domingo, 25 de setembro de 2011

Uma bala perdida

Um soldado perdeu uma bala
E
Que nem um tiro
O cabo disparou
A levar a notícia ao furriel
Que
De imediato
A transmitiu ao sargento
e estava na latrina a latrinar
mas puxou as calças correu a informar
o oficial de dia
embora fosse de noite

o capitão
ciente da má nova
foi acordar o major
que estava a sonhar
com as mamas da Sofia Loren
e praguejou
porra
o que é que se passa
que horas são
já um gajo não

foi ele quem alertou o tenente-coronel
que via rádio comunicou
meu coronel
há uma bala perdida não se sabe
exactamente onde nem porquê
nem por quem nem quando
eu até penso que
chega
o que é preciso é avisar o nosso brigadeiro
disse o coronel em pijama de flanela
às riscas
vai ser o bom e o bonito
quando o nosso general souber

uma ba-la per-di-da
uma ba-la per-di-da
gritou o general
procurem-na imediatamente
mensagem urgente
a todos os comandos
encontrem-me essa bala
viva ou morta
está em causa a honra do nosso batalhão
a minha carreira
a minha condecoração
quem perde uma bala
também perde uma guerra
faça-se um inquérito
levante-se um auto
vírgula
palavras do general
convoque-se o conselho de guerra
cancelem-se todas as saídas
as licenças as guias de marcha
apaguem-se as luzes das casernas
constitua-se o tribunal militar
decrete-se o alerta geral
e o estado de sítio
em que sítio meu general
perguntou o alferes
aqui minha besta onde é que havia de ser
quero sentinelas reforçadas
até ordem em contrário está tudo proibido
excepto o que não está
que a filha da puta dessa bala
há-de aparecer
a senha é
cherchez la balle
e a contra-senha é
a contra-senha é sei lá
que se lixe
agora não há tempo para essas merdas

dias depois
a bala
foi finalmente encontrada

dentro da cabeça do soldado.

José Niza

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Meia-Noite Em Paris

Um qualquer frágil apreciador de cinema já viu pelo menos uma dezena de filmes de Woody Allen e eu não fujo à regra. Falamos de uma figura incontornável. Quando se escrever a história do cinema dos finais do século XX, inícios do século XXI, o seu nome será muito justamente referência obrigatória. Pessoalmente, gosto mais da sua faceta de argumentista e actor do que propriamente a de realizador, sendo que nele essas componentes são difíceis de dissociar. Mas habituei-me a vê-lo acima de tudo como um extraordinário contador de histórias.
Dos últimos filmes, reti o assombroso Match Point como ponto alto desta última fase da sua carreira. Curiosamente, filme passado em Londres. Nestas suas deambulações por grandes cidades europeias fixou-se desta vez na capital francesa. E este Meia-Noite em Paris, sem ser tão brilhante como o referido Match Point é filme de relevo que fica bem na cinematografia de Allen.
A estonteante ideia de grande parte da acção se passar nos loucos e prósperos anos 20 retira alguma carga da convencionalidade para que o filme podia facilmente caminhar. Até porque não se pode afirmar que o Realizador tenha inovado por aí além ao longo dos últimos anos. Como exemplo mais lapidar dessa feliz reconstrução histórica destaco as orientações deixadas a Luis Buñuel para aquilo que viria a ser o fio condutor do Anjo Exterminador que o realizador espanhol faria anos depois.
Com boas interpretações de Owen Wilson e Marion Cotillard – o primeiro sempre confortável num registo mais de comédia - Meia-Noite Em Paris é mais um filme bem conseguido (sem ser genial) na interminável lista de Woody Allen que conta ainda com as participações de Léa Seydoux, Carla Bruni, Michael Sheen, Kurt Fuller, Kathy Bates e Adrien Brody, o que vem provar que toda a gente quer trabalhar com ele.
Num certo sentido, ocorre-me que todos temos um pouco daquela nostalgia rebelde e daquela insatisfação permanente que Gil (o protagonista) tem. E o que sempre me agradou mais no Cinema do americano é precisamente essa visão desencantada do mundo…

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O Primeiro

O nosso Primeiro falou ao povo e o povo vai apertando o cinto até não haver mais furos.

Independentemente de tudo o resto, temos que admitir que Passos Coelho está confiante na forma como representa o papel. Para essa constatação contribuem sobremaneira dois factores:
- Passos sucede a alguém que, além de ter a imagem totalmente desgastada por anos difíceis de governação, tinha como característica mais relevante uma espécie de artificialidade mecânica. Sócrates assumia muitas vezes uma robotização quase doentia. Em contraste, a aparente humanidade de Passos valerá pontos enquanto as pessoas se lembrarem que existiu Sócrates;
- O facto de Seguro ter ganho as eleições no PS permite a Passos Coelho continuar sem grande oposição dentro do país. Esta ascensão do inenarrável António José Seguro no interior do partido socialista vem provar que é mesmo tudo possível em política. Talvez o parceiro Paulo Portas, a espaços e sorrateiramente, porque está nitidamente enfraquecido, possa cumprir com eficiência essa função.

Depois, falando do conteúdo da entrevista propriamente dito, o Primeiro-Ministro pouco tem a transmitir aos portugueses que justificasse ser ouvido. Diz que a Grécia é bem capaz de ir ao fundo. Admite pedir mais ajuda e privatizar por dá cá aquela palha. Diz que Jardim é um malandro, mas só agora há pouco tempo é que percebeu. Diz que a austeridade é inevitável e que se prolongará por mais tempo que previsto.
Mas o que eu gostava mesmo era que alguém lhe perguntasse porque corta a eito na Cultura, mantendo generais, coronéis, tanques e submarinos? E até aceito que haja mais investimento na Administração Interna. Estranho face à tendência geral, mas aceito, porque os Polícias trabalham em condições difíceis, mal pagos, e muitas vezes sem equipamento apropriado. Agora, a defesa? Para que serve mesmo um submarino ou um general no activo, senhor Primeiro-Ministro?...

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O Paraíso da Trafulhice

Debaixo da asa do Professor Cavaco repousam os escombros do regime. Quanto do défice da república (e já agora das actuais agruras do Povo) resulta das tropelias dos Oliveiras e Costas e Dias Loureiros no BPN e das aventuras de Jardim na Madeira?
Portugal é um paraíso para os difusores do Crime. Em vez de os castigar, dá-lhes prémios. Estão à espera de quê para promover turisticamente o reino da inimputabilidade? Sejam bem-vindos ao Éden das Vigarices….

Laços – Toranja

domingo, 18 de setembro de 2011

O Paradoxo

A Política que Jardim preconiza para a Madeira assemelha-se muito à trajectória seguida pelos países do ex-bloco comunista. Assenta precisamente nos mesmos fundamentos, por estranho que isto possa parecer.....

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O PREMAC

Depois do PRACE I e II, com resultados praticamente inexistentes aos olhos da opinião pública (parece que houve meia dúzia de funcionários da agricultura que foram considerados excedentários) chega agora o PREMAC, pomposamente designado com o Plano de Redução e Melhoria da Administração Central do Estado, que implica (dizem eles) uma redução de 38% de estruturas da administração central directa e indirecta. Sendo eliminados 1712 cargos (dizem eles) contribuindo todos os ministérios para esta razia.
Estava capaz de apostar que parte considerável das extinções de organismos públicos agora anunciadas, bem como parte considerável das chefias a reduzir, já estavam na prática extintas e esvaziadas de funções pelo anterior governo. Outra figura que os nossos Governantes gostam de evocar por tudo e por nada nos tempos que correm é a Fusão de Entidades. Sistema que funciona mais ou menos nos seguintes termos: de duas entidades, uma perde o nome e a respectiva personalidade jurídica, mas ambas continuam a funcionar nas mesmas instalações diferenciadas mantendo os mesmíssimos recursos podendo até, recorrendo a adjudicações externas, aumentar o custo com subcontratações diversas. É o emagrecimento à Portuguesa.

Independentemente destes jogos florais, existe alguém que continua a empreender porque o País precisa de investimento sensato, como aliás sempre foi seu apanágio:

Friedensreich Hundertwasser

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A Palermice

O Tozé subiu as escadas rodeado de assessores (para a comunicação, presumo) com o objectivo de, segundo ele, perceber como a comunicação social trabalhava, mostrando-se espantado com a parafernália de meios utilizado por jornalistas e técnicos num dos mais rocambolescos momentos televisivos dos últimos tempos. 
Nunca podemos afirmar que já vimos de tudo, mas esta original operação de charme do novo líder socialista deixou-me espantado. Quer dizer, um tipo que chegou onde chegou através de uma mera estratégia de marketing mediático não sabe como se processa e operacionaliza a informação? Este Seguro é a prova viva que há sempre alguém ainda mais idiota que o maior dos idiotas. Ainda hei de ver este Tozé perplexo ao perceber que existem telepontos e gajos que até sabem escrever discursos….

VOZ NUMA PEDRA

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal


Mário Cesariny

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A Saúde

Este Governo prepara-se a Passos largos para dar um valente safanão no Serviço Nacional de Saúde, que como se depreende facilmente, tem os dias contados. É hipócrita afirmar que é o seu fim, mas é também irrealista refutar a actual tendência para a degradação que, aliás, encobre uma gritante incongruência inconstitucional. Pode-se não gostar da mistura explosiva de um gestor rigoroso com provas dadas como Paulo Macedo e um ministério essencial para a sobrevivência e dignidade humana como a Saúde. A mim provoca-me especial pavor. Mas reconheço que num tempo de vacas esqueléticas foi das poucas cartadas inteligentes de Passos Coelho. O low profile de Macedo e os seus antecedentes na obtenção de resultados nos impostos permitem ir justificando, paulatinamente, perante o país algo que à partida seria injustificável. É o princípio do fim do Estado Social. A social-democracia deve ser isto….

With A Little Help From My Friends - Joe Cocker



Um original dos Beatles interpretado pelo eterno Joe Cocker...

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Os Modelos

Veraneantes estendidos nas toalhas de praia com os corpos ao sol. As únicas palavras trocadas servem para articular idas ao banho. Ou então saídas ao café para enganar o estômago. Têm corpos bonitos e vigorosos mas o cérebro permanece vazio...

Katsushika Hokusai

domingo, 4 de setembro de 2011

Os Mal-Amados

Hélder Postiga é por todos os motivos e mais algum um jogador fora do comum. Muito curiosamente, ou talvez não, tem sido também ao longo da carreira um autêntico agregador de ódios. O Sporting vendeu-o definitivamente ao Saragoça recebendo uns míseros 500 000 € quando o tinha comprado por 2 milhões e meio. É o negócio possível. Muito fraquito na perspectiva de estarmos perante um titular de uma prestigiada selecção nacional. Mas a verdade é que Postiga só muito ocasionalmente marca, e isso não é atractivo como cartão de visita de um qualquer ponta de lança.

Quanto a Djaló, ou à Floribela, como carinhosamente...é tratado em Alvalade é produto da casa mas tirando alguns fogachos ocasionais nunca soube ser consistente. Atendendo aos 25 anos de idade e aos custos inerentes à formação do jogador, os hipotéticos 4 milhões e meio por 75% do passe (valores ainda não confirmados) não se pode dizer que seja um negócio por ai além. O Nice vai pagar-lhe de ordenado uma exorbitância face ao que recebia em Alvalade. E esta mudança é boa para ele. E sempre foi um jogador com uma postura correcta, apesar de tudo. Boa sorte para ele, sendo que não acredito que singre de forma categórica.

Percebe-se agora claramente a insistência de Domingos, instruído pela direcção, na titularidade de Postiga e Djaló. Numa primeira fase pensei que a pressão para que tal acontecesse era evidente com o objectivo legítimo de valorizar os jogadores. Ultimamente, face a exibições tão confrangedoras dos jogadores, a sua repetida utilização já me parecia pura teimosia de Domingos. Conclusão que agora se percebe errada.
No entanto face aos resultados (perda de 7 pontos no campeonato em apenas 3 jogos) e às parcas quantias resultantes dos negócios a estratégia utilizada não foi a mais acertada. Obviamente que podemos sempre especular que caso não fossem actualmente titulares, o seu valor de mercado ainda seria menor. Mas atendendo às pobres exibições que rubricaram o que fica para a história é a irritação geral que foram provocando aos adeptos, e claro, os pontos perdidos para o Campeonato. Duque e Freitas parece saber o que estão a fazer, mas é natural que comece a haver uma desconfiança acerca da real capacidade da equipa...

O Palhaço


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O Tempo

O Tuga queixa-se pelas esquinas. Reclama que este Agosto foi fraquito. Que não houve bom tempo três dias seguidos. Que mesmo o Sol já não é o que era. Que a chuva estragou os planos.
A verdade, meus amigos, é que também devemos dinheiro ao São Pedro....

AURORA

A poesia não é voz – é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho da cada um, a expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:
voo sem pássaro dentro.

Adolfo Casais Monteiro