quarta-feira, 20 de julho de 2011

Quando morava na cidade

Quando morava na cidade,
sempre que acordava,
a primeira coisa que fazia
era apagar todos os sonhos da pele.
Tomava umas vitaminas,
aplicava-se na adequação
do corpo à combustão.
Ameaçado pelo ruído, pelos gases,
pelos rostos contraídos, circunspectos,
punha-se a salvo num sorriso encenado.
Depois, concentrava-se nesse sorriso
até ao final do dia.

Era muito talentoso
na forma como fazia valer
as suas proposições.
Alguns exercícios de relaxação
facilitavam-lhe, em grande medida,
o sucesso. Era um sucesso
de pasta na mão, transportes públicos,
passado em fuga, futuro à vista.
Era sucesso de economista.

Quando morava na cidade,
tinha sempre de prevenção
um airbag enfiado no peito.
Uma vez, no metropolitano,
aconteceu-lhe ser insultado
por um desses falhados na vida.
Embateu contra o insulto,
accionando o balão da indiferença.
Regressou a casa sem mazelas no corpo,
à excepção de um buraco na língua.

Cantava canções e ria e corria,
estava sempre pronto para mais um dia.
Às vezes julgava-se cobarde,
mas depois sentava-se a escrever
e crescia dentro de si
um senso de heroísmo quase histérico.
Tinha a sensação de que
quando morava na cidade,
os sentimentos estavam
mais devidamente engarrafados
nos músculos, nos nervos, nas articulações.

Isto foi antes de olhar para os pés
como quem olha para o céu,
antes da coluna se ter quebrado
de modo irreversível.
Isto foi antes dum muro de cansaço
se erguer à sua volta.
Antes da dor lhe ter obstruído
a vista para o rio, antes de ter escorregado
no mais glorioso dos seus dias.
Isto foi antes do dia em que a sorte
lhe bateu à porta da fome.

Hoje, mora numa espécie de dança
parada. Numa queda sem fim.
Olha para trás do corpo e vê:
um coração acelerado num homem lento,
um pulmão com setenta vezes sete
metros de fundura. Vê um poço vazio.

Henrique Manuel Bento Fialho

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O Desvio

Como forma de justificar as inevitáveis medidas de austeridade adicionais, Passos falou no enorme desvio que encontrou nas contas públicas. Bastou ser ligeiramente pressionado pela opinião pública, como resultado do doloroso corte no subsídio de natal, para se começar a revelar verdadeiramente. 
Não foi ele que disse que conhecia a situação económica do País em pormenor? Quem é que negociou directamente com o FMI o plano de resgate? Os senhores do Troika que tanto endeusou afinal não sabem fazer contas? Não foi Passos Coelho que anunciou solenemente ao país que com ele as queixas relativamente ao passado tinham acabado? Sr. Primeiro-Ministro faça o que tem a fazer e deixe-se de merdas.
No meio de tudo isto não posso deixar de simpatizar com o estilo desajeitado do novo Ministro das Finanças, o tal Gaspar. Tal como o anterior Teixeira dos Santos aliás, que também me merecia apreço. Só mesmo gajos muito malucos e como elevados níveis de masoquismo é que aceitam ir para aquele lugar...

Nó Cego - Jafumega

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O Seguro

A não ser que haja um volte-face de última hora absolutamente surpreendente, António José Seguro caminha a passos largos para ser o próximo secretário-geral do PS, o que significa mais coisa menos coisa que o PS se prepara com afinco para uma justa, merecida e longa travessia no deserto.
Seguro é o grau zero da política. Um depósito de lugares-comuns que construiu totalmente a sua imagem na hipocrisia reinante que domina os corredores dos principais partidos políticos. É um Idiota sem ideias próprias e com a mania do politicamente correcto. Toda a gente que priva com ele diz que é um gentleman, muito afável e receptivo. Descrições que para mim só provam a sua absoluta inutilidade e a sua impreparação para o lugar.
Comparativamente a Passos Coelho, que não é nem de perto nem de longe um líder carismático, Seguro perde aos pontos. O único aspecto em que leva vantagem face ao actual Primeiro-Ministro é ao nível da formação ideológica. Mas mesmo isso serve de pouco quando a mente que está associada a tal posicionamento (porventura ajustado face à realidade) é de uma limitação confrangedora. E, claro, as agências de comunicação não conseguem resolver todos os problemas...

O Alento

terça-feira, 12 de julho de 2011

O Livro

Jeremias olhava para passado com uma selecta nostalgia. Tinha memórias ricas e encantadoras. Podia sempre escrever um livro, mas não havia nenhuma editora chamada Misantropia…

A Europa do Sul

Já me tinha ocorrido diversas vezes como é que um país com os níveis de corrupção e os vícios estruturais da Itália estava a conseguir passar entre os pingos da chuva da crise. Berlusconi é um Charlatão sabido mas não consegue fazer milagres. Era inevitável a derrapagem e a proximidade geográfica da Grécia também não ajuda. O que vem reforçar para nós a absoluta necessidade da Espanha se aguentar firme à pressão dos mercados internacionais.
Obviamente que a Itália – um dos mais extraordinários e versáteis países do mundo – possui recursos para sobreviver à escalada dos juros mas a Europa pode não voltar a ser a mesma...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Pequenas Mentiras Entre Amigos

Pequenas Mentiras Entre Amigos vem comprovar que uma banal crónica de costumes pode resultar num belíssimo filme. A narrativa anda às voltas com as angústias afectivas de um grupo de velhos amigos de classe média.

Com um naipe de grandes actores como François Cluzet, Gilles Lellouche, Benoit Magimel e Marion Cotillard este filme realizado pelo jovem realizador francês Guillaume Canet merece ser devidamente apreciado. O entretenimento que o argumento desponta talvez faça lembrar, aqui ou ali, estarmos perante um produto mais televisivo que cinematográfico, mas essa versatilidade de públicos é também um dos grandes mérito do filme. E, num tempo em que têm escasseado aquelas grandes realizações possíveis de ser comparáveis a verdadeiras obras-primas, este projecto 100 % francês ainda é do melhorzinho que anda por essas salas de cinema…

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem sorte,
Sou a irmã do sonho, e desta sorte,
Sou a crucificada...a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O Leão Búlgaro

Bojinov é sem dúvida o jogador mais sonante que o Sporting contratou. É uma figura que certamente ira vender muitos jornais e revistas, até porque vem acompanhado da sua namorada: uma escultural e famosa modelo internacional. Como jogador, é um gajo de grandes golos e que dá sempre espectáculo, o que também é importante para entusiasmar. No entanto, parece também ser irregular como tudo.
Independentemente da sua faceta mais mediática, na apresentação foi correctíssimo na mensagem que passou. Já se percebeu que está habituado a lidar com a imprensa. Isto, porque foi uma das maiores promessas do futebol mundial, sendo que estagnou um pouco a sua evolução nos últimos tempos. Aposto que falará português em 3 tempos.
Quanto a outros dois jogadores apresentados nos últimos dias (Luís Aguiar e o jovem chileno de nome Rubio) confesso que não me entusiasmam por aí além, mas espero estar enganado.
Era muito importante a contratação de mais um extremo. Até porque Izmailov é sempre aquela incógnita. Cada vez que vai ao chão, pensamos logo que pode não se levantar. A renovação do seu contrato foi um grande risco, sendo que as suas qualidades são inegáveis.
Por outro lado, já me convenci que não vem nenhuma Truta, ou seja, um daqueles jogadores de créditos firmados que se impõem logo à partida só pelo nome. Gostava de estar enganado mas para mim isso é claro neste momento, sendo que também gosto de ser surpreendido. A questão é que o perfil de Domingos também desaconselha tais aventuras. Não acredito que ele queira uma vedeta com estatuto de tal no balneário. Basta analisar a forma como está a gerir a equipa. Dispensou todos os que podiam destabilizar (e bem) como Maniche, Caneira, Vuckevic, etc…

Yellow – Coldplay



Não fui ao concerto mas fica aqui a recordação com um tema do, talvez, melhor álbum deles: Parachutes…

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O Lixo

Somos considerados Lixo nos mercados internacionais, o que para o cidadão comum não devia aquecer nem arrefecer, diga-se. Mas que é mais um mau sintoma, disso não tenhamos dúvidas. E como dá na televisão, a malta fica aflita. O mais preocupante no diagnóstico da Moody’s é a antevisão que fazem da necessidade de um segundo pacote de ajuda, o que a acontecer, seria catastrófico para Portugal.
Se a Espanha também cair nas malhas do FMI é meio caminho andado para a nossa bancarrota. Mais que a Grécia que, continuo a achar, tem uma situação incomparável à nossa, importa perceber como se vão aguentando os nossos vizinhos do lado…

Edward Hopper

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A Independência

Amigo Álvaro (visto que é assim que gostas de ser tratado) estou contigo. Por mim, podes avançar sem contemplações. E quando dizes que a nossa taxa de desemprego é assustadora também estou contigo, mas olha compete-te a ti invertê-la, percebes? E convém que alguém te lembre, antes de abrires a boca, que isto não é bem o Canadá…

O Golfe

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Hadewijch

Um filme de Bruno Dumont que percorre os caminhos da fé de uma jovem rapariga de nome Céline que vive apaixonadamente as suas convicções religiosas. Quando a jovem, filha de uma abastada e respeitada família, trava amizade com um grupo de jovens muçulmanos radicais embarca num perigoso mundo que vem complicar ainda mais a sua desordenada mente.
Dumont , do qual nunca tinha visto nenhum filme anteriormente, vacila aqui ou ali, mas consegue com um fim libertador justificar a sua aposta. De um ex-presidiário nasce a improvável redenção para a jovem Céline….

E vão 105



O Sporting Clube de Portugal faz hoje 105 anos e nada melhor para enaltecer a sua Grandeza que a mítica voz da mulher de cabelo verde….

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O Programa

No meio de muitas medidas avulsas, sem aplicação prática, e que ficam muito bem no papel (problema de todos os programas de governo desde que me conheço) há opções de matéria essencial que tendencialmente concordo e outras que tendencialmente discordo no documento agora tornado público:

Concordo com a obrigação de um exame para os candidatos a professores independentemente da sua formação académica (agora, muito cuidado com o conteúdo e coerência dessa prova); concordo com o princípio das rescisões por mútuo acordo na administração pública; concordo com a privatização do canal 1 da RTP mantendo o segundo canal (concordo somente se for esta a opção) e concordo com a ideia de os Ministérios serem penalizados por gastarem mais que o orçamentado no ano anterior.

Discordo linearmente da privatização total da TAP e do fim das golden shares em instituições de crucial sensibilidade para a economia do País como a PT ou CGD, por exemplo; discordo da escandalosa linha de pensamento - própria de vulgares filisteus - que sustenta que o apoio ao cinema e ao teatro devem ficar dependente das receitas de bilheteira (Francisco José Viegas, pira-te enquanto antes), e discordo absolutamente da suspensão do TGV Lisboa-Madrid, pois num país periférico como o nosso é uma obra de importância estratégica fundamental, e que assim nos manterá por tempo indeterminado no terceiro mundo das linhas férreas...