No Bloco de Esquerda existe grande discussão interna à volta da eventual liderança bicéfala do futuro. Francisco Louça quer deixar o lugar, mas aponta o caminho a tomar. Os militantes mais mediáticos acham que ao novo líder devem ser dadas as mesmas condições que Louça beneficiou ao longo do seu reinado.
O Bloco de Esquerda é um Projeto político que vive de facto um momento
crucial para a sua sobrevivência como tal. Nasceu em circunstâncias muito
próprias e teve uma ascensão célere. Capitalizou rapidamente o facto de se ter formado com base em 3 organizações já implementadas no terreno com estruturas próprias, e beneficiou também da conjuntura política da altura: o habitual socialismo
envergonhado do PS que permitia desbravar novos caminhos à
esquerda. Inclusivamente, eu próprio, apoiei o Bloco nos primórdios quando
valiam 2 % a 4 % do eleitorado. O Problema do Bloco de Esquerda foi que para crescer
teve de se descaracterizar.
O facto de ser constituído por gente intelectualmente credível com
notoriedade nos media foi outra particularidade fundamental nos primeiros
tempos para a passagem da mensagem que foi bem delineada, saliente-se. E cada
vez mais sem uma mensagem inteligente, não há projecto que singre, a qualquer
nível.
Francisco Louça, goste-se ou não se goste, é na minha ótica um político
que marca uma geração. Não será fácil de substituir mesmo para o Bloco que tem na
nata dos seus militantes gente capaz e com perfil para o suceder. Foi mesmo a
sua coerência que o derrotou. A sua insensata e incondicional estratégia anti-troika
acabou por levar o partido para uma espécie de beco sem saída, previsível,
aliás.
A Bicefalia na liderança pode ser uma solução interessante que mantinha
o Bloco nos trilhos do vanguardismo. Se essa Liderança for partilhada por um
Homem e uma Mulher reforçaria ainda mais essa tendência.
Agora, mais importante nesta fase para o Bloco que as caras ou o modelo
de liderança é o rumo a tomar. O futuro do Bloco passa por perceber quais as diretrizes que alguns dos seus militantes mais emblemáticos preconizam. E sinceramente, penso que isso ainda é uma incógnita, mesmo na cabeça de alguns deles.
Eu não acredito no futuro de Portugal. Continuamos a errar em tudo o
que é essencial. Iremos continuar a viver ao sabor das marés mas gostava que da
génese do Bloco pudesse sair algo aproveitável para o futuro. Algo que pudesse
melhorar a sociedade onde o meu filho vai crescer e formar a sua personalidade.
E para isso acontecer, o Bloco tem que perceber que a sua afirmação como
alternativa governativa com um projeto viável para o País é imprescindível.
Nunca ganhará eleições provavelmente, mas pode negociar, pode exigir, pode estimular
políticas, pode, em suma, fazer desenvolver Portugal. Mas para isso, primeiro tem
que ceder…