quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A Selva

Jeremias sabia que habitava uma selva onde os animais, devido à escassez de alimento, eram cada vez mais ferozes. Os princípios éticos, qualquer que seja a circunstância, andavam pelas ruas da amargura.
Jeremias, se fosse possível, qual Woody Allen da Bobadela, emigraria para o princípio do século XX. Jeremias era da opinião que ao Euro devia suceder o Cruzado e que Merkel como Rainha do Império devia usar aqueles vestidos faustosos. O problema é que chegando lá, Jeremias não poderia postar o que lhe viesse à cabeça, ver o cinema que o arrebata, presentear-se com os comodismos que devassam a contemporaneidade. O melhor que Jeremias tinha a fazer era adaptar-se ao reino animal e escudar-se com armas e armaduras porque a vida na Selva não é pra meninos….

O Ilusório

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O Excedente

Passos Coelho descobriu debaixo do tapete um excedente de dois mil milhões para injectar na economia. Estamos a entrar numa quadra marcada pela fantasia e o nosso Primeiro gosta de brincar com os palhaços que vão no comboio ao circo. A leviandade neste governo vai subindo de tom e antevejo grandes concretizações em 2012 a esse nível. Portugal tem um grupo complicado. O Sorteio foi azarento. Mas temos jogadores de qualidade que nos podem trazer o caneco de campeões da europa da Demagogia….

POST-CARD (Os velhos, os pombos, os gatos)

Alguns habitantes queixam-se dos pombos. Do mal
que fazem às fachadas, às estátuas, à pintura
dos automóveis. Os pombos não voam a gasolina
e têm humaníssimos hábitos como a gula, as
rivalidades do cio, a sede e a urgência
de defecar. Detestam coleiras, gaiolas, amparos
de casota, ausência de jardins
e adornos de penas alheias. E por este divino
despojamento recebem, às vezes,
algum milho displicente dádiva
de crianças para a fotografia, ou de benígnos
velhos reformados. Algumas mulheres continuam
a socorrer os antiquíssimos (e terrestres) gatos
vadios. Gatos da minha infância. Dos muros,
das traseiras, dos quintais - o Sindbad, o Pardoca - com
restos de arroz em papéis engordurados. Carinhosas
velhas, atentas à famélica e materna condição
das ninhadas, enquanto os pombos e os velhos
debicam espaços de pedra onde levavam asas
e entre todos assoma, por instantes,
a decaída aliança entre o Céu e a Terra.

Inês Lourenço

sábado, 3 de dezembro de 2011

Ai "Jasus"

Pedro Martins, técnico do Marítimo, ontem ao despedir-se de Jorge Jesus no fim do jogo do Funchal: Obrigado pela taça e até Domingo para o Campeonato...

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Habemus Papam

No seu registo habitual, o Grande Nanni Moretti apresenta-nos uma comédia dramática centrada no interessante ritual inerente à eleição de um qualquer Papa. Ritual esse, que é a única coisa minimamente estimulante que a igreja católica tem para oferecer nos dias que correm.

Moretti continua em grande forma e inclusive já consegue fazer filmes com orçamentos consideráveis. Para filmar este Habemus Papam, por exemplo, criou uma réplica em tamanho real da capela sistina.
O Argumento guia-nos pela habitual clausura que os cardeais de todo o mundo cumprem, depois da morte do Papa, no sentido de eleger o seu sucessor. Enquanto isso, na Praça de São Pedro, milhares de fiéis aguardam ansiosamente a primeira aparição do novo Sumo Pontífice. Contudo, o Papa eleito (Michel Piccoli) esmagado com o peso da responsabilidade entra numa espécie de pânico, recusando-se a aparecer em público. Os seus conselheiros decidem chamar um dos mais reconhecidos psicanalista do país (Moretti, claro está) para o ajudar a ultrapassar a crise que pode muito bem passar por um recorrente défice paternal.

Em algumas cenas nota-se uma certa euforia no actor Moretti, certamente enfeitiçado com o facto de estar a afrontar a Santa Madre Igreja. No fim apesar de contrariar a vontade de Deus, fico com a sensação que Moretti podia ter trabalhado de forma diferente o epílogo face ao ritmo burlesco entretanto criado. Por exemplo, os cardeais para passar o tempo jogam empolgantes partidas de Voleibol…

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O Contágio

Até a Alemanha começa a ser pressionada pelos mercados. Ao menos o raio da velha também há de ir ao fundo, pensam muitos. Por seu turno, a Espanha virou à direita numa tentativa de fugir ao inevitável.
Em Portugal discutem-se migalhas nos subsídios dos funcionários públicos com o objectivo único de ficar bem na fotografia final do Orçamento. Seguro politicamente não passa de um interlúdio pastoral. Otelo está senil e Soares tenta usar o que resta da sua legítima e merecida margem de influência democrática para tentar suavizar os danos. A Europa que Mário Soares ajudou a criar está decrépita e sem rumo. Ninguém o ouve porque, além de não apresentar alternativas válidas, é personagem que já não pertence a este filme…

José Malhoa

sábado, 26 de novembro de 2011

O Derby do Povo

Hoje é dia de Benfica-Sporting. Hoje é dia do Derby dos Derbys. De há uns anos para cá, com a explosão futebolística do Porto, os duelos entre portistas e benfiquistas talvez se tenham tornado mais intensos. Mas o verdadeiro derby do futebol português, o que exacerba mais as emoções dos adeptos, nunca deixou de ser este. Clubes que vivem separados por apenas umas centenas de metros, partilham umas das mais belas cidades do mundo. De um lado vermelhos de ardor, do outro lado verdes de esperança. Hoje é dia de emoção, picardias várias e cafés a abarrotar com gritos efusivos por tudo o mundo português. Hoje é dia de casos de arbitragem e espectáculo garantido. Hoje não se fala de outra coisa. No fim, qualquer que seja o resultado, continuarão as rivalidades, as discussões e as provocações entre colegas, amigos e vizinhos. Hoje é dia de Paixão em Portugal. A Crise que se lixe. Os mercados que se danem. Hoje é dia do ópio do povo. Hoje é dia de Derby…

Tema do Melancómico – B Fachada



Numa interpretação muito bem regada...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O Desconforto

Jeremias sempre sentiu admiração por quem chama as coisas pelos nomes. Talvez fosse uma questão de identificação pessoal. Inúmeras vezes se sentiu prejudicado por essa idiossincrasia que gostava de alimentar. Mas estranhamente, talvez porque vivia numa sociedade de pacotilha, havia verdades que lhe provocavam um inesperado desconforto...

A Borboleta

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A Banca

O capitalismo selvagem dos tempos modernos mergulhou a sociedade num ciclo vicioso que demorará anos a ser invertido. Portugal endividou-se à custa das campanhas dos principais bancos que ofereciam dinheiro a quem lhes entrasse pela porta, muitas vezes nem era preciso tanto, bastava um telefonema. Obviamente que os banqueiros enriqueceram imenso à conta disso e sobredimensionaram as instituições que lideram a um volume de negócios que não era sustentável a longo-prazo. Ao mesmo tempo, financiavam as famosas parcerias público-privadas, ficando credores em muitos milhões do próprio Estado. Com o sistema em declínio como resultado da deterioração dos tais “mercados” que os Banqueiros idolatravam, e com o avolumar da pressão internacional para que os rácios financeiros do sistema bancário apresentem valores razoáveis de solvabilidade, a Banca portuguesa está entre a espada e a parede. Convém também salientar que os principais bancos empregam milhares e milhares de pessoas para os quais pura e simplesmente vai deixar de haver trabalho. É impossível fugir a esta realidade, porque o crescimento dos bancos foi sendo construído debaixo de alicerces frágeis, frágeis como uma bola de neve. Semearam a ilusão de uma vida de sonho aos clientes e agora pagam o preço. O facilitismo acaba sempre mal.
A tendência, a começar pelo fundo de pensões dos bancários, é os recursos humanos da banca passarem gradualmente para a esfera pública, o que torna todo este jogo de interesses ainda mais surreal para o bolso do contribuinte.
Recapitalizar a banca sem contrapartidas, resolveria alguns problemas da Economia a curto-prazo, mas provavelmente o problema de fundo manter-se-ia e até se agravaria. Convém também esclarecer que nem todos os banqueiros são iguais a Oliveira e Costa e nem todos os bancos são o BPN. Existe ainda algum fundo de responsabilidade em alguns dos poderosos. Aliás em França e nos Estados Unidos alguns dos milionários até acham que devem pagar mais impostos.
Resumindo, os banqueiros beneficiaram de uma pervertida supervisão por parte do Estado para crescerem e multiplicarem dividendos. Em contrapartida, financiavam investimentos públicos que permitiram algumas realizações ao País. Com a explosão da crise, nem o Estado tem condições para amortizar os avultados financiamentos que a banca lhe concedeu, nem os bancos têm margem para libertar capital para revitalizar a economia.
O Mundo muda cada vez mais depressa...

Lisboa, Calçada de S. Francisco

Subindo pelas cinco horas a Calçada de S. Francisco,
em tarde de bruma e versos na Calçada de S. Francisco,
partindo do que não sei na Calçada de S. Francisco,
e sabendo onde não chego na Calçada de S. Francisco,
subindo na tarde deserta a Calçada de S. Francisco,
só eléctricos e pombas na Calçada de S. Francisco,
estranhando o que não estranho na Calçada de S. Francisco,
e pensando no que não penso na Calçada de S. Francisco,
subindo pelas cinco horas a Calçada de S. Francisco,
subindo e ninguém descendo a Calçada de S. Francisco,
sem eventos para as metáforas na Calçada de S. Francisco,
tiro do bolso a própria tarde.
Na Calçada de S. Francisco,
onde a realidade mudou e já nada acontece,
e já não é a Calçada de S. Francisco mas a Rua Ivens
ou outra rua do Chiado sem meditação ou moralidade.

Pedro Mexia

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O Lima

Duarte Lima foi detido por estar associado às negociatas do BPN que nos continuam a custar os olhos da cara. Depois de Oliveira e Costa e Dias Loureiro, a entourage do professor Cavaco continua a dar cartas no Europeu da trafulhice…

O Infante

Francisco José Viegas demitiu Diogo Infante da Direcção artística do D. Maria II. Pode-se discordar profundamente das prioridades políticas estabelecidas pelo Governo, e eu discordo, como já escrevi aqui mais que uma vez, mas não posso deixar de salientar pela positiva a prontidão da resposta do Secretário de Estado. Sem hipocrisias pelo meio, e perante uma figura a todos os níveis consensual como é Diogo Infante, Francisco José Viegas fez o que um Governante responsável tem que fazer…

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

War In Peace - Wim Wenders

Na continuação da apresentação das curtas que integraram “cada um o seu cinema”, filme comemorativo dos 60 anos do festival de Cannes, deixo a participação do dinossauro Wim Wenders através de uma apaixonada e desconcertante visão da vida em Kabalo, cidade situada na republica democrática do Congo, depois de terminada uma guerra que causou 5 milhões de mortes…

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O Assador

Portugal joga amanhã com a Bósnia partida decisiva no apuramento para o próximo Europeu. O empate a zero em terras bósnias não é bom, como muita da imprensa insinua, nem é mau. Deixa tudo em aberto para decidir amanhã na luz contra uma equipa que também tem os seus trunfos, num jogo onde certamente haverá golos para ambos os lados.

Cristiano Ronaldo é um extraordinário futebolista, um grandíssimo profissional, um jogador do mais completo que vi jogar e que tem o azar de ser contemporâneo de Messi. Mas as suas intervenções deviam ficar única e exclusivamente restritas ao relvado porque já demonstrou várias vezes que tem dificuldades em lidar com situações de extrema pressão. É humano, é verdade, mas não pactuo com uma certa condescendência que existe face aos seus actos e palavras. Aliás, Gilberto Madaíl levou a selecção a patamares talvez impensáveis há décadas atrás, mas aquela postura tão pacóvia de actuar sempre de acordo com as conveniências do momento, fazem da sua despedida uma extraordinária notícia para o futebol português. A actual Federação Portuguesa de Futebol é desde há muito o reflexo do pior que existe na Sociedade Portuguesa.

Paulo Bento, um homem que me levou quase ao desespero em Alvalade, tem algumas boas características de liderança e de carácter. Ao nível táctico, continua limitado, mas tem de facto um discurso motivador para as tropas. Os afastamentos de Bosingwa e Ricardo Carvalho, em casos em que todos têm parte da razão e em que faltou bom senso e flexibilidade na gestão, provam que o facto de ser boa pessoa, um tipo integro, com coluna vertebral como manifestamente é, pode não resultar necessariamente num bom treinador de futebol. Tem a carne no assador, muito por culpa própria…