quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Os Culpados

A Crise, como nunca antes vista por esta geração que está agora na flor da vida, veio levantar a questão que assombra o país. Quem são mesmo os culpados do triste estado a que chegamos? Existem tertúlias à volta do tema. Diferentes perspectivas que visam reflectir sobre as reais causas da problemática.
Relegando os fanatismos partidários para o lugar que merecem - a obscuridade – importa perceber os reais alcances da coisa: Portugal é um pequeno país periférico que funcionou sempre por reacção à conjuntura económica internacional. A crise na Europa rebentou, e face aos interesses fortemente instalados e à nossa histórica dependência, caímos que nem patinhos no lamaçal. Fomos incapazes de nos prepararmos para o que aí vinha, mergulhados na ilusão de uma vida a crédito, valorizando o hoje e esquecendo o amanhã. Começando pelo próprio Estado que se endividou como se fosse um país poderoso que manifestamente não é.

E quem contribuiu politicamente para isto, ou seja quem são os principais culpados?
Começando pelo “princípio”, Cavaco Silva, o nosso professor (não meu) beneficiou de invulgares e apelativas condições para reformar Portugal. Os seus principais defensores sempre se agarraram à ideia que as suas políticas seriam valorizadas e até endeusadas a longo-prazo. Pois bem, Cavaco em tudo o que era estratégia de relevo para a sustentabilidade do país errou. Desde a fraudulenta aplicação de fundos comunitários sem supervisão, à excessiva e deficitária política do betão e auto-estradas, passando por um modelo de educação entregue aos privados sem ligação às necessidades da economia, Cavaco foi quem mais cavou a sepultura. Por outro lado, a única estratégia que levou a bom porto com inegável sucesso e calculismo, foi a da sua carreira política.
Depois de Cavaco houve Guterres que viveu num prolongado estado de graça, nunca antes visto. Deixou algumas marcas positivas na Saúde, no Ambiente e até na Cultura. Aumentou, imagine-se, os funcionários públicos em quase 5 % só num ano e continuou o desbarato de dinheiros públicos em auto-estradas e afins. Nada me move contra as auto-estradas e a necessária mobilidade para os territórios localizados no interior. Agora, o investimento deveria ter sido mais comedido e repartido por outras áreas. Por exemplo, ao nível das linhas-férreas. Guterres alimentou também uma empregabilidade fictícia, meramente estatística, tão frágil que deu no que deu. Foi incapaz de valorizar políticas económicas que fomentassem mais indústria. Do que nos serve ter auto-estradas que ligam ao interior, se depois não há lá empregos, e há lá cada vez menos pessoas como demonstram os Censos de 2011? O mesmo se passa com outras infra-estruturas criadas que andam por aí ao abandono, não só na fantasiosa ilha de Jardim. O mais recente é o aeroporto de Beja, que só faz sentido para os autarcas locais e para os 2 ou 3 empresários que têm ali negócios. Por mais que nos custe admitir, é esta a realidade do Portugal que foi ganhando forma ao longo do tempo.
Durão Barroso foi o mais inteligente de todos, reconheça-se. No meio do pântano que começava a alargar-se, serviu-se do País para alcançar a sua cadeira de sonho. E de Santana Lopes, nem vale a pena falar, tal o absurdo da sua actuação. A sua inarrável ascensão ao poder simplesmente serviu para humilhar ainda mais o nosso amargurado ego.
De Sócrates, já tudo foi escrito. Conseguiu incrementar algumas boas práticas. Fez um bom diagnóstico dos problemas reais mas, asfixiado por uma sociedade mediática que com laivos de intolerância sempre pretendeu controlar, enterrou-se com o declínio definitivo das contas públicas e com a necessidade de o país clamar por um bode expiatório para o assalto vigente às suas carteiras.
Presentemente temos Passos Coelho. Este, na ânsia de chegar ao poder, pressionado pelas suas hostes, comprometeu-se com coisas que não devia. Essas incongruências vão inevitavelmente persegui-lo até ao fim da legislatura, até porque Paulo Portas, já percebeu, que vai acabar por ganhar com o pobre e subalterno papel que lhe foi determinado na coligação. Não tenho dúvidas que Passos hoje ganharia as eleições novamente. O seu discurso coberto de alguma autenticidade beneficia de um Seguro que inexiste (foi invenção não se sabe muito bem de quem, talvez do próprio) e de uma atávica resignação dos portugueses que Passos Coelho tenta eficazmente alimentar. A última cartada é a do fatal empobrecimento da população. Tem dado, até com alguma surpresa para mim, alguns sinais de liderança. Escolheu alguns bons ministros, errando contudo em algumas pastas fulcrais como a Economia. Com a apresentação do orçamento para 2012 cumpriu alguma da cartilha imposta pelo seu liberalismo ao privatizar em larga escala a Cultura, institucionalizando a estupidificação do Povo.

Em síntese, os culpados somos todos. Pactuamos em relativo silêncio com as políticas que nos desgovernaram. Pedir a criminalização dos governantes por terem tomado opções erradas, tem tanto de inverosímil, como de tacanho. Agora sem dúvida, que há uns que são mais culpados que outros. Quer ao nível da responsabilidade efectiva pela governação, quer pela legitimidade democrática que lhes foi proporcionada. Eu, dos acima referidos, só votei num, e uma só vez: Em Guterres, no primeiro mandato, porque era imprescindível ver-me livre do autoritarismo pacóvio do professor cavaco...

O Corredor

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A Caça às Bruxas

A Caça às Bruxas ainda agora vai no adro, mas está a começar bem. Como é possível gente que ganhou prestígio e notoriedade ao serviço do país, e depois foi ganhar balúrdios para o privado, continuar a receber pensões vitalícias do Estado? É simples. Basta pedir-lhes a declaração de IRS e estabelecer níveis de rendimento para estipular se tem ou não esse direito. Atenção, que eu até concordo que possa haver quem, depois de terminadas as suas funções e em caso de serviços relevantes, possa ter direito a uma pensão estatal. Agora, o que é inconcebível é somar essa pensão a montantes exorbitantes que possam auferir no privado. Muitas vezes, como resultado de relações promíscuas estabelecidos quando eram servidores do Estado. Nesses casos, mais uma vez, prova-se que o crime neste país à beira-mar plantado tem compensado…

O Pessoa

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo…

Fernando Pessoa

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O Álvaro

O Amigo Álvaro da Economia deverá perceber assim, finalmente, onde se veio meter. Desde já registo que o seu suicídio não é para mim a melhor opção. Sugiro que emigre, de preferência para o Canadá, onde segundo o que consta era feliz...
Este Portugal, dos dias que correm, é só rir....

Uivo

Em 1956, Allen Ginsberg lança o livro de poesia "Howl and Other Poems" - um ano antes de Kerouac pôr cá pra fora o lendário “On the Road” - e estabelece os alicerces daquilo que ficaria para a história como a Geração Beat que antecedeu os loucos anos 60. A narrativa segue o decorrer do julgamento que a editora da obra (a célebre City Lights Books de San Francisco) foi sujeita acusada de promover a obscenidade.

James Franco interpreta de forma soberba o jovem Allen Ginsberg, neste filme realizado pela dupla Jeffrey Friedman e Rob Epstein. Na sua faceta mais estimulante, o filme assenta numa entrevista ficcionada ao escritor intercalada com a declamação da poesia pelo próprio numa muitíssimo bem interpretada sessão de apresentação do livro maldito.

Para muitos, este simples livro de Ginsberg, que morreu com 70 anos em 1997, foi o embrião para o movimento hippie e para todas as revoluções que se seguiram. Só por esse interesse histórico vale a pena ver, ler e ouvir as poderosas palavras deste “Uivo” de Ginsberg…


Eu vi os expoentes da minha geração destruídos
pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de
madrugada em busca uma dose violenta de qualquer coisa
"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo
antigo contacto celestial com o dínamo estrelado da
maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e
olheiras fundas, viajaram fumando sentados na
sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos
sem água quente, flutuando sobre os tectos das
cidades contemplando jazz, que desnudaram os seus
Cérebros ao céu sob o Elevador e viram anjos maometanos
cambaleando iluminados nos telhados das casas dos
cómodos que passaram por universidades com olhos frios
e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de
William Blake entre os estudiosos da guerra, que
foram expulsos das universidades por serem loucos
& publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura
descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro
em cestas de papel, escutando o Terror
através da parede.

Allen Ginsberg (tradução brasileira)

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O Iberismo

A unificação política entre Portugal e Espanha, profetizada por José Saramago e amplamente rejeitada e censurada por todos, mais tarde ou mais cedo vai voltar à ordem do dia. Numa nova e inevitável Europa talvez a própria delimitação de fronteiras venha a ser posta em causa. Desde que se preserve a identidade cultural e o idioma, que se respeite os costumes locais, como acontece aliás em muitas das actuais regiões espanholas, é solução que não me levanta especial pavor. Agora, seria efectivamente um grande choque para alguns sectores. Que todavia traria vantagens competitivas aos mais diversos níveis, disso não tenho dúvidas.
Neste momento a questão só não está já nas bocas do mundo porque a economia espanhola também atravessa uma intensa crise, com reflexos muito visíveis ao nível do desemprego…

Alfred Gockel

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Smells Like Teen Spirit - Nirvana



Havia coisas que Jeremias não conseguia ficar indiferente. E aquele cesto de basket ao fundo consumia-o. Não porque alguma vez tivesse jogado basquetebol, mas porque este vídeo representava uma certa manifestação de niilismo que desde aí nunca foi verdadeiramente abandonado. Algo semelhante a uma exuberante consumação de uma utopia.
A Jeremias, até lhe vinha a lágrima ao olho, o que não significava objectivamente que fosse de lágrima fácil.

Jeremias brinda à saúde do camarada Kurt, onde quer que ele esteja….

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A Bicicleta

Jeremias assistia à desintegração social do País. Observava impávido a uma indignação que prometia florescer. Quem sabe, dar novos mundos ao mundo. Caso os senhores da Europa assim o permitam.
Agora, o Postiga marcar de bicicleta, isso é que era absolutamente inesperado e não lembrava nem ao Diabo… 

O Peixe

domingo, 16 de outubro de 2011

O Lunático

Era tão zeloso das suas obrigações contributivas que pedia recibo ao dealer do bairro quando comprava cocaína. O Dealer obviamente negava, utilizando uma fundamentação filosófica para o fazer. Entre outros argumentos, dizia que era um profissional da economia paralela. Só para lixar o lunático do Passos Coelho….

Esta Gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E dum tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A Ingovernabilidade

Alguém ainda acredita que este País tem solução e que é governável? Comecem a contar as semanas para o anúncio do segundo pacote de ajuda. A cova está cada vez mais funda e uma hipotética perda de parte da nossa soberania, poderá não ser tão irreal quanto isso a médio prazo. Acho piada aos iluminados que continuam a pedir a criminalização de Sócrates e dos seus pares. Então e as mentiras e as contínuas derrapagens de Passos Coelho? Nessa perspectiva, as cadeias não tinham espaço para tanto criminoso. Gerir mal o erário público é o desporto nacional de eleição. A Leviandade não tem limites...

Sangue do meu Sangue

Na sequência de uma já relevante obra anterior João Canijo traz-nos Sangue do meu Sangue. Reconheço “Ganhar a Vida” como ponto alto da carreira do realizador e numa segunda linha talvez “Sapatos Pretos” e “Noite Escura” como obras de referência. Canijo faz, sem pestanejar e com algum brilhantismo, verdadeiro cinema de autor. A sua obra segue um fio condutor interessantíssimo. Conta histórias de vida, com alma de marinheiro de águas profundas. Só não é um dos meus realizadores preferidos porque utiliza maioritariamente um realismo exacerbado onde a morte e o homicídio estão presentes em excesso, ao contrário do mago Mike Leigh, com quem muitas vezes é exageradamente comparado. Isto, apesar de utilizar um método de trabalho com os actores inspirado no enormíssimo Realizador inglês. 

O filme é totalmente preenchido pela mãe-coragem, Rita Blanco que enche o ecrã com o seu talento e acutilância. A sua carreira tem sido pautada pelos mais diversos papéis e tem especial inclinação para figuras tutelares. A sua experiência televisiva, que Canijo faz menção de demonstrar no próprio filme com o surgimento da voz de Rita Blanco a representar numa novela, é factor decisivo para a composição da personagem.
O filme tem alguns desequilíbrios. Assisti à sua versão longa. Canijo foi demasiado ambicioso. Quis ir longe demais face aos recursos que tinha ao dispor. O argumento tem fragilidades e algumas das interpretações ficam, na minha óptica, aquém do desejado.

Do ponto de vista puramente cinematográfico o mais relevante são as conversas cruzadas que o realizador faz questão de apresentar durante todo o tempo, como se simultaneamente decorressem dois filmes independentes. O espectador, apanhado de surpresa, num exercício curioso, segue a conversa que mais valoriza.
É também cativante no filme a perspectiva crua e extraordinariamente bem datada da Lisboa retratada pelo Bairro Padre Cruz em meados de 2010 com o mundial de futebol em pano de fundo. Poucas vezes, a cidade foi filmada com tal intensidade e pureza.

É acima de todas as possíveis apreciações um filme sobre o amor incondicional (feliz e inteligente expressão escolhida para a promoção do mesmo) de uma mãe pela sua filha, e de uma tia pelo seu sobrinho. Márcia (Rita Blanco) é a mãe solteira de Cláudia (Cleia Almeida) e Joca (Rafael Morais) e irmã de Ivete (Anabela Moreira). E de como elas estão dispostas a sacrificar tudo para os salvar.
Canijo consegue agarrar o espectador, deixando-o colado ao ecrã do princípio ao fim. Com um som notabilíssimo, é um filme com algumas lacunas, mas merece sem duvida o destaque que tem tido nos media…

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A TSU

Perderam-se horas e horas a dissertar sobre o assunto. Escreveram-se bíblias com diferentes teses sobre o tema. Havia inclusive correntes que, imagine-se, defendiam uma redução de 8 %. Passos Coelho fez dessa hipotética redução um dos seus mais marcantes compromissos eleitorais. Eu sempre estranhei tamanha generosidade. Agora, conclui-se o óbvio. Que não há margem nas contas do estado nem para diminuir uma migalha nos custos do trabalho. Nos impostos continuamos a ser incapazes de cortar. Pelos últimos desenvolvimentos, começa a ganhar forma a ideia de o País ser ingovernável. A derradeira esperança é acontecer algo semelhante ao que ocorreu com o Manchester City que foi comprado por um Árabe maluco cheio de pilim. O clube Inglês voltou a ser Grande…

Pierre Renoir

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Não Há Nada P'ra Ninguém - Mário Mata



O Hino nacional dos tempos modernos. Assenta-nos que nem uma luva. Retrata a verdadeira essência do ser português nos tempos que correm…

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A Maioria

Não percebo o nosso sistema eleitoral, os métodos que utiliza e a terminologia que lhe está associada. Em grande medida, serve para driblar os princípios inerentes à própria democracia que preconiza. Está obsoleto e carece também de reforma imediata.
Jardim ontem na Madeira, e Cavaco há meses na primeira volta das eleições presidenciais, foram eleitos com os votos expressos de menos de metade dos eleitores que compareceram nas urnas para exercer o seu direito. Utilizar em ambos os casos a expressão maioria absoluta é completamente estúpido. Utilizar a palavra maioria é deveras enganador. A Maioria não votou neles...

sábado, 8 de outubro de 2011

O Francisco

Francisco José Viegas, vulgo secretário de estado da cultura com c pequeno, diz que actualmente somente 36 % das entradas em museus é que são pagas, sendo as restantes gratuitas. Eu até acredito que actualmente a realidade seja essa. O que é inconcebível é que FJV assuma como objectivo que a curto-prazo essa proporção passe para 80 % numa medida que visa claramente um regresso ao passado, e em claro sentido contrário ao que cada vez mais é prática generalizada no mundo civilizado.
O país regride e de que maneira na cultura. Depois, porque gosto de me rir, mostrem-me por favor a evolução do número de visitantes dos museus nacionais dos próximos anos. Portugal caminha para a uma política de perpetuação da ignorância e ainda querem aplausos. É altura, antes de cairmos em definitivo no abismo, de chamarmos as coisas pelos nomes. Pactuar com isto é criminoso...