terça-feira, 20 de março de 2012

Cavalo à solta

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.

José Carlos Ary dos Santos

quinta-feira, 15 de março de 2012

A Dama de Ferro

O filme acaba e nasce uma curiosa sensação de desapontamento no espetador. A vida de Margaret Thatcher, quer se concorde quer não com as matrizes que politicamente preconizou, daria para algo bem mais arrojado do que o resultado final alcançado pela obra de Phyllida Lloyd.
Meryl Streep soma mais uma boa interpretação à sua já longínqua carreira. Contudo já a vimos fazer melhor, e esta obsessão com os óscares que norteia a produção cinematográfica norte-americana já enoja o mais cândido dos cinéfilos. É uma Atriz que sem dúvida alguma marca uma geração mas este capricho com os Óscares, menorizando porventura outras experiências mais enriquecedoras para quem tem tanto talento, prejudica a sua imagem.
Phyllida Lloyd aborda os acontecimentos mais marcantes dos 11 anos de poder da dama de ferro, sem se centrar em nada especificamente. Aqui ou ali consegue transmitir algumas das dificuldades que uma mulher sentia nos já distantes anos 80, para se impor numa sociedade ainda muito preconceituosa relativamente à ascensão feminina na esfera pública. Mas fica por aí. Discorre sobre a vida de Thatcher de forma superficial. Bem sabemos que os projectos biográficos têm determinadas condicionantes mas, a meu ver, fica uma sabor amargo no fim tal a riqueza da vida política da biografada. O melhor momento do filme é precisamente o seu início onde uma mulher envelhecida e quase senil – o retrato da Thatcher atual – arrisca sair de casa para comprar leite….

segunda-feira, 12 de março de 2012

Assim, sim...

Ainda dizem que os jogadores da bola não sabem falar...

A Recuperação

Há gente em Portugal que fala em Recuperação Económica e que garante a pés juntos que 2013 é que vai ser, inclusive proeminentes Governantes.
Meus amigos, andamos a ouvir essa lenga-lenga há pelo menos 4 anos, e os factos vêm provando o contrário. Ano após ano, a derrocada ganha contornos cada vez mais assustadores para o cidadão comum. E que tal, mudar o discurso….

quarta-feira, 7 de março de 2012

A Saudação

Jeremias gostava de prestar atenção às diferentes formas com que as pessoas se saudavam habitualmente. Daí, surgiam sempre preciosos indicadores relativamente à personalidade das mesmas. De todas as possíveis variâncias a mais curiosa para Jeremias era a utilizada por um vizinho metafórico: "Cá vamos, neste Vale de Lágrimas"...

Jackson Pollock

sexta-feira, 2 de março de 2012

Le Havre

O Finlandês Aki Kaurismäki volta ao mapa da grande cinematografia europeia, donde nunca esteve verdadeiramente afastado, com uma fábula alusiva aos tempos modernos em que a imigração ilegal é uma realidade indesmentível.
Marcel Marx (André Wilms), um ex-escritor nada pessimista asilado em Le Havre - uma pequena cidade portuária da Normandia no norte de França - faz a sua vida como engraxador de sapatos. Querem profissão mais digna que essa? O pormenor de andar sempre a olhar para os pés dos transeuntes é delicioso. Marcel conhece Idrissa (Blondin Miguel), uma criança africana refugiada que planeia chegar a Londres para encontrar a sua Mãe. Sem saber o que fazer àquela criança, um rapaz delicado e amistoso, decide levá-lo consigo para casa e tornar-se seu protetor. E mesmo contra as adversidades que encontra pelo caminho não desiste de lutar para desbravar um caminho para o rapaz. Marcel tem, inclusive, de fazer frente à doença que ameaça a vida da sua mulher que perante a afirmação do médico de que por vezes existem milagres, responde que não: que no seu bairro não acontecem milagres! Os Homens e as Mulheres do cinema de Aki Kaurismäki falam sempre pouco. Soltam frases secas mas cheias de sentido, o que faz com o que o seu cinema não esteja ao alcance de todas as sensibilidades. Com algum burlesco pelo meio, Le Havre demonstra que por vezes a humanidade pode surgir donde menos se espera, como exemplifica a personagem do inspetor da polícia que carrega todo o simbolismo do filme. Quando assim é, como alguém diz no filme: Eu amo a sociedade…

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O Clássico

Benfica e Porto preparam-se para a eventualidade de decidirem o campeonato numa sexta à noite: coisas deste futebol dito moderno. Para mim é jogo de 1X. O empate na prática servirá mais o porto que o benfica, mesmo que no plano teórico possa parecer o contrário atendendo ao 2 a 2 da primeira volta.
A equipa de Jesus talvez mereça mais estar à frente da Liga, mas a verdade é que o porto em termos de futebol jogado reequilibrou-se com as contratações de Lucho e Janko, e neste momento as equipas estão bastante próximas uma da outra em termos competitivos. Qualquer que seja o desfecho já ninguém tira a Jorge Jesus o prémio de melhor substituição do campeonato: a entrada de Djaló para o lugar de Aimar neste último jogo em Coimbra. O Braga, que corre por fora, é a equipa mais consistente e talvez merecesse o título derivado à abissal diferença de orçamentos que tem para os outros Grandes. O facto dos jogadores medianos que compõem a equipa jogarem juntos há vários anos, independentemente do mérito dos treinadores que por lá têm passado, merecia ser fator decisivo pela coerência da aposta. Mas é muito difícil, e caso não cheguem ao primeiro lugar, o ideal para o meu Sporting seria entrarem em depressão e caírem do terceiro lugar.
O Grande Sporting
lá vai ganhando de aflitos e jogando pouco, na ressaca de mais uma decisão catastrófica e inexplicável duma direção para as aspirações a médio-prazo do Clube: despedir o treinador que era a rosto do projeto por alguém que apesar dum indesmentível Sportinguismo exacerbado é um completo tiro no escuro ao nível da competência para o lugar. Tenho esperanças que contra a equipa mais rica do mundo - o Machester City - na liga Europa possamos fazer uma grande surpresa, mesmo com Polga a titular…

A Arte na Rua

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A Hipocrisia do Consumismo

Porque será que esta notícia teve tão pouco destaque na nossa comunicação social?
Apple. Entre a espada e os chineses
Gostava de convidar políticos de todos os quadrantes, proeminentes jornalistas, ilustres comentadores, e restantes especialistas de tudo e mais alguma coisa a pronunciarem-se sobre esta questão. Quem está disponível para deixar de utilizar os iPhones e iPads com que norteiam as suas vidas fabricados objetivamente com recurso a trabalho escravo?? Pois, uhhmm...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O Bandeira

A mediocridade em que Portugal tem caído, fruto grande parte da visão da gente que nos tem governado, tem como consequência a histeria coletiva que rodeia um caso banal - trágico mas banal – do psicopata de Beja.
Aliás Portugal, enquanto escava cada vem mais fundo o buraco onde provavelmente vai acabar enterrado, rejubila com casos grotescos de foro policial como esse de Beja e o que envolve o mítico criador da “Ternura dos 40” - Paco Bandeira. Mas enquanto a primeira novela não tem qualquer tipo de interesse, a situação que envolve o cantor alentejano é importante do ponto de vista sociológico e deveras elucidativa relativamente à suposta e perigosa impunidade que normalmente goza quem tem algum Poder mediático no nosso país. O Poder, na grande maioria dos casos em Portugal, tem sido utilizado para camuflar vícios proibidos e comportamentos deploráveis. Reside aqui em grande parte a origem das nossas atuais agruras…

O vestido cor de salmão

Ai de mim estreei o meu vestido cor de salmão
no primeiro baile a que fui
durante o baile fiquei sentada numa cadeira
ninguém me convidou para dançar
a uma rapariga importuna
que me perguntou porque é que eu
não dançava
respondi eu não sei dançar
ela insistiu comigo para que eu
bebesse uma taça de champagne
eu acedi
mas não foi dessa vez que bebi champagne
pela primeira vez
porque a rapariga entornou a taça
no meu colo
julgo que propositadamente
com a nódoa o vestido deixou de ser para bom
passou a ser para bater
durante uma viagem curta de comboio
uma faúlha do comboio (que era a lenha)
queimou-o no punho
foi fácil substituir o punho
porque no Penim onde a minha mãe tinha comprado
o corte de tecido cor de salmão
ainda havia esse tecido cor de salmão
mas durante um passeio à praia
sentei-me numa rocha
e ao levantar-me precipitadamente
por ver que ia rebentar uma trovoada
o vestido ficou preso à rocha
e rasgou-se irremediavelmente
ao despi-lo vi que o vestido tinha já
a forma do meu corpo
rasguei-o em pedaços
e guardei os pedaços
na cesta dos trapos
de um dos pedaços fez-se um vestido
para a boneca da minha irmã mais nova
e deste mais tarde fez-se um vestido
para a filha da boneca da minha irmã mais nova
que era uma boneca mais pequena
que caiu a um poço

Adília Lopes

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

It's a Dream - Tsai Ming-liang



Mais uma curta retirada de cada um o seu cinema que comemorou os 60 anos do festival de Cannes, desta vez a cargo de Tsai Ming-liang que tem vindo a colocar a Malásia no mapa do cinema universal...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O Desacordo

Tem existido grande polémica por aí relativamente à obrigatoriedade do novo acordo ortográfico. Polémica essa que surgiu como resultado da insubmissão de Vasco Graça Moura à aplicação do mesmo nos serviços que agora dirige no CCB.
Primeiro ponto: Se Portugal fosse um País onde imperasse a meritocracia Graça Moura não poderia estar neste momento à frente dos destinos da Instituição. O anterior responsável foi competente, inclusive a gerir a diminuição de recursos que teve ao dispor. Substituir alguém que está a fazer um bom trabalho por razões políticas é estúpido e Francisco José Viegas não fica, de todo, bem na fotografia. Já vi por menos pedirem-se demissões. E o próprio devia refletir bem se não há "relvas" a mais no seu jardim de incongruências.

O Hipocrisias Indígenas utiliza a nova grafia desde o início do ano, não porque ache que seja uma coisa absolutamente indispensável para a felicidade ou sobrevivência do país, mas porque sou um progressista. E tendo um filho ainda petiz tenho a consciência que é nessa escrita que irá aprender a expandir os seus dizeres.

O novo acordo é aceitável na lógica da irreversível globalização, mas não me choca nada que não seja aceite por muita gente. A língua portuguesa é das mais ricas do mundo, e talvez das mais difíceis de dominar na totalidade. Num país de escritores reconhecidos, e muitos frustrados, mexer com umas das coisas que mais nos diferencia é natural que dê azo a diferentes interpretações. Mas Portugal não acaba aqui…

Antoni Tàpies

Barcelona, 13 de dezembro de 1923 - Barcelona, 6 de fevereiro de 2012.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

As Pieguices

Sempre gostei da palavra “Piegas” e agradeço sinceramente ao Sr. Primeiro-Ministro por a ter trazido para a ordem do dia. É muito mais agradável ler dezenas de vezes a palavra “Piegas” do que palavras como “mercados”, “juros”, “défice” ou mesmo “Buraco”. Pieguices minhas….

De Do Do Do, De Da Da Da - The Police

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A Europa

A Grécia continua a estar no epicentro do vulcão europeu. A grave situação portuguesa pouco tem a ver com a calamidade grega. Estruturalmente a sociedade grega consegue ser mais clientelar que a nossa, por difícil que isso possa parecer. Mas se não houver um fim à vista para a derrocada da economia europeia podemos acabar ainda pior do que estamos.
Entretanto, Merkel refere os túneis e autoestradas da Madeira como péssimo exemplo de aplicação dos fundos europeus. Definitivamente, acabou o Carnaval de Jardim. O último a sair que apague as luzes do túnel. Alberto João é um cadáver político…