma extraordinária descida à intimidade desconcertante do perverso relacionamento entre uma mãe e um filho de férias nas Ilhas Canárias. Fugindo sempre ao apelo da leitura freudiana, o filme transmite uma energia assinalável que deixava desde logo antever que Honoré tinha muito cinema dentro de si.
Já perto do fim, a caminho da consumação do incesto, a mãe confessa que o pior não é desejar fazê-lo. O pior é fazê-lo e sobreviver. O epílogo deste interessante argumento baseado na obra de Bataille é magistral.
Como nota de rodapé fica também a chamada de atenção para a participação num pequeno papel do “Contemporâneo” Nuno Lopes - actor detentor de uma especial versatilidade....

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Poema do Não

Convoco todas as almas para a homilia da negação.

Vindes, vindes expiar os vossos pecados
capitulai perante o niilismo puro e duro.
Vós que caminhais pelos meandros das palavras
rendam-se aos prazeres do nada.

Não, não somos capazes.

Não, não voltarei a rebuscar pelos escombros da memória.
Não, não regressarei ao reino dos crédulos.
Não, não, para sempre não....

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A Complacência

Jeremias não se identificava com ambientes de excessiva condescendência. Por norma, tal expediente acabava sempre no desmazelo mais disparatado….

A Impunidade



Mais uma aventura de Alice no País das Maravilhas.
Os absurdos argumentos de quem defende a não divulgação das escutas são no mínimo hilariantes. A esses iluminados, lanço-lhes a seguinte questão: E, se por acaso, uma escuta telefónica a que tiveram acesso indiciasse de forma brutal a autoria de um hipotético atentado contra um vosso familiar? O tribunal julgava e não condenava ninguém, apesar das evidentes provas. Divulgariam as escutas ou guardavam-nas debaixo da cama?
País de hipócritas, país de imundice, país de gente pequena.
Entretanto, Jorge Nuno Pinto da Costa, Valentim Loureiro e seus comparsas continuam a andar por aí. No Pasa nada. Siga para Bingo....

Ao rosto vulgar dos dias

Monstros e homens lado a lado,
Não à margem, mas na própria vida.

Absurdos monstros que circulam
Quase honestamente.

Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.

Ao rosto vulgar dos dias,
A vida cada vez mais corrente,
As imagens regressam já experimentadas,
Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.

Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.

Alexandre O´Neill

domingo, 3 de outubro de 2010

A Austeridade

Bastaram-me cinco minutos fora de casa após o anúncio das medidas de austeridade integradas no chamado PEC III para ficar com a certeza acerca da sentença que José Sócrates decretou a si próprio. A frase mais marcante foi um esclarecedor «andam a brincar com isto» ouvido pela boca de um indignado cidadão no café do bairro.
Sinceramente numa determinada perspectiva, analisado o documento que sustenta o plano, as medidas apresentadas na óptica do custo-benefício até são equilibradas. Dificilmente se conseguiria poupar o mesmo com menos custos sociais e há uma tentativa clara de sobrecarregar quem tem mais altos rendimentos, o que não deixa de ser de alguma forma justo.
O problema é que Sócrates não actuou quando devia. Funcionou por reacção quando já não havia mais chão para pisar. Além do mais, as previsões falharam num curto espaço de tempo o que custa muito a aceitar ao cidadão comum. Provavelmente, Teixeira dos Santos sempre soube que seria este o destino mas sacrificou a sua credibilidade e do seu Ministério em nome desta política de fachada centrada na imagem de Sócrates que, tal como previ aqui no passado, irá acabar por desencadear a sua queda.
Apesar de tudo, não deixa de ser um pouco cruel para este governo arcar com os custos desta situação que foi criada em grande parte por si, é verdade, mas que representa o maior acto de coragem politica de um governo da república dos últimos 20/25 anos. E se tem havido esta coragem no passado para acabar com os privilégios que foram sendo conquistados e reforçados por muita gente absolutamente ignóbil que por aí anda, as coisas não tinham chegado ao estado a que chegaram….

A Simbiose

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A Riqueza

Todo o dinheiro do mundo torna-se inútil quando confrontado com a efémera metáfora que é a vida.
Jeremias acreditava que não havia nada mais precioso que o Tempo, esse Bandido…..

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Party Girl – U2



Na semana em que regressam a Portugal deixo um dos meus temas preferidos dos U2, este party girl originalmente gravado em 1982.
Vi-os em Alvalade em 93 em concerto integrado numa das mais extraordinárias digressões musicais de que há memória - a Zoo TV Tour. E foi uma óptima decisão ter-me ficado por aí….

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A Idiotice

O Sporting proibiu internamente o uso de calças de ganga no âmbito de um conjunto de normas a adoptar pelos funcionários do Clube:
No meio da mais grave crise futebolística de que tenho memória fez-se finalmente luz na cabeça de quem tem dirigido o clube. Deixo outras pequenas sugestões para eventuais medidas a tomar:
  • A partir de agora, só entra no estádio quem envergar polos da lacoste com o respectivo lagarto a reluzir;
  • Os cinquenta mil fatos utilizados pelo Costinha durante a época vão ser expostos no Museu do Sporting em detrimento dos troféus conquistados ao longo dos mais de 100 anos de história do clube;
  • Paulo Sérgio vai começar a ser vestido integralmente pela Armani. Perante a sua evidente incapacidade de criar uma equipa minimamente equilibrada, tal medida torna-se a sua derradeira tentativa de exibir alguma classe pelo relvado de Alvalade;
  • Os Jogadores estão proibidos de treinar de calções evitando assim chocar a moral vigente. Muitos destes leões mansos não estranharão, de qualquer das formas já não sujavam os joelhos....
É por esta e por outras que estou quase, quase a desejar o aparecimento de um qualquer D. Sebastião de capa e espada que se candidate à presidência do clube, nem que isso represente o regresso a um presidente analfabeto e populista como Sousa Cintra, por exemplo. Já não sei o que me envergonharia mais....

Tamara de Lempicka

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A Dança - Le Ballet de L'Opera de Paris

Frederick Wiseman realiza um desconcertante documentário sobre o dia-a-dia de uma das mais conceituadas escolas de ballet da Europa: a Ópera de Paris.
Mesmo para quem não é particularmente versado na nobre arte da dança, a forma precisa com que Wiseman filma faz com que reparemos em detalhes fascinantes que eram até aqui desconhecidos. Como se ouve em determinada cena numa deliciosa constatação: um bailarino tem que ser meio monge, meio boxer.
Wiseman é um realizador de documentários norte-americano de oitenta anos. Ao longo da sua já longa carreira parece que filmou hospitais, prisões, escolas, matadouros, tribunais, quartéis e teatros. Este “A Dança” deixa-me especialmente interessado em outros trabalhos do cineasta....

domingo, 26 de setembro de 2010

A Reunião do Condomínio (III)

Os episódios anteriores da Reunião de Condomínio: I e II.
A confusão está instalada. Os condóminos residentes há mais anos no prédio, insurgem-se contra a má frequência do mesmo. Daí ao insulto vai um pequeno passo.

Alcides Pinto, um jovem idealista que vive com a sua mulher no prédio há aproximadamente 2 anos pede a palavra para apelar ao bom senso e serenidade. Pelo menos era essa a sua nobre intenção: Não podemos nortear o nosso discurso pelo preconceito, explica. Qualquer pessoa que habite de forma legítima no prédio tem todo o direito de receber quem bem entende. O facto de serem cidadãs de origem brasileira é um preciosismo desnecessário e as considerações relativas às suas hipotéticas profissões são meras insinuações sem qualquer tipo de relevância. Caso façam demasiado barulho em horas impróprias, ou caso faltem ao respeito directamente a alguém, têm todo o direito de chamar a polícia. Mas nada disso aconteceu e assim sendo esta conversa não faz sentido, rematou.
Perante estas palavras, o Sr. Arnaldo Antunes do R/C B levanta-se enervadíssimo e exclama, enquanto aponta o dedo a Alcides Pinto: Cale-se seu comunista, eu andei na guerra do Ultramar e cheiro o perigo à distância. Ainda hoje tenho pesadelos com crápulas como você. Pela sua conversa não passa de um perigoso agitador, um comuna mal cheiroso, um canalha com a mania das igualdades.
Como resposta as ácidas provocações do Sr. Arnaldo, Alcides Pinto não se contém e acerta dois valentes socos no nariz do seu oponente, perante o olhar incrédulo dos restantes condóminos que tentam acalmar a situação. O Sr. Arnaldo levanta-se combalido e grita, vou matar-te meu patife, e ao mesmo tempo que arranca apressado, anuncia que vai a casa buscar a sua espingarda de caça.
Entretanto, na perspectiva de evitar mais confusões, Alcides Pinto pede desculpa aos presentes pelos tristes acontecimentos e retorna ao aconchego do lar. Minutos depois regressa o exaltado Arnaldo Antunes que é serenado pelos presentes. Depois de muitas ameaças vociferadas contra Alcides Pinto, finalmente acalma. O seu velho coração também clama por algum sossego depois de toda aquela agitação.

Acabou assim de forma tumultuosa a reunião do Condomínio. Nem sequer ficou definitivamente resolvida a urgente questão do orçamento para o arranjo do algeroz. O Sr. Neves do 5.º A, amigo do seu amigo, ficou de apresentar o prometido orçamento em conta numa futura reunião.
Com uma espingarda carregada em cima da mesa, o Administrador, o zeloso Sr. Narciso dá por findos os trabalhos enquanto tenta limpar o sangue de cima do livro de actas. Sangue esse que tinha jorrado do rosto do inefável Arnaldo Antunes.....

Rifão quotidiano

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

Mário-Henrique Leiria

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A Distância

Jeremias geria a distância para os outros com evidente mestria. Fazia uso do mais aprumado rigor empírico. Acreditava que a desmesurada tendência generalizada para promover a aproximação social era o derradeiro recurso dos eternamente fracos.…

A Fortaleza

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O Conforto

Lutava com todas as forças quando lhe trocavam as voltas à vida. Detestava pessoas estranhas porque a clarividente inconsciência abafava a hipocrisia dominante. Chamavam-lhe giraço, mas ele pouco dado a adjectivos redundantes, preferia aguardar com a serenidade possível pelo reencontro com o aconchego que lhe inundaria de novo a alma de emoção….

Já Rockas à Toa - Grupo De Baile