sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Ma Mere

"Minha Mãe" é o segundo filme do agora muito reconhecido Christophe Honoré. Datado de 2003, só agora o visionei, depois de conhecer obras posteriores do realizador francês que é aliás bastante do meu agrado.
O filme é uma adaptação livre de obra homónima de Georges Bataille. Com a sempre perturbante Isabelle Huppert no papel principal conta ainda com o jovem Louis Garrel como protagonista.
Uma extraordinária descida à intimidade desconcertante do perverso relacionamento entre uma mãe e um filho de férias nas Ilhas Canárias. Fugindo sempre ao apelo da leitura freudiana, o filme transmite uma energia assinalável que deixava desde logo antever que Honoré tinha muito cinema dentro de si.
Já perto do fim, a caminho da consumação do incesto, a mãe confessa que o pior não é desejar fazê-lo. O pior é fazê-lo e sobreviver. O epílogo deste interessante argumento baseado na obra de Bataille é magistral.
Como nota de rodapé fica também a chamada de atenção para a participação num pequeno papel do “Contemporâneo” Nuno Lopes - actor detentor de uma especial versatilidade....

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Poema do Não

Convoco todas as almas para a homilia da negação.

Vindes, vindes expiar os vossos pecados
capitulai perante o niilismo puro e duro.
Vós que caminhais pelos meandros das palavras
rendam-se aos prazeres do nada.

Não, não somos capazes.

Não, não voltarei a rebuscar pelos escombros da memória.
Não, não regressarei ao reino dos crédulos.
Não, não, para sempre não....

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A Complacência

Jeremias não se identificava com ambientes de excessiva condescendência. Por norma, tal expediente acabava sempre no desmazelo mais disparatado….

A Impunidade



Mais uma aventura de Alice no País das Maravilhas.
Os absurdos argumentos de quem defende a não divulgação das escutas são no mínimo hilariantes. A esses iluminados, lanço-lhes a seguinte questão: E, se por acaso, uma escuta telefónica a que tiveram acesso indiciasse de forma brutal a autoria de um hipotético atentado contra um vosso familiar? O tribunal julgava e não condenava ninguém, apesar das evidentes provas. Divulgariam as escutas ou guardavam-nas debaixo da cama?
País de hipócritas, país de imundice, país de gente pequena.
Entretanto, Jorge Nuno Pinto da Costa, Valentim Loureiro e seus comparsas continuam a andar por aí. No Pasa nada. Siga para Bingo....

Ao rosto vulgar dos dias

Monstros e homens lado a lado,
Não à margem, mas na própria vida.

Absurdos monstros que circulam
Quase honestamente.

Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.

Ao rosto vulgar dos dias,
A vida cada vez mais corrente,
As imagens regressam já experimentadas,
Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.

Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.

Alexandre O´Neill

domingo, 3 de outubro de 2010

A Austeridade

Bastaram-me cinco minutos fora de casa após o anúncio das medidas de austeridade integradas no chamado PEC III para ficar com a certeza acerca da sentença que José Sócrates decretou a si próprio. A frase mais marcante foi um esclarecedor «andam a brincar com isto» ouvido pela boca de um indignado cidadão no café do bairro.
Sinceramente numa determinada perspectiva, analisado o documento que sustenta o plano, as medidas apresentadas na óptica do custo-benefício até são equilibradas. Dificilmente se conseguiria poupar o mesmo com menos custos sociais e há uma tentativa clara de sobrecarregar quem tem mais altos rendimentos, o que não deixa de ser de alguma forma justo.
O problema é que Sócrates não actuou quando devia. Funcionou por reacção quando já não havia mais chão para pisar. Além do mais, as previsões falharam num curto espaço de tempo o que custa muito a aceitar ao cidadão comum. Provavelmente, Teixeira dos Santos sempre soube que seria este o destino mas sacrificou a sua credibilidade e do seu Ministério em nome desta política de fachada centrada na imagem de Sócrates que, tal como previ aqui no passado, irá acabar por desencadear a sua queda.
Apesar de tudo, não deixa de ser um pouco cruel para este governo arcar com os custos desta situação que foi criada em grande parte por si, é verdade, mas que representa o maior acto de coragem politica de um governo da república dos últimos 20/25 anos. E se tem havido esta coragem no passado para acabar com os privilégios que foram sendo conquistados e reforçados por muita gente absolutamente ignóbil que por aí anda, as coisas não tinham chegado ao estado a que chegaram….

A Simbiose

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A Riqueza

Todo o dinheiro do mundo torna-se inútil quando confrontado com a efémera metáfora que é a vida.
Jeremias acreditava que não havia nada mais precioso que o Tempo, esse Bandido…..

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Party Girl – U2



Na semana em que regressam a Portugal deixo um dos meus temas preferidos dos U2, este party girl originalmente gravado em 1982.
Vi-os em Alvalade em 93 em concerto integrado numa das mais extraordinárias digressões musicais de que há memória - a Zoo TV Tour. E foi uma óptima decisão ter-me ficado por aí….

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A Idiotice

O Sporting proibiu internamente o uso de calças de ganga no âmbito de um conjunto de normas a adoptar pelos funcionários do Clube:
No meio da mais grave crise futebolística de que tenho memória fez-se finalmente luz na cabeça de quem tem dirigido o clube. Deixo outras pequenas sugestões para eventuais medidas a tomar:
  • A partir de agora, só entra no estádio quem envergar polos da lacoste com o respectivo lagarto a reluzir;
  • Os cinquenta mil fatos utilizados pelo Costinha durante a época vão ser expostos no Museu do Sporting em detrimento dos troféus conquistados ao longo dos mais de 100 anos de história do clube;
  • Paulo Sérgio vai começar a ser vestido integralmente pela Armani. Perante a sua evidente incapacidade de criar uma equipa minimamente equilibrada, tal medida torna-se a sua derradeira tentativa de exibir alguma classe pelo relvado de Alvalade;
  • Os Jogadores estão proibidos de treinar de calções evitando assim chocar a moral vigente. Muitos destes leões mansos não estranharão, de qualquer das formas já não sujavam os joelhos....
É por esta e por outras que estou quase, quase a desejar o aparecimento de um qualquer D. Sebastião de capa e espada que se candidate à presidência do clube, nem que isso represente o regresso a um presidente analfabeto e populista como Sousa Cintra, por exemplo. Já não sei o que me envergonharia mais....

Tamara de Lempicka

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A Dança - Le Ballet de L'Opera de Paris

Frederick Wiseman realiza um desconcertante documentário sobre o dia-a-dia de uma das mais conceituadas escolas de ballet da Europa: a Ópera de Paris.
Mesmo para quem não é particularmente versado na nobre arte da dança, a forma precisa com que Wiseman filma faz com que reparemos em detalhes fascinantes que eram até aqui desconhecidos. Como se ouve em determinada cena numa deliciosa constatação: um bailarino tem que ser meio monge, meio boxer.
Wiseman é um realizador de documentários norte-americano de oitenta anos. Ao longo da sua já longa carreira parece que filmou hospitais, prisões, escolas, matadouros, tribunais, quartéis e teatros. Este “A Dança” deixa-me especialmente interessado em outros trabalhos do cineasta....

domingo, 26 de setembro de 2010

A Reunião do Condomínio (III)

Os episódios anteriores da Reunião de Condomínio: I e II.
A confusão está instalada. Os condóminos residentes há mais anos no prédio, insurgem-se contra a má frequência do mesmo. Daí ao insulto vai um pequeno passo.

Alcides Pinto, um jovem idealista que vive com a sua mulher no prédio há aproximadamente 2 anos pede a palavra para apelar ao bom senso e serenidade. Pelo menos era essa a sua nobre intenção: Não podemos nortear o nosso discurso pelo preconceito, explica. Qualquer pessoa que habite de forma legítima no prédio tem todo o direito de receber quem bem entende. O facto de serem cidadãs de origem brasileira é um preciosismo desnecessário e as considerações relativas às suas hipotéticas profissões são meras insinuações sem qualquer tipo de relevância. Caso façam demasiado barulho em horas impróprias, ou caso faltem ao respeito directamente a alguém, têm todo o direito de chamar a polícia. Mas nada disso aconteceu e assim sendo esta conversa não faz sentido, rematou.
Perante estas palavras, o Sr. Arnaldo Antunes do R/C B levanta-se enervadíssimo e exclama, enquanto aponta o dedo a Alcides Pinto: Cale-se seu comunista, eu andei na guerra do Ultramar e cheiro o perigo à distância. Ainda hoje tenho pesadelos com crápulas como você. Pela sua conversa não passa de um perigoso agitador, um comuna mal cheiroso, um canalha com a mania das igualdades.
Como resposta as ácidas provocações do Sr. Arnaldo, Alcides Pinto não se contém e acerta dois valentes socos no nariz do seu oponente, perante o olhar incrédulo dos restantes condóminos que tentam acalmar a situação. O Sr. Arnaldo levanta-se combalido e grita, vou matar-te meu patife, e ao mesmo tempo que arranca apressado, anuncia que vai a casa buscar a sua espingarda de caça.
Entretanto, na perspectiva de evitar mais confusões, Alcides Pinto pede desculpa aos presentes pelos tristes acontecimentos e retorna ao aconchego do lar. Minutos depois regressa o exaltado Arnaldo Antunes que é serenado pelos presentes. Depois de muitas ameaças vociferadas contra Alcides Pinto, finalmente acalma. O seu velho coração também clama por algum sossego depois de toda aquela agitação.

Acabou assim de forma tumultuosa a reunião do Condomínio. Nem sequer ficou definitivamente resolvida a urgente questão do orçamento para o arranjo do algeroz. O Sr. Neves do 5.º A, amigo do seu amigo, ficou de apresentar o prometido orçamento em conta numa futura reunião.
Com uma espingarda carregada em cima da mesa, o Administrador, o zeloso Sr. Narciso dá por findos os trabalhos enquanto tenta limpar o sangue de cima do livro de actas. Sangue esse que tinha jorrado do rosto do inefável Arnaldo Antunes.....

Rifão quotidiano

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

Mário-Henrique Leiria

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A Distância

Jeremias geria a distância para os outros com evidente mestria. Fazia uso do mais aprumado rigor empírico. Acreditava que a desmesurada tendência generalizada para promover a aproximação social era o derradeiro recurso dos eternamente fracos.…

A Fortaleza

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O Conforto

Lutava com todas as forças quando lhe trocavam as voltas à vida. Detestava pessoas estranhas porque a clarividente inconsciência abafava a hipocrisia dominante. Chamavam-lhe giraço, mas ele pouco dado a adjectivos redundantes, preferia aguardar com a serenidade possível pelo reencontro com o aconchego que lhe inundaria de novo a alma de emoção….

Já Rockas à Toa - Grupo De Baile

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O Pesadelo

A questão central é que o Sporting devia ter entrado na Luz com 12 pontos e não com 7. No entanto, o que achei mais estranho na exibição da equipa foi o facto de ter ficado com a nítida sensação que o jogo não foi bem preparado. Vejamos: o Benfica jogou e apresentou-se como habitual de uma forma ultra-previsível, utilizou o desequilibrador do costume (Cardoso) que, note-se, passou o jogo todo sem uma marcação minimamente eficiente. Bloqueou de forma também previsível as subidas dos nossos laterais. E nós sem nunca demonstrar um mero vestígio da existência de um plano de jogo. Mas claro, para Paulo Sérgio o Sporting teve as mesmas 3 ou 4 oportunidades do Benfica. Aliás, o jogo foi um péssimo espectáculo. Com outro Benfica ou com o actual Porto, tínhamos levado um saco cheio tal foi a nossa inoperância.
Se eventualmente se concretizar uma vitória do Porto hoje é o adeus ao título definitivo e nessa perspectiva acho que a Direcção deve meter o lugar à disposição dos sócios na próxima assembleia-geral. A demissão não faz sentido até porque tenho sérias dúvidas que apareça alguém mais credível que Bettencourt. O Sporting não pode ficar à mercê de qualquer pára-quedista. Agora, esta desastrosa política de contratação de treinadores tem que ser escrutinada antes que o forcado Paulo Sérgio agredia ainda algum adepto mais exaltado. Provavelmente ainda vamos chegar a esse ponto. As declarações surreais dele no fim do jogo são já de alguém que anda de cabeça perdida.
Fui sempre muito cuidadoso a criticar Paulo Sérgio. Não teria sido a melhor opção mas é o treinador do clube. Agora acabou. Fomos dar uma pipa de massa ao Guimarães por um treinador e agora estamos a 4 pontos daqueles a quem fomos encher os cofres.
Bettencourt tem de explicar aos sócios qual foi o critério para contratar Carvalhal e Paulo Sérgio? São de uma nova geração, gente aprumada, bem formados mas sem aquele carisma e toque de midas que um verdadeiro treinador de topo necessita. Como eles, há 500 por esse País fora. Eu também sou boa gente mas isso não me habilita a treinar o Grande Sporting.....

domingo, 19 de setembro de 2010

Um Presidente Valente

Delicio-me com os comentários que aparecem com frequência às crónicas de Vasco Pulido Valente no Público.
Antes de mais, gosto do personagem. Das suas idiossincrasias, divirto-me com as dificuldades que sente em adaptar-se ao formato televisivo. Acho graça à profunda alergia que tem a tudo o que mexe. Apesar desta admiração, concordo actualmente talvez apenas com 50 % do que escreve, não mais. Isto porque com o passar do tempo aquele anti-progressismo exacerbado foi-se acentuando e isso torna-o um homem de um outro tempo, desfasado da realidade dos tempos modernos. As suas por vezes geniais opiniões são cada vez menos compreensíveis para o meio circundante e, por isso, menos interessantes. Mantém todavia grandes momentos de sobriedade. Por exemplo, nos últimos tempos - como verdadeiro homem de liberdade que é no sentido desprendido do termo e aí dá lições a muitos esquerdistas de vão-de-escada - defendeu com a habitual sapiência que o caracteriza a condenação da expulsão dos ciganos pelo governo Sarkorzi. Dias antes com a mesmíssima acutilância comentou com ironia os novos ventos de mudança que sopram por Cuba com o líder histórico Fidel Castro a assumir uma viragem no modelo económico. Ambos os textos foram publicamente louvados, quer por tendências simpatizantes da esquerda, quer por tendências com ligações à direita. Ora, o suprapartidarismo deve ser algo semelhante. Talvez Vasco Pulido Valente me fizesse votar nas próximas presidências….

Paul Ranson

sábado, 18 de setembro de 2010

A 8944 km de Cannes

Dando continuidade a isto, isto, isto, isto e isto, a curta com que Walter Salles participou em cada um o seu cinema que serviu de comemoração aos 60 anos do Festival de Cannes.
Em frente a um pequeno cinema de província que exibe Les quatre cents coups de François Truffaut de 1959, o Cineasta cria uma notável “brasileirada” musical, avec Castanha et Caju, que tem como pano de fundo, claro está, Cannes….

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O Inconformismo

Jeremias era um inconformado por excelência. O seu inconformismo não tinha paralelo naquela parte do hemisfério. Por vezes, interrogava-se se teria nascido assim? O facto de ser um sonhador inveterado ajudava a explicar a coisa mas ainda gostaria um dia de perceber os reais motivos para aquela insatisfação permanente….

A fábrica que eu canto

Não sei o que produz, mas é enorme,
É feita de tijolo, cor de fogo,
A fábrica que eu canto.
E à noite, quando está iluminada,
(Naquele bairro soturno, à beira rio),
Parece incendiada,
A fábrica que eu canto.

Trabalha-se de noite, nessa fábrica,
E ninguém se revolta.
De dia, nem se sabe que ela existe:
Fica sombria como todo o bairro.
Sombria, fria, triste...
- E ninguém se revolta.

Ah! mas à noite, quando se ilumina
A fábrica que eu canto,
Tem a grandeza duma tempestade!...
É um monstro de fogo, apocalíptico,
Pairando na cidade,
A fábrica que eu canto!

Carlos Queiroz

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A Catarse

Jeremias como não tinha dinheiro nem paciência para Psiquiatras optou por criar um Blogue. Ficava mais em conta e sempre era uma forma relativamente sofisticada de abominar o mundo….

A Baía

terça-feira, 14 de setembro de 2010

No Fun – Sex Pistols



Homenagem aos Sex Pistols através de uma cover de tema dos The Stooges do camaleónico Iggy Pop. A versão, saliente-se, saiu bem melhor que o original…

domingo, 12 de setembro de 2010

O Coleccionador de Garrafas de Vinho

Havia um homem que gostava tanto, mas tanto do seu neto, que decidiu comprar todas as garrafas de vinho que encontrava com o ano do nascimento do imberbe.
Assim, pé ante pé, quando o Puto fez 18 anos herdou uma extensa garrafeira com mais de 5 000 garrafas de vinho de todas as qualidades e proveniências produzidas no mesmíssimo ano. Nesse dia de aniversário - depois de noite inolvidável na companhia dos seus comparsas - ao deliciar-se com um vinho israelita de primeira água que o Avô tinha comprado por 600 €uros, o agora jovem adulto cantarolava feliz e embriagado aos primeiros fogachos da manhã:
Não me importava morrer, se lá no céu houvesse festa. Ai, se o São Pedro lá tivesse, se o São Pedro lá tivesse, uma pinguinha como esta....

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A Vergonha

Gilberto Madaíl - o mesmo que apareceu há dias a lamentar os episódios recentes ocorridos com a selecção nacional de futebol como se não fosse nada com ele - apareceu ao lado do Sr. Carvalho que leva pelo menos 25 anos de Direcção da Federação (o mesmo da enorme bagunça de Saltilllo no México 86) a anunciar a marcação de uma assembleia geral com vista à realização de novas eleições, às quais omitiu a sua verdadeira intenção sobre uma possível recandidatura.
O mundo pula e avança, as instituições supostamente modernizam-se, mas um sem vergonha é sempre um sem vergonha….

Pablo Picasso

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Entre Irmãos

Novo filme de Jim Sheridan, o mesmo do celebrado “em nome do pai” de 1993. Realizador Irlandês com tradição ao nível do cinema realista entra de tempos a tempos em território mais mainstream, fazendo incursões por terras americanas nem sempre com bons resultados.
Este “Entre Irmãos” conta com Tobey Maguire, Natalie Portman e Jake Gyllenhaal nos principais papéis. O filme conta a história de um capitão do exército dos EUA que se encontra em funções no Afeganistão quando o helicóptero onde segue é abatido nas montanhas. Na sequência do acidente é dado como morto, cabendo ao irmão a tarefa de prestar auxílio à família, criando laços cada vez mais fortes com a suposta viúva e com as suas duas sobrinhas. Meses depois sabe-se que, contra todas as expectativas, o capitão do exército acabou por sobreviver. E regressa altamente traumatizado com a experiência vivida num campo de detenção o que vai despoletar uma difícil e sinuosa reaproximação à sua família.
A perspectiva que mais me cativou no filme passa um pouco ao lado do problemático romance entre cunhados. Na senda de alguns notáveis filmes de guerra estreados nos últimos tempos, Jim Sheridan consegue orientar o espectador através do dilema do matar ou morrer. E mostra com nitidez os traumas decorrentes do peso subjacente às opções tomadas, quando se está debaixo de uma pressão insustentável.
Concluindo, apesar do argumento apresentar algumas inconsistências, a banda sonora e um conjunto de excelentes interpretações individuais faz com que se justifique o visionamento....

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A Sentença e a Dúvida

Os factos condenatórios do processo Casa Pia serão conhecidos integralmente esta semana e não me choca minimamente que não o tenham sido logo na sexta-feira. Até porque, pelo que percebi, todas as partes envolvidas estiveram de acordo com a apresentação sumária da sentença. O ruído a esse propósito nasce de reacções mais emocionais e menos ponderadas, que não podem nem devem ser levadas a sério. Obviamente que nesta sentença os réus viam a última oportunidade para limpar a sua imagem e evitar o eterno estigma a que estarão sujeitos, mas essa evidência apesar de atenuante não pode servir para desculpabilizar o injustificável....

Relativamente a todo este imbróglio tenho na minha cada vez menos convicta qualidade de cidadão de direito três certezas:
- Nunca ninguém vai saber toda a verdade sobre o que aconteceu, a não ser claro os directamente envolvidos;
- houve violações e abuso continuado de crianças indefesas com e sem o consentimento destas;
- existe por aí gente que vive em total impunidade e que são tão ou mais culpados dos que foram agora condenados. E aqui, devia ser tão importante para a opinião pública ser o zé da esquina o agressor ou figuras públicas relevantes.
Além destas certezas que valem o que valem, tenho também uma outra convicção profunda:
Como resultado de diversos factores a maioria dos agora condenados não voltará à prisão, apesar do teor das respectivas sentenças. É a Justiça que temos em Portugal....

Indubitavelmente, pairará sempre sobre o Processo Casa Pia a mais enraizada Dúvida. Se as condenações, como tudo indica, forem somente baseadas em provas testemunhais aumentará ainda mais a incerteza relativamente a todo o processo. Para mim, parece quase inverossímil como é que através de Carlos Silvino (o fio condutor de toda a história) não tenha sido possível localizar um contacto incriminatório, uma conversa telefónica, uma gravação em qualquer formato que incriminasse os hipotéticos culpados e que ajudasse a fundamentar a acusação de forma irrepreensível. Faz-me bastante confusão pensar que um colectivo de Juízes aparentemente experiente e responsável pode condenar pessoas com base única e exclusivamente em testemunhos – alguns algo confusos e até eventualmente sugestionados pela própria pressão mediática do caso.
Por outro lado, também faz imensa confusão à minha sensibilidade tentar descredibilizar e ridicularizar jovens que foram comprovadamente vítimas de abusos sexuais por não se lembrarem com precisão - à distância de mais de cinco anos - onde fica determinada divisão numa habitação anteriormente visitada. Para mim, uns meros três anos, seriam seguramente suficientes para não conseguir descrever com exactidão qualquer casa onde tivesse estado duas ou três vezes. Mas isto talvez seja só eu que tenho uma péssima memória....

Em suma, como Carlos Silvino disse em tribunal - também ele uma vítima durante anos a fio - somos todos culpados. Uns mais que outros, é verdade. O próprio cidadão de bem que vive confortavelmente naquilo que fantasia como um estado de direito é culpado por ter permitido que a Justiça chegasse ao ponto de estarmos 8 anos para obter uma sentença. Ainda em primeira instância, assinale-se....

As Palavras

Adiro a uma nova terra adiro a um novo corpo
As palavras identificam-se com o asfalto negro
o tropel das nuvens
a espessura azul das árvores acesas pelos faróis
o rumor verde
As palavras saem de um ferida exangue
de teclas de metal fresco
de caminhos e sombras
da vertigem de ser só um deserto
de armas de gume branco
Há palavras carregadas de noite e de ombros surdos
e há palavras como giestas vivas
Matrizes primordiais matéria habitada
forma indizível num rectângulo de argila
quem alimenta este silêncio senão o gosto de
colocar pedra sobre pedra até á oblíqua exactidão?
As palavras vêm de lugares fragmentários
de uma disseminação de iniciais
de magmas respirados
de odor de gérmen de olhos
As palavras podem formar uma escrita nativa
de corpos claros
Que são as palavras?Imprecisas armas
em praias concêntricas
torres de sílex e de cal
aves insólitas
As palavras são travessias brancas faces
giratórias
elas permitem a ascensão das formas
elevam-se estrato após estrato
ou voam em diagonal
até à cúpula diáfana
As palavras são por vezes um clarão no dia calcinado
Que enfrentam as palavras?O espelho
da noite a sua impossível
elipse
Saem da noite despedaçadas feridas
e são signos do acaso pedras de sol e sal
a da sua língua nascem estrelas trituradas

António Ramos Rosa

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A Carvalhesa

Já é tradição a homenagem anual que este blogue apolítico faz à festa do Avante - expoente máximo da excepcional organização dos Comunistas Portugueses - a decorrer por estes dias na Atalaia-Amora-Seixal. Não há mesmo festa como essa……

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O Desalinhado

Jeremias vivia desfasado dos demais. Sabia que àquele aparente momento de contentamento generalizado sucederia outro em que os actores do costume assomariam na boca de cena mais devoradores que nunca. Jeremias não era apreciador de teatros supérfluos….

O Oitenta e Um Mil Quatrocentos e Setenta e Quatro

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A Reunião de Condomínio (II)

O primeiro episódio da Reunião de Condomínio aqui.

A Dona Isaura não desarma e ameaça chamar a Polícia na próxima vez que ouvir risadas femininas vindas do andar de cima. Mora no prédio há mais de trinta anos e nunca, mas nunca, assistiu a uma pouca-vergonha daquela dimensão, salienta.

O Sr. Arnaldo do R/C B, aproveitando a deixa da Senhora Dona Isaura, e antes de se passar à votação dos pontos previstos na ordem de trabalhos, pede a palavra para se indignar (o condómino é também por norma um cidadão indignado) contra aquilo que diz ser um atentado à sua seriedade, e da sua Senhora, assinala. Num discurso emotivo, diz que jamais pactuará com a degradação na vivência do prédio. As pessoas sempre foram de uma educação e respeitabilidade notáveis. Viveram aqui Juízes e até Ministros. Este prédio foi sempre frequentado pela fina flor da sociedade e não será agora que irei deixar que se torne uma bandalheira repleta de gente ordinária.
Posto isto, e terminado o caloroso discurso do Sr. Arnaldo, os Condóminos olham-se incomodados. A coisa prometia aquecer.....

Encosta-te a Mim - Jorge Palma

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A Rentrée

Fim de Agosto, princípio de Setembro, tempo de rentrées. Regressam os veraneantes enfeitiçados pela ilusão da sua apregoada importância.
Os Cretinos ressurgem de pele bronzeada, embrulhados agora em mais frescas roupagens. Voltam, dissertando com entusiasmo sobre novos projectos, sempre na ilusão de que são ouvidos.
Os Cretinos acreditam piamente que as suas ideias são excepcionais, esquecendo-se que outros já as tiveram antes. De aspecto, aparentam ser outros. No fundo, são a merda de sempre só que mais escurecida pelo sol....

Katsushika Hokusai

sábado, 28 de agosto de 2010

Jimi Hendrix - Live at Woodstock '69

Em Setembro comemoram-se 40 anos sobre a morte de Jimi Hendrix - muito provavelmente o melhor guitarrista de todos os tempos. Em homenagem ao mito que como outros imortais faleceu com apenas 27 anos deixo a lendária actuação de Woodstock em 69.
Jimi Hendrix at Woodstock foi dirigido pela dupla Chris Hegedus e Erez Laufer. São 37 minutos de pura adrenalina…..

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O Entusiasmo Juvenil

Muito, muitos anos depois, mantinha o mesmo desvario ilusório que embateria sempre no mesmo muro de constrangimentos. Tinha contudo perdido aquele entusiasmo juvenil que nunca mais regressaria….

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A Reunião de Condomínio

Uma das mais extraordinárias instituições portuguesas dos tempos modernos é sem margem para qualquer dúvida a mítica reunião de condomínio. Para não poderem dizer que aqui não se faz serviço público ao mais alto nível cá vai o meu contributo para a canonização da coisa:

A Dona Odete do 1.º C e o Sr. Arnaldo do R/C B foram os primeiros a chegar, antes ainda do Sr. Narciso do 2.º A que actualmente é o zeloso Administrador do Condomínio. Entretanto, aparece o vizinho de 3.º C pedindo desculpa pelo atraso. Como diligentemente explica o prezado Administrador a reunião começou porque havia quórum para poder deliberar. O quórum é um termo técnico que convém dominar, visto que é bastante utilizado na esotérica terminologia dos condomínios.
Os orçamentos para o arranjo do algeroz - que é palavra que por si só impõe logo respeito - são rejeitados por serem demasiado onerosos. Nas Reuniões de Condomínio os orçamentos são sempre considerados elevados por uma maioria esclarecida. Trata-se de uma reparação fundamental que anda a ser adiada há anos e, face à visível deterioração da actual situação, pode a qualquer altura resultar numa despesa muito superior à proposta agora. A vizinha do 2.º B diz que este mês tem o seguro do Lamborghini topo de gama para pagar e que por esse motivo não tem condições para suportar mais esta despesa. A Dona Odete explica detalhadamente perante a habitual e mórbida curiosidade de todos os presentes que tem que pagar os caríssimos fármacos da senhora sua mãe que foi recentemente operada. Num acto de puro altruísmo, o Sr. Arnaldo confessa que tem a casa à venda e por esse motivo não lhe interessa entrar em despesas com a mesma.
Estava-se assim a entrar num impasse, eis senão quando o Sr. Neves do 5.º A propõe pedir um orçamento que antevê muito mais em conta a um primo que tem uma empresa que faz variadíssimas coisas sem se perceber muito bem o quê exactamente. Em Portugal, qualquer que seja o contexto, há sempre alguém com um qualquer conhecimento (um familiar, um amigo) que pode desenrascar a situação. O Biscate, como é entusiasticamente conhecido, é um monumento nacional. Normalmente recorrer a este expediente dá para o torto, mas o que é que isso interessa quando se pode fazer um favor a alguém que poderá a qualquer altura ser convenientemente retribuído.
Seguidamente a vizinha do R/C esquerdo, a Dona Isaura, queixa-se do barulho que desconfia - é esta a expressão utilizada (o condómino é por norma um cidadão desconfiado) – que vem do andar de cima onde (desconfia) existem festas nocturnas com presenças pouco recomendáveis de senhoras de origem brasileira.....

O quotidiano "não"

Estamos todos bem servidos
de solidão.
De manhã a recolhemos
do saco, em lugar de pão.

Pão é claro que temos
(não sou exageradão)
mas esta imagem do saco
contendo um pequeno «não»

não figura nesta prosa
assim do pé para a mão,
pois o saco utilizado,
que pode ser o do pão,

recebe modestamente
a corriqueira fracção
desse alimento que é
tão distribuído, tão

a domicílio como
o leite ou o pão.
Mas esse leitor aí
(bem real!) já diz que não,

que nunca viu no tal saco
o tal «não».
Ao que o poeta responde,
sem maior desilusão:

- Para dizer a verdade,
eu também não...
Mas estava confiante
na sua imaginação

(ou na minha...) e que sentia
como eu a solidão
e quanto ela é objecto
da carinhosa atenção

de quem hoje nos fornece
o quotidiano «não»,
por todos os meios, desde
a fingida distracção,

até ao entre-parêntesis
de qualquer reclusão...

Alexandre O´Neill

domingo, 22 de agosto de 2010

A Novela

O longo diferendo que ameaça opor o seleccionador nacional Carlos Queiroz e a Federação Portuguesa de Futebol é deveras esclarecedor relativamente à forma como as instituições que gerem dinheiros públicos em Portugal funcionam.

Carlos Queiroz tem certamente defeitos. Apresenta lacunas ao nível da liderança e muitas vezes - tal como Scolari, aliás - é demasiado irascível o que em matéria de facto não é abonatório para as funções que desempenha. Foi, contudo, o treinador eleito pelos dirigentes federativos para levar a bom porto o projecto selecção nacional. E, convém não esquecer, é figura de proa no actual futebol português a quem toda uma geração de jogadores muito deve. Isto, independentemente da quantidade e notoriedade das testemunhas abonatórias que apresentou, em mais um episódio absurdo e perfeitamente evitável nesta novela de terceira categoria.
Os iluminados do costume vociferam contra a sua prestação à frente da selecção. Vejo pessoas responsáveis e aparentemente sãs a dizer que Portugal devia ter sido campeão do mundo. Como se isso fosse uma coisa normal e com precedentes. Ou seja - ao nível dos resultados que é o que interessa ao erário público - a prestação de Queiroz à frente da equipa Lusa tem sido razoável e na linha do alcançado no Europeu de 2008.

Por outro lado, Gilberto Madaíl é daquelas figuras sinistras que nos aparecem em horário nobre há décadas e para a qual sempre olhei com desconfiança.
A sua principal referência passa pelas conhecidas caldeiradas de enguias (e sabe-se lá de que mais) com o major Valentim Loureiro em Aveiro. Sabemos também que dirige uma organização que centraliza todos os pecados capitais que proliferam na nação. A Federação Portuguesa de Futebol tem uma estrutura envelhecida e empestada de carreiristas inúteis provenientes das míticas associações distritais de futebol. Só assim se percebe que nas competições que ainda são organizadas pela federação reine o desmazelo total. Geralmente nessas provas, um terço dos bilhetes que deviam ser postos à venda, são destinados aos funcionários federativos e aos seus séquitos respectivos como já tive oportunidade de comprovar.
Gilberto Madaíl preside a uma organização caduca que no âmbito disciplinar, historicamente, demora eternidades a decidir o que quer que seja como é do conhecimento público. Nos quinze anos que leva de FPF o único momento feliz que retenho foi quando contratou com óptimos resultados Luís Filipe Scolari. De resto, é somente asneiras atrás de asneiras. Vive agarrado ao lugar e sempre pactuou com a podridão existente no Futebol Português. Foi incapaz de modernizar a estrutura e agora depois de contratar um seleccionador procura pretextos infantis para o despedir por justa causa. Eu, se fosse a Queiroz, jamais me demitiria. Podia até já nem ter condições nem autoridade para ocupar o lugar, como manifestamente acontece, mas esses senhores da federação deveriam assumir perante o País as consequências da sua incompetência e pagar o que têm a pagar pela rescisão unilateral.
Depois de mais este triste acontecimento, caso ainda restasse algumas migalhas de dignidade a Gilberto Madaíl a única saída possível seria a demissão. Portugal agradecia…..

O Basquiat

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O Fogo

O fogo é floresta que arde sem perceber que o Gerês localizado na mais bela região de Portugal é propriedade privada do Divino….

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Desconhecido

Jeremias nutria um profundo respeito pelo desconhecido. Considerava a mais estranha das sensações desconhecer o que o futuro nos reserva. Por isso faltava-lhe amiúde adjectivação para descrever tal sentimento.…

Theo Den Boon

domingo, 15 de agosto de 2010

Tudo Bons Rapazes

O Sporting arrancou a liga com uma comprometedora derrota no terreno do Paços de Ferreira o que me deixa atónito, quase sem palavras.
Sem querer crucificar desde já o treinador, até porque Paulo Sérgio foi homem de coragem ao aceitar o desafio de treinar este Sporting, a verdade é que esteve visivelmente nervoso no banco (o que até é normal face à falta de experiência em clubes de topo) e, mais grave, foi incapaz de demonstrar um golpe de asa ou impôr uma voz de comando que invertesse a situação.
As declarações a assumir a derrota no fim do jogo são aceitáveis mas a verdade é que um suposto candidato ao título podia num dia mau empatar o jogo, mas perder nunca.
A equipa nem jogou mal de início mas na primeira contrariedade desintegrou-se por completo. E depois quando é necessário mexer drasticamente entra o Djaló, que só tem um neurónio, e o Saleiro que apesar de bom rapaz não tem categoria nem para um Vitória de Setúbal.
Em suma, foi mais do mesmo da época passada. A única diferença é que jogamos um futebol aqui e ali um bocadinho mais acutilante e menos defensivo...

Com este Braga, com os reforços que ainda virão para os outros adversários directos, e com este começo catastrófico as hipóteses do Sporting ser campeão são meramente simbólicas, talvez uns residuais 5 %. Esta é que é a verdade e dificilmente os dois reforços anunciados para os próximos dias alterarão esta realidade. Eu, por muito que me custe, viverei agarrado a esses 5 % até ser matematicamente possível mas o panorama é negro muito negro.
Não se pode negar que existem diferenças neste momento abissais entre os nossos recursos financeiros e os dos nossos principais adversários mas esta estratégia seguida nos últimos anos de que para treinar a equipa principal de futebol basta ser bom rapaz - tal como Bento e Carvalhal sempre o foram e como Paulo Sérgio efectivamente é - deixa-me completamente apavorado relativamente ao futuro do clube....

sábado, 14 de agosto de 2010

Where is Romeo?

Na antecâmara de Shirin, Abbas Kiarostami participou com esta curta intitulada Where is Romeo em cada um o seu cinema que celebrou os 60 anos do Festival de Cannes. Mesmo sem a presença sempre apelativa de Binoche, trata-se de mais uma extraordinária criação do consagrado cineasta iraniano. Clicar e ver directamente no YouTube.


Das 32 histórias em curtas de 3 minutos que compõem o filme já  foram aqui disponibilizadas, além desta, outras três: a rever aqui, aqui e aqui…..

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Chagas de salitre

Olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roídos pelo vegetar da urina e do suor

a carne virgem mandada
cavar glórias e grandeza
do outro lado do mar.

Olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingénua tolerância aproveitada
em carne. Pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.

Olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos de gente.
Olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos de espesso deslizar
dos braços e das mãos do meu país.

Olha-me as igrejas restauradas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.

Olha-me a noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.
Olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre.

Ruy Duarte de Carvalho

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Filosofia da Subjectividade

O deslizar do Tempo é inimigo da perfeição. A perfeição é cúmplice da eficácia mas não se dá bem com a apregoada felicidade. O Homem que pensava saber o significado de todas as palavras atingiu o cume da pirâmide existencial quando às portas do céu foi confrontado com o conceito de subjectividade. Ainda para mais ele, que durante toda a vida sempre fugiu a sete pés do mais leve sintoma de confrontação. Nesse dia, finalmente percebeu que o branco nem sempre é branco e o preto nem sempre é preto. O cabrão do Tempo é um Sacana….

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A Misantropia

Jeremias ao contrário do comum dos mortais detestava pessoas. A natureza humana era demasiado complexa, demasiado caprichosa, demasiado fatigante para quem a quisesse entender. Depois, como em tudo na vida, existiam as excepções à regra. Jeremias sempre detestou fundamentalismos….

Os Elementos


Água, areia, pedra, vegetação e ar, muito ar……

Iris - Goo Goo Dolls

sábado, 7 de agosto de 2010

O Passismo

Pedro Passos Coelho bem se esforça para demonstrar pose de estado e assim tentar camuflar a ansiedade que o persegue. Aqui ou ali, ainda que com alguma precipitação pelo meio, consegue até surpreender positivamente o cidadão comum.
Todavia, o maior problema - uma espécie de encruzilhada intransponível para Portugal - é que a gente que rodeia Pedro Passos Coelho é de uma incompetência atroz. Do pior que existe nos meandros partidários e na sociedade civil. Aliás já deambulam por aí, quais esfomeados com a língua de fora, sedentos de poder, cobiçando as habituais nomeações e os privilégios respectivos. São criaturas que não fazem a mais pequena ideia do que é governar um País e, mais grave, são incapazes de construir um pensamento válido para o horizonte da nação.
Portugal corre o sério risco de caminhar a Passos largos para o abismo….

Andy Warhol

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Canino

Um ovni cinematográfico que aterrou em Lisboa neste quente mês de Agosto. Vencedor em 2009 do prémio Un Certain Regard em Cannes, a segunda longa-metragem de Yorgos Lanthimos traz-nos a história de uma família que vive enclausurada à mercê da autoridade de um pai paranóico e delirante que entre outras demências patrocina o incesto entre os próprios filhos.
É daqueles filmes que ou se ama ou se odeia, mas a que ninguém fica indiferente. As comparações com algumas coisas de Michael Haneke fazem algum sentido, designadamente o assombroso funny games.
Canino, sem ser irrepreensivelmente um filme brilhante até porque é notória uma tendência deliberada para perturbar o espectador, é uma estimulante reflexão acerca das contemporâneas ameaças à nossa segurança e aos perigos a que estamos constantemente sujeitos. Interroga os limites para o instinto protector na adolescência. Escalpeliza sem pudor os efeitos dos desejos reprimidos….

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A Artificialidade

Tinha uma educação sofisticada, apurada e cheia de requinte, contudo faltava-lhe dominar os universos mais recônditos da natureza humana. Era detentor de uma sensibilidade de bicho do mato….

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Querido Agosto,

És de longe o melhor mês para estar em Lisboa o que me faz gostar imenso de ti. Mas noto que mesmo contigo, há cada vez mais carros, mais poluição, mais pessoas. Em suma, menos tranquilidade, infelizmente. Dizem que falta dinheiro. Talvez. A classe média anda asfixiada e o pequeno comércio está quase todo aberto. A crise está mesmo a deixar marcas.
Contigo, chegam sempre orlas de emigrantes. São por norma barulhentos e irritantes com as suas idiossincrasias mas transportam no peito um País. Essa paixão manifesta é um pouco estranha para quem vive nesta bagunça todo o ano. Mas são eles - mesmo que com a habitual boçalidade - quem melhor interpreta a verdadeira natureza do ser Português.
Há Blogues que vão de férias, encerram para balanço e vão a banhos o que, confesso, me faz confusão. Um blogue fechado para férias....Qualquer dia só há posts das nove às cinco. Ora, este Blogue não fecha em Agosto. Há que manter a palermice aguçada….

Como dizer o silêncio?

Se em folhagem de poema
me catais anacolutos
é vossa a fraude. A gema
não desce a sons prostitutos.

O saltério, diletante,
fere a Musa com um jasmim?
Só daí para diante
da busca estará o fim.

Aberta a porta selada,
sou pensada já não penso.
Se a Musa fica calada
como dizer o silêncio?

Atirar pérola a porco?
Não me queimo na parábola.
Em mãos que brincam com o fogo
é que eu não ponho a espada.

Dos confins, o peristilo
calo com pontas de fogo,
e desse casto sigilo
versos são só desafogo.

E também para que me lembrem
deixo-os no mercado negro,
que neles glórias se vendem
e eu não sou só desapego.

Raiz de Deus entre os dentes,
aí, pára a transmissão.
Ultra-sons dessas nascentes
só aves entenderão.

Natália Correia

domingo, 1 de agosto de 2010

O Carreirista Supersónico (V)

Na sequência da brava prestação como Assessor o nosso Armado foi convidado para Secretário de Estado das Obras Públicas - a sua última grande paixão. Na tomada de posse perante sua excelência o Presidente da República proclamou altivo, a alto e bom som: eu, abaixo-assinado, afirmo solenemente por minha honra que cumprirei fielmente as funções que me são confiadas. Aliás, a fidelidade mais calculista era coisa que há muito o nosso herói praticava com excesso de zelo.
Contudo, a cerimónia de tomada de posse efectuada ao ar livre não lhe correu totalmente de feição. Quando se posicionava na fila para o cumprimento da praxe ao Presidente teve uma súbita quebra de tensão e estatelou-se no chão tendo recuperado os sentidos segundos depois. Desculpou-se perante as individualidades presentes com o calor. Quando chegou a sua vez de estender a mão a sua Excelência, o Presidente, caiu-lhe uma grande bosta de caca de pássaro em cima da mão o que o fez sujar com aquele excremento abençoado a mão de sua Excelência o Presidente da República perante o olhar incrédulo de todos os presentes.

Como Secretário de Estado prometeu tudo fazer para moralizar o sector. A Transparência na adjudicação das obras seria o seu grande desígnio, a sua primordial frente de batalha.
Um das primeiras pastas que teve de gerir foi o concurso público para implementação de um projecto urbanístico de grande envergadura em frente ribeirinha emblemática. Sabendo à partida a proposta que queria vencedora, não fosse ele o nosso bom e leal Armando, rodeou-se de meia dúzia de Juristas de primeira água, pagos principescamente a peso de ouro pelo erário público, e encaminhou a coisa no sentido do óbvio favorecimento da candidatura preferida. Para esse efeito, passou horas a delinear e a discutir o teor dos pareceres jurídicos que sustentavam a decisão com os proeminentes Advogados antes de passar para o Ministro responsável pela tutela a decisão sobre a adjudicação final do Concurso Público.
A Construtora proposta como vencedora tinha como sócio gerente um velho comparsa a quem Armando devia um grande favor. A nora deste, Professora de Português, tinha passado na secundária o filho do nosso herói em dois anos seguidos com a inusual nota de 18. Isto apesar da total inaptidão do aluno que escrevia nos exames o nome do Pai como Amado em vez de Armando e começava inexplicavelmente todas as frases com a irritante expressão “é assim”. Este expediente veio permitir ao filho do nosso herói a entrada na faculdade pública em detrimento de outros alunos mais necessitados e bem mais merecedores de tal distinção….

Os episódios anteriores da saga o Carreirista Supersónico aqui: I, II, III e IV.

Não Sei Se Mereço – Alcoolémia

sexta-feira, 30 de julho de 2010

A Dádiva

Este Blogue detesta obituários mas não consegue ficar indiferente a estas palavras:

« Aproveitem a vida e ajudem-se uns aos outros. Apreciem cada momento. Agradeçam, e não deixem nada por dizer, nada por fazer…»

António Feio, Março de 2010.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O Lol e o Facebook

Jeremias não acreditava em pessoas de risos excessivos. Gostava e valorizava o riso, mas como tudo na vida, um riso regrado, discreto e triste. Bingo! Jeremias gostava de um riso triste. Sincero e efusivo, mas triste!
Agora, havia algo com que Jeremias nunca pactuaria por mais anos que vivesse. Jamais daria credibilidade a quem não escreve Ah, Ah! Ou Eh, Eh! Ou algo vagamente semelhante ao som proferido por uma gargalhada verdadeira. O Lol é um riso cobarde, uma espécie de orgasmo fingido. Simula uma felicidade perniciosa para quem o proclama. Jeremias, somente atribuiria importância a um Lol se fosse proferido por uma das Vacas do Farmville….

O Aquário

terça-feira, 27 de julho de 2010

A Congruência

Jeremias suportava temperaturas altas com espírito missionário. Já há muito tinha percebido que à medida que os termómetros sobem os cérebros definham. A Jeremias só restava o estoicismo mais extremado. Aguardava serenamente que a poeira se desvanecesse e que as cabeças desvairadas voltassem a reflectir a habitual insipiência.
Com o calor todos os corpos se tornavam demasiado imprevisíveis, demasiado periclitantes. Jeremias apreciava quem, como ele, fosse portador de uma demência mais constante....

sábado, 24 de julho de 2010

Go Get some Rosemary



Filme vencedor do IndieLisboa - Go Get some Rosemary - escrito e realizado pelos irmãos Josh e Benny Safdie estreou agora comercialmente.
Sem ser uma obra-prima é uma encantadora reflexão acerca da ligação entre um Pai separado e os respectivos filhos no inferno da selva urbana.
Gravado com câmara à mão conta com um excelente Ronald Bronstein no exigente e, no caso, excêntrico papel de Pai.
Baseado no verdadeiro relacionamento que a dupla de irmãos teve com o seu próprio Progenitor este “Vão-me buscar alecrim” tem o mérito de filmar Nova Iorque com a crueza e o engenho que a cidade merece....

Papoilas em Julho

Pequenas papoilas, pequenas chamas infernais,
sois inofensivas?

Estremeceis. Não posso tocar-vos.
Ponho as minhas mãos por entre as chamas. Mas nada queima.
E fico exausta quando vos vejo
estremecer assim, pregueadas e rubras como a pele da boca.

Uma boca há pouco ensanguentada.
Pequenas orlas de sangue!

Há nela um fumo que não consigo tocar.
Onde está o vosso ópio, as vossas cápsulas nauseabundas?

Se eu pudesse esvair-me em sangue ou dormir!...
Se a minha boca conseguisse desposar uma tal ferida!

Ou os vossos licores me penetrassem, nesta cápsula de
vidro, trazendo-me a acalmia e o silêncio.

Mas sem cor. Sem nenhuma cor.

Sylvia Plath

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O Estado da Justiça

Falar da deplorável Justiça que temos em Portugal é assunto recorrente. O surrealismo subjacente ao estado a que isto chegou é incontornável. E é tema de fundamental importância para a vida do cidadão comum.

O processo Apito Dourado acabou sem uma única condenação. As escutas telefónicas postas a circular, e que nenhum dos envolvidos teve o descaramento de desmentir, não foram portanto suficientes para a Justiça Portuguesa perceber o quão baixo descemos.
A validade das escutas telefónicas é confirmada pelo próprio Ministério Público que tentou tirá-las do you tube (sem sucesso assinale-se) o que é elucidativo acerca da presunção jurídica da veracidade das mesmas.
A Justiça do meu País não conseguiu descortinar naquelas conversas sinais da evidente presença de corruptos e corruptores, nem a existência do tráfico de influências.
Eu, se fosse a Maria José Morgado, emigraria para bem longe daqui. Preferencialmente para um lugar onde ainda haja algumas réstias de razoabilidade…

Por outro lado recentemente fomos confrontados com a liberdade condicional de uns energúmenos que fugiram da Polícia no Algarve o que provocou uma perseguição policial à americana amplamente divulgada pela comunicação social, tendo obviamente essa tentativa de fuga colocado em risco a vida de pacatos cidadãos. Os infractores ficaram somente sujeitos a uma apresentação periódica às autoridades.
Acontece que o Magistrado ou a Magistrada que analisou a situação e proferiu a decisão achou que aquela fuga numa carrinha roubada (foi efectuada uma ligação directa na viatura que é visível nas imagens televisivas) não é factor fortemente indiciador de prática criminal violenta. Ou seja, para os nossos Juízes, quem foge daquela forma não tem nada a esconder. É uma situação normal.
Até posso parecer um gajo de direita a vociferar mas de facto não sou, ou pelo menos não me considero. Simplesmente sou um contribuinte cumpridor e indignado (que é palavra da moda e um direito, apesar de inconsequente) que se rege por leis de bom senso….

Brevemente teremos a sentença do caso Casa Pia, onde ao contrário do verificado nos casos acima, parece que se prenderam pessoas por indícios que foram posteriormente considerados ténues e sem sentido. Foi o que aconteceu no caso de Paulo Pedroso. No entanto, podemos estar descansados, o bastonário da ordem dos advogados, Marinho Pinto, com a sobriedade que lhe reconheço (pode-se contestar o estilo mas a sua frontalidade e seriedade são para mim inequívocas e clara prova de competência e imparcialidade) já nos veio garantir que o processo Casa Pia com as leis que temos prescreverá, de recurso em recurso, sem qualquer condenação o que - como cidadão - me deixa muito mais tranquilo….

Entretanto para Passos Coelho e Sócrates, discutir o essencial (Justiça, Saúde, Educação) interessa pouco….

California Dreaming - The Mamas & the Papas

terça-feira, 20 de julho de 2010

O Epílogo

Julgavam-se muito modernos mas não passavam de banais intriguistas.
Viajavam de indignação em indignação, de insulto em insulto até ao dia do julgamento final - o dia em que todos os Blogues serão apagados do espaço virtual. Nesse momento, perante todas as suas fragilidades, desamparados pelos habituais escudos prepotentes, clamarão por um derradeiro post ao qual intitularão muito propositadamente: a última ceia....

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Leão de Cara Lavada



Fica o bloco de notas do repórter indígena na apresentação aos sócios do Grande Sporting para a época 2010/2011 ontem no Alvalade XXI com uma vitória sobre o Lyon por duas bolas a zero.

Positivo:
- Razoável assistência o que pode ser um sinal positivo relativamente à recuperação do fervor leonino;
- a instalação sonora emite agora um rugido de leão de quando em quando. Uma apropriada ideia que fica mesmo assim aquém do desejado. Aquele rugido devia estar sempre a bombar. Intimidava os adversários e sempre calava o idiota do speaker;
- vitória justa e clara contra semifinalista da última liga dos campeões;
- finalmente temos dois laterais sólidos, Evaldo e João Pereira. Nenhum deles é o Maicon, mas dão garantias de competitividade;
- felizmente que com o Mundial, Miguel Veloso não teve tempo suficiente nas férias para engordar os habituais 10 quilos;
- André Santos e Salomão deram mostras de ter potencial;
- a escolha de Polga para a primeira opção como capitão parece-me acertada. É uma alternativa segura para o lugar. Alia experiência com serenidade (ás vezes até demais) e leva meia dúzia de anos de leão ao peito. Face à curva descendente em que se encontra a sua carreira, não me parece que seja capaz de possuir ainda ambições externas que ponham em causa a coesão do grupo. A realidade é que para um lugar tão fulcral como o de capitão, o clube não se pode dar ao luxo de errar novamente depois da caldeirada Moutinho que ainda continua a dar que falar;
- uma defesa alta em linha para os jogos em casa. Quem quer ser campeão tem que correr riscos. Agradou-me sobremaneira essa forma de encarar a partida mas é muito cedo para tirar mais ilações.

Morno:
- Pongolle e Matias Fernández têm tudo para explodir esta época mas as primeiras indicações não foram auspiciosas. Espero estar enganado. O Francês passa demasiado tempo ao lado do jogo. Tem dificuldades em provocar desequilíbrios. Por sua vez, o Chileno tem tudo para dar certo. Tem talento (o seu simples toque de bola não engana), tem velocidade explosiva e é bom nas bolas paradas, no entanto começo a ter aquela estranha sensação que me acompanhava quando via jogar Tonito aqui há uns anos atrás. Quando tem a bola controlada, em 90 % das situações Matias toma a decisão errada para o desenvolvimento da jogada ofensiva. Era isso que acontecia com o jogador espanhol que chegou a ser campeão, saliente-se. E não estou a comparar ambos os jogadores. Matias Fernández tem inegáveis qualidades e é a época do tudo ou nada para ele.

Negativo:
- Já escrevi tudo o que havia para escrever sobre Grimi. Já me faltam os adjectivos. A palavra anedota chateava-se;
- Carlos Saleiro não tem lugar neste plantel. É esforçado mas como jogador não enche as medidas a ninguém;
- faltam reforços e o retardamento da sua inclusão na equipa dificulta a construção e o crescimento do colectivo. Não nos podemos esquecer da valia dos plantéis rivais. A época vai ser longa e há constantemente jogadores lesionados. Neste momento, por exemplo, já estão impossibilitados dois presumíveis titulares, Carriço e Izmailov….

O Éden

sábado, 17 de julho de 2010

A Generosidade

Jeremias quando conduzia na auto-estrada gostava de ultrapassar carros mais potentes que o seu. O único objectivo era provocar a masculinidade (principalmente) ou a feminilidade (mais raramente) dos respectivos automobilistas no sentido de o ultrapassarem com rapidez. Como em 90 % dos casos estava perante previsíveis exemplares indígenas, isso acontecia com naturalidade.
Para Jeremias era um regalo apreciar o ar trocista com que os ávidos condutores
triunfalmente o ultrapassavam. Nunca jamais abdicaria desses momentos de puro altruísmo.  
Jeremias sempre gostou de fazer os outros Felizes.....

Ralph Steadman

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O Carreirista Supersónico (IV)

O Carreirista Supersónico depois da passagem por director de serviços na cobrança de impostos acabou por ser promovido. As cada vez mais intensas ligações partidárias que alimentava começavam a dar frutos. Desta vez, uma mudança de governo valeu-lhe um convite para assessor de um secretário de estado com o qual tinha estabelecido uma conveniente amizade no Partido. Como lugar muito bem remunerado que era, tinha direito a algumas mordomias. Assim, o bom do Armando deu consigo circunstancialmente a ser conduzido por Motorista, o que para quem tinha nascido em Vilar do Ossos não estava nada mal, não senhor.
Como Assessor manteve relações privilegiadas com proeminentes jornalistas. Tratava por tu alguns directores de serviços noticiosos, forjava com frequência notícias que de alguma maneira valorizassem e enaltecessem o seu superior hierárquico.
Um dia, numa visita a uma escola do interior recentemente reconstruída, veio a conhecer um industrial de construção civil que o aliciou na perspectiva de Armando utilizar todas as suas influências no sentido de encaminhar a adjudicação de obra pública de grande envergadura para o dito construtor. Como contrapartida desse favorzinho, o bom do Armando receberia 200 000 em notas vivas ou, caso preferisse, obras de valor semelhante em casa própria ou em construção. O nosso Carreirista Supersónico meteu mãos à obra e desenvolveu todos os esforços fazendo uso de todas as suas reconhecidas capacidades na nobre arte da intrujice. Prometeu favores a Fulano e Sicrano até finalmente conseguir a ansiada adjudicação da obra para o seu aliado de circunstância.
Armando que tinha já umas poupanças para aplicar, amealhadas ao longo do seu exemplar e meritório percurso profissional, conseguiu desta forma a casa de sonho para a sua família com um amplo jardim e piscina, localizada a 30 minutos de Lisboa.
Como reflexo da sua inequívoca competência e ética profissional, passado pouco tempo, o nosso Armado foi convidado para Secretário de Estado das Obras Públicas - a sua última  grande paixão.....

Os episódios anteriores da saga o Carreirista Supersónico aqui: I, II e III.

No Cars Go - Arcade Fire

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O Snobismo

Snob é uma palavra que num inglês primitivo significava curiosamente o inverso do que significa hoje. De acordo com o dicionário actual da língua portuguesa o sentido que lhe damos resulta de uma manifestação de superioridade nas ideias, gostos e comportamentos e um menosprezo por aqueles que não têm prestígio ou posição social. E, perguntam os meus estimados leitores, por que carga de água é chamado para aqui o snobismo?
Porque é uma característica que assenta que nem uma luva nesta Portugalidade de princípio de século. Podia começar pelo snobismo intelectual - o mais interessante de escalpelizar. Talvez até houvesse aí matéria suficiente para escrever um livro. Abunda na opinião pública e nos círculos políticos. É usado e abusado por uma certa esquerda de referência que se julga muito letrada, muito sofisticada, muito equitativa, muito opinativa mas que depois à primeira oportunidade reprime e até escraviza eventuais subordinados. Amordaça opiniões alheias por serem divergentes das suas. Não tolera conviver com o contraditório por mais evidentes que sejam as fragilidades dos seus argumentos.
Provavelmente ainda voltarei a esta omnipresente arrogância intelectual no futuro....

Uma vertente mais dispersa, mas mais amputadora para o desenvolvimento sustentado do país é o Snobismo social. Herda-se de berço nalguns casos, noutros desenvolve-se nas juventudes partidárias e nas administrações das empresas. Floresce nos meios culturais. Existem situações em que nem se percebe muito bem de onde vem, mas está sempre presente, escondido, à espreita na esquina mais próxima.
Vivemos num tempo em que encontramos facilmente jovens adultos a administrar empresas públicas. Pessoas sem qualquer experiência significativa de vida ao nível pessoal, que é o mais importante na formação do individuo, e sem percursos meritórios de qualquer espécie.
Sempre que existe uma sensação de real poder, por mais vaga que seja, que incida sobre o controlo de recursos humanos ou financeiros emerge sempre em Portugal o Snobismo mais pacóvio. Uma espécie de eu sei que tu sabes que o meu lugar é este aqui, no pedestal, e o teu lugar é aí no meio do nada. Depois esmiúça-se o núcleo individual, a verdadeira essência, a putativa coluna vertebral desta gente que vive afundada num mar de aparências e encontra-se o.....vazio absoluto. Por mais estranho que possa parecer, os fantasmas e as frustrações que assolam esta espécie de pessoas é o que de mais autêntico possuem. De resto, vivem alimentadas por ambições doentias, ficções frívolas e ostentações fúteis. Habitam em condomínios privados de reinos desgovernados incapazes de escapar à superficialidade de um discurso convencional, bacoco e socialmente acomodado. Temem o confronto de ideias, receiam pontos de vista discordantes porque no essencial querem manter a supremacia a todo o custo.
Num país pequeno, que funciona à base de capelinhas sectoriais com grande parte dos dados viciados à partida, esta forma quase generalizada de agir torna-se castradora aos mais diversos níveis, incluindo numa área fundamental para a educação cívica como é a criação artística.....

Olhemos por exemplo para os nossos vizinhos espanhóis. Obviamente que o snobismo também terá os seus partidários mas tratam-se sempre de forma informal, normalmente por tu, independentemente de quem esteja do outro lado. Como perdem menos tempo com todas as futilidades inerentes ao posicionamento social são mais metódicos que nós, mais planeados, mais despreocupados, menos complicados e por isso vivem melhor e mais felizes....

domingo, 11 de julho de 2010

Campeones

A Espanha sagrou-se muito justamente campeã mundial de futebol. Zapatero agradece. Nos próximos tempos os índices de produtividade certamente melhorarão.
Apesar de estar a torcer pelos holandeses reconheço que os espanhóis foram a melhor equipa durante a competição alicerçada num bom guarda-redes (capitão Casillas) e num extraordinário meio-campo composto por grandes executantes.
À Holanda, que jogou a terceira final de um Mundial sem nunca ter ganho nenhum, resta a consolação de ter morrido na praia a cinco minutos de uma provável vitória nas grandes penalidades....

sábado, 10 de julho de 2010

A Consonância

Há muito que Jeremias não ouvia a expressão “em consonância”. Havia palavras que sempre se pautaram por lhe provocar aquele discreto contentamento. Arrebatavam-lhe a alma linguística. Naquele dia ao ouvir aquela mágica expressão pela boca de um ilustre desconhecido, Jeremias sentiu-se de bem com o Mundo.....

Como uma flor vermelha

À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Shirin

Com a presença de Juliette Binoche, Shirin do iraniano Abbas Kiarostami é um tremendo objecto de arte em estado puro que parte de uma ideia simples: pôr 114 mulheres sentadas numa sala de cinema - 113 iranianas de várias idades e uma europeia (Binoche) - a assistirem à suposta encenação de um poema persa do século XII sobre os amores de uma princesa arménia de nome Shirin. A Câmara de Kiarostami debruça-se única e exclusivamente sobre os olhares, as expressões e as emoções dessas mulheres perante o desenrolar da peça, sem nunca vacilar no foco.
Obviamente que o filme de Kiarostami, além da motivação artística, tem claros objectivos políticos. O lugar submisso da mulher na sociedade irariana continua a ser alvo cirúrgico para o Realizador, na tentativa que esses ancestrais e inexplicáveis preconceitos sejam progressivamente abandonados por um regime que continua a ignorar as mais elementares regras na igualdade entre sexos.
Acima de tudo, este filme é uma experiência sensorial cativante e um estimulante desafio aos nossos sentidos. Cada espectador reagirá à sua maneira e formulará as suas próprias conclusões.
Shirin é uma apaixonante visão despudorada sobre a Liberdade porque ninguém pode reprimir as emoções contidas no olhar de uma mulher.....

O Areal

terça-feira, 6 de julho de 2010

A Loucura

Jeremias já tinha passado por muitas e variadas tormentas. Conhecia os misteriosos caminhos que levam à decadência humana e apesar das cicatrizes acumuladas, até ver, tinha sobrevivido a todas as tempestades.
Racionalmente devia temer a doença, a miséria e todo um conjunto de perigos nefastos que espreitam a cada esquina, a cada movimento em falso, em cada armadilha oculta. No entanto a única coisa que lhe provocava pavor, a única coisa que o assustava realmente era a possibilidade do filho poder vir a ser do Benfica....

Mário Cesariny

domingo, 4 de julho de 2010

Adeus

João Moutinho vai embora e por mim faz muito bem. Tenho a perfeita noção que esta posição não é de todo unânime no universo leonino.
Comparar o Moutinho ao lendário capitão Manuel Fernandes como já vi alguns fazer é de rir. Sejamos sérios, anda tudo a chorar por um fedelho que queria trocar o Sporting pelo Everton, ouviram bem, pelo Everton. E que depois de ter tornado pública essa vontade, nunca mais jogou nada. Considerar aquele sujeito como símbolo da Academia – a maior fábrica de talentos de Portugal - é um atentado à minha sanidade leonina.
Já vai tarde. Esteve 2 anos a mais. Obviamente que não deverá sair a qualquer preço. E o futuro irá julgar este inusitado acto de gestão porque o beneficiado é incompreensivelmente um rival directo. A vontade do jogador falou mais alto e também não me parece que houvesse outras alternativas. Não nos podemos esquecer que o interesse de outros eventuais clubes estrangeiros terá arrefecido com a época apagada do jogador e pela ausência no lote de convocados para o Mundial.
Por conseguinte, não recordarei João Moutinho pelos golos ou por alguma marcante exibição que me tenha ficado na memória. A imagem com que fico de João Moutinho é o episódio verificado a 2 de Agosto de 2008, data da apresentação aos sócios da temporada 2008/2009, em que o topo sul do estádio José Alvalade XXI cantou em uníssono quando o jogador se preparava para fazer exercícios de aquecimento: “Moutinho, Cabrão, não és o Capitão”. Dias antes, perante os jornalistas, o jogador tinha manifestado vontade de sair para o Everton, um clube de segunda linha da Liga Inglesa…..

Fado – Heróis do Mar

O Momento

a poesia sai à rua
no instante decisivo,
universos repartidos
em eternos destinos cruzados,
entender o passado
e viver o presente
debaixo desta luz
que nos persegue.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

A Comoção

Jeremias fazia 200 kilómetros para que o seu Barbeiro lhe cortasse o cabelo. Se fosse necessário faria 500 porque há coisas que não se explicam.
Naquele dia ao despedir-se, depois de terminado o serviço, o camarada Barbeiro mandou um abraço ao filho ainda bebé de Jeremias e perguntou quando é que o veria por lá? Jeremias engoliu em seco, e como é seu hábito nessas circunstâncias abalou apressado desejando um bom fim-de-semana ao Barbeiro de toda uma vida….