É da torre mais alta do meu pranto
que eu canto este meu sangue este meu povo.
Dessa torre maior em que apenas sou grande
por me cantar de novo.
Cantar como quem despe a ganga da tristeza
e põe a nu a espádua da saudade
chama que nasce e cresce e morre acesa
em plena liberdade.
É da voz do meu povo uma criança
seminua nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.
Mas nunca se dói só quem a cantar magoa
dói-me o Tejo vazio dói-me a miséria
apunhalada na garganta.
Dói-me o sangue vencido a nódoa negra
punhada no meu canto.
José Carlos Ary dos Santos
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
terça-feira, 16 de outubro de 2012
A Tragédia
Já era a segunda vez
que Jeremias ouvia o seu filhote de 3 anos proclamar a alto e bom som que
era do porto. Isto, logo quando entrava em casa e quando não existia nenhuma
ligação imediata ao nível familiar que tornasse provável essa simpatia pelo clube
da fruta. Ao que parece, uma tal de Salomé (coleguinha na escola) era a
responsável por estes devaneios existências do sócio 81 474 da maior potência
desportiva nacional - o melhor mesmo era olhar para a coisa somente neste
prisma e não pensar muito no resto. Dizia-lhe a pequena que o Sporting não
ganhava nada e que o porto é que era bom. Perante esta hecatombe emocional, Jeremias
contemplava o infinito de forma apreensiva e interrogava-se devastado: será que aos 3
anos o puto já terá clarividência suficiente para perceber que as mulheres de
olhos bonitos podem ser especialmente perigosas? É capaz de ser um pouco cedo
para isso, meditava Jeremias. Agora, não restavam dúvidas a Jeremias, que o pimpolho
começava cedo a apreender o conceito camiliano de amor de perdição…
sábado, 13 de outubro de 2012
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
O Napalm Fiscal
Bagão Félix tem jeito
para as metáforas – menos mal. Considera que a subida de impostos do amigo Gaspar é napalm fiscal com efeitos devastadores para a economia. Bem-vindo ao
mundo dos vivos, caro senhor félix. Mas olhe que deve a andar a aconselhar mal
o paulinho das feiras pois ele assinou tudo por baixo.
A questão central para
o buraco onde o país está metido é que o Governo, como não pode ir aos mercados, precisa
de dinheiro fresco, cash, e já não tem condições para fazer o que seria preciso
fazer. E quando teve esse tempo, desbaratou-o e deixou-se atolar em
insignificâncias sem sentido. O aumento leonino de impostos e o corte dos
funcionários públicos é o que está ali à mão de semear para quem não faz a mais
pequena ideia de como agir no amanhã.
Este Governo até pode
reunir 25 horas seguidas em conselhos de ministros que dali já não vai sair
algo de verdadeiramente construtivo para o futuro de Portugal. Apesar deste assustador
contexto, não sou favorável à queda do Governo, por mais estranho que isso
possa parecer. Não há alternativas válidas. Os partidos políticos afundam-se
nas suas querelas internas, no satisfazer das vontades das clientelas, das
suas bases programáticas (PS, Bloco). Se porventura algures no futuro conseguirmos
emergir à superfície será por contingências externas favoráveis, nunca por
mérito próprio – cada vez me convenço mais disso. As atuais gerações políticas são
ainda piores que as anteriores, mesmo que superficialmente pareçam mais bem
preparadas. E propor um governo de salvação nacional, como muitos lunáticos
teorizam, só agravaria ainda mais a situação atual. O país paralisaria mais uns
meses largos. E depois falta salientar o óbvio: ninguém, mesmo ninguém, pode
salvar o que não tem Salvação…
terça-feira, 9 de outubro de 2012
O Menino do Rio
Jeremias tinha uma
especial predileção por histórias de encantar. Contava, vá-se lá saber porquê,
poucas histórias de encantar ao seu rebento. A verdade é que o Pimpolho adorava
as lendárias histórias de encantar dos livros já escritas há muito tempo. O
facto de pedir com insistência a leitura da bela e o monstro não deveria ter
significado algum de relevo, refletia Jeremias. Provavelmente para um daqueles pedopsiquiatras
que inundam as televisões e afins, tal tendência transformar-se-á no futuro num
grave desequilíbrio mental. Loucos são quem ouve e dá importância a estes
médicos que leem muitos livros técnicos, mas não sabem usar a cabeça - pensava Jeremias.
Hoje, Jeremias,
lembrou-se da história do Menino do Rio para contar ao seu rebento:
O Menino do Rio foi
um rapaz oriundo de famílias humildes que fez fama e fortuna à conta do seu
talento para contar histórias de encantar a todos os outros meninos de origens
igualmente humildes. O Menino do Rio cresceu, fez-se homem e, em nome do Pai,
voltou um dia ao Bairro que o viu nascer para o mundo das Celebridades. O Menino do Rio tem hoje 5 netos, os quais embala harmoniosamente ao ritmo das suas famosas
histórias de encantar…
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
sábado, 6 de outubro de 2012
O País
5 de Outubro: Não estou presente se o povo não está presente - Mário Soares
Se os Portugueses não tivessem sido tão preconceituosos (como são com quase tudo, diga-se a verdade) com a provecta idade deste Senhor aquando da sua recandidatura à Presidência, e talvez o ar nesta latrina não se tivesse tornado tão irrespirável...
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Gasparadas
Queriam Flores, tomem Espinhos ou então, o não menos representativo, quem dá com uma mão tira com as duas...
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
A Ministra
Paula Teixeira da Cruz tem sido crucificada por declarar que a impunidade em Portugal acabou. Aceito que se discuta a pertinência, o momento das afirmações, e até a verdade da declaração. A própria separação constitucional entre o poder executivo e judicial talvez exigisse maior ponderação nas palavras. Mas pôr-se em causa a sua honorabilidade já é excessivo. É das poucas pessoas que ainda aprecio no PPD/PSD, debaixo daquele manto de hipocrisias reinantes em que o partido permanentemente vive. Sempre gostei da pinta dela porque fala curto e grosso. E quem diz o que ela disse, normalmente sabe o que anda a fazer. Remodelá-la será mais um erro grosseiro de Passos Coelho, no meio do mar de equívocos onde vive atualmente…
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
The Ecstasy of Gold - Ennio Morricone
Morricone, hoje com 83 anos, fez tanta banda sonora sublime para filmes de Sergio Leone que até me perco a ouvi-las. Este épico The Ecstasy of Gold foi feito para The Good, the Bad and the Ugly, filme de 1966 e é excelente para ocasiões festivas.
Nos créditos finais deste pequeno video ouve-se o igualmente soberbo Deborah's Theme - concebido por Morricone para a grande obra-prima de Leone: Era uma vez na América - filme de 1984. Revi-o há aproximadamente 2/3 anos na Cinemateca e é de facto um filme memorável e duma sensibilidade extrema...
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
O Desnorte
Portugal é muito justamente gozado em alguns meios internacionais pelo recuo integral às anunciadas alterações à TSU. Passos Coelho já não faz a mais pequena ideia do que anda a fazer. Ligou o piloto automático da imbecilidade e, como o tempo tudo revela, hoje percebe-se claramente que por trás da retórica ultra-liberal reside o mais confrangedor vazio político.
Obviamente que a medida tomada isoladamente e apresentada da forma atabalhoada como foi, representava um roubo aos olhos dos trabalhadores portugueses e uma tremenda injustiça para o cidadão comum. Mas continuo a achar que a medida em si, desde que alicerçada numa verdadeira reforma laboral e não em operações de cosmética, poderia fazer sentido. Aliás, o momento ideal para a implementação das medidas estruturais que a economia do país necessitava era logo de início quando ocorreu a entrada da troika em Portugal, como os seus próprios técnicos competentemente diagnosticaram.
Se tivéssemos um Governo que explicasse logo quando toma posse para o que vem, e quais os objectivos a alcançar com o rumo a seguir, os portugueses com a sua habitual benevolência compreenderiam. Algo do género: vamos fazer reformas profundas a ocorrer em 2 anos com a implementação de medidas duríssimas a todos os níveis. Passado esse período começaremos a crescer paulatinamente. A questão é que estes palhaços, que se dizem políticos, quando tomam posse estão totalmente condicionados pelas promessas eleitorais que fizeram na ânsia de chegar ao inebriante - para eles - poder. No fim, acabam por não cumprir as promessas eleitorais e deixam o país ainda pior do que o encontraram, com as pessoas na rua em desespero porque não se deslumbra uma luz (pequena que seja) ao fundo do túnel.
Muito a propósito, ontem tive conhecimento de mais um exemplo perfeito de como não se deve governar um país. Evidentemente que face à trapalhada em que o governo se meteu, agora tem de arranjar soluções para substituir as alterações à TSU. Uma das alternativas que vai avançar é o corte substancial no financiamento a fundações e a extinção de muitas delas. Parece-me bem, estamos a atacar a despesa, sendo que mesmo aí é para mim absolutamente incompreensível acabar com os apoios à casa-museu da Paula Rego quando estamos perante, talvez, a maior artista portuguesa viva. Devia ser apoiada na perspectiva de dar a conhecer a sua obra à juventude de um país culturalmente ainda atrasado. Mas como Paula Rego é low profile, e não trabalha as relações públicas (e muitas vezes promiscuas) como Joana Vasconcelos (cuja obra também gosto, assinalo) é nitidamente alvo de ostracismo. Mas isso dava matéria para outro post.
Acontece que depois de mais um daqueles proeminentes estudos que os governos de Portugal passam o tempo a fazer, decidiram quais as fundações a extinguir. Uma delas, pasmem-se, tinha sido criada em 2011. Não interessa o nome da Fundação, nem o que fazia, não é relevante, mas o governo do nosso país custeou a implementação de uma nova fundação com todas as despesas inerentes (contratação de pessoal, obras no espaço, decoração, etc) porque tinha concluído há aproximadamente um ano (provavelmente depois de mais um estudo e já em período de grave crise) que a sua existência seria imprescindível...
O Desnorte tomou de forma definitiva conta de Portugal…
Se tivéssemos um Governo que explicasse logo quando toma posse para o que vem, e quais os objectivos a alcançar com o rumo a seguir, os portugueses com a sua habitual benevolência compreenderiam. Algo do género: vamos fazer reformas profundas a ocorrer em 2 anos com a implementação de medidas duríssimas a todos os níveis. Passado esse período começaremos a crescer paulatinamente. A questão é que estes palhaços, que se dizem políticos, quando tomam posse estão totalmente condicionados pelas promessas eleitorais que fizeram na ânsia de chegar ao inebriante - para eles - poder. No fim, acabam por não cumprir as promessas eleitorais e deixam o país ainda pior do que o encontraram, com as pessoas na rua em desespero porque não se deslumbra uma luz (pequena que seja) ao fundo do túnel.
Muito a propósito, ontem tive conhecimento de mais um exemplo perfeito de como não se deve governar um país. Evidentemente que face à trapalhada em que o governo se meteu, agora tem de arranjar soluções para substituir as alterações à TSU. Uma das alternativas que vai avançar é o corte substancial no financiamento a fundações e a extinção de muitas delas. Parece-me bem, estamos a atacar a despesa, sendo que mesmo aí é para mim absolutamente incompreensível acabar com os apoios à casa-museu da Paula Rego quando estamos perante, talvez, a maior artista portuguesa viva. Devia ser apoiada na perspectiva de dar a conhecer a sua obra à juventude de um país culturalmente ainda atrasado. Mas como Paula Rego é low profile, e não trabalha as relações públicas (e muitas vezes promiscuas) como Joana Vasconcelos (cuja obra também gosto, assinalo) é nitidamente alvo de ostracismo. Mas isso dava matéria para outro post.
Acontece que depois de mais um daqueles proeminentes estudos que os governos de Portugal passam o tempo a fazer, decidiram quais as fundações a extinguir. Uma delas, pasmem-se, tinha sido criada em 2011. Não interessa o nome da Fundação, nem o que fazia, não é relevante, mas o governo do nosso país custeou a implementação de uma nova fundação com todas as despesas inerentes (contratação de pessoal, obras no espaço, decoração, etc) porque tinha concluído há aproximadamente um ano (provavelmente depois de mais um estudo e já em período de grave crise) que a sua existência seria imprescindível...
O Desnorte tomou de forma definitiva conta de Portugal…
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
O Cálice
Jeremias gostava de sentir aquele prazer interior
de voltar a locais onde viveu anteriormente dezenas de momentos de grande
partilha. Um simples cálice de licor de nozes de produção caseira na aconchegadora
adega de sempre, entre dois dedos de conversa, era motivo mais que suficiente para
que a alma de Jeremias se comovesse discretamente com o simbolismo do reencontro.
Para Jeremias e seus comparsas, o tempo já não voltava para trás. Restava-lhes
o conforto do espírito para a coisa não se ter perdido na poeira da vida…
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
A Genialidade
Jeremias achava - tal como Salvador Dalí disse um dia praticamente do leito da morte num daqueles seus famosos acessos de humildade que o caracterizavam - que os Génios nunca deveriam morrer.
Jeremias sentia a falta de João César. Para matar saudades, nada melhor que rever o olhar derradeiro que João César Monteiro fez questão de legar à eternidade. Os Génios não se abatem assim. Continuarão para todo o sempre a resgatar almas da neblina.
Avé João César!…
Jeremias sentia a falta de João César. Para matar saudades, nada melhor que rever o olhar derradeiro que João César Monteiro fez questão de legar à eternidade. Os Génios não se abatem assim. Continuarão para todo o sempre a resgatar almas da neblina.
Avé João César!…
Não, não é o fim do Hipocrisias Indígenas, para já. Mas que seria o epílogo perfeito para este Blogue, agora que penso nisso, seria...
Bebido o luar
Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver
Sophia de Mello Breyner Andresen
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver
Sophia de Mello Breyner Andresen
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Ainda Há Esperança
Maria Teresa Horta recusa receber prémio literário das mãos de Passos Coelho.
É com gente assim que se constrói um novo Portugal mas o processo, temo, seria demasiado doloroso para o cidadão comum.
Entretanto, hoje, uma Senhora de sensivelmente 80 anos que mora no meu prédio deu-me uma nova visão de toda a problemática que assola a sociedade portuguesa:
"então aquele estafermo (que é palavra que por acaso gosto e que está um pouco caída no esquecimento) anuncia cortes daquela dimensão ao país e a seguir vai para o teatro bailar e cantar com a mulher em vez de ficar em casa recatado a pensar no mal que estava a fazer às pessoas (Passos coelho foi ver, ao que consta, um concerto de Paulo de Carvalho, popular autor do emblemático - e Depois do Adeus...)
E ainda dizem que este País não é para Velhos...
terça-feira, 18 de setembro de 2012
A Maior Doença do Mundo
Adenda ao post: O Golo fantástico (ainda me recordava) que o búlgaro Krasimir Balakov marcou em Setúbal e que aparece neste vídeo faz-me lembrar uma pequena história que habita o meu imaginário Leonino:
Balakov formado através de uma cultura do antigo bloco de leste pintava pequenas telas - mais tarde chegou mesmo a tirar um curso de pintura e desenho - um dia am Alvalade um jornalista perguntou-lhe algo do género: então como vão as suas pinturas, sempre é verdade que pinta? No meio da sua atabalhoada humildade, Krasimir Balakov respondeu: pinto mas é com os pés. E era mesmo verdade. Tinha um dos melhores pés esquerdos que já vi jogar ao vivo, e eu ainda vi Maradona, e já vi Messi...
O Estado da Podridão (Nação)
Paulo portas
quer tirar o tapete a passos coelho mas hesita porque se diz patriota. Passos coelho,
qual virgem ofendida, sente-se traído e quer puxar as orelhas ao parceiro em
privado. Tó Zé Seguro – o melhor produto de plástico embalado do país – deu uma
entrevista em horário nobre na TV em que conseguiu a inebriante proeza de
demonstrar perante todo o Portugal que
naquela cabeça não mora o mais vago vestígio de uma simples convicção.
Cavaco – no digno papel de representante máximo do estaminé - não abre a boca porque já percebeu que quando fala com aquele seu ar naturalmente entusiasmante, Portugal ainda se afunda mais em depressão...
Cavaco – no digno papel de representante máximo do estaminé - não abre a boca porque já percebeu que quando fala com aquele seu ar naturalmente entusiasmante, Portugal ainda se afunda mais em depressão...
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