quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A Divina Hipocrisia

Sustentam-se decisões com base em critérios inexplicáveis. Investem-se fortunas para elevar o que não é digno sequer de registo. Evocam-se solidariedades como se a merda fosse transparente.
O importante para os vampiros é ir salvando o umbigo….

Edward Hopper

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

José e Pilar

Filme de Miguel Gonçalves Mendes que já tinha realizado Autografia dedicado a Mário Cesariny. São documentários diferentes. Pessoalmente, identifico-me mais com a obra sobre Cesariny. Autografia transpirava genuinidade. Em José e Pilar existe alguma artificialidade camuflada. Nota-se que existe por parte do casal, na minha modesta perspectiva, uma ténue mas visível vontade de manipular o resultado final. Isto, por mais que o realizador o negue. Existe também aqui ou ali sinais de uma produção demasiado estilizada a cair para o televisivo. A esse propósito, saliente-se que a SIC era um dos parceiros do projecto. Durante o visionamento torna-se evidente que Saramago estava imbuído do espírito de querer deixar um legado. E este filme era um bom veículo para esse fim.

Não se pense pelas minhas palavras que não estamos perante um grande e recomendável filme. Pessoalmente, não me interessa o julgamento positivo ou negativo que se possa fazer do papel de Pilar na vida de Saramago. O mais fascinante é a cadência narrativa imposta por Miguel Gonçalves Mendes que consegue levar o filme através de uma emotividade congruente.
Com uma soberba montagem, José e Pilar revela com exactidão os segredos para a complementaridade harmoniosa entre duas pessoas. A melancolia de um português triste, por mais genial que possa ter sido, cruzada com a energia e a vivacidade de uma andaluza espontânea e electrizante só pode resultar num argumento acutilante.

Para além de todas as conhecidas virtudes, José Saramago era senhor de uma invulgar coerência e de uma notável sobriedade que o levou à melhor definição de sempre para a velhice. Algo como: «A velhice é sentir cada fim do dia como uma perda irreparável».
A não perder, José e Pilar, que podia muito bem ser Pilar e José...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A Quadra

O Alvoroço Natalício apodera-se progressivamente das ruas. Jeremias - um Ateu inveterado - habituou-se ao longo dos tempos a encarar o natal como uma espécie de evento gastronómico…...

Peso de Outono

Eu vi o Outono desprender suas folhas,
cair no regaço de mulheres muito loucas.
Cem duzentas pessoas num café cheio de fumo
na cidade de Heidelberg pronta para a neve
saboreavam tepidamente a sua ignorância.

Eu vi as amantes ensandecerem
com esse peso de Outono. Perderam as forças
com o Outono masculino e sangrento.
Os gritos a meio da noite
das amantes a meio da loucura voavam
como facas para o meu peito.

Alguns poetas li-os melhor no Outono,
certos amores só poderia tê-los,
como tive, nos dias doces da vindima.

Fernando Assis Pacheco

domingo, 5 de dezembro de 2010

O Objectivo


Ainda mais absurdo que a actual situação em que o Grande Sporting se encontra são as declarações do nosso pequeno (pequenino) treinador que no Record de hoje afirma que o objectivo ainda é o primeiro lugar. Muito justamente, face ao insólito das mesmas, essas declarações são chamadas para a primeira página. A que será que Paulo Sérgio (futuro treinador do Moreirense ou  desempregado no activo como Carvalhal) se estava a referir:
- Ao campeonato do berlinde do bairro do lumiar?
- Ao campeonato de tiro à carica de Alvalade?
- À pesca do Besugo?
Com um treinador com estes níveis de sobriedade, mesmo assim não estamos muito mal, e temos boas hipóteses de chegar a um digno terceiro lugar.
A equipa não é má de todo mas depois de se perder a hipótese de em confronto directo com o líder diminuir a desvantagem para 10, repito 10 pontos, continuado a uns escassos 13, repito 13 pontos, vir dizer que o objectivo ainda é o primeiro lugar, diz muito acerca da desorientação generalizada que floresce em Alvalade.

E posso estar enganado, mas para nosso azar, vamos andar com esta apatia conformista até ao fim da época. Mesmo com a contestação crescente. Porque a equipa agora até vai ganhar uns joguitos, beneficiando do facto de alguns dos principais jogadores estarem recuperados de lesões, e até é capaz de consolidar o terceiro lugar. Sendo que com esta equipa técnica tenho sérias dúvidas que possamos ganhar alguma das taças ainda em disputa, mas se as coisas correrem normalmente isso só se decidirá lá mais para o fim da época. Ou seja, o problema será adiado mas a inevitável saída de Paulo Sérgio é uma mera questão de tempo.

Costinha não é de todo o principal culpado. Estou mesmo convencido que se começasse a sua carreira de director desportivo num clube mais estável certamente que teria sucesso. Sendo que no caso Izmailov (ainda hoje mal explicado) tem de facto também ele culpa no cartório porque tem sido um processo pessimamente gerido por toda a estrutura.

Quanto a José Eduardo Bettencourt tenho muita pena das coisas não estarem a resultar até porque tenho a certeza, tal como eu, trata-se de um sportinguista apaixonado. Mas na gestão do futebol (o mais importante) tem-se revelado um autêntico flop com muitos laivos de incompetência pelo meio.
Relativamente ao futuro, posso estar muito enganado mas cheira-me que vão aparecer muitas alternativas ao lugar de Bettencourt. Agora se existirão soluções credíveis ou não, só o tempo o dirá. Até porque já há imenso tempo que anda muita gente a cheirar a podridão e hoje a presidência do Sporting é bem mais apelativa do que era há uns meses atrás. Isto por duas razões:
1) Fazer pior do que nas duas últimas épocas é difícil, e então escolher um treinador para a equipa de futebol menos capacitado dos que os escolhidos por Bettencourt é praticamente impossível.
2) A casa agora encontra-se mais arrumada e menos endividada. Mérito deste presidente (honra lhe seja feita) que tirando o mais importante - o futebol - até tem feito um trabalho meritório a outros níveis......

As Nuvens

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A Crónica do Triste Fado

Portugal é hoje o que sempre foi e o que sempre será. Mesmo com as crescentes inovações tecnológicas tendencialmente “globalizantes” o fado português perdurará inalterável. Aliás, o fado é o nosso único grande desígnio. Cada nação tem a sorte que merece. O Brasil tem o samba. Querem lá coisa mais alegre? A nós calhou-nos o mais pesaroso dos estilos de música. Mais que uma maneira de ser esta tendência para o sombrio está-nos nos genes, corre-nos no sangue, atravessa-nos a pele. Por norma, para um brasileiro está tudo jóia, mas para um macambúzio de origem lusa vai-se andando, está-se assim-assim. Raramente, muito raramente, está tudo bem.
Como resultado desta apregoada taciturnidade em cada exemplar Tuga encontra-se um putativo escritor. Adaptando a emblemática letra revolucionária de Zeca Afonso: em cada esquina um poeta, em cada rosto sisudo uma inspiração. A poesia passeia pelas ruas de mãos dadas com a melancolia reinante.
País de navegadores e aventureiros, de ancestrais conquistadores, vivemos sempre - como agora - à beira do abismo. É verdade que partimos com frequência à aventura na esperança de um futuro mais risonho. A história de Portugal está cheia de períodos em que houve enormes níveis de emigração. No entanto, curiosamente, essa fuga somente se concretiza quando não existem mais alternativas. Muitas vezes a vontade de partir termina à mesa do café de Bairro numa avalanche contínua de lamentações e indignações. Reagimos somente em último recurso, quando não existe mais chão para pisar. Sempre foi assim, até nas graves crises económicas. Mais FMI, menos FMI, continuaremos eternamente com a nossa irrepreensível letargia. O comodismo é uma espécie de desporto nacional de eleição. Quando resolvemos fazer, normalmente até não nos saímos mal, contudo mantemos uma atávica resistência à mudança.
A incapacidade para planear minimamente o futuro e a falta de memória são outras idiossincrasias lusas. Com a mesma facilidade que trucidamos determinada personagem, amanhã colocamo-la no pedestal. É uma grave esquizofrenia, sem dúvida, mas funciona ao mesmo tempo como estimulo e alavanca social, designadamente ao nível das cabeleireiras de bairro.
Cada País tem os cidadãos que merece. O Brasil tem actualmente como Presidente um Lula, o que aparenta desde logo alguma vivacidade. Portugal tem como presidente uma espécie de múmia ressuscitada (mas pouco) de nome Cavaco, o que é francamente elucidativo....

Don Li-Leger

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Copie Conforme

Num dos mais aguardados filmes dos últimos tempos, o Iraniano Abbas Kiarostami aterra na Europa para criar mais uma das suas singulares obras desta vez com a tentadora companhia de Juliette Binoche no papel principal.
Binoche, qual vinho do porto, está cada vez melhor actriz. O seu rosto não é um poema, é um compêndio da mais excepcional poesia. Um dia ainda hei de escrever um cabrão dum texto sobre o rosto de Binoche...

domingo, 28 de novembro de 2010

Acorda Sporting

O empate era para mim era o pior resultado possível para este escaldante Sporting-Porto. Por um lado não recuperamos terreno. Por outro, o revés não é suficiente para que a cabeça de Paulo Sérgio role e possa finalmente ir treinar o Moreirense. A sua continuidade, como já se percebeu, compromete quaisquer aspirações de ganhar algo esta época. E continuo a insistir, o Sporting não tem tão má equipa como parece. Além do mais continuamos atrás do Guimarães, ao qual fomos contratar este fabuloso treinador por 600 000 Euros. Em outros tempos, estar a 13 pontos da liderança no decorrer ainda da primeira volta do campeonato, com a possibilidade de ficar a cinco do segundo (ou seja, a depender de terceiros mesmo para o 2.ºlugar) seria motivo mais que suficiente para um levantamento em Alvalade.

Mas infelizmente o Sporting nos dias que correm não é mais que isto. É todavia de louvar os mais de 36 000 adeptos que, mesmo assim, se deslocaram a Alvalade (sendo que 5 000 ou mais eram do Porto) para apoiar uma equipa que durante 90 minutos não consegue fazer um cruzamento em condições para a área adversária (volta Abel, estás perdoado) e que a jogar contra dez, precisando impreterivelmente de vencer, não consegue efectuar um lançamento lateral de acordo com as leis do jogo.
A claque mais representativa do clube já nem sequer põe as habituais tarjas identificativas. Se por acaso foi uma forma de protesto contra um treinador de terceira categoria que até a fazer uma simples substituição demora uma eternidade, acho que fizeram muito bem.
Dizem que rematamos sempre muito. Sim, mas e daí? Em 10 remates o André Santos ou o Postiga acertam uma vez na baliza, sendo que normalmente esse remate não dá golo. A equipa remata de longe porque é desequilibrada emocionalmente. Ainda ontem houve duas, três situações em que jogadores nossos podiam ficar isolados, caso os companheiros não tomassem a péssima opção de rematar de longe.
Bettencourt com as declarações imbecis de meio da semana teve o que semeou e hoje foi o principal culpado do sporting não ter ganho. Fomos uma equipa de totós em solidariedade com o nosso presidente. O enxovalho de estar sentado ao lado de Pinto da Costa na tribuna em Alvalade foi a cereja em cima do bolo.
No fim de tudo isto, há sportinguistas por essa blogosfera a exultarem por termos ganho um ponto ao Guimarães, o que diz tudo relativamente ao estado a que o nosso Grande clube chegou.....

sábado, 27 de novembro de 2010

O Equívoco

Reinava, não porque tivesse real competência para tal, mas porque o solícito compadrio lhe tinha batido à porta….

POEMA

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Imperdível

O Ex-Primeiro-Ministro desta admirável bagunça que se chama Portugal - Pedro Santana Lopes - à falta de melhor ocupação anda a dissertar sobre os pneus do seu BMW. Com gente assim a governar-nos, ficamos mais elucidados acerca dos reais motivos que conduziram ao estado a que isto chegou. Tudo, aqui.

Mas atenção caros leitores, reparem por favor na destreza intelectual deste cidadão que atento ao mundo que o rodeia faz o seguinte comentário ao diligente post do Dr. Pedro Santana Lopes:
«Como o compreendo. Até minha carrinha Renault é assim! Traz kit de reparação cujo produto custa 70€ + IVA»....

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Greve Geral

As greves na minha perspectiva deixaram de fazer sentido para aí há 20 anos. Hoje as realidades laborais são outras. As problemáticas com que as sociedades se debatem exigem outras respostas. As greves, pura e simplesmente, não resolvem nada e já não comovem ninguém.
Os próprios mentores desta greve geral dão toda a ideia que andam por ali somente por uma mera questão de tradição. E claro, porque têm alguma experiência que convém exercitar em organizar estas coisas. Nada mais que isso. O discurso é absolutamente inócuo, e em nada contribui para a recuperação económica do país.
Com franqueza, só consigo conceber esta greve na solidária perspectiva de haver algumas almas que se sentem purificadas pelo protesto maciço, e outras que vêem sinceramente esta como a única forma de exorcizar o seu legítimo desespero. O que não sendo tudo, já é alguma coisa....

Lisbon Story

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O Particular

O papa veio abrir a porta ainda que de forma envergonhada à aceitação por parte da igreja católica do uso do preservativo, assumindo que se justifica em "casos particulares".
A Imprensa delira com a depravação demonstrada por Bento XVI. Por este andar, talvez ainda durante este século (faltam 90 anos) poderá a igreja católica vir a considerar a masturbação como uma prática aceitável, o que constituirá claramente uma autêntica loucura - para quem estiver vivo...

Será - Pedro Abrunhosa