quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O Iberismo

A unificação política entre Portugal e Espanha, profetizada por José Saramago e amplamente rejeitada e censurada por todos, mais tarde ou mais cedo vai voltar à ordem do dia. Numa nova e inevitável Europa talvez a própria delimitação de fronteiras venha a ser posta em causa. Desde que se preserve a identidade cultural e o idioma, que se respeite os costumes locais, como acontece aliás em muitas das actuais regiões espanholas, é solução que não me levanta especial pavor. Agora, seria efectivamente um grande choque para alguns sectores. Que todavia traria vantagens competitivas aos mais diversos níveis, disso não tenho dúvidas.
Neste momento a questão só não está já nas bocas do mundo porque a economia espanhola também atravessa uma intensa crise, com reflexos muito visíveis ao nível do desemprego…

Alfred Gockel

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Smells Like Teen Spirit - Nirvana



Havia coisas que Jeremias não conseguia ficar indiferente. E aquele cesto de basket ao fundo consumia-o. Não porque alguma vez tivesse jogado basquetebol, mas porque este vídeo representava uma certa manifestação de niilismo que desde aí nunca foi verdadeiramente abandonado. Algo semelhante a uma exuberante consumação de uma utopia.
A Jeremias, até lhe vinha a lágrima ao olho, o que não significava objectivamente que fosse de lágrima fácil.

Jeremias brinda à saúde do camarada Kurt, onde quer que ele esteja….

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A Bicicleta

Jeremias assistia à desintegração social do País. Observava impávido a uma indignação que prometia florescer. Quem sabe, dar novos mundos ao mundo. Caso os senhores da Europa assim o permitam.
Agora, o Postiga marcar de bicicleta, isso é que era absolutamente inesperado e não lembrava nem ao Diabo… 

O Peixe

domingo, 16 de outubro de 2011

O Lunático

Era tão zeloso das suas obrigações contributivas que pedia recibo ao dealer do bairro quando comprava cocaína. O Dealer obviamente negava, utilizando uma fundamentação filosófica para o fazer. Entre outros argumentos, dizia que era um profissional da economia paralela. Só para lixar o lunático do Passos Coelho….

Esta Gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E dum tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A Ingovernabilidade

Alguém ainda acredita que este País tem solução e que é governável? Comecem a contar as semanas para o anúncio do segundo pacote de ajuda. A cova está cada vez mais funda e uma hipotética perda de parte da nossa soberania, poderá não ser tão irreal quanto isso a médio prazo. Acho piada aos iluminados que continuam a pedir a criminalização de Sócrates e dos seus pares. Então e as mentiras e as contínuas derrapagens de Passos Coelho? Nessa perspectiva, as cadeias não tinham espaço para tanto criminoso. Gerir mal o erário público é o desporto nacional de eleição. A Leviandade não tem limites...

Sangue do meu Sangue

Na sequência de uma já relevante obra anterior João Canijo traz-nos Sangue do meu Sangue. Reconheço “Ganhar a Vida” como ponto alto da carreira do realizador e numa segunda linha talvez “Sapatos Pretos” e “Noite Escura” como obras de referência. Canijo faz, sem pestanejar e com algum brilhantismo, verdadeiro cinema de autor. A sua obra segue um fio condutor interessantíssimo. Conta histórias de vida, com alma de marinheiro de águas profundas. Só não é um dos meus realizadores preferidos porque utiliza maioritariamente um realismo exacerbado onde a morte e o homicídio estão presentes em excesso, ao contrário do mago Mike Leigh, com quem muitas vezes é exageradamente comparado. Isto, apesar de utilizar um método de trabalho com os actores inspirado no enormíssimo Realizador inglês. 

O filme é totalmente preenchido pela mãe-coragem, Rita Blanco que enche o ecrã com o seu talento e acutilância. A sua carreira tem sido pautada pelos mais diversos papéis e tem especial inclinação para figuras tutelares. A sua experiência televisiva, que Canijo faz menção de demonstrar no próprio filme com o surgimento da voz de Rita Blanco a representar numa novela, é factor decisivo para a composição da personagem.
O filme tem alguns desequilíbrios. Assisti à sua versão longa. Canijo foi demasiado ambicioso. Quis ir longe demais face aos recursos que tinha ao dispor. O argumento tem fragilidades e algumas das interpretações ficam, na minha óptica, aquém do desejado.

Do ponto de vista puramente cinematográfico o mais relevante são as conversas cruzadas que o realizador faz questão de apresentar durante todo o tempo, como se simultaneamente decorressem dois filmes independentes. O espectador, apanhado de surpresa, num exercício curioso, segue a conversa que mais valoriza.
É também cativante no filme a perspectiva crua e extraordinariamente bem datada da Lisboa retratada pelo Bairro Padre Cruz em meados de 2010 com o mundial de futebol em pano de fundo. Poucas vezes, a cidade foi filmada com tal intensidade e pureza.

É acima de todas as possíveis apreciações um filme sobre o amor incondicional (feliz e inteligente expressão escolhida para a promoção do mesmo) de uma mãe pela sua filha, e de uma tia pelo seu sobrinho. Márcia (Rita Blanco) é a mãe solteira de Cláudia (Cleia Almeida) e Joca (Rafael Morais) e irmã de Ivete (Anabela Moreira). E de como elas estão dispostas a sacrificar tudo para os salvar.
Canijo consegue agarrar o espectador, deixando-o colado ao ecrã do princípio ao fim. Com um som notabilíssimo, é um filme com algumas lacunas, mas merece sem duvida o destaque que tem tido nos media…

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A TSU

Perderam-se horas e horas a dissertar sobre o assunto. Escreveram-se bíblias com diferentes teses sobre o tema. Havia inclusive correntes que, imagine-se, defendiam uma redução de 8 %. Passos Coelho fez dessa hipotética redução um dos seus mais marcantes compromissos eleitorais. Eu sempre estranhei tamanha generosidade. Agora, conclui-se o óbvio. Que não há margem nas contas do estado nem para diminuir uma migalha nos custos do trabalho. Nos impostos continuamos a ser incapazes de cortar. Pelos últimos desenvolvimentos, começa a ganhar forma a ideia de o País ser ingovernável. A derradeira esperança é acontecer algo semelhante ao que ocorreu com o Manchester City que foi comprado por um Árabe maluco cheio de pilim. O clube Inglês voltou a ser Grande…

Pierre Renoir

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Não Há Nada P'ra Ninguém - Mário Mata



O Hino nacional dos tempos modernos. Assenta-nos que nem uma luva. Retrata a verdadeira essência do ser português nos tempos que correm…

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A Maioria

Não percebo o nosso sistema eleitoral, os métodos que utiliza e a terminologia que lhe está associada. Em grande medida, serve para driblar os princípios inerentes à própria democracia que preconiza. Está obsoleto e carece também de reforma imediata.
Jardim ontem na Madeira, e Cavaco há meses na primeira volta das eleições presidenciais, foram eleitos com os votos expressos de menos de metade dos eleitores que compareceram nas urnas para exercer o seu direito. Utilizar em ambos os casos a expressão maioria absoluta é completamente estúpido. Utilizar a palavra maioria é deveras enganador. A Maioria não votou neles...

sábado, 8 de outubro de 2011

O Francisco

Francisco José Viegas, vulgo secretário de estado da cultura com c pequeno, diz que actualmente somente 36 % das entradas em museus é que são pagas, sendo as restantes gratuitas. Eu até acredito que actualmente a realidade seja essa. O que é inconcebível é que FJV assuma como objectivo que a curto-prazo essa proporção passe para 80 % numa medida que visa claramente um regresso ao passado, e em claro sentido contrário ao que cada vez mais é prática generalizada no mundo civilizado.
O país regride e de que maneira na cultura. Depois, porque gosto de me rir, mostrem-me por favor a evolução do número de visitantes dos museus nacionais dos próximos anos. Portugal caminha para a uma política de perpetuação da ignorância e ainda querem aplausos. É altura, antes de cairmos em definitivo no abismo, de chamarmos as coisas pelos nomes. Pactuar com isto é criminoso...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O Epitáfio

Aqui jaz um homem simples que viveu num mundo complexo...

Explicação detalhada que virá na brochura alusiva ao evento a ser entregue aos (às) alegres convidados (as):
Homem esse que também complicou muitas vezes o mundo onde viveu. Que quebrou promessas, fruto de circunstâncias várias. Que pecou muito desde cedo. Que foi muitas vezes injusto nos julgamentos que efectuou. Que levou sempre a ironia ao limite do aceitável. Que magoou pessoas que não mereciam ser magoadas. Que se colocou em situações completamente absurdas por culpa própria. Que meteu os outros em situações absurdas. Mas que foi sempre, sempre fiel ao lugar-comum da sinceridade, mesmo que para isso tenha de faltar à palavra que prometeu antes. E foi Humano, sempre!...

A Visão

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O Contabilista Melancólico

O título deste post foi usurpado a uma das últimas crónicas de Vasco Pulido Valente com quem partilho algumas opiniões, não muitas. Isto, porque o Mundo segue para um lado e VPV segue orgulhosa e solitariamente para o outro. No entanto, sempre que possível, não dispenso as suas cirúrgicas palavras.
Com o Contabilista Melancólico, Pulido Valente refere-se obviamente ao nosso Ministro das Finanças. E até nos vem a vontade de rever Vítor Gaspar a mastigar lentamente as palavras, a pesar meticulosamente a substância dos seus dizeres, a dissecar o alcance das suas preposições financeiras. É uma melancolia épica a do nosso Ministro. Um desencanto, sempre em crescendo, proporcional ao afundamento das nossas contas públicas. O Homem é o perfeito espelho do que representa. Este Gaspar é um Senhor….

Senhora de Londres escolhendo Limões

Não, nem todo o limão é amarelo quando
A mão de alguém o toca e humaniza, pequeno deus
Aos tombos do céu de um pensamento manual e
Exigente. Às vezes, quando a sede não é muita,
Um do fundo é erguido à altura do olhar e então,
Por mágica rotação da sorte que nos astros se reflecte,
Encontra uma outra luz na mão que o recebe e deposita
Em morada assaz prosaica e de plástico. Na vida,
A caminho do futuro que ele nunca saberá onde fica,
O limão continuará a ser inteiro
E o seu sumo continuará a ser sumo,
Pela mesma sábia razão por que a história dos homens
É sempre muito maior do que eles.

Rui Costa

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O Acordo Ortográfico

Não é discussão que me entusiasme por aí além, ou que me faça perder o sono. Mas em determinadas circunstâncias sou assaltado por uma dúvida metafísica: Porque é que um povo que no geral sempre escreveu mal (apesar de sermos um país de poetas, essencialmente frustrados) tem agora de seguir os trâmites do novo acordo como se fosse uma coisa absolutamente imprescindível e dela dependesse o futuro da humanidade?
Faz sentido numa determinada perspectiva? Aceito. Diminui gradualmente as assimetrias linguísticas existentes entre quem, para todos os efeitos, fala a mesma língua? É capaz de ser verdade. Agora obrigarem o Povinho, onde orgulhosamente me incluo, a escrever de certa forma a partir de determinada data é conversa de proxenetas insípidos. Preocupem-se em resolver os reais problemas das pessoas que falam a tal língua que tanto enaltecem…

domingo, 2 de outubro de 2011

A Nossa Vida

Um filme italiano com a realização de Daniele Luchetti que me agradou vivamente e cujo argumento reflecte na perfeição este conturbado mundo em que vivemos. É um filme com pessoas dentro, que permite recuperar algum do fulgor inerente ao bom cinema italiano.
Claudio e Elena vivem num bairro periférico de Roma com dois filhos e esperam um terceiro. Ele trabalha na construção civil e ela é mãe a tempo inteiro. Uma inesperada tragédia vem alterar tudo.
O que mais me parece de destacar é a crítica social subjacente. Uma caricatura daquela Itália que vive ostensivamente com base na imagem e valoriza o parecer em detrimento do ser. Com alguma xenofobia implícita, também. É curioso como Italianos e Portugueses, apesar de viverem em realidades muito distintas, passeiam tranquilamente pelos mesmos trilhos de hipocrisia.
Este drama esteve em competição pela Palma de Ouro na edição de 2010 do Festival de Cannes, onde Elio Germano arrebatou o prémio de melhor actor. Independentemente disso, não acho que estejamos perante um filme de grandes actores e de grandes interpretações. Aliás, apesar da evitável redenção final, não consigo simpatizar com Claudio...