Fala-se da hipotética criação de um governo de Salvação Nacional. A expressão até tem um sentido vagamente poético mas lirismos à parte, é bom que todos se comecem a convencer que isto só lá vai com intervenção externa. Somos demasiado mesquinhos, demasiado cobardes, demasiado comodistas, e estamos demasiado comprometidos para conseguir inverter a situação insustentável em que vivem as finanças públicas num Estado que, quer se queira quer não, tem um peso excessivo. Não estou a dizer com isto que o estado social deve ser desmantelado. Aliás, em muitas áreas até penso que o investimento devia ser aumentado. Agora, o que é impossível negar é o despesismo generalizado em que vivem, no geral, as instituições públicas. E o monstro não é de agora, tem vindo a florescer desde há pelo menos 25 anos. E se Passos Coelho quer mesmo punir criminalmente os responsáveis, como afirmou num daqueles seus delírios de populismo primário, então o melhor é começar por sentar no banco dos réus o professor que apoia para presidente da república.
A realidade é que a maioria da população depende de forma directa ou indirecta do Estado e isto é inegável. Não me estou a referi somente aos funcionários públicos, que muito injustamente são tratados por uma parte significativa da opinião pública como atrasados mentais.
O cerne da questão está precisamente no facto de parte significativa dos rendimentos que auferem os designados privados e muito curiosamente essa mesma opinião pública, que julga indiscriminadamente os outros, serem provenientes da mesmíssima e inesgotável fonte. Ou por serem professores em Universidades Públicas, ou por terem avenças em órgãos de comunicação social controlados pelo Estado (de forma injustificada nalguns casos), ou por terem avenças em empresas financiadas, por este ou por aquele motivo, pelo erário público (às vezes até com desconhecimento dos próprios colaboradores) ou então através dos milhares de pareceres, avenças e prestações de serviços de todas as espécies e feitos que os organismos e empresas de capitais públicos pagam mensalmente a fornecedores. Ou seja, o dinheiro com que muita desta gente compra as suas prendas de natal e sustenta legitimamente as suas famílias, tem origem exactamente no mesmíssimo e famigerado Orçamento de Estado.
A única coisa que resta fazer a um País eternamente adiado é adiar – mais uma vez - o inevitável. Nisso, somos efectivamente bons. O talento na fuga para a frente, a arte de varrer para debaixo do tapete, a propensão para a dissimulação dos problemas são características inatas que não são compatíveis com ideias peregrinas de salvações.....