sábado, 27 de novembro de 2010

O Equívoco

Reinava, não porque tivesse real competência para tal, mas porque o solícito compadrio lhe tinha batido à porta….

POEMA

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Imperdível

O Ex-Primeiro-Ministro desta admirável bagunça que se chama Portugal - Pedro Santana Lopes - à falta de melhor ocupação anda a dissertar sobre os pneus do seu BMW. Com gente assim a governar-nos, ficamos mais elucidados acerca dos reais motivos que conduziram ao estado a que isto chegou. Tudo, aqui.

Mas atenção caros leitores, reparem por favor na destreza intelectual deste cidadão que atento ao mundo que o rodeia faz o seguinte comentário ao diligente post do Dr. Pedro Santana Lopes:
«Como o compreendo. Até minha carrinha Renault é assim! Traz kit de reparação cujo produto custa 70€ + IVA»....

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Greve Geral

As greves na minha perspectiva deixaram de fazer sentido para aí há 20 anos. Hoje as realidades laborais são outras. As problemáticas com que as sociedades se debatem exigem outras respostas. As greves, pura e simplesmente, não resolvem nada e já não comovem ninguém.
Os próprios mentores desta greve geral dão toda a ideia que andam por ali somente por uma mera questão de tradição. E claro, porque têm alguma experiência que convém exercitar em organizar estas coisas. Nada mais que isso. O discurso é absolutamente inócuo, e em nada contribui para a recuperação económica do país.
Com franqueza, só consigo conceber esta greve na solidária perspectiva de haver algumas almas que se sentem purificadas pelo protesto maciço, e outras que vêem sinceramente esta como a única forma de exorcizar o seu legítimo desespero. O que não sendo tudo, já é alguma coisa....

Lisbon Story

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O Particular

O papa veio abrir a porta ainda que de forma envergonhada à aceitação por parte da igreja católica do uso do preservativo, assumindo que se justifica em "casos particulares".
A Imprensa delira com a depravação demonstrada por Bento XVI. Por este andar, talvez ainda durante este século (faltam 90 anos) poderá a igreja católica vir a considerar a masturbação como uma prática aceitável, o que constituirá claramente uma autêntica loucura - para quem estiver vivo...

Será - Pedro Abrunhosa

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

36 Vistas do Monte Saint-Loup

De Jacques Rivette com Sergio Castellitto e a eterna companheira de Gainsbourg, a agora já sexagenária Jane Birkin, estreou há semanas 36 Vistas do Monte Saint-Loup.
Começa muito bem mais este filme de Rivette com um carro empanado à beira da estrada conduzido por uma mulher que está sozinha. A mulher acena a quem passa na esperança de obter ajuda. Há um homem, até aí estranho, que passa uma primeira vez sem parar. Inesperadamente volta depois atrás, como que motivado por um misterioso apelo de consciência, arranjando o carro da mulher e partindo sem proferir uma única palavra.
Acontece que este excepcional início de 36 Vistas do Monte Saint-Loup não tem depois sequência no resto do filme. O consagrado realizador que tem algumas obras apreciáveis perde-se numa encruzilhada centrada na obsessão de um homem por uma mulher. Nem a a própria fotografia do filme desperta imagens particularmente estimulantes. Seria talvez uma ideia interessante para uma peça de teatro, não mais que isso. Apesar de tudo, deixo o trailer...

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A NATO

Jeremias pretendia perguntar aos senhores da NATO porque motivo se acham mais importantes que os Arcade Fire? Estes, ao menos, ainda conseguiriam fazer gente feliz…

Um Coração de Sangue

Um coração de sangue
Um coração de xisto e aço
Um coração angular e redondo
Como a pedra que te abre
Do interior do chão

Um coração solar
De granito
De carne
Curado da noite de nascença

Um coração de homem
Um coração de homem vivo
Um coração de criança ao colo
Interior
-Mais interior do que o sangue no coração que me darás-

Peço um coração
Nuclear

Daniel Faria

domingo, 14 de novembro de 2010

A Salvação Nacional

Fala-se da hipotética criação de um governo de Salvação Nacional. A expressão até tem um sentido vagamente poético mas lirismos à parte, é bom que todos se comecem a convencer que isto só lá vai com intervenção externa. Somos demasiado mesquinhos, demasiado cobardes, demasiado comodistas, e estamos demasiado comprometidos para conseguir inverter a situação insustentável em que vivem as finanças públicas num Estado que, quer se queira quer não, tem um peso excessivo. Não estou a dizer com isto que o estado social deve ser desmantelado. Aliás, em muitas áreas até penso que o investimento devia ser aumentado. Agora, o que é impossível negar é o despesismo generalizado em que vivem, no geral, as instituições públicas. E o monstro não é de agora, tem vindo a florescer desde há pelo menos 25 anos. E se Passos Coelho quer mesmo punir criminalmente os responsáveis, como afirmou num daqueles seus delírios de populismo primário, então o melhor é começar por sentar no banco dos réus o professor que apoia para presidente da república.

A realidade é que a maioria da população depende de forma directa ou indirecta do Estado e isto é inegável. Não me estou a referi somente aos funcionários públicos, que muito injustamente são tratados por uma parte significativa da opinião pública como atrasados mentais.
O cerne da questão está precisamente no facto de parte significativa dos rendimentos que auferem os designados privados e muito curiosamente essa mesma opinião pública, que julga indiscriminadamente os outros, serem provenientes da mesmíssima e inesgotável fonte. Ou por serem professores em Universidades Públicas, ou por terem avenças em órgãos de comunicação social controlados pelo Estado (de forma injustificada nalguns casos), ou por terem avenças em empresas financiadas, por este ou por aquele motivo, pelo erário público (às vezes até com desconhecimento dos próprios colaboradores) ou então através dos milhares de pareceres, avenças e prestações de serviços de todas as espécies e feitos que os organismos e empresas de capitais públicos pagam mensalmente a fornecedores. Ou seja, o dinheiro com que muita desta gente compra as suas prendas de natal e sustenta legitimamente as suas famílias, tem origem exactamente no mesmíssimo e famigerado Orçamento de Estado.

A única coisa que resta fazer a um País eternamente adiado é adiar – mais uma vez - o inevitável. Nisso, somos efectivamente bons. O talento na fuga para a frente, a arte de varrer para debaixo do tapete, a propensão para a dissimulação dos problemas são características inatas que não são compatíveis com ideias peregrinas de salvações.....

A Modernidade

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A Obscuridade

O obscuro silêncio proporcionado pelo isolamento da sala de cinema transmitia a Jeremias uma estranha paz interior que não encontrava paralelo nem na essência subjectiva do existencialismo....

Censurados – Censurados

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Dans L'Obscurite

Dando continuidade a isto, fica a sexta curta retirada de “cada um o seu cinema” que serviu de comemoração aos 60 anos do Festival de Cannes. Desta vez com a singular e criativa participação dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne:


É caso para salientar a importância de ter um ladrão sempre à mão…..

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Condenação do Divino

Eu fui dos que defendi a contratação de André Vilas-Boas para o meu Sporting. Parecia-me, das poucas hipóteses portuguesas credíveis, aquela que reunia maior possibilidade de êxito. Hoje estou amplamente convencido que o negócio não avançou porque o próprio teve a percepção que tinha boas hipóteses de ir para o Porto - o seu clube do coração - e por esse motivo provocou o divórcio com Bettencourt. Foi assim que, para mal dos nossos pecados, surgiu Paulo Sérgio nas nossas vidas. Mas ainda não estou convencido que Vilas-Boas é um novo Mourinho. Tem dado boas indicações, é verdade, mas ainda é cedo para avaliar. Quanto a mim, o real valor deste porto está sobrevalorizado de momento. Existe demasiada dependência da capacidade de um jogador que, por mais incrível que possa ser, não resolverá todos os problemas. E estão claramente numa fase em que a confiança proporcionada por vitórias consecutivas ajuda a esconder debilidades, mas nem sempre será assim. Pelo menos é o que me parece. Agora para todos os efeitos já são campeões, desde a quarta jornada para ser preciso.
Relativamente a Jorge Jesus - que assinale-se nunca foi treinador do meu agrado com os seus rasgos discursivos absolutamente hilariantes – acho que foi infeliz de facto na opção Sidnei mas a crítica vermelha está a trucidá-lo de uma forma um pouco injusta, diga-se. A verdade é que dificilmente este frágil Benfica (com o qual o Sporting levou um banho de bola, lembras-te Paulo Sérgio?) poderia trazer alguma coisa do Dragão nesta fase…