sábado, 26 de novembro de 2011

O Derby do Povo

Hoje é dia de Benfica-Sporting. Hoje é dia do Derby dos Derbys. De há uns anos para cá, com a explosão futebolística do Porto, os duelos entre portistas e benfiquistas talvez se tenham tornado mais intensos. Mas o verdadeiro derby do futebol português, o que exacerba mais as emoções dos adeptos, nunca deixou de ser este. Clubes que vivem separados por apenas umas centenas de metros, partilham umas das mais belas cidades do mundo. De um lado vermelhos de ardor, do outro lado verdes de esperança. Hoje é dia de emoção, picardias várias e cafés a abarrotar com gritos efusivos por tudo o mundo português. Hoje é dia de casos de arbitragem e espectáculo garantido. Hoje não se fala de outra coisa. No fim, qualquer que seja o resultado, continuarão as rivalidades, as discussões e as provocações entre colegas, amigos e vizinhos. Hoje é dia de Paixão em Portugal. A Crise que se lixe. Os mercados que se danem. Hoje é dia do ópio do povo. Hoje é dia de Derby…

Tema do Melancómico – B Fachada



Numa interpretação muito bem regada...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O Desconforto

Jeremias sempre sentiu admiração por quem chama as coisas pelos nomes. Talvez fosse uma questão de identificação pessoal. Inúmeras vezes se sentiu prejudicado por essa idiossincrasia que gostava de alimentar. Mas estranhamente, talvez porque vivia numa sociedade de pacotilha, havia verdades que lhe provocavam um inesperado desconforto...

A Borboleta

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A Banca

O capitalismo selvagem dos tempos modernos mergulhou a sociedade num ciclo vicioso que demorará anos a ser invertido. Portugal endividou-se à custa das campanhas dos principais bancos que ofereciam dinheiro a quem lhes entrasse pela porta, muitas vezes nem era preciso tanto, bastava um telefonema. Obviamente que os banqueiros enriqueceram imenso à conta disso e sobredimensionaram as instituições que lideram a um volume de negócios que não era sustentável a longo-prazo. Ao mesmo tempo, financiavam as famosas parcerias público-privadas, ficando credores em muitos milhões do próprio Estado. Com o sistema em declínio como resultado da deterioração dos tais “mercados” que os Banqueiros idolatravam, e com o avolumar da pressão internacional para que os rácios financeiros do sistema bancário apresentem valores razoáveis de solvabilidade, a Banca portuguesa está entre a espada e a parede. Convém também salientar que os principais bancos empregam milhares e milhares de pessoas para os quais pura e simplesmente vai deixar de haver trabalho. É impossível fugir a esta realidade, porque o crescimento dos bancos foi sendo construído debaixo de alicerces frágeis, frágeis como uma bola de neve. Semearam a ilusão de uma vida de sonho aos clientes e agora pagam o preço. O facilitismo acaba sempre mal.
A tendência, a começar pelo fundo de pensões dos bancários, é os recursos humanos da banca passarem gradualmente para a esfera pública, o que torna todo este jogo de interesses ainda mais surreal para o bolso do contribuinte.
Recapitalizar a banca sem contrapartidas, resolveria alguns problemas da Economia a curto-prazo, mas provavelmente o problema de fundo manter-se-ia e até se agravaria. Convém também esclarecer que nem todos os banqueiros são iguais a Oliveira e Costa e nem todos os bancos são o BPN. Existe ainda algum fundo de responsabilidade em alguns dos poderosos. Aliás em França e nos Estados Unidos alguns dos milionários até acham que devem pagar mais impostos.
Resumindo, os banqueiros beneficiaram de uma pervertida supervisão por parte do Estado para crescerem e multiplicarem dividendos. Em contrapartida, financiavam investimentos públicos que permitiram algumas realizações ao País. Com a explosão da crise, nem o Estado tem condições para amortizar os avultados financiamentos que a banca lhe concedeu, nem os bancos têm margem para libertar capital para revitalizar a economia.
O Mundo muda cada vez mais depressa...

Lisboa, Calçada de S. Francisco

Subindo pelas cinco horas a Calçada de S. Francisco,
em tarde de bruma e versos na Calçada de S. Francisco,
partindo do que não sei na Calçada de S. Francisco,
e sabendo onde não chego na Calçada de S. Francisco,
subindo na tarde deserta a Calçada de S. Francisco,
só eléctricos e pombas na Calçada de S. Francisco,
estranhando o que não estranho na Calçada de S. Francisco,
e pensando no que não penso na Calçada de S. Francisco,
subindo pelas cinco horas a Calçada de S. Francisco,
subindo e ninguém descendo a Calçada de S. Francisco,
sem eventos para as metáforas na Calçada de S. Francisco,
tiro do bolso a própria tarde.
Na Calçada de S. Francisco,
onde a realidade mudou e já nada acontece,
e já não é a Calçada de S. Francisco mas a Rua Ivens
ou outra rua do Chiado sem meditação ou moralidade.

Pedro Mexia

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O Lima

Duarte Lima foi detido por estar associado às negociatas do BPN que nos continuam a custar os olhos da cara. Depois de Oliveira e Costa e Dias Loureiro, a entourage do professor Cavaco continua a dar cartas no Europeu da trafulhice…

O Infante

Francisco José Viegas demitiu Diogo Infante da Direcção artística do D. Maria II. Pode-se discordar profundamente das prioridades políticas estabelecidas pelo Governo, e eu discordo, como já escrevi aqui mais que uma vez, mas não posso deixar de salientar pela positiva a prontidão da resposta do Secretário de Estado. Sem hipocrisias pelo meio, e perante uma figura a todos os níveis consensual como é Diogo Infante, Francisco José Viegas fez o que um Governante responsável tem que fazer…

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

War In Peace - Wim Wenders

Na continuação da apresentação das curtas que integraram “cada um o seu cinema”, filme comemorativo dos 60 anos do festival de Cannes, deixo a participação do dinossauro Wim Wenders através de uma apaixonada e desconcertante visão da vida em Kabalo, cidade situada na republica democrática do Congo, depois de terminada uma guerra que causou 5 milhões de mortes…

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O Assador

Portugal joga amanhã com a Bósnia partida decisiva no apuramento para o próximo Europeu. O empate a zero em terras bósnias não é bom, como muita da imprensa insinua, nem é mau. Deixa tudo em aberto para decidir amanhã na luz contra uma equipa que também tem os seus trunfos, num jogo onde certamente haverá golos para ambos os lados.

Cristiano Ronaldo é um extraordinário futebolista, um grandíssimo profissional, um jogador do mais completo que vi jogar e que tem o azar de ser contemporâneo de Messi. Mas as suas intervenções deviam ficar única e exclusivamente restritas ao relvado porque já demonstrou várias vezes que tem dificuldades em lidar com situações de extrema pressão. É humano, é verdade, mas não pactuo com uma certa condescendência que existe face aos seus actos e palavras. Aliás, Gilberto Madaíl levou a selecção a patamares talvez impensáveis há décadas atrás, mas aquela postura tão pacóvia de actuar sempre de acordo com as conveniências do momento, fazem da sua despedida uma extraordinária notícia para o futebol português. A actual Federação Portuguesa de Futebol é desde há muito o reflexo do pior que existe na Sociedade Portuguesa.

Paulo Bento, um homem que me levou quase ao desespero em Alvalade, tem algumas boas características de liderança e de carácter. Ao nível táctico, continua limitado, mas tem de facto um discurso motivador para as tropas. Os afastamentos de Bosingwa e Ricardo Carvalho, em casos em que todos têm parte da razão e em que faltou bom senso e flexibilidade na gestão, provam que o facto de ser boa pessoa, um tipo integro, com coluna vertebral como manifestamente é, pode não resultar necessariamente num bom treinador de futebol. Tem a carne no assador, muito por culpa própria…

Joan Miró

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O Lego

Jeremias comparava o declínio do estilo de vida ocidental com o desmoronar de um lego nas mãos de uma fascinada criança. Nação a Nação, peça a peça. Com uma pequeníssima diferença: até ver, a felicidade das crianças ainda não paga juros...

Balada da Rita – Sérgio Godinho

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

As Diferenças

Depois da renúncia de Papandreou na Grécia, segue-se a de Berlusconi em Itália. É uma boa notícia para a Humanidade mas má para a Europa porque significa que os mercados começam também a castigar os países mais poderosos, o que dificultará a recuperação global. Obviamente que a crise em Itália nunca assumirá as proporções da Portuguesa. Apesar de no carácter portugueses e italianos não serem tão diferentes quanto isso, em termos económicos as realidades são muitíssimo distintas. Itália possui uma Indústria visível e vigorosa bem como uma administração pública, no geral, eficaz. Para perceber isso, basta comparar a celeridade de decisão dos tribunais de ambos os países. Isaltino, Vara e outros que tais, escolheram muito bem o país onde viver…

A Manhã

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A Décima Jornada

Ontem houve estrelinha de campeão em Alvalade e isso pode ser muito bom sinal. O resultado justo talvez fosse o empate neste encontro com a União de Leiria. Aliás, a interrupção para os jogos da selecção vem na melhor altura para recuperar a espinha dorsal da defesa. A estrela de Domingos que se mantenha por muito tempo. A entrada do puto Tiago Ilori a central foi uma decisão medonha. Jogamos com 10 a maior parte do tempo. É uma posição demasiado crucial para tão grande risco. Face às inúmeras indisponibilidades, a melhor opção para mim seria ter metido a central Evaldo que, apesar de todos as limitações técnicas é um jogador experiente e relativamente rápido, puxando o versátil Pereirinha (a sua melhor característica, talvez a única) para defesa-esquerdo. Mas o que interessa é a conquista dos 3 pontos, e o objectivo está alcançado num jogo onde era imperioso ganhar.

Em Janeiro na minha óptica de treinador de bancada devíamos contratar um central (essencial) e mais um desequilibrador lá para a frente. Isto, partindo do princípio que Rinaudo - lesionado recentemente - estará disponível em Janeiro. A época é longa e a propensão que este plantel tem para lesões obriga à existência de mais alternativas. A verdade é que houve jogadores que vieram a preço de saldo, tais como Jeffrén, Bojinov e Luís Aguiar (que já foi à sua vida) derivado ao facto dos próprios clubes vendedores duvidarem da sua consistência física.
Jeffrén e Izmailov, sejamos claros, só os veremos a espaços. Já me convenci disso. Mas esperemos que possam ainda ser importantes porque são belíssimos jogadores e bastante competitivos. Aliás, o que me preocupa mais é que temos contratos válidos por vários anos com ambos.
Relativamente a Bojinov, parece-me um jogador sabido e manhoso QB, mas algo lento. Faz-me lembrar o Acosta da primeira época. Mas como já não tem grande valor de mercado temos de tentar aproveitar ao máximo a sua experiência, até porque tem um bom espírito de equipa.
Acredito que André Carrillo e Diego Rubio ainda possam rebentar esta época. O primeiro tem deixado algumas boas indicações e o segundo não tem estado ao nível demonstrado na pré-epoca. Talvez o emprestado Wilson Eduardo que está a fazer uma boa época no Olhanense e na Selecção de Sub 21 possa também vir a ser mais uma solução disponível para a frente.
Elias começa-me, aos poucos, a convencer. Com a bola nos pés não é muito dotado, mas é inteligente na forma como aproveita os espaços concedidos pelas defesas contrárias.
A aposta em jogadores holandeses tinha tudo para dar certo. Schaars é patrão mais pela atitude. Tem que começar a brilhar nas bolas paradas, o que não tem acontecido. Mas a minha predilecção no actual plantel vai toda para o jovem de 22 anos, Rick Van Wolfswinkel. O Sporting que lhe melhore as condições salariais daqui a uns meses e suba a respectiva cláusula de rescisão. É jogador completo que tem todas as características que fazem um ponta de lança valer dinheiro a sério. É frio, letal, jogador de equipa, tem margem de progressão e joga sempre com o descomplicador (palavra que nem sequer existe, acabei de inventar) ligado.

Estarmos a um ponto da frente no fim do primeiro terço do campeonato é animador. Se vencermos ao Porto em casa, e empatarmos na Luz, começamos a ser encarados de outra forma. E a equipa deverá estar preparada para isso.
O Porto é líder sem derrotas e sem jogar absolutamente nada. No início teve os habituais empurrões amigos, e ultimamente vai sobrevivendo (até com goleadas) sem se perceber muito bem como. Nesta fase, pelo que não joga, seria normal já estar atrás do Sporting, mas é a classificação que temos e não podemos menosprezar a sua condição. Se ficarem fora das competições europeias cedo, como acho que irá acontecer, vão tentar a tudo o custo revalidar o título, com ou sem Vítor Pereira.
O Benfica tem um plantel recheado de bons jogadores, superior ao nosso. Não pondo em causa a competência técnico/táctica de Jorge Jesus, porque essa é inquestionável, possui um discurso de uma pobreza confrangedora que mistura arrogância com imbecilidade a rodos. Ao fim de 3 meses duvido que os próprios jogadores não estejam completamente saturados dele e das suas surreais palestras, mas que tem opções em catadupa, isso tem.

Domingos tem gerido bem o balneário. As saídas cirúrgicas de Postiga e Djaló facilitaram as opções. Aos 76 minutos de Paços de Ferreira já tinha a cabeça no prego, mas tem sabido através de uma serenidade inspiradora liderar o balneário, apoiado numa direcção que sabe o que quer e para onde caminha.
No fim da primeira volta depois de jogarmos com Benfica, Porto e Braga já deve dar para ter uma ideia mais precisa do que pode fazer este Sporting no campeonato, mas que eu acredito, acredito…

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Último Romântico

Georgios Papandreou teve na Grécia uma ascensão sinistra num país que vive dominado pela hegemonia de duas famílias. Durante a actual crise europeia, despoletada em grande parte em território grego, nunca negou as evidências e nunca fugiu às suas responsabilidades. Curiosamente, vai sair de cena como o último Governante de verdadeira dimensão na política europeia. A Democracia na actual europa é encarada como um Romantismo sem sentido…

Mas que sei eu

Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha
qualquer. Mas eu sei que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha

Ruy Belo

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Linha de Passe

Linha de Passe é um filme de 2008 dos Realizadores Walter Salles e Daniela Thomas que somente agora visionei. O Argumento é de Bráulio Mantovani e George Moura. É um belíssimo filme. Altamente recomendável, e que mostra que existe fora dos circuitos comerciais das tropas de elite e afins, cinema de qualidade criado por Brasileiros com vista para o Mundo.
O filme narra a história de quatro meio-irmãos que habitam em Cidade Líder localizada na periferia de São Paulo. Vivem com a ausência de um pai e lutam pelos sonhos que perseguem insistentemente. São todos filhos de Mãe solteira que se encontra novamente grávida. Mulher que ama os seus filhos e que gosta de beber, não mantendo qualquer relacionamento com nenhum dos pais dos rapazes. Um deles, Dário, vê no seu talento como jogador de futebol a esperança de uma vida melhor, tal como acontece com milhares e milhares de jovens brasileiros. Um outro, o mais novo, adora conduzir autocarros e procura incessantemente o Pai. Um terceiro, vive entre as interrogações da fé, mergulhado na vida real. E um último que já é Pai, tende para uma vida criminosa, na ânsia de proporcionar meios de subsistência ao seu filho recém-nascido.
É uma história de vidas sobressaltadas, guiada por uma câmara competente que traz identidade e sustentabilidade ao drama. E é o retrato cruel de uma sociedade que vive no fio da navalha.
No fim tudo o que pode correr mal, acaba por correr mal. Numa cidade sufocante como São Paulo em que sobreviver é o único verbo a conjugar…