terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

As Algemas da Minha Memória

Levanto-me ensonada. Tive uma noite complicada e desgastante. Primeiro foi aquela sessão com o casal gay mexicano. Depois aqueles alemães nojentos que puxaram por mim até à exaustão. A vida não está fácil. Para quando a criação de um sindicato das algemas, pergunto? Podíamos fazer como a polícia marcando uma manifestação para o terreiro do paço que é coisa que sempre me impressionou. Aliás, a Policia é uma classe com a qual temos um relacionamento profissional privilegiado. Digamos que andam sempre comigo à cintura. Maior proximidade é difícil.

A vida para as algemas está mesmo decadente. As condições são péssimas. Agora querem-nos tirar o subsídio de transporte que me permitia deslocar de serviço para serviço. Como conseguirei a partir de agora ajudar a prender bandidos e gravar filmes pornográficos, tudo numa mesma noite? É que pelo meio tenho de ter tempo para reconverter a imagem. Não posso ir prender os gatunos de casaco de peles vestido.
Dantes é que era. As coisas corriam muito melhor. Tínhamos rendimentos equilibrados. Agora nunca se sabe o que esperar no fim do mês. Bons tempos esses, mas o melhor é não libertar a minha memória....

A vida sem palavras

Entre riso e sangue,
cabeça e espada,
entrada e saída,
flor e escarro,
sempre a vida,
a vida sem mais nada,
entre estrela e barro.

Entre homens e bichos,
entre rua e escadas,
entre grito e nojo,
a vida com seus lixos
e mãos violadas,
entre mar e tojo.

Entre uivo e poema,
entre trégua e luta,
vida no cinema,
no café, na cama,
vida absoluta.

António Rebordão Navarro

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O Calvário

Paulo Sérgio e Costinha deviam demitir-se de imediato. Agora, isso é uma questão que só o íntimo deles poderá responder. Paulo Sérgio está a ser teimoso. E tal posição torna-se prejudicial inclusive para a sua carreira. Por outro lado, Costinha até pode dar um bom director desportivo no futuro mas o actual Sporting, que até aceito ser o seu clube de coração, não é de todo o clube ideal para ir adquirindo experiência…

O Arco-íris

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O Populismo

Um tipo com os meus princípios, ou melhor com aquilo que entendo serem os meus princípios, dificilmente poderia ceder a um discurso tendencialmente demagogo. Pois bem, meus caros e minhas caras, estou farto de project finances, de reestruturações organizacionais e raios que os partam a todos.

Nem vou querer saber se o dinheiro vem de Angola, das Arábias, ou do tráfico de Periquitos. Eu quero é Craques que joguem à bola e que me levem a festejar Vitórias. Venha o Populismo......

Katsushika Hokusai

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Um Ano Mais

Another Year é mais uma sublime criação de um dos meus cineastas preferidos, Mike Leigh - um dos filhos mais consagrados do realismo inglês.

Depois de alguns filmes menos conseguidos, Leigh já tinha voltado à grande forma com Happy-go-lucky. Neste “Um ano mais” a acção centra-se numa pacata família inglesa de classe média que vai gerindo a sua rede de ligações com um extraordinário bom senso,  curiosamente sempre bem regado por inspiradores néctares inebriantes, revelando-nos os contornos da arte de saber envelhecer. A narrativa tem a precisa duração de um ano e é enquadrada pelas quatro habituais estações e o que representam em sentido metafórico: Primavera – Verão – Outono – Inverno por esta ordem de apresentação.

Na sequência do peculiar e singular método de trabalho que Mike Leigh estabelece com os seus Actores, assombram em Another Year duas magníficas interpretações: Lesley Manville e Jim Broadbent. A personagem interpretada por Manville - uma neurótica Mary - podia muito bem ser a nossa vizinha do lado. E que melhor elogio se pode fazer a um filme….

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O Levezinho

Cheira-me que a despedida de Liedson está para breve. O Levezinho deverá mesmo estar de saída. Geralmente as suas segundas metades das épocas são melhores que as primeiras, mas também é verdade que está a entrar na curva descendente da carreira e não convém mesmo nada começar a arrastar-se face ao elevado salário que aufere. E se hoje, há quem esteja disposto a pagar por ele, amanhã pode ser diferente.

Se tal saída se concretizar ficará para sempre na grandiosa história do clube e merecerá sem dúvida uma festa de despedida condizente com os momentos mágicos que proporcionou aos adeptos. Não ter sido campeão no Sporting fica como uma das maiores injustiças desportivas de que tenho memória…..

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Nobre

Ainda no rescaldo das presidenciais não me sai da cabeça que Fernando Nobre tinha todas as condições para roubar a maioria a cavaco, obrigando-o a uma segunda volta. Esqueçamos Alegre que paga agora o preço pela sua imprudência e pelo seu excessivo lirismo.
Esta constatação resulta da elevada abstenção que ocorreu, bem como dos mais de 6 % de votos brancos e nulos, e até daqueles 4,5 % que como eu votaram um pouco por reinação em Coelho. Tudo gente descontente que poderia sem grande esforço engrossar a votação em Nobre.
Apareceu como um excelente candidato, um homem do terreno, de irrepreensível competência, rigoroso, com pontes bem consolidadas para as pessoas comuns, rodeado de gente credível e, muito importante, sem ligações de relevo aos partidos e às habituais intrujices politicas. A grande maioria das coisas que nascem da aclamada sociedade civil sofre de um pecado capital. Refiro-me à falta de um fio condutor que faz logo suspeitar dos reais propósitos, das reais intenções dos promotores dessas iniciativas. Mas neste caso, não. Fernando Nobre teve esse mérito. Como homem de causas entregou-se sem pestanejar à cidadania e ao escrutínio popular.
Mas na prática o que aconteceu foi que a mensagem durante a campanha foi ficando cada vez mais encriptada. Talvez até derivado a algum cansaço do candidato, não sei. Numas vezes denotava desconhecimento das reais funções do cargo a que se candidatava. Em outras, misturava auto-elogios em demasia com agressividade excessiva. Terminou a dizer que só um tiro na cabeça o impediria de chegar a Belém. É verdade que o nível das campanhas das outras candidaturas também não ajudaram, mas Fernando Nobre tinha ganho mais se tivesse fugido desse pântano. Como alguém diria, é a comunicação estúpido, é a comunicação.
Concluindo, a candidatura de Fernando Nobre dará um excelente case study. Provavelmente o movimento que lhe deu azo perder-se-á no tempo mas quando na noite das eleições vejo Nobre a declarar-se ganhador, fico na dúvida se sobre o seu íntimo sobrevoava a consciência que tinha perdido uma excelente oportunidade para começar a mudar o rumo do país.....

Um poema tenrinho pode ser

Um poema tenrinho pode ser
quando tu morreres vou tirar a carta
ou
o mosteiro dos pulmões ataca uma barriga sem grades
e nasce uma quantidade razoável de imagens
indo da agulha de cintilo
aos dentes de um morcego beija-mão.

mas pode ser escrever chamar otários
sabrões
zarpos
garôlos
altos comissários
nas paredes para as ruas
das garagens-oficina nova era automóvel.

mas pode ser amor drógádo
síque
não presta.

mas pode ser tão difícil.
mas pode ser
liga à tua antiga madrinha-de-guerra
vai ter com ela saca-a ao marido
mexe com esta merda
pá.

Nuno Moura

domingo, 23 de janeiro de 2011

A Vitória

Como bom português que sou, pelo menos esforço-me para isso, fui um dos grandes vencedores das eleições desta noite além da absolutíssima abstenção, claro. O facto de ter alterado excepcionalmente o sentido do meu voto de branco para um dos candidatos adversários de Cavaco Silva, foi comprovadamente uma boa decisão que me deixa satisfeito. E isto porquê? Porque se a totalidade dos votos brancos e nulos tivessem sido colocados em Alegre, Nobre, Lopes, Coelho ou Moura tínhamos seguramente uma segunda volta, o que seria até imerecido para Alegre, diga-se. Para chegar a esta conclusão, basta fazer as contas.
Relativamente a Cavaco, o fascínio que o Portugal cinzentão e triste tem pela criatura ultrapassa-me por completo. Deixa-me sem palavras.
Quanto a Manuel Alegre, há muito que eu tinha percebido que isto ia acabar assim.....

A Reflexão

Jeremias achava que a reflexão devia estender-se ao próprio dia das eleições e quem sabe, atendendo ao actual estado das coisas, prolongar-se por um ano. Um país parado a reflectir é uma imagem esmagadora e profundamentemente poética que agrada a Jeremias. Assim como assim, a produtividade nunca foi o nosso forte e sempre se evitavam mais algumas trapalhadas….

O Dona Maria

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Volte-face Coelhio

Eu, tal como anunciado, estava para seguir o meu ímpeto habitual mas de há uma semana para cá que andava a reflectir com base em argumentos muito semelhantes a estes e estes.
Chamem-lhe voto de protesto ou o que mais quiserem, mas um gajo que oferece um submarino de brincar ao Paulo Portas, para ele poder meter onde desejar, merece o meu apoio. Depois, também não quero ficar com o peso na consciência de ter contribuído com um voto em branco para a inevitável maioria absoluta do professor que criou o monstro.
O Tipo pode até não saber conjugar verbos mas eu também vou votar no Coelho….

Foram Cardos Foram Prosas – Ritual Tejo


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O Concurso

Ou anda tudo maluco ou efectivamente esta corrida às presidências é na verdade um concurso de tiros no próprio pé.
Cavaco, dia após dia, ataca o governo prometendo endurecer a fiscalização num hipotético novo mandato, insinuando mesmo uma crise política. Por outro lado, Alegre diz que votar em Cavaco é um perigo para a democracia.
Ora bem, assim fica difícil, do que é que um eleitorado normalmente sereno e com uma aversão crónica a instabilidades poderá gostar mais?....

Vincent Van Gogh