segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Déjà Vu

O Socialista François Hollande é o novo Presidente de França depois derrotar Nicolas Sarkozy por margem mínima. O político já apelidado de “Homem normal” promete combater a austeridade e o desemprego na Europa fazendo frente às políticas cegas da Senhora Merkel. 
Acho sempre piada ao chauvinismo exacerbado do Franceses porque é uma característica muito particular dos mesmos. São megalómanos por natureza e num discurso de um qualquer politico francês a palavra “França” é sempre repetida vezes sem conta. Infelizmente, para mim isto representa que o crescimento eleitoral progressivo da dinastia Le Pen ainda vai dar muito que falar com consequências imprevisíveis num futuro próximo. 
Hollande, tal como foi Obama, é a nova coqueluche da esquerda europeia. Tal como aconteceu com o presidente americano as expetativas vão sair goradas. Não é tempo para heróis anunciados. Todos os Homens são normais até se tornarem Políticos. Daqui a 6 meses, todos perceberão o inevitável. Já vimos este filme antes…

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O Dia do Consumismo

Como por magia, o Dia do Trabalhador transformou-se numa corrida desenfreada à cadeia de supermercados Pingo Doce por força da campanha levada a cabo pelo Grupo Jerónimo Martins que consistia em descontos de 50 % aos clientes que totalizassem compras superiores a 100 €. E o que tenho a dizer de toda esta fantochada?
Foi um acontecimento triste num país economicamente à deriva. A ironia da data escolhida pelo patrão da Jerónimo Martins tem obviamente como objetivo pôr a nu as fragilidades de um país de plástico assente em pilares de hipocrisia e de uma megalomania destrutiva. Parece-me que existe aqui matéria para investigação pelos órgãos próprios, designadamente a prática de algo muito semelhante a dumping, sendo que dificilmente se chegará a qualquer conclusão válida ou castigo justo. Para fazer o que fez, o Pingo Doce deve estar devidamente salvaguardado a esse nível, o que vem comprovar a margem brutal de lucro que tem em muito dos produtos que vende normalmente. Em tudo o resto, não se pode pôr em causa a estratégia do empresário que como é evidente tenta dinamizar o seu negócio.

Nestas circunstâncias, já se sabe que existe como habitual um extremar de posições pouco racional. Há quem diga que foi um golpe de génio de Soares dos Santos, o que me parece manifestamente exagerado. Por outro lado, a Esquerda militante, cada vez mais isolada num país falido sem contemplações para sindicalismos caducos, insurge-se contra o Zé Povinho que com a corda na garganta correu para as enormes filas para comprar coisas que muito provavelmente nem necessitava. As cenas televisivas que elucidaram o pagode são, para muita gente, dignas de um país de terceiro mundo.

Eu não consigo criticar as pessoas que com os bolsos cheios no princípio do mês aderiram em massa a esta campanha, mas há uma coisa que para mim é evidente. Portugal na sua essência, nunca deixou de pertencer ao terceiro mundo. Uma imagem mais atraente; uns cursos superiores com nomes sofisticados; uns tiques permanentes de ostentação embrulhados em putativos atos de cidadania e umas cirurgias faciais muito eficazes para esconder a podridão, não mudaram o essencial. E o essencial é que em Portugal a Ignorância e a boçalidade mais primária continua a fazer escola e a denominada Cultura de um Povo - Cultura essa, sem direito a ministério na actual composição governativa - está patente em cada virar de esquina para quem realmente quiser ver….

Fly – Ludovico Einaudi

terça-feira, 24 de abril de 2012

O Protagonismo

Mário Soares, Manuel Alegre e a associação 25 de Abril anunciaram que não vão estar presentes nas comemorações oficiais do dia da Liberdade. Eventualmente, numa determinada perspetiva até pode ser considerada uma decisão vagamente incendiária atendendo ao difícil período que o país atravessa. Mas na prática, a ausência deles, não tem grande importância porque seria sempre meramente simbólica.
Por outro lado, Passos Coelho, na senda da arrogância militante que caracteriza algumas das declarações de membros deste seu governo, afirma que os visados são figuras que procuram protagonismo. Esquece-se o nosso Primeiro, que falamos de figuras políticas que com todos os seus defeitos e virtudes, foram de facto protagonistas dum momento inolvidável da nossa História. Momento esse que só pecou por tardio. A sua geração - a de Passos, que também é a minha mais ano menos ano - o único verdadeiro combate que teve de travar foi a luta com os respetivos progenitores no sentido de obter da parte deles uma maior tolerância relativamente às liberdades recém-conquistadas.
O protagonismo atual de Passos Coelho é fruto da ousadia e coragem que outros tiveram arriscando tudo o que tinham por um ideal de sociedade melhor. Passos e Seguro são filhos duma execrável lógica partidária de jantares para militantes no meio de palmadinhas e facadas nas costas. Nunca lutaram verdadeiramente por coisa nenhuma, a não ser pelas respetivas carreiras políticas. Não perceber isto, é assumir definitivamente o fracasso de toda uma geração…

Autobiografia

Não preciso mas tu sabes como eu sou
Encaminho-me pouco divirto-me assim nas copas
Das árvores soprando pensamentos para o mundo que há de noite.
As pessoas quando acordam são outras, já sabias,
Essa névoa contemporânea do medo miudinho
Que perdemos nas cidades e nos corpos, tu entraste
Antes de mim nos jogos, o enxofre da música e o
Lago do feitiço, inocente homem breve que sonha
Tu bem sabes.
Depois aluguei a bruxa por uma vasta noite.
E a minha vida mudou, a noite cresceu,
A vertigem ardeu-me nos braços até a sangria
Do tédio quando para sempre julguei que te perdia.
Na luta perdi um ou dois braços,
Mais do que o que tinha. Mas esta memória é um palácio,
São corais no pensamento. Jardins e fantasmas,
O gume nas mãos sorvendo, criança estratosférica
E profunda: sem braços e agora sem mais nada.
Não me percebeste, enchi-me de fúria.
É uma arte, queria eu dizer, matar sem retrocesso e
Atraso – ah aqueles braços para apoiar as mãos - ,
Ceifando. Saturno.e.o.vento.na.proa.erguendo.
O: navio:no:mar:parado:parado: completamente.
Parado.como dizer? Não dizer, eu sou.uma vida
Medonha e múltipla. E agora descanso
Deitado nestas mãos que mexem
Sem apoio, sabes, nascendo dos teus olhos
P’la manhã.


Rui Costa

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Enter The Void

Com o título de Viagem Alucinante na versão portuguesa (prefiro o nome original) e com Realização do polémico Gaspar Nóe, este magnífico ovni cinematográfico passou pelas salas de cinema de forma discreta. Quase 10 anos depois de Irreversível, Enter the Void centra-se na vida de Óscar e da sua irmã Linda acabados de chegar a Tóquio.
Óscar é um modesto traficante de droga e Linda trabalha num clube noturno como striper. Uma noite, Óscar é apanhado numa rusga e é morto pela polícia. À medida que morre, o seu espírito fiel à promessa que fez à sua irmã enquanto criança – que nunca a deixaria – recusa-se a abandonar o mundo dos vivos e passa pelos vários estágios da morte, conforme descritos no “Livro Tibetano da Morte” cuja explicação nos é apresentada na parte inicial do filme por um amigo de Óscar que se sente atraído pela sua irmã.
Das visões distorcidas do morto nasce um grande filme cheio de grandes pormenores, onde o passado, o presente e o futuro se fundem numa espécie de terramoto alucinogénico, deixando-nos agarrados ao ecrã do princípio ao fim.
Uma sala de cinema fantasma, só com um espectador (no caso, eu), aproxima-se muito do cenário perfeito para apreciar o exigente cinema de Nóe. O cariz impetuoso do cinema do Realizador atinge-nos até às vísceras. Concedo que possa haver alguma violência gratuita nos seus filmes, alguma dose excessiva no querer chocar, mas a realidade focada pelo realizador está sempre presente no limbo das nossas existências.
A crítica especializada pode saber muito de cinema desvalorizando sempre o que não é inovador, mas de emoções, mesmo que trágicas, sabe pouco. E o que é o cinema sem emoção??..

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O Rescaldo

O Sporting teve uma justa vitória. A agremiação de carnide começou a perder o jogo no sábado em braga com a vitória do porto. Para quem já teve 5 pontos de avanço, a pressão de correr atrás do prejuízo foi demasiado pesada. O benfica quando entrou em Alvalade já estava a perder. Os erros da arbitragem que ocorreram para os dois lados não têm influência direta no resultado como por exemplo no Sporting-Olhanense da primeira jornada em que com o resultado empatado, e a pouco tempo do fim do jogo, foi anulado um golo limpo a Hélder Postiga.
O terceiro lugar não é impossível de alcançar, se o Sporting ganhar os 4 jogos que faltam. Acredito que nas próximas 3 jornadas o Braga perde 5 pontos. O problema é que não acredito que ganhemos no nacional e no dragão, até porque a nossa prioridade atual é a Liga Europa.
Jorge Jesus é um pateta sem estilo e por isso cai facilmente no ridículo. Sábado vai lutar pela salvação da época na taça da cerveja. Apesar de tudo, o futebol espetáculo que incute à equipa tem dado muito a ganhar ao benfica: presenças na champions, boas receitas de bilheteira, valorização de jogadores. O problema dele é a falta de racionalidade psíquica. Tem muito coração e sabe de futebol a rodos, mas falta-lhe aquele sexto sentido, cada vez mais importante no mundo do futebol, para tirar dividendos dos mind games.
Ao Sporting faltam mais 3 ou 4 jogadores para ter uma grande equipa, mas a base está lá. No entanto isso são contas para fazer mais tarde no defeso, até porque não acredito que não saia ninguém.
Sem querer tirar mérito ao Sá Pinto, o banho tático que deu a Jesus era previsível. Até porque atualmente o Sporting só é uma verdadeira equipa quando não tem a necessidade de assumir o jogo, o que é muito perigoso para o futuro.
Elias foi muito destacado pela sua exibição no derby. É bom jogador, sem ser um craque. Só se destaca quando os solistas que o acompanham fazem a diferença. E foi isso que aconteceu com as exibições de Matias Fernández e do Czar Izmailov. Elias tem dificuldades em pôr a bola em condições nos homens da frente, mas corre que se farta e isso também é importante, sem ser decisivo. Por seu turno, o holandes Schaars também ainda não me convenceu totalmente. É competitivo, mas o tal pé esquerdo de quem diziam maravilhas ainda não me seduziu.
O nosso Van Wolf foi uma grande contratação (ponto). Tem um potencial incrível. Tem que começar a dosear melhor o esforço. Compará-lo com Liedson, que neste jogo faria facilmente 2/3 golos, não é honesto. A experiência acumulada do levezinho não pode ser a mesma de um jogador ainda em formação.
Agora é esgotar Alvalade para a receção ao Bilbao. Não somos favoritos, mas acredito numa presença na final onde reencontraremos o Valência que estragou nesta época o jogo de apresentação aos sócios….

Salvador Dalí

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O Ano

Um ano depois da Troika os juros subiram, o desemprego disparou e a economia regrediu perigosamente. Deve ser isto a que chamam austeridade. Os Mercados (essa ignóbil instituição) nos últimos tempos deram sinais de alguma estabilização, mas não passam de ténues sintomas que podem não passar de um mero interlúdio para o abismo.
Passos Coelho pensa vagamente em repor parte dos subsídios de férias e natal aos funcionários públicos em 2015 – precisamente o ano das próximas eleições legislativas. Há cada coincidência. Não se pode pedir a este Governo que faça milagres. Obviamente que na atual conjuntura um dos piores trabalhos do mundo é ser ministro da economia, num país que não tem cheta nem para fazer cantar um cego. Mas aí é que está o cerne da questão. A Espanha pode ter piores indicadores ao nível do desemprego, pode ter ainda mais dificuldades que nós do ponto de vista das necessidades de tesouraria mas quando tiver que se levantar, levanta-se num ápice, porque tem uma estrutura económica forte, autossustentável que não precisa de suportes governativos de nomeada.
Esta seria a altura ideal para o ministro Álvaro voltar a acompanhar com detalhe as temporadas desportivas de hóquei no gelo…

O Pássaro Vigilante

quarta-feira, 28 de março de 2012

O Homem que comeu rojões ao Jantar

O Homem que foi profissional de excelência na indústria da restauração comeu rojões ao jantar que lhe caíram mal. Parece que me estavam a atirar pedras ao estômago, foram as suas palavras. Por uma questão de cortesia para com o restaurante onde jantava (ele, que tratava todas as minúcias do negócio por tu) não quis fazer uma suprema desconsideração ao seu humilde servidor. Fez um esforço e comeu a refeição até ao fim. Como resultado do seu benevolente ato, levantou-se várias vezes durante a noite. O day after foi penoso para o Homem que tinha comido rojões ao jantar…

People are Strange -The Doors

terça-feira, 20 de março de 2012

O Estranho

Jeremias olhava para as sombras do passado na ânsia de projectar o futuro. Jeremias tinha dificuldade em gostar de pessoas, mas a verdade é que também nunca gostou de animais. Como diria o velho James Douglas Morrison as pessoas são estranhas quando nós somos estranhos…

Cavalo à solta

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.

José Carlos Ary dos Santos

quinta-feira, 15 de março de 2012

A Dama de Ferro

O filme acaba e nasce uma curiosa sensação de desapontamento no espetador. A vida de Margaret Thatcher, quer se concorde quer não com as matrizes que politicamente preconizou, daria para algo bem mais arrojado do que o resultado final alcançado pela obra de Phyllida Lloyd.
Meryl Streep soma mais uma boa interpretação à sua já longínqua carreira. Contudo já a vimos fazer melhor, e esta obsessão com os óscares que norteia a produção cinematográfica norte-americana já enoja o mais cândido dos cinéfilos. É uma Atriz que sem dúvida alguma marca uma geração mas este capricho com os Óscares, menorizando porventura outras experiências mais enriquecedoras para quem tem tanto talento, prejudica a sua imagem.
Phyllida Lloyd aborda os acontecimentos mais marcantes dos 11 anos de poder da dama de ferro, sem se centrar em nada especificamente. Aqui ou ali consegue transmitir algumas das dificuldades que uma mulher sentia nos já distantes anos 80, para se impor numa sociedade ainda muito preconceituosa relativamente à ascensão feminina na esfera pública. Mas fica por aí. Discorre sobre a vida de Thatcher de forma superficial. Bem sabemos que os projectos biográficos têm determinadas condicionantes mas, a meu ver, fica uma sabor amargo no fim tal a riqueza da vida política da biografada. O melhor momento do filme é precisamente o seu início onde uma mulher envelhecida e quase senil – o retrato da Thatcher atual – arrisca sair de casa para comprar leite….

segunda-feira, 12 de março de 2012

Assim, sim...

Ainda dizem que os jogadores da bola não sabem falar...

A Recuperação

Há gente em Portugal que fala em Recuperação Económica e que garante a pés juntos que 2013 é que vai ser, inclusive proeminentes Governantes.
Meus amigos, andamos a ouvir essa lenga-lenga há pelo menos 4 anos, e os factos vêm provando o contrário. Ano após ano, a derrocada ganha contornos cada vez mais assustadores para o cidadão comum. E que tal, mudar o discurso….

quarta-feira, 7 de março de 2012

A Saudação

Jeremias gostava de prestar atenção às diferentes formas com que as pessoas se saudavam habitualmente. Daí, surgiam sempre preciosos indicadores relativamente à personalidade das mesmas. De todas as possíveis variâncias a mais curiosa para Jeremias era a utilizada por um vizinho metafórico: "Cá vamos, neste Vale de Lágrimas"...

Jackson Pollock

sexta-feira, 2 de março de 2012

Le Havre

O Finlandês Aki Kaurismäki volta ao mapa da grande cinematografia europeia, donde nunca esteve verdadeiramente afastado, com uma fábula alusiva aos tempos modernos em que a imigração ilegal é uma realidade indesmentível.
Marcel Marx (André Wilms), um ex-escritor nada pessimista asilado em Le Havre - uma pequena cidade portuária da Normandia no norte de França - faz a sua vida como engraxador de sapatos. Querem profissão mais digna que essa? O pormenor de andar sempre a olhar para os pés dos transeuntes é delicioso. Marcel conhece Idrissa (Blondin Miguel), uma criança africana refugiada que planeia chegar a Londres para encontrar a sua Mãe. Sem saber o que fazer àquela criança, um rapaz delicado e amistoso, decide levá-lo consigo para casa e tornar-se seu protetor. E mesmo contra as adversidades que encontra pelo caminho não desiste de lutar para desbravar um caminho para o rapaz. Marcel tem, inclusive, de fazer frente à doença que ameaça a vida da sua mulher que perante a afirmação do médico de que por vezes existem milagres, responde que não: que no seu bairro não acontecem milagres! Os Homens e as Mulheres do cinema de Aki Kaurismäki falam sempre pouco. Soltam frases secas mas cheias de sentido, o que faz com o que o seu cinema não esteja ao alcance de todas as sensibilidades. Com algum burlesco pelo meio, Le Havre demonstra que por vezes a humanidade pode surgir donde menos se espera, como exemplifica a personagem do inspetor da polícia que carrega todo o simbolismo do filme. Quando assim é, como alguém diz no filme: Eu amo a sociedade…